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Asma
INTRODUÇÃO
Asma é uma doença in amatória crônica caracterizada por hiper-responsividade das vias aéreas
inferiores e por limitação variável ao uxo aéreo, reversível espontaneamente ou com tratamento,
manifestando-se clinicamente por episódios recorrentes de sibilância, dispneia, sensação de opressão
torácica e tosse. Resulta da interação complexa entre genética, exposição ambiental e outros fatores
especí cos que levam ao desenvolvimento e à manutenção dos sintomas.
CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS
A in amação de vias aéreas é a principal característica da asma, sendo um processo multicelular que
envolve principalmente eosinó los, neutró los, linfócitos T CD + 4 e mastócitos. A in ltração
eosinofílica representa a característica mais marcante da in amação. O processo in amatório é
limitado às vias aéreas de condução, mas à medida que a doença se torna mais grave e crônica o
in ltrado in amatório pode se estender tanto para as vias aéreas proximais como para as vias distais,
incluindo as pequenas vias aéreas.
A in amação das vias aéreas, a lesão tecidual e o subsequente reparo anormal causam mudanças
estruturais nas paredes dos brônquios de asmáticos, conhecidas como remodelamento brônquico.
Para melhor entender a asma é preciso conhecer os processos envolvidos em sua de nição.
BRONCOCONSTRIÇÃO
É o achado principal na asma, o que leva aos sintomas. Nos episódios agudos, a contração do músculo
liso brônquico ocorre de maneira súbita em resposta a estímulos alergênicos, resultado de uma reação
IgE-mediada com subsequente liberação de mediadores. Estímulos como exercício e exposição ao frio
podem desencadear broncoconstrição em pacientes suscetíveis e a intensidade da resposta parece
estar relacionada com o grau de in amação ao qual a via aérea está exposta.
EDEMA DAS VIAS AÉREAS
A exposição continuada da mucosa ao processo in amatório resulta em edema das vias aéreas com
hipersecreção e formação de tampões mucosos e alterações estruturais começam a surgir com
hipertro a e hiperplasia do músculo liso.
HIPERRESPONSIVIDADE
A hiper-responsividade resulta de contração aumentada da musculatura lisa do brônquio, do próprio
espessamento exagerado da parede brônquica e da sensibilização das terminações nervosas pela
in amação. Está relacionada com a gravidade da asma, sendo o resultado de interações entre
in amação, disfunção neurorregulatória e alterações estruturais.
REMODELAMENTO
A in amação crônica da asma é um processo no qual existe um ciclo contínuo de agressão e reparo
podendo determinar alterações estruturais das vias aéreas com redução de parâmetros funcionais
eventualmente irreversível. Essa progressão parece ocorrer em alguns pacientes, mesmo em vigência
de tratamento anti-in amatório ou broncodilatador. O aumento da massa do músculo liso das vias
aéreas também está relacionado com o remodelamento.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
O diagnóstico da asma é geralmente clínico, caracterizando-se por dispneia, tosse crônica, sibilância,
sensação de opressão torácica e/ou desconforto torácico, sintomas esses que ocorrem particularmente
à noite ou nas primeiras horas da manhã, de forma episódica e recorrente, com melhora espontânea
ou após o uso de broncodilatadores.
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
O diagnóstico de asma pela espirometria baseia-se em obstrução das vias aéreas, caracterizada por
redução do volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1), e da relação VEF1/capacidade vital
forçada (CVF), que desaparece ou melhora signi cativamente após o uso de agentes ß 2 agonistas de
curta duração (aumento do VEF1 de 7% em relação ao valor previsto e 200 mL em valor absoluto). O
aumento do VEF1 de 20% em relação ao basal é mais que 250 mL em valor absoluto, espontaneamente, no decorrer do tempo ou após uso de corticosteroides (30 a 40 mg/dia via oral, por
2 semanas), também é considerado um critério diagnóstico.
