GPS: Clínica Médica
Hepatite C
INTRODUÇÃO
A infecção crônica pelo vírus da hepatite C (HCV) constitui um importante problema de saúde
pública mundial, com aproximadamente 170 milhões de infectados – dentre os quais cerca de
70% a 90% apresentam infecção crônica. No Brasil, a prevalência varia por região, estimando-se
cerca de 1% a 3% de infectados. Representa a principal causa de cirrose hepática e lidera a lista de
indicações ao transplante hepático. Assim sendo, diagnosticar precocemente e selecionar aqueles
casos que constituem indicação ao tratamento farmacológico é de extrema importância, levando-
se em conta não somente a reconhecida possibilidade de cura (resposta virológica sustentada –
RVS) com os regimes atualmente disponíveis, mas também o impacto social e econômico
negativo de um paciente portador de infecção crônica pelo VHC, que pode evoluir com diversas
complicações da doença e corre risco aumentado de desenvolver carcinoma hepatocelular (CHC).
FATORES DE RISCO
A transmissão do HCV se dá predominantemente por via parenteral. Até 1990, predominou a
transmissão do VHC por sangue ou derivados, além do uso de drogas intravenosas; essa última
forma de transmissão constitui a principal via de contágio nos dias de hoje, considerando a
existência atual de um controle adequado nos serviços de hemoterapia. O risco de transmissão
relacionado a acidentes perfurocortantes, de grande relevância entre os pro ssionais da área de
saúde, é estimado em 0 a 4%, podendo chegar a 10% na existência da alta carga viral. É também
descrita a possibilidade de transmissão por via sexual, o que se dá em menor frequência quando
comparada ao vírus da hepatite B (HBV) e ao vírus da imunode ciência humana (HIV). A
transmissão vertical ocorre em cerca de 5% dos bebês nascidos de mães infectadas pelo HCV, com
elevada carga viral. Como a hepatite crônica por VHC tende a evoluir de modo assintomático ao
longo de anos, identi car à anamnese pacientes com fatores de risco é fundamental, pois permite
diagnosticar precocemente a doença, antes da instalação de cirrose hepática.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Da história natural da doença, sabe-se que cerca de 80% a 90% dos pacientes que se infectam
com o HCV evoluem para hepatite crônica. Na maioria dos casos, a infecção crônica evolui
lentamente ao longo dos anos, havendo risco de cirrose hepática, em geral após 20-30 anos. Nos
etilistas crônicos e em coinfectados com o VHB ou HIV tal evolução pode se dar em intervalo de
tempo substancialmente mais curto. Estabelecida a cirrose, a incidência do CHC é de 1% a 4% ao
ano.
Clinicamente, a doença costuma ser desprovida de manifestações clínicas evidentes e os
pacientes evoluem de modo assintomático ou com sintomas inespecí cos – astenia é o mais
comum deles – fato que di culta o diagnóstico nas fases iniciais. Assim, observa-se
frequentemente uma demanda de doentes que chegam ao ambulatório com diagnóstico casual
de hepatite C (p. ex., após doação de sangue ou em função de alterações veri cadas em exames
laboratoriais de rotina, como elevação assintomática de aminotransferases) ou nos quais a
suspeita clínica surge a partir da identi cação de fatores de risco. Não é incomum que a hepatite C
seja diagnosticada em fase tardia, quando os pacientes apresentam manifestações clínicas
relacionadas ao surgimento de cirrose – ascite, hemorragia digestiva, encefalopatia hepática, p.
ex.
DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR
HEPATOGRAMA E SOROLOGIA
O diagnóstico da hepatite C é dado a partir da positividade do anticorpo contra o HCV (anti-HCV) e
con rmado pela pesquisa do RNA viral, pela técnica da reação em cadeia da polimerase (PCR HCV
RNA). Este último exame é indicativo de replicação viral, revelando infecção ativa em paciente
com hepatite C aguda ou crônica. A determinação qualitativa do PCR HCV RNA con rma o
diagnóstico e, inicialmente, deve ser preferida à avaliação quantitativa, por apresentar maior
sensibilidade. Essa última colabora na avaliação da probabilidade de resposta do paciente
candidato ao tratamento farmacológico e é útil na avaliação da resposta terapêutica. O exame de
genotipagem do HCV complementa a avaliação laboratorial e é útil em de nir a estratégia
terapêutica.
BIÓPSIA HEPÁTICA
A avaliação histológica por biópsia hepática não é fundamental para o diagnóstico da hepatite C
propriamente dita, mas pode ser indicada para avaliar a necessidade de tratamento
farmacológico; estando a brose ausente ou sendo ela discreta (F0-F1, METAVIR), o tratamento
pode não se justi car, em especial quando se pondera seus riscos e custos frente à pouca chance
de resposta. Há, hoje, métodos não invasivos que se propõem à análise indireta da brose
hepática, a exemplo da elastogra a hepática.
