Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas

O gestor da Economia Solidária e o “empreendedorismo”

Ele prospectará problemas tecnoprodutivos ou oportunidades econômico-produtivas, e será capaz de colocar em contato os candidatos a formar empreendimentos solidários e os pesquisadores interessados em explorá-los. E, também, tensionar as relações entre a estrutura do “Estado Herdado” e os movimentos sociais visando a sua transformação no “Estado Necessário” que, entre tantas outras coisas, passe a utilizar seu poder de compra para alavancar e Economia Solidária e a Tecnologia Social.

 

O gestor da Economia Solidária e o

“empreendedorismo”

Permeando essas habilidades do “gestor da Economia Solidária” que tratei no final da seção anterior e tendo em vista os processos de capacitação dos integrantes dos empreendimentos solidários e de desenvolvimento de TS, ele deverá ter sempre presente que o que permite aos excluídos a sua sobrevivência não são suas capacidades individuais; aquelas que costumam ser valorizadas pelos partidários do “empreendedorismo”. Muito mais do que elas, os aspectos que deverão ser valorizados e potencializados são os laços de solidariedade que possuem e a capacidade coletiva de trabalhar de modo cooperativo e autogestionário.

Não obstante, o fato de que expressões como empreendedorismo e inovação têm aparecido com frequência na literatura sobre Economia Solidária e, mesmo, sobre Tecnologia Social, sugere uma digressão sobre eles.

Na “língua geral”, inovação significa novidade ou renovação e

comercializados. Autores como Peter Drucker salientam que ele é o “herói” que aceita o risco inerente ao mercado e que seu papel, de inovar, identificar oportunidades, agarrá-las em seu proveito, buscar os recursos para transformá-las em negócio lucrativo, é o motor do progresso econômico e social.

Schumpeter “esqueceu” um fato que os neoschumpeterianos que inspirou terminaram por sepultar: o empresário luta em duas frentes de batalha. Na frente interna à empresa, ele enfrenta seus adversários (empregados) inovando para aumentar a produtividade do trabalho, aumentar a mais-valia da qual se apropria, diminuir o custo de produção e aumentar sua taxa de lucro. É só depois, se for bem-sucedido ganhando a primeira batalha, que o empresário, se desejar e se houver uma conjuntura favorável no “seu” mercado, abrindo mão do “lucro extraordinário” que o menor custo de produção enseja e reduzindo seu preço, enfrenta seus “colegas”. E, se eles não puderem acompanhar, copiando ou introduzindo outras inovações em suas empresas, o empresário inovador expulsa-os do mercado, expande sua fatia, aumenta sua massa de lucro e pode aumentar sua taxa de lucro.

Por tudo isso, é necessário salientar para o gestor da Economia Solidária que termos como inovação, empreendedorismo etc., correspondem e se identificam com uma ordem social que é justamente aquela que reproduz a desigualdade que ele denuncia e quer combater. Que o mito que o capital transformou numa ideia de senso comum, de que o conhecimento, para chegar à sociedade, para beneficiá-la, tem que passar pela empresa, não tem por que ser aceito. Que, pelo contrário, essa ideia que está na base do conjunto de mecanismos ideológicos que sustenta o capitalismo, e que foi por ele naturalizada, invalida a proposta da Economia Solidária e nega a possibilidade de existência de um outro agente econômico-produtivo que não a empresa, o empreendimento solidário. O qual é fácil perceber que está para a Economia Solidária assim como a empresa privada está para o capitalismo.