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Doença de Parkinson
INTRODUÇÃO
A doença de Parkinson é considerada a segunda maior causa de doença neurodegenerativa –
após a doença de Alzheimer. A prevalência é de 1% da população após os 65 anos de idade,
chegando a atingir 5% da população acima dos 85 anos. A incidência anual é de 5 a 24 casos por
100 mil habitantes.
Apesar de ser classicamente considerada doença do idoso, cerca de 5% a 10% dos casos se
manifestam de forma precoce (antes dos 45 anos), sendo denominada doença de Parkinson de
início precoce (PIP).
FATORES DE RISCO
• Envelhecimento.
• História familiar positiva.
• Traumas cerebrais repetitivos (Pugilismo).
• Ter vivido em zona rural (consumo de água de poço, exposição a agrotóxicos).
• Presença de determinadas mutações genéticas, principalmente nos casos de PIP e formas
familiares (PARKIN, SNCA, DJ-1, LRRK-2).
FATORES DE PROTEÇÃO
• Consumo moderado de cafeína (controverso).
• Tabagismo (controverso).
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
CRITÉRIOS NECESSÁRIOS PARA O DIAGNÓSTICO (UK PARKINSON’S DISEASE BRAIN BANK
CRITERIA)
Bradicinesia (e pelo menos um dos seguintes sintomas abaixo):
• Hipertonia plástica.
• Tremor de repouso (4-6 Hz).
• Instabilidade postural não causada por distúrbios visuais, vestibulares cerebelares ou
proprioceptivos.
CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO DO DIAGNÓSTICO
• História de acidente vascular cerebral (AVC) de repetição.
• História de trauma craniano grave.
• História de nida de encefalite.
• Crises oculogíricas.
• Tratamento prévio com neurolépticos.
• Remissão espontânea dos sintomas.
• Quadro clínico estritamente unilateral após três anos.
• Paralisia supranuclear do olhar.
• Sinais cerebelares.
• Ausência de resposta à levodopa em altas doses.
• Exposição ao metil-fenil-tetra-hidropiridina (MPTP).
• Sinais autonômicos precoces:
∘ Demência precoce.
∘ Sinais piramidais (sinal de Babinski).
∘ Tumor cerebral.
∘ Hidrocefalia.
CRITÉRIOS DE SUPORTE PARA O DIAGNÓSTICO DE DOENÇA DE PARKINSON
SINAIS E SINTOMAS DA DOENÇA DE PARKINSON
• Início unilateral.
• Presença de tremor de repouso.
• Doença progressiva.
• Persistência da assimetria dos sintomas.
• Boa resposta à levodopa.
• Presença de discinesias induzidas por levodopa.
• Resposta sustentada à levodopa por 5 anos ou mais.
• Evolução clínica de 10 anos ou mais.
SINAIS OU SINTOMAS PRÉ-MOTORES (PODEM SE MANIFESTAR VÁRIOS ANOS
ANTES DOS SINTOMAS MOTORES)
• Constipação intestinal.
• Dé cit olfativo (hiposmia).
• Alteração comportamental do sono REM.
• Depressão.
SINAIS OU SINTOMAS MOTORES
• Sinais cardinais (bradicinesia, tremor de repouso, rigidez e instabilidade postural).
• Alteração na marcha (passos curtos, festinação).
• Postura em exão do tronco, joelhos e membros superiores.
• Hipomimia.
• Microgra a.
• Episódios de congelamento.
• Diminuição do piscamento.
• Blefaroespasmo, apraxia de abertura do olhar.
• Movimento ocular extrínseco diminuído e fatigável.
• Disartria.
• Hipofonia.
• Disfagia.
• Alterações respiratórias.
• Deformidades estriatais de mãos e pés.
SINAIS OU SINTOMAS NÃO MOTORES
• Autonômicos:
∘ Olhos secos.
∘ Sudorese excessiva.
∘ Alterações urinárias (urgência, noctúria, incontinência, esvaziamento incompleto).
∘ Disfunção sexual.
∘ Hipotensão ortostática.
• Distúrbios do sono:
∘ Síndrome das pernas inquietas e movimentos periódicos do sono.
∘ Insônia.
∘ Sonhos vívidos.
∘ Sonolência diurna excessiva.
∘ Despertar frequente.
• Sensitivos:
∘ Dor.
∘ Parestesias.
• Neuropsiquiátricos:
∘ Anedonia.
∘ Ansiedade.
∘ Depressão.
∘ Síndrome disexecutiva.
∘ Disfunção visuoespacial.
∘ Psicose.
∘ Ataques de pânico.
∘ Demência.