TRATAMENTO
OBJETIVOS
Conhecendo o per l evolutivo da hepatite C, ca clara a importância de seu tratamento
adequado, que tem em vista suprimir a replicação viral e interromper a progressão da
hepatopatia. O objetivo nal da terapia farmacológica é alcançar a resposta virológica sustentada
(RVS), caracterizada pela negativação sustentada do PCR HCV RNA 24 semanas após o término do
tratamento, equivalendo à cura da infecção pelo HCV.
TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
O regime de escolha atualmente utilizado é a associação de interferon (convencional [IFN], ou,
preferencialmente, peguilado [PEG-IFN]) e ribavirina (RIB), durante 24 ou 48 semanas,
respectivamente, nos genótipos 2 e 3 ou genótipo 1 e 4. Infelizmente, a combinação PEG-IFN e
RIB ainda não confere chance plena de cura, com índice global de RVS próximo a 50%, além de
cursar com importantes contraindicações e efeitos adversos, que requerem monitoramento
periódico ao longo do período de tratamento. Assim, permanece a busca de novos e potentes
medicamentos que possam vir a aumentar ainda mais a chance de cura dos portadores de
hepatite por HCV.
Os medicamentos de ação direta constituem a estratégia mais recentemente desenvolvida
nesse aspecto, com a introdução dos inibidores de protease boceprevir e telaprevir. Ambos são
utilizados em associação ao PEG-IFN e RIB, constituindo o que se denomina terapia tripla. Em nosso país, essas novas drogas foram registradas na Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) e incorporadas ao arsenal terapêutico do Sistema Único de Saúde (SUS), porém, a
aprovação da terapia tripla foi concedida apenas para monoinfectados pelo HCV, genótipo 1, com
brose avançada (METAVIR F3 e F4) ou cirrose hepática compensada (Child-Pugh ≤ 6).
Considerando o per l de eventos adversos associados aos regimes terapêuticos atuais,
esquemas sem IFN tornaram-se o alvo principal das pesquisas clínicas de novas drogas para o
tratamento da hepatite C crônica e devem estar disponíveis para uso em um futuro próximo.
ESQUEMAS PARA TRATAMENTO DA HEPATITE CRÔNICA POR HCV, DE ACORDO COM
RECOMENDAÇÕES DO MINISTÉRIO DA SAÚDE*
GENÓTIPO VHC ESQUEMA TERAPÊUTICO
Genótipo 1 PEG-IFN alfa-2a, 180 mcg, SC, 1 vez por semana ou PEG-IFN alfa-2b,
1,5 mcg/kg, SC, 1 vez por semana,
associado a
RBV 15 mg/kg/dia, VO (dose diária dividida de 12 em 12 horas)
Genótipo 2 ou 3 INF convencional alfa-2a ou alfa-2b, 3 MUI, SC, 3 vezes por semana
associado a
RBV 15 mg/kg/dia, VO (dose diária dividida de 12 em 12 horas)
*Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para a Hepatite Viral C e Coinfecções, Ministério
da Saúde, 2011. SC: subcutâneo; VO: via oral.
PRINCIPAIS EFEITOS COLATERAIS ASSOCIADOS AO USO DE PEG-IFN E RIB
Leucopenia/Neutropenia
Anemia hemolítica
Trombocitopenia
Fadiga
Depressão e outros transtornos psiquiátricos
Sintomas gripais ( u-like)
Sintomas gastrointestinais: náuseas e anorexia
Sintomas respiratórios: tosse e dispneia
Di culdade no controle de diabetes
Disfunção tireoideana: hiper ou hipotireoidismo
Sinais dermatológicos: rash cutâneo e alopécia
Risco aumentado de alterações fetais congênitas
ÍNDICES DE RESPOSTA VIROLÓGICA SUSTENTADA (RVS) GLOBAL EM PACIENTES COM
HEPATITE CRÔNICA POR HCV
IFN 3 MU 3X/SEM + PEG IFN 1,5
RIBAVIRINA 1,0-1,2 G/D MCG/KG/SEM +
RESPOSTA
RIBAVIRINA 800 MG/D
VIROLÓGICA IFN 3 MU
SUSTENTADA 3X/SEM MANNS* MANNS*
Geral 19 47 54
Genótipo 1 – 33 42
Genótipos 2-3 – 79 82
Genótipos 4-6 – 38 50
*Manns MP et al. Peginterferon alfa-2b plus ribavirin compared with interferon alfa-2b for
initial treatment of chronic hepatitis C: a randomized trial. Lancet. 2001; 358:958.