Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
Considerações Finais
demandas por AST dos empreendimentos autogestionários, sendo necessário o emprego de tecnologias alternativas à convencional. A atividade decorrente desta modalidade é a busca e seleção de tecnologias existentes.
6. Incorporação de conhecimento científico-tecnológico
existente: resulta do esgotamento do processo sistemático de busca de tecnologias alternativas e na percepção de que é necessária a incorporação à produção de conhecimento científico-tecnológico existente (intangível, não embutido nos meios de produção), ou o desenvolvimento, a partir dele, de novos processos produtivos ou meios de produção, para satisfazer as demandas por AST. Atividades associadas a esta modalidade são processos de inovação de tipo incremental, isolados ou em conjunto com centros de P&D ou universidades.
7. Incorporação de conhecimento científico-tecnológico novo:
resulta do esgotamento do processo de inovação incremental em função da inexistência de conhecimento suscetível de ser incorporado a processos ou meios de produção para atender às demandas por AST. Atividades associadas a esta modalidade são processos de inovação de tipo radical que tendem a demandar o concurso de centros de P&D ou universidades e que implicam na exploração da fronteira do conhecimento.
Considerações Finais
Meu objetivo, neste trabalho, foi mostrar que a bandeira da “Ciência e tecnologia para a cidadania” por não ser suficiente para que aqueles colegas que a levantam para assim contribuir, no plano do conhecimento, para a adoção de um estilo de desenvolvimento alternativo exige que o conhecimento existente seja objeto de uma Adequação Sociotécnica para que, com a participação do Povo como sujeito deste processo, ele possa atender aos seus valores e interesses. O objetivo foi perseguido através de quatro passos. Eles são apresentados aqui e não na Introdução porque se considerou que é possível, a esta altura, ter uma visão mais clara de sua pertinência.
O primeiro passo foi mostrar que, a recuperação da Cidadania e, também, da solidariedade coletiva Nação, submetidas a um ciclo vicioso de deterioração, demanda, no momento, pelo qual passam muitos países da América Latina, de um processo de organização e radicalização dos movimentos populares. Embora de enunciado simples, este passo demandou um longo percurso expositivo que começou por entender o Estado como um “mecanismo” de organização do consenso que conforma solidariedades coletivas a ele externas, orientadas a ocultar as rupturas da sociedade e seus vieses sistemáticos através de instituições cuja legitimação supõe mediações Estado-sociedade (fundamento e referencial) generalizadamente verossímeis. E que conduziu à ideia de que o Estado Capitalista para ocultar seu papel de mantenedor e reprodutor da sociedade capitalista deve sustentar uma ideologia de igualdade abstrata, no fundamento da Cidadania; concreta, porém indiferenciada, no referencial da Nação, e eventualmente, mais concreta e menos indiferenciada, no âmbito do Povo.
O segundo passo foi argumentar que dentre as formas de politização alternativas genericamente denominadas de movimentos populares, que estão surgindo em meio ao contexto de despolitização vigente, os empreendimentos autogestionários ocupam um papel central. Devido ao seu potencial alavancador do associativismo e da autogestão, elementos cruciais para a implantação de cadeias de produção e consumo alternativas aos circuitos do capital e para a organização da vida social e das lutas dos trabalhadores, eles podem ser um polo de aglutinação de forças que promova a adoção de um estilo alternativo de desenvolvimento.
O terceiro passo foi mostrar que, dentre os obstáculos para lograr que os empreendimentos autogestionários possam dispor do conhecimento necessário para a sua sustentabilidade frente às empresas privadas, existe um crucial e de natureza imaterial cuja remoção depende da substituição das concepções Instrumental e Determinista da tecnociência pela da Adequação Sociotécnica.
O quarto foi apresentar a postura da Adequação Sociotécnica indicando como ela pode ajudar no reprojetamento da tecnociência e na geração de alternativas cognitivas mais aderentes aos valores e interesses do Povo.
Por buscar interlocução com a corrente principal do marxismo, que ainda acredita que as “forças produtivas” seguem um caminho linear e inexorável e que podem ser “usadas” para outros fins caso sejam “apropriadas” pelos trabalhadores, a AST oferece um guia para a desconstrução/ reconstrução de artefatos tecnológicos adequados aos empreendimentos autogestionários. De fato, por reconhecer que estes demandam um conhecimento coerente com seus princípios, valores, interesses e objetivos e por estar baseada nos estudos sobre aprendizagem técnico-econômica latino-americanos e na visão de autores marxistas contemporâneos que revisitando os enfoques da construção social ciência e da tecnologia, argumentam no sentido contrário às concepções da neutralidade de ciência e do determinismo tecnológico, a proposta da AST oferece um instrumental útil para a análise e proposição de alternativas à tecnologia concebida e aplicada pela e para a empresa capitalista
Numa dimensão situada no nível da policy, a proposta da AST pretende ser um chamamento aos colegas interessados na construção de um estilo alternativo de desenvolvimento para que busquem perceber e atender as demandas cognitivas que ele coloca. Para que passem a questionar a ideia de que a solução para a exclusão social se dará no terreno puramente político; de que não existe um componente tecnológico (e mesmo científico) a ser satisfeito. E para que entendam que cabe a eles, enquanto parte da comunidade de pesquisa, participar junto aos movimentos populares no processo de AST. E, ao fazê-lo, contribuir para a emergência, no interior da comunidade de pesquisa, de um segmento capaz de incorporar as demandas cognitivas dos movimentos sociais à sua agenda de pesquisa.