Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas

3 - “Ciência e tecnologia para a cidadania” ou Adequação Sociotécnica com o Povo?

3 – “Ciência e tecnologia para a

cidadania” ou Adequação

Sociotécnica com o Povo?

 

Introdução

Este capítulo discute a forma como o tema da relação Ciência, Tecnologia e Sociedade vem sendo tratado em alguns ambientes dedicados à analise das políticas de C&T e de Ensino Superior da América Latina. Ele se contrapõe à corrente que não vê que o modo como se orientam hoje essas políticas não contribui para a melhoria das condições de vida do conjunto da sociedade. Mas, também, a outras que, embora possam ser consideradas menos nocivas, são ainda assim simplistas e ingênuas. Isto é, as que entendem que o problema poderia ser equacionado mediante a “difusão dos frutos do progresso científico e tecnológico para a sociedade”, ou a “apropriação do progresso tecnológico por parte da população”, ou ainda aquela que propõe a “apropriação do conhecimento científico e tecnológico pelos cidadãos” para assim obter um maior “entendimento público da ciência” e uma maior “participação pública na ciência”. O trabalho se baseia no que considera uma constatação: a de que o conhecimento científico e tecnológico tal como hoje existe não é capaz de promover um estilo de desenvolvimento alternativo que proporcione maior equidade econômica, justiça social, e sustentabilidade ambiental, sobretudo quando se tem o contexto latino-americano como foco analítico e propositivo. E ao contrapor, no seu título, as ideias de Ciência e Tecnologia para a Cidadania e Adequação Sociotécnica com o Povo, busca ressaltar a necessidade de que nosso potencial de geração de conhecimento seja orientado mediante um processo presidido por interesses e valores compatíveis com o conceito de Povo, e com a sua participação na produção do conhecimento.

Só dessa forma, argumenta-se, será possível materializar a proposta – bem intencionada, mas ingênua – de colegas que levantam a bandeira da “Ciência e Tecnologia para a Cidadania”.

A seção que segue parte da percepção de que o conceito Cidadania usado por esses colegas, associado à sua acepção marshaliana (Marshall, 1967), não é adequado à materialização da proposta que defendem. Percepção baseada, entre outras coisas, no fato de que embora tenha sido a adotada pela social-democracia como balizamento para a construção do Estado do bem-estar, ela foi depois esvaziada pelo neoliberalismo, que também levou o próprio Estado ao descrédito e à inoperância. Por isso, partindo da distinção que fazem autores marxistas que analisam a relação Estado-Sociedade entre Cidadania, Nação e Povo no Estado capitalista, procura-se mostrar porque o processo de geração de conhecimento, que é o tema que se trata na quarta seção – Ciência e Tecnologia ou Adequação Sociotécnica? – deveria ter como alvo não a Cidadania, entendida como fundamento abstrato do Estado capitalista, ou a Nação, seu referencial, e sim o Povo, entendido como fundamento e referencial ambíguo deste Estado.

O objetivo da segunda seção pode então ser entendido como uma tentativa de explicitar mais claramente, tendo por base uma abordagem marxista, o sujeito-alvo da construção analítico-conceitual que venho desenvolvendo em torno da proposta de Adequação Sociotécnica (Dagnino, 2002; Dagnino...et al, 2004).Ao fazê-lo, dei-me conta, e espero que os leitores que acompanham meu esforço dedicado àquela construção concordem comigo, que precisar as diferenças entre aquelas três mediações pode torná-la mais inteligível e eficaz.

Entre a segunda e a quarta seções, foi inserida outra – A emergência do Povo como fundamento e referencial do Estado e os empreendimentos autogestionários? – que apresenta argumentos que me parecem suficientes para responder afirmativamente à pergunta que seu título formula.