∘ Transtorno do controle dos impulsos (jogo patológico, hipersexualidade, compras
patológicas - associados ao uso dos agonistas dopaminérgicos).
∘ Comportamento repetitivo sem propósito (punding) - associado ao tratamento.
• Outros:
∘ Sialorreia.
∘ Seborreia.
∘ Fadiga.
∘ Alterações de peso.
∘ Postura de ante exão do pescoço (antecollis).
∘ Camptocormia (postura de ante exão excessiva do troco).
∘ Mão e pé estriatais.
∘ Síndrome da torre de pisa (postura de lateralização excessiva do tronco).
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS DA DOENÇA DE PARKINSON (SÍNDROMES PARKINSONIANAS)
PARKINSONISMO SECUNDÁRIO
• Bloqueadores de receptores dopaminérgicos:
∘ Haloperidol, pimozida, uferazina, metoclopramida, bromoprida.
• Depletores de dopamina:
∘ Reserpina, tetrabenazina, metildopa.
• Bloqueadores de canal de cálcio:
∘ Cinarizina, unarizina, nimodipina, anlodipina, diltiazem, nifedipina.
• Metais e tóxicos:
∘ MPTP (1-metil-4-fenil-1,2,3,6-tetra-hidropiridina).
∘ Monóxido de carbono.
∘ Dissul to de carbono.
∘ Paraquat.
∘ Tolueno.
∘ Cobalto, manganês e mercúrio.
CAUSAS ESTRUTURAIS
• Parkinsonismo vascular (múltiplos infartos).
• Cavernoma, malformação arteriovenosa.
• Encefalopatia pugilística.
• Tumores.
• Hidrocefalia de pressão normal.
PARKINSONISMO HEREDODEGENERATIVO
• Doença de Huntington.
• Neuroacantocitose.
• Doença de Wilson.
• Doença de Fahr.
• Neurodegeneração com acúmulo intracerebral de ferro (PANK-2).
• Doença de Machado-Joseph (ataxia espinocerebelar tipo 3).
• Demência frontotemporal com parkinsonismo.
CAUSAS INFECCIOSAS
• Encefalite letárgica.
• Vírus da imunode ciência humana (HIV).
• Doença priônica.
• Doença de Whipple.
• Toxoplasmose.
• Cisticercose (forma cística nos núcleos da base).
PARKINSON-PLUS (PARKINSONISMO ATÍPICO)
• Parkinsonismo associado à doença de Alzheimer.
• Demência dos corpos de Lewy.
• Paralisia supranuclear progressiva (PSP).
• Atro a de múltiplos sistemas (forma parkinsoniana e forma cerebelar).
• Degeneração corticobasal.
TRATAMENTO
TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO
• Fisioterapia: treinamento de marcha, equilíbrio, alongamento e condicionamento físico
aeróbico.
• Fonoaudiologia: fonoterapia e tratamento da disfagia com especialistas em deglutição.
• Nutrição adequada nos diferentes estágios da doença.
• Terapia ocupacional e suporte para os cuidadores nos estágios avançados.
TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO
Principais medicamentos listados disponíveis no Brasil.
MEDICAMENTOS DE PRIMEIRA LINHA
• Levodopa/Benserazida:
∘ Prolopa® BD (100 mg/25 mg).
∘ Prolopa® Dispersível (100 mg/25 mg).
∘ Prolopa® 125 HBS (100 mg/25 mg).
∘ Prolopa® 250 (200 mg/25 mg).
• Levodopa/Carbidopa:
∘ Parkidopa® 250 (250 mg/25 mg), Parklen® 250 (250 mg/25 mg).
• Levodopa/Carbidopa/Entacapona:
∘ Stalevo® 50 (50 mg/12,5 mg/200 mg).
∘ Stalevo® 100 (100 mg/25 mg/200 mg).
∘ Stalevo® 150 (150 mg/37,5 mg/200 mg).
• Doses iniciais: 50 mg a 100 mg de levodopa 3 a 4 vezes ao dia. Evitar doses maiores que 800
mg/dia. Nesses casos, fracionar 5 a 6 tomadas diárias.
• Considerações: a levodopa é a droga mais potente no tratamento. Tem efeito em todos os
sintomas cardinais da doença. Doses elevadas (maiores que 500 mg/dia) no início do
tratamento estão associadas ao surgimento de discinesias precoces. Efeitos colaterais comuns:
náuseas, vômitos, tonteiras, hipotensão ortostática. No longo prazo, com a evolução da
doença: utuações motoras, discinesias, confusão mental e alucinações.
Agonistas de dopamina
• Cloridrato de pramipexol:
∘ Sifrol® (0,125 mg, 0,25 mg, 1 mg).