A variação diurna exagerada do pico do uxo expiratório (PFE), caracterizada por uma diferença
percentual média maior que 20% entre a maior de três medidas do PFE, efetuadas pela manhã e à
noite, em um período de 2 a 3 semanas, assim como o aumento de 20% do PFE 15 minutos após o uso
dos agentes ß2 agonistas de curta duração, também são indicativos de asma.
Em indivíduos sintomáticos com espirometria normal e ausência de reversibilidade demonstrável
ao uso de broncodilatador, o diagnóstico pode ser con rmado pela demonstração de hiper-
responsividade das vias aéreas pelo teste de broncoprovocação com agentes broncoconstritores
(metacolina, histamina, carbacol) ou com exercício.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Os principais diagnósticos diferenciais são: anel vascular; fístula traqueoesofágica; incoordenação da
deglutição; massas mediastinais; discinesia da laringe; obstrução alta das vias aéreas; síndrome de
hiperventilação; brose cística; doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) – complexo bronquite-
en sema; insu ciência cardíaca congestiva (ICC); obstrução mecânica das vias aéreas por processo
maligno ou benigno; embolia pulmonar; vasculites (Churg-Straus, poliarterite nodosa e
granulomatose de Wegener); disfunção de cordas vocais; síndrome carcinoide; apneia obstrutiva do
sono; aspergilose broncopulmonar alérgica; infecções virais e bacterianas; bronquiectasias e alveolite
alérgica extrínseca ou pneumonite de hipersensibilidade.
CONTROLE E GRAVIDADE DA ASMA
O controle da asma refere-se à dimensão em que as manifestações clínicas são reduzidas ou
eliminadas pelo tratamento e a classi cação da gravidade a uma característica intrínseca da doença,
de nida pela intensidade do tratamento requerido para manter o controle.
Na avaliação inicial é importante valorizar tanto o controle atual quanto componentes em longo
prazo, também chamados de riscos futuros. Este controle atual consiste em manter o paciente sem
sintomas de asma, com uso mínimo de broncodilatador de alívio, ausência de limitação para
atividades físicas e manutenção de uma função pulmonar com valores próximos da normalidade. Um
segundo objetivo no manejo do paciente com asma é minimizar os riscos futuros, assegurar a
ausência de exacerbações, evitar a instabilidade da doença (repetidos episódios de perda do controle), além de prevenir o declínio acelerado da função pulmonar e evitar efeitos adversos das medicações,
principalmente os corticosteroides.
O controle pode ser alcançado com medicações padronizadas de manutenção, educação do
paciente, controle ambiental e pro laxia de exacerbações.
AVALIAÇÃO DO CONTROLE CLÍNICO ATUAL (PREFERENCIALMENTE NAS ÚLTIMAS QUATRO
SEMANAS)
PARÂMETROS CONTROLADA PARCIALMENTE NÃO CONTROLADA
(TODOS ABAIXO) CONTROLADA (UM (TRÊS OU MAIS
OU DOIS DESTES) DESTES)*+
Sintomas diurnos Nenhum ou ≤ Três ou mais/semana Três ou mais/semana
2/semana
Limitação de Nenhuma Qualquer Qualquer
atividades
Sintomas/despertares Nenhum Qualquer Qualquer
noturnos
Necessidade de Nenhuma ou ≤ Três ou mais/semana Três ou mais/semana
medicação de alívio 2/semana
Função pulmonar (PEF Normal < 80% previsto ou do < 80% previsto ou do
ou VEF1)**± melhor prévio (se melhor prévio (se
conhecido) conhecido)
Avaliação dos riscos futuros: Exacerbações, instabilidade, declínio acelerado da função pulmonar,
efeitos adversos.
Características que estão associadas ao aumento dos riscos de eventos adversos no futuro: mau
controle clínico, exacerbações frequentes no último ano*, admissão prévia em Unidade de Terapia
Intensiva (UTI), baixo VEF1, exposição à fumaça do tabaco e necessidade de usar medicação em
altas dosagens**.
TRATAMENTO
TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO
A orientação é um dos pilares do tratamento da asma. A transmissão de conhecimento e o ensino de
certas habilidades melhoraram o controle da asma e permitem vida normal aos pacientes. Planos de
controle da asma são bem-sucedidos quando o paciente e o médico desenvolvem objetivos comuns
para o tratamento.
