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Insuficiência Cardíaca Congestiva
INTRODUÇÃO
A insu ciência cardíaca (IC) é a apresentação clínica nal da maioria das doenças cardíacas. Sua
apresentação como complicação das doenças cardíacas gera impacto no prognóstico e limitações
laborativas e sociais, in uenciando diretamente na qualidade de vida do indivíduo. As doenças
cardiovasculares constituem o principal motivo de óbito no Brasil e em países desenvolvidos, e a
IC é a principal causa de internação. Sua prevalência chega a ser superior a 10% em indivíduos
com mais de 70 anos e sua incidência de cerca de 1% a 2% na população geral, constituindo,
assim, um importante problema de saúde pública.
DEFINIÇÃO
A IC é uma síndrome clínica complexa causada por dano cardíaco estrutural ou funcional, que
resulta na incapacidade do coração em prover adequado suprimento sanguíneo para atender às
necessidades metabólicas tissulares ou fazê-lo somente com elevadas pressões de enchimento
ventricular.
CLASSIFICAÇÕES
Diversas classi cações são utilizadas para caracterizar a IC: direita e esquerda (onde predominam
sintomas típicos de disfunção do ventrículo direito ou esquerdo), de baixo débito (maioria dos
casos) ou de alto débito, no qual o mesmo é normal ou elevado, porém a pós-carga é alta ou as
necessidades metabólicas são maiores que o habitual, ocasionando a má perfusão tecidual. As
classi cações mais utilizadas e signi cativas, visto que fornecem dados que caracterizam
morbidade e mortalidade, estão baseadas na fração de ejeção do ventrículo esquerdo, na
ocorrência de sintomas de acordo com atividade física e na progressão da doença. Em se tratando
de IC aguda descompensada, utiliza-se a classi cação de Stevenson, que de ne o paciente em seco ou molhado, segundo a presença de congestão pulmonar, e frio ou quente, de acordo com a
presença de sinais clínicos de má perfusão tecidual.
CLASSIFICAÇÃO SEGUNDO A FRAÇÃO DE EJEÇÃO
É classi cada em IC de fração de ejeção reduzida (ICFER) e IC de fração de ejeção normal (ICFEN).
Os critérios diagnósticos são:
• Diagnóstico de ICFER, que requer 3 condições:
∘ Sintomas de IC.
∘ Sinais de IC.
∘ Fração de ejeção reduzida.
• Diagnóstico de ICFEN, que requer 4 condições:
∘ Sintomas de IC.
∘ Sinais de IC.
∘ Fração de ejeção normal ou pouco reduzida e ausência de dilatação do VE.
∘ Doença cardíaca estrutural relevante ou disfunção diastólica.
CLASSIFICAÇÃO POR SINTOMAS SEGUNDO A NEW YORK HEART ASSOCIATION (NYHA)
• Classe I: ausência de sintomas durante atividades cotidianas.
• Classe II: sintomas desencadeados por atividades cotidianas.
• Classe III: sintomas desencadeados por esforços menores que as atividades cotidianas ou
pequenos esforços.
• Classe IV: sintomas em repouso.
CLASSIFICAÇÃO SEGUNDO A PROGRESSÃO DA DOENÇA
• Estágio A: risco de desenvolver IC, porém ainda sem sintomas e sem doença cardíaca
estrutural.
• Estágio B: presença de doença cardíaca estrutural, mas sem sintomas de IC.
• Estágio C: presença de sintomas de IC e de doença cardíaca estrutural.
• Estágio D: presença de sintomas refratários ao tratamento.
ETIOLOGIA
ETIOLOGIA E SITUAÇÃO CLÍNICA
ETIOLOGIA SITUAÇÃO CLÍNICA
Doença isquêmica Presença de fatores de risco, angina ou
alterações segmentares no ventrículo
esquerdo
Hipertensão arterial Presença de hipertro a ventricular e ICFEN
Doença de Chagas Presença de história epidemiológica e
bloqueios do ramo direito e hemibloqueio
anterior esquerdo
Cardiomiopatias Dilatada idiopática, miocardites, cardiopatia
hipertró ca, displasia arritmogênica do
ventrículo direito
Doenças endócrinas Diabetes, hipotireoidismo, hipertireoidismo,
síndrome de Cushing, acromegalia,
insu ciência suprarrenal
Doenças nutricionais De ciência de selênio, tiamina, carnitina e
obesidade ou caquexia
Doenças in ltrativas Sarcoidose, amiloidose, hemocromatose
Doenças valvulares Estenoses valvares, regurgitações valvares,
dissecção aórtica
Drogas Bloqueadores de canal de cálcio, agentes
citotóxicos (quimioterápicos como
doxorrubicina)
Toxinas Cocaína, álcool, microelementos (mercúrio,
cobalto, arsênio)
Outras Cardiomiopatia periparto,
endomiocardio brose, síndrome da
imunode ciência adquirida (AIDS), doença
renal crônica
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Muitas vezes, pode ser difícil estabelecer o diagnóstico da IC. Isso ocorre porque muitos sintomas
são comuns a diversas condições clínicas, fazendo com que testes diagnósticos adicionais
especí cos sejam, na maior parte das vezes, fundamentais para estabelecer um diagnóstico
correto, avaliar o prognóstico e de nir uma terapêutica adequada.