∘ Sifrol® ER (0,35 mg, 0,75 mg, 1,5 mg, 3 mg, 4,5 mg).
∘ Doses iniciais: 0,125 mg, 3 vezes por dia – até 4,5 mg/dia.
• Considerações: efeitos colaterais comuns são náuseas, vômitos, tonteiras, hipotensão
ortostática, edema de tornozelo, sonolência diurna, distúrbio do controle dos impulsos e
alucinações (cautela nos pacientes idosos).
Pode ser utilizada em monoterapia ou associada à levodopa, para prolongamento do efeito.
Possui ação antidepressiva.
Inibidores da COMT
• Entacapona: Comtan® (200 mg).
• Doses iniciais: sempre associadas à levodopa em cada tomada, até 2 g/dia.
• Considerações: inibidor periférico da COMT. Utilizada para aumentar o tempo de efeito e a
biodisponibilidade da levodopa. Não apresenta efeito antiparkinsoniano quando utilizada
isoladamente. Efeitos colaterais: potencialização dos efeitos da levodopa (piora das
discinesias, alucinações, confusão mental, hipotensão ortostática, diarreia, náuseas).
MEDICAMENTOS DE SEGUNDA LINHA
Anticolinérgicos
• Triexifenidil:
∘ Artane® (2mg e 5mg)
∘ Doses iniciais: 1 mg 3x/dia até 2 mg 3x/dia
TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
• Biperideno:
∘ Akineton (2 mg), Akineton Retard (4 mg)
∘ Doses iniciais: 2 mg 1 vez por dia, até 12 mg/dia
• Considerações: utilizada em casos selecionados, como nos pacientes jovens, para
tratamento isolado do tremor. Geralmente mal tolerados por idosos. Efeitos colaterais
comuns: xerostomia, dé cit cognitivo, hipotensão postural, constipação, visão borrada,
retenção urinária.
• Piribedil:
∘ Trivastal Retard 50 mg.
∘ Doses iniciais: 50 mg 2 vezes por dia até 300 mg/ dia.
• Considerações: agonista dopaminérgico de menor potência. Possui efeitos no tremor. Efeitos
colaterais comuns: náuseas, vômitos, hipotensão ortostática, edema em tornozelo, sonolência
diurna, distúrbio do controle dos impulsos, alucinações.
• Amantadina:
∘ Mantidan 100 mg.
∘ Doses iniciais: 100 mg, 2 a 3 vezes por dia.
• Considerações: antiviral. Antagonista dos receptores anti-NMDA (antiglutamatérgico),
anticolinérgico e agonista dopaminérgico. Possui efeitos no tremor e ação antidiscinética.
Efeitos colaterais comuns: tonteira, insônia, irritabilidade, livedo reticularis, edema, confusão
mental. Cautela nos pacientes acima de 65 anos, devido ao risco de alucinações.
• Selegilina:
∘ Niar (5 mg).
∘ Doses iniciais: 5 mg, 1 vez ao dia. Até 5 mg, 2x/dia.
• Considerações: inibidor seletivo da MAO-B. Possui efeito antidepressivo. Efeitos colaterais:
insônia, náuseas, alucinações, anorexia, potencial interação com outros antidepressivos e
meperidina.
TRATAMENTO CIRÚRGICO
• Indicações:
∘ Tremor intratável incapacitante.
∘ Flutuações motoras e discinesias incapacitantes e intratáveis, após várias tentativas de
ajuste medicamentoso.
• Contraindicações:
∘ Pacientes com menos de cinco anos de doença.
∘ Demência.
∘ Psicose em atividade.
∘ Depressão não controlada.
∘ Idade maior que 70 anos (relativa).
∘ Distúrbio grave do equilíbrio, que não responde à levodopa.
• Modalidades disponíveis:
∘ Ablativa.
∘ Palidotomia (unilateral).
∘ Talamotomia (em desuso, apenas para tremor intratável, em casos selecionados).
∘ Estimulação cerebral profunda (DBS- Deep Brain Stimulation).
∘ Estimulação do globo pálido interno (unilateral ou bilateral).
∘ Estimulação do núcleo subtalâmico (unilateral ou bilateral).
• Fatores preditores de boa resposta cirúrgica:
∘ Resposta sustentada à levodopa, mesmo que existam utuações motoras durante o dia.
Pacientes jovens, com boa cognição, sem depressão grave, com mais de cinco anos de
doença, sem distúrbio postural grave no máximo do efeito da levodopa, sem disartria
grave. Estima-se que 10% dos pacientes sejam candidatos à cirurgia.