A transmissão do conhecimento por parte do médico e da equipe de saúde aos pacientes deve ser
feita por meio de linguagem clara e acessível, com um conteúdo adequado ao público-alvo. O médico
deve ter em mente os seguintes pontos: não sobrecarregar o paciente com muita informação de uma
só vez, mas repetir as mensagens importantes com frequência; revisar e rede nir os objetivos do
tratamento em cada visita, enfatizando os objetivos do próprio paciente para aumentar a adesão. O
paciente deve ter liberdade, até o limite possível, para discutir suas expectativas e decidir se estas são
realistas.
O que deve ser ensinado: O “ABCD” da asma é:
• Saber o que piora a asma e saber como evitar os fatores desencadeantes.
• Usar medicamentos apropriados para o caso e com a técnica adequada.
• Saber como reconhecer quando a asma está saindo de controle e o modo de agir na presença de
uma exacerbação.
• Conhecer os efeitos colaterais dos medicamentos usados e saber como minimizá-los.
Além disso, o médico deve propor um plano de ação que deve ser individualizado. Este envolve:
monitorização dos sintomas da asma, especi cação do tratamento de manutenção, reconhecimento
dos sinais e sintomas precoces de exacerbação, proposta de alteração do esquema terapêutico,
tratamento domiciliar das crises leves e indicações claras de quando procurar um serviço de
emergência.
TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
O tratamento farmacológico da asma é orientado em etapas, com uso de esquemas mais potentes
com o objetivo de obter o controle. No quadro a seguir apresentamos as etapas de tratamento medicamentoso que devem ser adotadas até a obtenção do controle.
ETAPAS DO TRATAMENTO DE MANUTENÇÃO DA ASMA BASEADAS NO ESTADO DE CONTROLE
ETAPAS DE TRATAMENTO
ETAPA 1 ETAPA 2 ETAPA 3 ETAPA 4 ETAPA 5
Educação em asma
Controle ambiental
β2 agonistas de ação rápida, se necessário
Selecione 1 Selecione 1 Adicionar 1 ou Adicionar 1 ou
mais mais
Opção CI baixa dose CI baixa dose + CI moderada ou Corticosteroide
preferencial LABA alta dose + LABA oral dose baixa
Outras opções Inibidores de CI dose Inibidores de Anti-IgE
leucotrieno moderada leucotrienos
CI baixa dose + Teo linas
Antileucotrieno
CI dose baixa +
teo linas
CI: corticosteroide inalatório; LABA: ß2-agonista de longa duração.
Se o controle esperado não for obtido, antes de quaisquer mudanças terapêuticas deve-se considerar
adesão do paciente ao tratamento; erros na técnica de uso dos dispositivos inalatórios; presença de
fatores desencadeantes; comorbidades como rinite persistente, sinusite crônica, doença do re uxo
gastroesofágico, tabagismo e transtornos psíquicos e sociais; além de fenótipo especí co de asma de
difícil controle, como a asma com IgE aumentado, que poderá receber o omalizumabe (anti-IgE). CORTICOSTEROIDES INALATÓRIOS
São considerados o principal grupo de medicamento utilizado no tratamento de manutenção da
asma. Grande parte dos pacientes obtém o controle com doses baixas, enquanto outros necessitam de
doses moderadas para atingir o controle e prevenir asma de exercício. Apenas uma parcela pequena
de pacientes necessita de doses altas. O tratamento de manutenção com corticosteroides inalatórios
(CI) reduz a frequência e a gravidade das exacerbações, o número de hospitalizações e atendimentos
aos serviços de emergência, melhora a qualidade de vida, a função pulmonar e a hiper-reatividade
brônquica e diminui as broncoconstrições induzidas pelo exercício. O controle dos sintomas e a
melhora da função pulmonar podem ocorrer após 1 a 2 semanas de tratamento, enquanto a reversão
da hiper-reatividade brônquica pode necessitar de meses ou anos de utilização. Importante a rmar
que a suspensão do tratamento com CI pode levar à perda do estado de controle da asma. Os efeitos
colaterais sistêmicos observados com utilização de doses altas por tempo prolongado são perda de
massa óssea e inibição do eixo hipotálamo-hipó se-adrenal. Candidíase oral, disfonia e tosse crônica
por irritação das vias aéreas superiores podem ser observadas com qualquer dose e são reduzidas se a
recomendação de higiene oral após o uso for seguida.
