Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
Mais alguns passos para a concepção da “lógica solidária”
O que se tem escrito sobre o conceito de sustentabilidade e sobre os seus desdobramentos de sustentabilidade econômica, social, cultural e ambiental, aponta para que é ela, e não a competitividade, o que deve ser buscado. Essa noção me parece um bom começo para evitar que caiamos na armadilha que nós mesmos condenamos.
Mais alguns passos para a concepção da “lógica
solidária”
Ainda com o objetivo de dar fundamento à noção de “lógica solidária”, e mantendo o foco nas incubadoras universitárias de cooperativas, prossigo, nesta seção, dando mais alguns passos neste sentido. O objetivo, aqui, é avançar na definição do que seria aquele conjunto de procedimentos mencionados na seção – Lógica do capital,“lógica do desespero” e “lógica solidária” – orientado à busca de oportunidades passíveis de serem aproveitadas por empreendimentos solidários.
De uma forma esquemática coerente com o tom temerário desta tentativa de concepção da “lógica solidária” aponto a seguir alternativas à maneira como as incubadoras em função da adoção da “lógica do desespero” tendem a proceder no nível – que vou chamar de micro – de suas particulares atividades de incubação; ou seja, identificar um grupo de pessoas excluídas e buscar a solução para seus problemas.
Pensando em procedimentos distintos daquele da “lógica do desespero”, ocorrem-me três enfoques alternativos.
Denominarei o primeiro enfoque de “enfoque do pesquisador”, aquele que, na universidade ou num instituto de pesquisa público, se alinha com a proposta da Economia Solidária. Ele não parte da identificação do grupo a ser incubado, mas da tecnologia que se tem pensado como passível de ser “transferida” ou, pior, “ofertada à sociedade”. Esse enfoque leva à escolha de uma ou mais tecnologias com as quais o pesquisador tem familiaridade e “oferecê-la” a grupos hipotéticos de pessoas excluídas que enfrentam problemas que se supõe que aquelas tecnologias possam ajudar a resolver. É o que se conhece em Análise de Políticas como uma solução em busca de um problema (enfoque da “lata de lixo”). Esse enfoque que, como o típico da “lógica do desespero”, se situa no nível micro, pode ser considerado uma extensão das atividades ligadas à criação de “bancos de dados” que remonta ao movimento da Tecnologia Apropriada do início dos anos de 1970 e, antes dele, num contexto mais amplo, à noção de cadeia linear de inovação apresentada logo depois da Segunda Guerra Mundial no famoso Relatório Bush.
Esse enfoque apresenta óbvias limitações.A principal é ligada ao próprio conceito de tecnologia. Ela tem a ver com o fato de que o que se divulga ou oferece num banco de dados não são tecnologias. Podem ser no máximo “boas ideias”, uma vez que, como tenho explicado em outros trabalhos e mencionei no início deste, o conceito de tecnologia supõe que seu desenvolvimento seja feito por quem vai usá-la. O fato de que hoje se fale em “reaplicação” de Tecnologia Social, embora pareça ser derivado dessa percepção, uma vez que se compreende que, para realizar seu potencial de inclusão e transformação social, a tecnologia (ou a “boa ideia”) armazenada no banco deva ser “apropriada” por quem a vai usar, ou reaplicar, não chega a evitar um dos equívocos mais sérios do movimento da Tecnologia Apropriada que o da TS deve evitar.
O segundo enfoque supõe, ao contrário do anterior e mais ainda do que propõe a “lógica do desespero”, uma perspectiva macro, distinta daquela usual, que chamei de micro. Refiro-me a ele pelo nome de “enfoque do gestor público” para chamar a atenção para o fato de que ele se distingue do “enfoque do pesquisador” e, também, daquele usualmente existente no âmbito das incubadoras, mas que pode vir a ser alcançado pelos gestores que a ele se dedicam.
