Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas

Conhecimento e controle no capitalismo

Esta seção apresenta sumariamente como o conhecimento passa a ser monopolizado no capitalismo com vistas a, por um lado, potencializar e legitimar a sua expansão. E, por outro, a viabilizar o tipo específico de controle sobre o processo de trabalho que o caracteriza.

Sempre houve, ao longo da história, certo tipo de conhecimento cuja produção se dava de forma relativamente centralizada. Isso ocorreu mesmo em sociedades onde a maioria dos bens e serviços era produzida pelos indivíduos que os iriam consumir; ou pelos seus familiares. E, para melhorar sua qualidade ou aumentar a sua produção, encarregavam-se, por sua própria conta e de forma dispersa, de incorporar o saber que possuíam a suas atividades.

Aquele primeiro tipo de conhecimento se relacionava a atividades não diretamente ligadas à produção de bens e serviços. E, sim, àquelas que garantiam as condições gerais de vida em sociedade, a irrigação, a defesa, e a saúde física e mental dos indivíduos.

O surgimento do Estado se dá, justamente, em sociedades em que o volume e a escala desse tipo de atividades, cuja apropriação ocorre de modo coletivo, adquiriam uma dimensão importante em relação àquelas que se verificam no âmbito das famílias e que garantiam sua subsistência imediata. Uma das atividades mais típicas desse tipo centralizado é a que atende à necessidade de garantir a defesa de um determinado grupo social de outros que habitam territórios contíguos. Não é por outra razão que a diferenciação e apartamento dessa atividade daquelas cuja realização se dá de maneira descentralizada, nas famílias (por sua própria iniciativa e controle), é o que origina a Força Armada e marca o surgimento do Estado.

O Estado capitalista é conformado a partir de uma situação em que a propriedade dos meios de produção, já concentrada em mãos de uma minoria detentora de poder econômico, se desvincula do exercício da coerção política sobre os indivíduos. Passa a ser função do Estado (capitalista), e não mais de uma classe social particular, o monopólio legítimo da violência.

É essa função, razão em última instância de sua existência, o que faz com que ele seja capaz de garantir, na sociedade da qual se desprende, a relação de dominação característica do capitalismo.Aquela que se estabelece entre os proprietários dos meios de produção e os demais indivíduos que, por não os possuírem e estarem por isto incapacitados para produzir os bens e serviços com os quais seus antepassados garantiam sua sobrevivência imediata, têm que vender sua força de trabalho. Aquela relação de dominação constitutiva do capitalismo, legitimada na sociedade pelo Estado capitalista, é que, garante a ordem social. Como seria de esperar, isso ocorre também no âmbito da produção dos bens e serviços que passam a ser “fabricados” para o mercado. Implanta-se, assim, uma relação de cooperação fabril (e não de coerção na produção) mediada pelo salário, entre aquelas duas classes de indivíduos pertencentes à classe dominante e à classe dominada.

O Estado garante,também,que o conhecimento que passa a ser

gerado no capitalismo 28 contribua para “sacramentar” e naturalizar a separação entre trabalho intelectual e manual. A propriedade privada dos meios de produção começa a ocorrer em simultâneo, por um lado, à segmentação e hierarquização do processo de trabalho (Marglin, 1974). E, por outro, à expropriação do conhecimento então disseminado entre os produtores diretos que até então lhes permitia subsistir em uma economia ainda não totalmente monetizada e assalariada. Esse conhecimento passa a

ser codificado, sistematizado e privatizado29.

O capitalismo nascente passa a reservar aos proprietários dos meios de produção o “monopólio” do trabalho intelectual e condena os que têm que vender sua força de trabalho a uma vida inteira de trabalho manual na qual utilizam uma parte ínfima de sua capacidade inata de refletir e criar. A associação entre trabalho intelectual e posse dos meios de produção pelo capitalista proporciona uma “explicação” naturalizada para a apropriação privada do excedente gerado pelo trabalhador no processo de trabalho. E que faz entender o lucro como uma remuneração à sua indispensável contribuição para a produção, oriunda de sua capacidade de organizá-la.