EQUIVALÊNCIA DE DOSE DOS CORTICOSTEROIDES INALATÓRIOS UTILIZADOS NO BRASIL
ADULTOS DOSE BAIXA (MCG) DOSE MÉDIA (MCG) DOSE ELEVADA
(MCG)
Beclometasona (BDP) 200-500 500-1.000 > 1.000
Budesonida 200-400 >400-800 > 800-1.600
Ciclesonida 80-160 >160-320 > 320-1.280
Fluticasona 100-250 250-500 > 500-1.000
Mometasona 200 400 800
ß2-ADRENÉRGICOS
Relaxam a musculatura das vias aéreas e inibem a liberação de mediadores dos mastócitos e basó los,
bem como melhoram o batimento mucociliar. Podem ser usados por via oral, injetável ou inalatória,
mas esta última tem o efeito mais rápido e menores efeitos colaterais, sendo a via ideal.
Os ß2-agonistas de curta duração (4-6 horas) são drogas de escolha na fase aguda da asma e na
prevenção da crise induzida pelo exercício. São eles o salbutamol, terbutalina e fenoterol.
Os ß2 de longa duração têm efeito por até 12 horas. São eles salmeterol e formoterol disponíveis
para uso inalatório e o bambuterol por via oral.
ASSOCIAÇÃO CORTICOSTEROIDE INALATÓRIO E ß2-AGONISTA DE LONGA DURAÇÃO
As associações de broncodilatador de longa duração com corticosteroides inalatórios são bastante
e cientes para obtenção do controle. As associações disponíveis no mercado são: uticasona e
salmeterol; budesonida e formoterol, beclometasona e formoterol, mometasona e formoterol.
METILXANTINAS
In vitro, inibem a fosfodiesterase, enzima que catalisa a quebra do AMP cíclico. A sua dosagem é muito
criteriosa e deve ser ajustada a cada caso, como nos pacientes cardiopatas, hepatopatas, fumantes,
crianças e obesos, bem como em pacientes em uso de fenobarbital, rifampicina e fenitoína. Por isso se
recomenda monitorar a concentração de teo lina sérica em pacientes que tenham indicação de uso
prolongado. Quando usada em associação com doses usuais de ß2-agonistas na forma inalatória, as
xantinas podem provocar broncodilatação adicional.
Seus efeitos adversos incluem nervosismo, insônia, tremor, anorexia, náuseas, cefaleia, dispepsia,
palpitações e diarreia (principalmente quando o nível sérico é maior do que 20 mcg/mL).
São representadas pelas teo linas de ação prolongada de 100 mg, 200 mg e 300 mg e bami lina
nas dosagens de 300 mg e 600 mg, com menor incidência de efeitos colaterais.
ANTILEUCOTRIENOS
Têm ação anti-in amatória. Os antagonistas dos receptores de leucotrienos disponíveis são:
za rlucaste e montelucaste. Têm a vantagem de serem ministrados por via oral. Veri cou-se baixa
incidência de efeitos colaterais.
Os trabalhos clínicos demonstraram efetividade na redução de sintomas e melhora da função
pulmonar, com equivalência aos corticosteroides inalatórios de baixa dose. Tem também sido demonstrada efetividade na asma induzida por aspirina e é útil na redução da dose de corticosteroide
necessária para controle de casos persistentes graves.
