Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas

Sobre a adequação das incubadoras universitárias de cooperativas aos objetivos dos seus partidários

A matéria segue com o depoimento de um aluno que recebeu o prêmio das Olimpíadas pelo desenvolvimento de um dentifrício, que é especialmente esclarecedor para o objetivo desta seção:

O mais interessante da competição não é o prêmio, é sua

capacidade de fazer as pessoas pensarem de modo diferente,

com empreendedorismo. A USP já é muito forte na pesquisa,

falta desenvolver nos alunos maturidade em negócios.

Depois de afirmar que “É exatamente esse espírito criativo que a competição e a Agência USP de Inovação procuram fomentar”, a matéria cita o responsável pela agência: “O inovador não nasce pronto. A inovação pode ter a ver com características pessoais, mas, no geral, as pessoas são treinadas para se tornarem inovadoras e criativas”. O qual, referindo-se a sua atividade conclui:“Somente quando isso for consolidado e virar corriqueiro, aí sim podemos esperar uma explosão de ações que resultarão em novos produtos, em inovação tecnológica.”

 

Sobre a adequação das incubadoras

universitárias de cooperativas aos objetivos dos

seus partidários

Não me surpreenderia ou preocuparia o fato de que uma análise como a que fizemos para as incubadoras de empresas em artigos e trabalhos de mestrado e doutorado viesse a mostrar um resultado semelhante no caso das incubadoras tecnológicas de cooperativas. Ou seja, que o esforço dedicado à criação e manutenção das incubadoras de cooperativas seja desproporcional ao resultado obtido em termos, por exemplo, do número de cooperativas incubadas ou do impacto econômico e social gerado.

Em especial, porque nesse último caso, além de ter um sentido bastante distinto, a avaliação não teria um caráter tático e sim estratégico. Não estaria centrada num critério de benefício x custo e sim num de custo de oportunidade. Ou seja, na comparação entre a aderência, aos interesses do agente que possui um dado recurso escasso, dos resultados (estimados) que poderiam ser obtidos mediante a sua aplicação a diferentes atividades (ou projetos). Ou na avaliação do custo que incorre o agente ao não aplicar o recurso em outra atividade. No caso, no custo de aplicar um recurso muito escasso – a energia de estudantes e professores que possuem um “grau de rejeição aos valores capitalistas” suficiente para dedicar seu esforço às incubadoras – na sua criação e manutenção, quando comparado com o que este recurso poderia produzir se fosse aplicado na consecução de outras atividades.

Não é minha intenção realizar aqui tal avaliação.Vou, apenas, mantendo um procedimento comparativo entre os dois tipos de incubadoras, colocar alguns aspectos relativos ao custo de oportunidade associado às incubadoras de cooperativas que poderiam ser úteis nesse sentido. Isso é feito tendo em vista o contexto da extensão universitária onde ela se deve situar.

O primeiro aspecto tem a ver com o espaço onde surgem as incubadoras de cooperativas. Ao contrário do que ocorre em relação às incubadoras de empresas, as de cooperativas surgem num espaço claramente adverso. Isto é, em organizações (universidades) que estão, há centenas de anos, capacitando profissionais, mediante atividades convencionais de ensino e pesquisa, para atuar nos arranjos produtivos que elas privilegiam. Ou seja, as empresas.

Para mostrar como a situação que existe em relação às incubadoras de cooperativas pode ajudar a proposição de pensadores marxistas de que a universidade, por integrar a superestrutura político-ideológica do Estado capitalista destinada a garantir a reprodução do capital, vai tender invariavelmente a enviesar os processos cognitivos nesta direção. Mas bastaria olhar os currículos e as agendas de pesquisa da universidade, principalmente dos cursos de ciências duras (Engenharia etc.) e de Administração (no qual se forma a maioria dos estudantes universitários brasileiros) para chegar à mesma conclusão.

Isso significa dizer que, enquanto no primeiro caso, as habilidades a serem exercitadas pelos estudantes (e professores) universitários são um adicional semeado num solo culturalmente fértil e adubado por aquela capacitação profissional, no segundo, a práxis em que eles se envolvem não conta com um substrato e

os de um outro projeto político (e favorecer arranjos econômico-produtivos a ele correspondentes) sem sofrer um processo de reprojetamento; o que tenho chamado de Adequação Sociotécnica.

O que tende a acontecer, em função do que tratam esses dois aspectos, é que as incubadoras de cooperativas, muito mais do que as de empresas, têm sido levadas a assumir um papel de capacitação dos estudantes. São elas que, no intuito de oferecer-lhes a oportunidade de adquirir conhecimentos e habilidades que a universidade não lhes proporciona e não está capacitada a fazê-la, assumem este papel. Com o agravante de que, ao contrário das incubadoras de empresas, as de cooperativas, vale reiterar, não contam com o conhecimento que vem sendo desenvolvido, há centenas de anos, pela universidade e que é proporcionado e acumulado pelos estudantes durante seus cursos para preparar-lhes para se desempenhar em empresas.

Assim, devido a essa situação, a experiência das incubadoras (tecnológicas) de cooperativas tem mostrado que sua principal função não tem sido incubar cooperativas proporcionando a elas “tecnologias” desenvolvidas na universidade. E não por “culpa” delas. Quem, conhecendo a experiência das incubadoras de empresas, lida com a temática que tem sido enfeixada sob o nome de Tecnologia Social, sabe bem o quanto é difícil desenvolver tecnologias em conjunto com as pessoas que vão usá-las de modo autogestionário, autônomo, solidário, com meios de produção de propriedade coletiva, para independizarem-se do controle dos proprietários dos meios de produção e do mercado, e para criarem suas próprias oportunidades de trabalho e renda de forma independente do setor formal da economia. E o quão irrealista é o objetivo de pretender que algo que nunca foi sequer tentado sistematicamente em outros países e situações possa ocorrer, como norma, nas incubadoras de cooperativas brasileiras.

Sua função mais importante não têm sido sequer capacitar (ou formar) os cooperados ou as pessoas que, espera-se, venham a criar as cooperativas. O principal resultado do seu trabalho tem sido formar os próprios estudantes da universidade, em conteúdos que esta, por razões aqui relembradas, não trata. E que eles, atraídos, por um apelo ideológico ou qualquer outro motivo, pela imagem que a incubadora possui, estão motivados a adquirir. Adiciona-se a isso o fato contraditório, determinado pelas características do problema, de que em função da dificuldade de criação e manutenção das cooperativas que começam a ser incubadas, esses estudantes, embora estejam familiarizados com esta atividade, passam pouco tempo tentando fazê-la. Eles terminam indo atuar profissionalmente em ONGs, órgãos públicos ou empresas que atuam com “responsabilidade social empresarial”, em áreas relacionadas à temática da inclusão social.