Sintomas típicos seriam aqueles secundários à congestão pulmonar e retenção hídrica, como
dispneia aos esforços, dispneia paroxística noturna, ortopneia e edema periférico. Em alguns
pacientes, de forma menos frequente, observam-se como sintomas atípicos: tosse, broncospasmo,
alterações de peso, perda de apetite, confusão mental, síncope e palpitações.
Ao exame físico, consideramos sinais especí cos: presença de terceira bulha, turgência jugular
patológica, re uxo hepatojugular, ictus cordis propulsivo e presença de sopros cardíacos. São
também achados: crepitações pulmonares, anasarca, derrame pleural, hepatomegalia, ascite,
extremidades frias, respiração de Cheyne-Stokes, entre outros.
DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR
Na IC, além de minuciosos história e exame físico, alguns testes adicionais são necessários.
EXAMES LABORATORIAIS
Hemograma, bioquímica e provas de função hepática devem ser realizados para uma avaliação
inicial. Testes como a sorologia para doença de Chagas são especí cos para determinar a etiologia.
PEPTÍDEO NATRIURÉTICO CEREBRAL (BNP)
O BNP é liberado pelos miócitos ventriculares mediante a sobrecarga de volume, pressão ou
tensão parietal. Tem alto valor preditivo negativo, mas algumas formas de IC podem cursar com
BNP pouco alterado (ICFEN). O BNP pode estar aumentado em razão de idade, hipertensão
arterial, valvulopatias, isquemia miocárdica e embolia pulmonar.
RADIOGRAFIA DE TÓRAX
Os sinais radiológicos de IC não são especí cos e o exame é pouco sensível, mas achados como o
aumento do índice cardiotorácico e alterações pulmonares (hipertensão venocapilar pulmonar e
derrames pleurais) auxiliam no diagnóstico.
ELETROCARDIOGRAMA (ECG)
Pode evidenciar alterações de ritmo, bloqueios atrioventriculares e sinais de hipertro a ventricular
e aumentos cavitários. Não há sinais especí cos de IC.
ECOCARDIOGRAMA
O ecocardiograma é um exame realizado à beira do leito, não invasivo e capaz de fornecer
informações sobre diagnóstico e etiologia da IC. Por meio dele, analisamos a função sistólica com
o cálculo da fração de ejeção e a função diastólica, possibilitando classi car, diagnosticar e auxiliar
na determinação de prognóstico e na escolha de tratamento na IC. O ecocardiograma deve entrar
na análise diagnóstica, conjuntamente com os outros métodos, de acordo com o uxograma
exposto.
OUTROS
Exames especí cos, como ressonância magnética, angiotomogra a de artérias coronarianas e
cineangiocoronariogra a, podem ser necessários.
Exames para o diagnóstico laboratorial e por imagem. Fonte: McMurray JJ et al; 2012.
O tratamento da IC inclui medidas dietéticas, medidas de orientação quanto à realização de
exercícios, orientações relativas a atividades sexuais, laborativas e sociais. Uma abordagem
multidisciplinar faz parte do adequado plano terapêutico da IC.
Existe evidência de benefício na utilização de uma dieta hipossódica com 2 a 3g de sódio,
desde que não haja hiponatremia, além do controle da ingestão de líquidos e demais nutrientes.
Com relação ao tratamento farmacológico da IC, adequada atenção deve ser dada à utilização
de medicamentos, que, além da melhora de sintomas, modi quem o prognóstico, conforme
tabela em anexo. Antiplaquetários, anticoagulantes e antiarrítmicos são frequentemente
utilizados em pacientes com IC, entretanto, devemos levar em conta a etiologia e outras
complicações cardiovasculares associadas, como brilação atrial e arritmias ventriculares e até
mesmo o uso de cardiodes brilador implantável para prevenção de morte súbita.
A estimulação cardíaca arti cial, baseada no fato de a disfunção eletromecânica ocasionar um
dissincronismo na contração ventricular, resultando em piora da função ventricular, oferece como
tratamento para IC o implante de marca-passos com capacidade de ressincronização através do
implante de eletrodos na câmara atrial direita, ventricular direita e através do seio coronariano,
possibilitando adequada estimulação de contração cardíaca e melhora na função ventricular.
Apesar de atualmente a indicação estender-se para alguns pacientes em brilação atrial e
refratários à terapia clínica, a ressincronização é bem estabelecida em pacientes em classe
funcional III ou IV NYHA com fração de ejeção ≤ 35%, ritmo sinusal e duração do complexo QRS
do eletrocardiograma > 150 ms ou entre 120 e 150 ms, com comprovação de dissincronismo por
método de imagem.