OMALIZUMABE
Anticorpo monoclonal recombinante humanizado especí co. Sua principal característica é inibir a
ligação da IgE com o seu receptor de alta a nidade (FcεRI) presente em várias células do in ltrado
in amatório que acontece na asma. Ocasiona marcada inibição da broncoconstrição induzida por
alérgeno nas fases precoce e tardia da in amação, da hiper-responsividade das vias aéreas e da
resposta do teste cutâneo induzido por alérgeno. Não há formação de anticorpos antiomalizumabe.
O tratamento com a anti-IgE é indicado para pacientes com asma alérgica de difícil controle. A
dose deve ser adaptada para o peso individual e os níveis de IgE sérica com o objetivo de manter uma
razão constante IgE:anti-IgE. A faixa de IgE sérica indicada atualmente vai de 30 a 1.500 UI/mL em
paciente com peso até de 150 kg.
CLASSIFICAÇÃO DA EXACERBAÇÃO
Por de nição, uma exacerbação, em qualquer semana, é um indicativo de asma não controlada.
EXACERBAÇÃO GRAVE
• Deve incluir pelo menos um dos critérios:
∘ Uso de corticosteroide sistêmico (comprimido, suspensão ou injetável), ou aumento da dose
do corticosteroide de manutenção por pelo menos 3 dias (pulsos de corticosteroide separados
por uma semana ou mais devem ser interpretados como eventos diferentes).
∘ Hospitalização ou ida a um pronto-socorro (PS) por causa da asma, requerendo uso de
corticosteroide sistêmico.
EXACERBAÇÃO MODERADA
• Deve incluir pelo menos um dos critérios abaixo:
∘ Piora dos sintomas respiratórios.
∘ Piora da função pulmonar.
∘ Aumento do uso de bombinha de alívio. Esse quadro deve durar pelo menos 2 dias, mas sem
gravidade su ciente para usar corticosteroide sistêmico.
∘ Ir ao PS e não receber corticosteroide sistêmico deve ser considerado exacerbação moderada.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO DA EXACERBAÇÃO NA EMERGÊNCIA
As crises de asma são caracterizadas por dispneia, sensação de opressão torácica, tosse e sibilos. O
exame físico auxilia na avaliação da gravidade do episódio de insu ciência respiratória obstrutiva
associada à exacerbação dos sintomas, sendo importante ressaltar que a diminuição da ausculta do
murmúrio vesicular e a ausência de ruídos adventícios podem ser sinais indiretos de insu ciência
respiratória na obstrução signi cativa ao uxo aéreo.
• Alguns dados da história do paciente estão associados a um maior risco:
∘ Crise grave prévia com necessidade de internação em unidade de terapia intensiva
ou ventilação mecânica: fatores de risco mais fortemente associados a crises fatais ou
quase fatais.
∘ Três ou mais visitas à emergência, ou duas ou mais hospitalizações por asma no último ano.
∘ Uso frequente de corticosteroide sistêmico.
∘ Uso de dois ou mais frascos de aerossol dosimetrado de broncodilatador por mês.
∘ Problemas psicossociais (p. ex.: ansiedade, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, baixo
nível socioeconômico, di culdade de acesso à assistência, falta de adesão ao tratamento e
tabagismo).
∘ Presença de comorbidades: doença cardiovascular ou psiquiátrica.
∘ Asma lábil, com marcadas variações de função pulmonar (> 30% do PFE ou do VEF 1).
∘ Má percepção do grau de obstrução.
Sendo assim, na história clínica do atendimento de emergência devemos revisar: data do diagnóstico
da asma, comorbidades, medicação de manutenção em uso, visitas ao pronto-socorro no último ano,
internações por asma e necessidade de intubação orotraqueal, uso de corticosteroide oral ou
parenteral/ano, e uso de broncodilatador de alívio no último mês.
Dados objetivos do exame físico auxiliam na classi cação de gravidade, como apresentados no
quadro a seguir.
TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
TRATAMENTO
CLASSIFICAÇÃO DE GRAVIDADE DA CRISE DE ASMA
LEVE MODERADA GRAVE PCR IMINENTE
Geral Normal ou Agitado Agitado Confuso ou
agitado sonolento
Dispneia Com atividade Falando Em repouso
física
Posição corporal Consegue deitar Prefere car Não consegue
sentado deitar
Fala Frases completas Frases Palavras Não consegue
incompletas falar
Frequência Normal ou Aumentada >30 irpm
respiratória aumentada
Musculatura Normalmente Geralmente Utiliza Respiração
acessória não utiliza utiliza paradoxal
Ausculta Sibilos Sibilos Sibilos Sem sibilos
expiratórios expiratórios inspiratórios e
moderados difusos expiratórios
difusos
Frequência < 100 bpm 100-120 bpm > 120 bpm Bradicardia
cardíaca relativa
Pulso paradoxal < 10 mmHg 10-25 mmHg > 25 mmHg
PaO2 Normal > 60 mmHg < 60 mmHg
PaCO2 < 45 mmHg < 45 mmHg > 45 mmHg
VEF1 ou PFE > 80% 60%-80% < 60% < 30%
(previsto)
SpO2 > 95% 91%-95% < 90%
SpO2 = oximetria de pulso.
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL DA EXACERBAÇÃO
Os exames complementares cam reservados para classi car a gravidade e avaliar fatores
precipitantes associados, bem como complicações:
SATURAÇÃO PERIFÉRICA DE O2 (SpO2)
Veri car em todos os pacientes. Nos pacientes adultos, a meta é manter a SpO2 ≥ 92%, sendo que em
gestantes e pacientes com doenças cardiovasculares o objetivo é mantê-la ≥ 95%.
RADIOGRAFIA DE TÓRAX
Solicitar quando a resposta ao tratamento inicial não for adequada, para poder afastar uma
comorbidade que possa estar limitando a resposta ao tratamento. Está, portanto, indicado, se houver
necessidade de internação, nos casos de melhora apenas parcial ao tratamento e na possibilidade de
pneumonia, derrame pleural ou pneumotórax, por exemplo.
GASOMETRIA ARTERIAL
Colher em pacientes com desconforto respiratório importante ou hipoventilação, VEF 1 ou PFE < 30%
do previsto.
HEMOGRAMA
Solicitar se houver suspeita de infecção (febre, tosse com expectoração purulenta).
ELETRÓLITOS
Indicados nos pacientes com necessidade de internação, auxiliando no monitoramento de
complicações do uso de ß2-agonistas (hipocalemia) e na coexistência com doenças cardiovasculares e
uso de diuréticos.
PROVA DE FUNÇÃO PULMONAR E PICO DE FLUXO EXPIRATÓRIO
Importantes no monitoramento do paciente em crise.
ECG
Pode ser solicitado nos casos de pacientes com idade superior a 50 anos, com doença cardíaca ou
concomitância com doença pulmonar obstrutiva crônica.
TRATAMENTO DA EXACERBAÇÃO
O reconhecimento da gravidade de uma crise aguda e a rápida instituição terapêutica aceleram a
recuperação e diminuem a necessidade de internação.
Após a avaliação devemos iniciar terapêutica por via inalatória com ß2-agonistas de curta ação, 4
doses de salbutamol 100 mcg/dose a cada 15 minutos, e observar a resposta. A monitorização do PFE
está indicada e deve objetivar atingir 70% do valor de PFE previsto para o paciente. Se o paciente
estiver exausto ou com cianose e confuso, iniciar oxigenoterapia e cuidados intensivos.
ALGORITMO DE AVALIAÇÃO APÓS O TRATAMENTO INICIAL
Melhora: PFE > 70% Prednisona VO 40 mg no PS
Ausência de sinais de gravidade Prednisona 40 mg VO 5-10 dias
CI (budesonida 400 a 800 mcg/d) + LABA* ou
ß-agonista de curta duração na dependência da
gravidade do caso
Parcial: Manter observação no PS
PFE 50%-70% ß2-agonista a cada 30-60 min até 4 horas
Redução da gravidade Adicionar brometo de ipratrópio
Prednisona VO 40 mg
Ausente ou pequena: Avaliar IRPA/comorbidade
PFE 35%-50% ß2-agonista a cada 20-30 min até 4 horas
Persistência de desconforto respiratório Adicionar brometo de ipratrópio
Corticoterapia sistêmica
Monitoração, nunca sedar
Indicação de suporte ventilatório, se necessário
Piora: Cuidados intensivos
PFE < 35% ou não mensurável Avaliar IRPA/comorbidade
Piora da gravidade Monitoração da IRPA
Corticosteroide parenteral
* “LABA” = ß2-agonista de longa duração.
