Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas

Sobre as incubadoras universitárias de empresas

Assim, longe de considerá-los como frutos de uma visão equivocada, esses arranjos devem ser entendidos como resultado de dois movimentos. Um, ativo, impulsionado pelo segmento politicamente mais conservador da comunidade de pesquisa que tem sido assimilado pelo “alto clero da ciência dura”, visando a manipular a opinião pública para legitimar o papel hegemônico que aquela concepção lhe destina e, assim, manter seus privilégios. Outro, relativamente passivo, que anima o segmento de esquerda da comunidade de pesquisa e se contrapõe ao primeiro em vários aspectos. Mas com ele concorda e se subordina quando se trata de temas como esse, relacionados à política de C&T. Por aceitar o dogma do marxismo convencional de que o desenvolvimento das “forças produtivas” (ou da ciência e tecnologia, que dá quase no mesmo) por ser capaz de tensionar as relações sociais de produção, funciona como um motor da história. E por levar a modos de produção cada vez mais avançados (escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo e comunismo), deve ser sempre estimulado: devido ao seu “caráter neutro”, a tecnociência que hoje oprime amanhã permitirá a construção do socialismo...

 

Sobre as incubadoras universitárias de empresas

Antes de tudo, e resumindo o que vai ser apresentado, cabe destacar a real finalidade das incubadoras de empresas. Embora frequentemente apareçam secundadas pelo qualificativo “de base tecnológica” – o qual cumpre a mesma função dos eufemismos “tecnologia de ponta” ou “alta”, como se houvesse uma “rombuda” ou “baixa” – elas não existem para incubar empresas. Ou porque sejam importantes para que as empresas a serem incubadas (na sua maioria software houses com menos de meia dúzia de profissionais universitários) possam através delas se aproveitar dos resultados da pesquisa realizada na universidade. Muito menos da “tecnologia” que (alguns erradamente supõem) desenvolvem as universidades, uma vez que, na realidade, elas não produzem, como resultado de suas atividades de pesquisa, tecnologia.

Há que entender, então, que se essas incubadoras incubam algo, não são empresas, e sim profissionais – professores e estudantes universitários candidatos a se tornarem empresários – que, através desse arranjo institucional mantido pelas universidades e pelas agências de fomento à C&T buscam algum tipo de subsídio para se tornarem “empreendedores”. Isto é, entrar no (difícil, há que reconhecer) mundo dos negócios.

Está mais claro hoje do que há uma década (e para mais gente) que a empresa não se interessa e não precisa da pesquisa que se faz na universidade. Entre outras coisas porque a pesquisa que se faz na universidade não é a que a empresa precisa. Uma das justificativas que temos para afirmar isso é a observação do que ocorre nos países de capitalismo avançado, de onde emanam – “para o bem ou para o mal” – os exemplos e modelos (entre tantos outros, o das incubadoras) que há muito temos tentado emular na América Latina. Em particular, aqueles em que intervêm nas organizações (empresa, universidade, governo etc.) relacionadas à Política de C&T estadunidense.

Nos EUA, a empresa (que pode ser considerado o arquétipo a ser aqui emulado) gasta 99% dos recursos que destina à pesquisa dentro dela mesma. Ou seja, a parcela gasta por elas contratando projetos com as universidades e institutos de pesquisa, para que estes realizem pesquisa e produzam resultados que interessem a elas, é de apenas 1%. Algo semelhante ocorre também em outros países de capitalismo avançado em que as empresas são competitivas e fazem pesquisa (na verdade, hoje, no mundo, 70% dos recursos aplicados em pesquisa são gastos em empresas).

Não existem dados consolidados dessa natureza para o Brasil, mas a evidência mostrada pelas sucessivas pesquisas de inovação publicadas desde 2000 pelo IBGE – as PINTECs – indicam um quadro acerca da pouca importância da pesquisa da universidade para as empresas em tudo semelhante.