O tratamento cirúrgico da IC inclui a revascularização miocárdica em pacientes com etiologia
isquêmica e a correção das doenças valvares. O tratamento cirúrgico para a síndrome de IC, como
as cirurgias de remodelamento ventricular e as cirurgias da válvula mitral, não tem benefício
estabelecido segundo os dados atuais. O transplante cardíaco constitui o único tratamento
cirúrgico estabelecido com evidência de melhora de sobrevida e qualidade de vida. Atualmente,
diversos dispositivos de assistência circulatória têm sido implantados cirurgicamente e utilizados
como “ponte” para o transplante cardíaco e, em casos isolados, como terapia de destino ou
de nitiva
TRATAMENTO
TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
MEDICAMENTOS DOSES VIA COMENTÁRIOS
Diuréticos de alça: 10-20 mg ou 0,5-0,75 VO ou Fase aguda ou crônica melhora
furosemida mg/kg/h IV sintomas e não altera o prognóstico
Tiazídicos: 12,5-50 mg/dia VO Utilizados na resistência a diuréticos
hidroclorotiazida e hipernatremia
Espironolactona 25-100 mg/dia VO Utilizada na dose de 25 mg dia para
CF III-IV NYHA como anti brótico
(antagonista da aldosterona), com
benefícios em longo prazo ou em
associação com outros diuréticos
Digoxina 0,25 mg/dia VO Reduz sintomas e reinternações em
CF III–IV, mas sem impacto no
prognóstico
Inibidores da ECA Captopril 12,5-50 mg VO Atua como vasodilatador e melhora
(captopril, enalapril, 3 × ao dia FE, sintomas e prognóstico com
outros) Enalapril 2,5-20 mg 2 signi cativo impacto na
× ao dia mortalidade
Bloqueadores de Besilato de VO Associar para hipertensão arterial
canal de cálcio anlodipina 2,5-10 em pacientes com IC
mg/dia
Bloqueadores de Losartana 25-100 VO Atuam de forma semelhante ao
angiotensina II (BRA) mg/ dia IECA com benefícios semelhantes e
(losartana, Candersartan 8-32 sem efeitos colaterais, como tosse; é
candersartam, mg/ dia opção ao IECA; e a associação não
valsartan) Valsartan 40-320 tem benefício na IC
mg/ dia
Hidralazina 12,5-50 mg 3 × ao VO Vasodilatador direto, tem benefício
dia na mortalidade quando associado a
nitratos e a combinação é bené ca
quando existem contraindicações a
IECA e/ou BRA
Nitratos (VO): 10 mg 3 × ao dia VO Vasodilatador benéfíco em longo
dinitrato de com intervalos de 6 prazo em associação com a
isossorbida horas entre as doses hidralazina
Ivabradina 2,5-7,5 mg 2 × ao dia VO Benefício para IC isquêmica já com
dose plena de betabloqueadores
Betabloqueadores Carvedilol 3,125-25 VO Na fase aguda de descompensação,
(carvedilol, bisoprolol mg 2 × ao dia recomenda-se manter ou reduzir a
e metoprolol) Bisoprolol 1,25-25 dose. Caso em uso de inotrópicos,
mg 1 × ao dia manter, exceto em conjunto com
Metoprolol 25-200 dobutamina. Benefício de
mg/ dia morbidade e mortalidade até
mesmo em assintomáticos com
disfunção de VE
Nitrato IV: 30-250 mcg/min IV Provoca venodilatação, não associar
nitroglicerina em usuários de sildena l. Cefaleia é
um comum efeito colateral. Uso na
fase aguda
Nitroprussiato de 0,5-10 mcg/kg/min IV Potente vasodilatador arterial e
sódio venoso, redução rápida da pós-carga
e meia-vida muito curta. Uso na
fase aguda
Neseritide Bolus 2 mcg 0,01 IV Análogo de BNP com efeito de
mcg/kg/min diurese, vasodilatação e inibição do
SRAA – uso na fase aguda
Dobutamina 5 -20 mcg/kg/min IV Inotrópico estimula receptores beta
1 e 2, estimulando adenil-ciclase e
aumentando o cálcio intracelular.
Relacionado com aumento de
arritmias ventriculares e
mortalidade, mas é o inotrópico
mais utilizado. Uso na fase aguda e
em casos refratários permanece por
longo tempo
Milrinona 0,375-0,75 IV Inibidor da fosfodiesterase, atua
mcg/kg/min como inotrópico, aumentando
concentrações de AMP cíclico.
Provoca vasodilatação e pode ser
usado em conjunto com beta-
bloqueadores. Uso na fase aguda,
mas pode permanecer por longo
tempo
Lesosimendam Ataque 6-12 mcg/kg IV Inotrópico ativador dos canais de Ca
em 10 minutos com algum efeito vasodilatador. Uso
Manutenção 0,05-2,0 por 24 horas e metabólitos ativos
mcg/kg/min por até 80 horas. Pode ser utilizado
com betabloqueadores e associar-se
à dobutamina. Útil na vigência de
isquemia por não aumentar
consumo miocárdio de O2
Tolvaptan 15-60 mg 1 × ao dia VO Antagonista seletivo do receptor de
vasopressina (V2), provocando
“aquarese” (diurese sem alteração
de eletrólitos). Não tem benefício
comprovado em longo prazo.
Utilizado na fase aguda