Este enfoque está baseado no conhecimento do gestor acerca das duas pontas do problema. Numa ponta, o relativo às iniciativas de incubação em desenvolvimento nas várias incubadoras de uma região (ou país) e aos problemas que enfrentados para conferir sustentabilidade aos empreendimentos. Em particular, aqueles mais difíceis, relacionados à questão do encadeamento entre os empreendimentos solidários apontada na seção “Completamento, entrelaçamento e adensamento de cadeias produtivas”. Na outra ponta, o enfoque supõe o conhecimento relativo ao potencial de desenvolvimento de TS existente nas equipes de pesquisadores situados em universidades e institutos públicos de pesquisa. Ressaltando que esse potencial inclui, evidentemente, a capacidade ou pelo menos a disposição de trabalhar em conjunto com os integrantes dos empreendimentos solidários.
Este enfoque está, então, baseado na capacidade do “gestor público” de “cruzar” informações relativas à “demanda” e “oferta” de conhecimento que poderão ter o seu “encontro” materializado por intermédio do desenvolvimento de TS que contribua para a sustentabilidade dos empreendimentos. E, é claro gerar o arcabouço institucional necessário para que, do “cruzamento” nasça a TS e se fortaleça essa prática de trabalho conjunto.
A identificação e o monitoramento de empreendimentos solidários, numa ponta, e de grupos de pesquisadores (ou potenciais de pesquisa) situados em universidades e institutos de pesquisa públicos, na outra, associado à capacidade de interlocução e, mais do que isto, de “tradução” de “ofertas” e “demandas”, permitiria um ganho de escala e sistematicidade dificilmente alcançável pela “lógica do desespero” que caracteriza a atuação das incubadoras. Ou, ainda, pelo “enfoque do pesquisador”.
O terceiro enfoque traz à luz um outro personagem que não tem porque ser pensado como excludente em relação aos anteriores: o “gestor da Economia Solidária”. Mais do que os dois anteriores, vale ressaltar, trata-se aqui de um arquétipo idealizado. Na realidade, esses arquétipos devem ser entendidos como uma forma de evidenciar as características, ou habilidades a serem desenvolvidas ou exploradas, para levar a cabo a “lógica solidária”.
Este enfoque corresponde ao que foi proposto mais de uma vez nas seções anteriores quando me referi ao escrutínio – ou screening – do tecido produtivo em busca de oportunidades passíveis de serem exploradas pelos empreendimentos solidários.
Não se trata, aqui, de partir do existente, do diretamente “observável”; seja no nível micro das incubadoras (“lógica do desespero”), seja, tampouco, do que se pode depreender do quadro que pode conformar a atuação dos personagens envolvidos com os enfoques anteriores.
Para ir além do “observável” e penetrar no plano do “prospectável” que o afasta da “lógica do desespero”, o “gestor da Economia Solidária” deve possuir uma perspectiva combinada, baseada num conhecimento aprofundado dos assuntos relacionados à ES e à TS. Ela permitirá que ele vá além da visão de conjunto que o gestor público idealizado no enfoque anterior possui a priori das duas pontas do problema; visão que ele também deverá possuir. A não ter que se limitar a conhecer a coleção de “ofertas” e “demandas” que a posição privilegiada do “gestor público” permite descortinar, ele poderá ir mais adiante.
O gestor será, então, capaz de prospectar no tecido econômico produtivo, em círculos de raio crescente, problemas e soluções que se cruzem e que possam ser utilizados por empreendimentos solidários. Além de identificar e tentar resolver problemas no âmbito de empreendimentos já “mapeados” (que são os que a “lógica do desespero”, que parte da identificação do grupo a ser incubado, costuma concentrar sua atenção) ou dos potenciais de contribuição para a geração de TS existentes nas universidades ou institutos de pesquisa (o igualmente micro, “enfoque do pesquisador”), e das possibilidades de casamento entre a “oferta” e a “demanda” de conhecimento (possibilitada pela visão macro do “gestor público”), o “gestor da Economia Solidária” terá um comportamento francamente proativo.