GPS: Clínica Médica
Hepatite B
INTRODUÇÃO
Há mais de 2 bilhões de pessoas infectadas pelo vírus da hepatite B (HBV) no mundo. Cerca de 400
milhões são portadoras crônicas e 500 mil a 1,2 milhões irão morrer anualmente em
consequência de doença hepática (cirrose e carcinoma hepatocelular) relacionada à infecção pelo
HBV.
FATORES DE RISCO
O período de incubação é de um a quatro meses e a via de transição varia geogra camente. A via
perinatal é comum nas áreas com alta prevalência do HBV em países subdesenvolvidos, como
China e sudeste asiático; nos países desenvolvidos, como Estados Unidos, Canadá e Europa, o
contato sexual e a transmissão percutânea (usuário de drogas via endovenosa – EV) são as formas
mais comuns.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Na hepatite aguda, aproximadamente 70% dos casos são anictéricos ou subclínicos e 30%
ictéricos. A hepatite fulminante ocorre em 0,1% a 0,5% dos casos.
Clínica de anorexia, náusea, icterícia e desconforto no hipocôndrio direito geralmente
desaparece dentro de um a três meses. Em alguns pacientes, a fadiga pode persistir por período
prolongado, mesmo após a normalização das aminotransferases.
Menos de 5% dos adultos infectados com HBV progridem da hepatite aguda para a crônica, e
este número sobe para 90% nos casos da infecção perinatal.
Na hepatite crônica alguns pacientes apresentam sintomas inespecí cos, como fadiga, mas
muitos pacientes são assintomáticos, a menos que progridam para cirrose descompensada ou
manifestações extra-hepáticas. O exame físico pode ser normal ou apresentar estigma de doença
hepática crônica.
As manifestações extra-hepáticas são mediadas por imunocomplexos circulantes e ocorrem
em 10% a 20% dos pacientes com HBV crônico. As duas principais complicações são a periarterite
nodosa, cuja clínica é similar à poliarterite nodosa (PAN)-HBV negativo, e as glomerulonefrites
(membranosa e membranoproliferativa).
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
A concentração das aminotransferases está elevada (1.000 a 2.000 UI) na fase aguda.
Tipicamente, a alanina transaminase (ALT) é maior do que a aspartato transaminase (AST). Nos
pacientes que se recuperam, a normalização das aminotransferases ocorre em um a quatro meses.
A persistência da ALT elevada por mais de seis meses indica progressão para hepatite crônica.
A concentração de bilirrubina pode ser normal na hepatite anictérica. O melhor indicador de
prognóstico é o tempo de protrombina.
Na hepatite crônica os exames laboratoriais podem estar normais, mas muitos apresentam
ALT e AST elevadas. A concentração de alfafetoproteína pode estar elevada, até mesmo em altos
títulos.
Quando há evidências de hiperesplenismo (leucopenia e plaquetopenia) e deterioração da
função hepática (hipoalbuminemia, prolongamento do tempo de atividade de protrombina e
hiperbilirrubinemia) suspeita-se que tenha havido evolução para a cirrose hepática.
MARCADORES SOROLÓGICOS DAS DIFERENTES FASES DAS HEPATITES B AGUDA E
CRÔNICA
IGM IGG
ANTI- ANTI- ANTI- ANTI- HBV
HBSAG HBeAG HBc HBc HBs HBe DNA INTERPRETAÇÃO
Infecção
aguda
+ + + + + + Fase inicial
+ + Janela sorológica
+ + + + − Recuperação
Infecção
crônica
+ + + + + + Replicação
+ + + + − Não replicativo ou baixo
+ + − + + + Agudização do HBV
crônico
+ + + + + Mutante pré-core
− − − + HBV oculto
INTERPRETAÇÃO SOROLÓGICA DA HEPATITE B
TESTES RESULTADO INTERPRETAÇÃO
HBsAg Negativo Suscetível
Anti-HBc Negativo
Anti-HBs Negativo
HBsAg Negativo Imune por infecção
natural
Anti-HBc Positivo
Anti-HBs Positivo
HBsAg negativo Negativo Imunidade por vacinação
Anti-HBc Negativo
Anti-Hbs positivo
HBsAg Positivo Infecção aguda
Anti-HBc Positivo
IgM anti-HBc Positivo
Anti-HBs Negativo
HBsAg Positivo Infecção crônica
Anti-HBc Positivo
IgM anti-HBc Negativo
Anti-HBs Negativo
PROGNÓSTICO E COMPLICAÇÕES
As sequelas da infecção pelo HBV vão do carreador inativo à cirrose, incluindo descompensação
hepática, carcinoma hepatocelular, manifestações extra-hepáticas e morte.
A taxa de progressão em cinco anos é de:
• Hepatite crônica à cirrose: 12% a 20%.
• Cirrose compensada à cirrose descompensada: 20% a 23%.
• Cirrose compensada à carcinoma hepatocelular: 6% a 15%.
TRATAMENTO
O tratamento da hepatite aguda é de suporte.
TRATAMENTO RECOMENDADO
HBeAg-positivo:
Sem cirrose com HBV DNA > 20.000 UI/mL e ALT > 2 x o limite da normalidade. Com cirrose
compensada e nível de HBV DNA > 2.000 UI/mL ou com cirrose descompensada e proteína C-
reativa (PCR) HBV DNA positivo devem ser tratados independente do nível de ALT.
PAN-HBV positivo.
HBeAg-negativo:
Deve ser iniciado quando o diagnóstico de hepatite crônica (ALT > 2 x o limite de normalidade
e HBV DNA > 2.000 UI/mL) é estabelecido.
OPÇÕES DE TRATAMENTO
• Interferon: a vantagem é o tempo de tratamento nito (um ano); as desvantagens são o
custo alto e muitos efeitos colaterais. Em pacientes com cirrose deve ser usado com cautela.
• Lamivudina: a vantagem é o baixo custo; a desvantagem é a resistência de 20% em um
ano e 70% em cinco anos. Em adultos a dose é de 100 mg/dia.
• Adenofovir: a maior vantagem é nos pacientes resistentes à lamivudina; a desvantagem é
a potencial nefrotoxicidade. A dose é de 10 mg/dia.
• Entecavir: as vantagens são a potente atividade antiviral e a baixa taxa de resistência –
importante papel naqueles com cirrose descompensada; a desvantagem é o custo. A dose é
de 0,5 mg/dia e 1,0 mg/dia para aqueles resistentes à lamivudina. Naqueles pacientes com
risco de desenvolver insu ciência renal ou com a mesma já instalada, o entecavir é a melhor
opção.
• Tenofovir: pode ser usado naqueles pacientes virgens de tratamento e nos pacientes que
desenvolveram resistência à lamivudina ou ao entecavir. Taxa de resistência rara após cinco
anos. Dose preconizada de 300 mg/dia.