GPS: Clínica Médica

Fernanda Mazza · Capítulo 19 de 96

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Herpes Simples

INTRODUÇÃO

 

O herpes simples é doença infectocontagiosa de etiologia viral, tendo como agente etiológico

duas cepas do vírus herpes simples (HSV): o HSV-1, responsável por 80%-90% das lesões

extragenitais, e o HSV-2, agente da maioria das lesões perigenitais. Entretanto, não é rara a

inversão do sítio de acometimento.

 

CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS

 

O HSV-1 costuma ser adquirido na infância (priminfecção herpética), enquanto o HSV-2 tem como

principal forma de transmissão a via sexual. O contato com lesões ativas do herpes pelas

superfícies mucosas ou das soluções de continuidade na pele é a forma usual de contágio.

Admite-se, no entanto, a participação dos portadores assintomáticos na transmissão do HSV.

Estudos soroepidemiológicos con rmam que mais de 90% da população, em geral na quarta

década de vida, possui anticorpos séricos contra pelo menos uma das cepas do HSV. Após a

infecção primária, o vírus pode car em estado de latência em gânglios, sendo os principais os

gânglios paravertebrais trigeminais (HSV-1) e sacrais (HSV-2). Quando reativado por várias

causas, o vírus migra pelo nervo periférico, retorna à pele ou mucosa e produz a erupção do

herpes simples recidivante. A frequência destas recorrências é variável. Diversos fatores são

capazes de estimular a reativação do HSV, como imunodepressão, alterações hormonais, radiação

ultravioleta (UV), trauma, menstruação e até mesmo manipulação cirúrgica do nervo acometido.

Ansiedade, depressão e distúrbios comportamentais também podem ser implicados. Pacientes

com vírus da imunode ciência humana (HIV) positivos/síndrome da imunode ciência adquirida

(AIDS) ou outra doença imunossupressora podem apresentar manifestações clínicas atípicas e

inusitadas da doença.

 

DIAGNÓSTICO CLÍNICO

As manifestações clínicas do herpes simples dependem, fundamentalmente, do sítio da

inoculação viral, da imunidade do hospedeiro e da cepa viral adquirida. O período de incubação é

de cerca de 7 dias. A característica clínica principal é a formação de vesículas agrupadas, tensas e

brilhantes (lembrando “cacho de uva”) sobre base eritematosa. Pode ser precedida ou ter

concomitância de manifestações prodrômicas, como sensação de parestesia local, discreto prurido

e, por vezes, dor ao longo do trajeto dos nervos proximais.

A priminfecção herpética é, em geral, subclínica e passa despercebida; o indivíduo torna-se

portador do vírus sem apresentar sintomas. Quando sintomático, o quadro clássico de

priminfecção é frequentemente benigno, precedido por febre, cefaleia, mialgias e adinamia,

seguido do aparecimento de máculas eritematosas no local da inoculação após 24 horas,

acompanhada ou não de ardor, prurido e dor. Sobre a base eritematosa surgem vesículas

agrupadas, que erosam em cerca de 4-5 dias. Poliadenopatia regional pode estar presente. A

complicação local mais comum no herpes são as infecções secundárias. Complicações do sistema

nervoso central, menos frequentes, são: meningite, encefalite, radiculopatia, mielite transversa. A

priminfecção pode ter quadro grave em imunodeprimidos. A infecção neonatal caracteriza-se pela

contaminação no momento do parto.

A infecção herpética recorrente manifesta-se, quase sempre, na mesma topogra a, com

localização mais comum nos lábios. As manifestações prodrômicas são mais discretas do que as

observadas na priminfecção, com ardor e dor. Seguem-se eritema e vesículas agrupadas, erosões,

crosta e reparação. A duração de todo o processo é, em média, de 1 semana. Adenite geralmente

está ausente. Neste momento, anticorpos especí cos contra o vírus estão presentes, mas são

incapazes de impedir novas recorrências.

A erupção variceliforme de Kaposi ocorre em pacientes portadores de dermatoses

eritematodescamativas extensas ou doenças que cursem com solução de continuidade da pele. O

herpes simples mucocutâneo, com lesões ulceradas crônicas, principalmente em regiões

anogenital e perigenital, sem tendência à cicatrização e mais de 1 mês de duração, é doença

de nidora de AIDS. O panarício herpético atinge os dedos das mãos e dos pés.

Herpes simples labial.

 

Herpes simples no dorso.

 

Herpes genital.

 

Vesículas agrupadas, aspecto em cacho de uva.

 

DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR

O diagnóstico é eminentemente clínico. Métodos laboratoriais podem auxiliar nos casos atípicos.

A preparação de Tzanck evidencia células gigantes multinucleadas. A avaliação sorológica por

ELISA é o método mais útil na prática de consultório. IgM detecta infecção aguda, enquanto IgG

identi ca a existência de infecção prévia. Outros, como reação em cadeia da polimerase (PCR),

testes imunoenzimáticos e imuno uorescência direta, são usualmente menos disponíveis.

 

TRATAMENTO

 

A terapia antiviral do herpes simples tem como base os análogos de nucleosídeo, tendo o aciclovir

como droga de escolha. O aciclovir é administrado sob a forma de pró-droga inativa, que, após

fosforilação pela enzima timidina-quinase viral, se transforma no composto ativado trifosfato de

aciclovir, capaz de inibir especi camente a replicação do DNA do HSV ao competir com o trifosfato

de desoxiguanosina pela DNA polimerase viral.

A dose preconizada é de 200 mg, 4/4 horas, 5 vezes ao dia, suprimindo a dose noturna. Tem

baixa interação medicamentosa, o que a torna uma droga relativamente segura em pacientes

idosos, hipertensos, diabéticos ou hospitalizados e em uso de prescrição múltipla.

O tempo de tratamento varia de 7 dias para a priminfecção e 5 dias nos casos de recidiva, mas

o tratamento pode ser prolongado até 10 dias.

Outras opções terapêuticas são o valaciclovir (derivado éster L-valina), em dose de 500 mg a

cada 12 horas, e o fanciclovir (análogo purínico), 500 mg, 12/12 horas. A higiene das lesões é feita

com água e sabão e compressas com antissépticos, a m de evitar infecção secundária.

Analgésicos, quando necessários, podem ser administrados de acordo com a intensidade da dor.

Deve-se combater estresse, evitar exposição exagerada ao sol, usar ltro solar, vitamina C (1,0

g/dia) e controlar doenças correlacionadas. O tratamento tópico com aciclovir creme é

questionável. O uso endovenoso do aciclovir, na dose de 10 mg/kg/ dose, administrada de 8/8

horas, está indicado nos casos de priminfecção maligna. A terapia prolongada com aciclovir está

indicada nos casos de recorrência superior a 6 crises/ano, nas manifestações graves da doença,

antes de cirurgia de alto risco e procedimentos estéticos, casos de herpes associado ao eritema

polimorfo, imunodeprimidos e antes de exposição à luz solar. As doses variam de 400 a 600

mg/dia, por períodos superiores a 6 meses.