PS: pronto-socorro; PFE= pico do uxo expiratório; VO: via oral; IRPA: insu ciência respiratória
aguda; CI: corticosteroide inalatório.
ß2-AGONISTAS DE CURTA AÇÃO
São os medicamentos de escolha para alívio dos sintomas de broncoespasmo durante as exacerbações
agudas. O ß2-agonista mais disponível no Brasil é o fenoterol, em aerossol de 100 mcg/dose para uso
com espaçador, ou 10-20 gotas diluídas em 3-5 mL de soro siológico (SF) 0,9% para nebulização. Há
também o salbutamol, em aerossol de 100 mcg/dose ou 10-20 gotas diluídas em 3-5 mL de SF 0,9%
para nebulização. Recomendam-se 3 inalações na primeira hora de admissão no pronto-socorro,
reavaliando, depois, o paciente e a frequência das inalações. Caso seja utilizado o aerossol com
espaçador, é recomendado 4-8 jatos a cada 20 minutos na primeira hora. Os efeitos colaterais mais
frequentes são taquicardia, palpitação, tremores, ansiedade e hipocalemia.
O uso por via parenteral, disponível para terbutalina e salbutamol, é medicação de exceção e está
indicada somente quando o paciente não consegue utilizar a via inalatória, o que é raro. A via
sistêmica acarreta mais efeitos colaterais, sem vantagem em parâmetros clínicos ou funcionais, sendo
reservado para os casos de broncoespasmo grave e na ausência de resposta às medidas inalatórias
(dose intramuscular – IM ou subcutânea – SC: 500 mcg/mL – 150 a 250 mcg).
ANTICOLINÉRGICOS INALATÓRIOS
O brometo de ipratrópio pode ser usado no tratamento das exacerbações graves de asma, associado
ao ß2-agonista de curta duração ou em sua substituição, como no caso em que há arritmia cardíaca como efeito colateral (dose: 40 gotas). Os principais efeitos colaterais são secura da mucosa oral,
glaucoma e retenção urinária. É indicado nas crises graves e muito graves.
GLICOCORTICOIDES SISTÊMICOS
São indicados para as exacerbações que não apresentam boa resposta ao tratamento inicial com
broncodilatadores. Promovem resolução mais rápida da obstrução ao uxo aéreo e diminuem a taxa
de recidiva. Devem ser administrados em pulso para pacientes em tratamento com CI durante a
exacerbação, no momento da alta dos serviços de emergência e após exacerbação grave, em cursos de
5 a 14 dias (dose: 1-2 mg/kg/dia, máximo de 60 mg), sem necessidade de desmame. Os principais
efeitos colaterais ocorrem após o uso prolongado e/ou doses elevadas, destacando-se: hipertensão
arterial, osteoporose, alterações no metabolismo da glicose, retenção de líquidos, fácies cushingoide,
ganho de peso e necrose asséptica da cabeça do fêmur. As doses de glicocorticoides sistêmicos são:
Prednisona: 1-2 mg/kg/dia (40-60 mg), ou prednisolona; metilprednisolona: 40 mg intravenoso (IV)
e, após, 6/6h (evitar doses maiores que 160 mg/dia); hidrocortisona: 200-300 mg IV e, após, 100-200
mg 6/6h (evitar doses maiores que 800 mg/dia).
Após a alta do pronto-socorro, o CI deve ser prescrito em pacientes com asma persistente,
associado ao corticosteroide oral. O paciente também deve ser orientado a procurar o tratamento
regular ambulatorial com especialista o mais rápido possível, preferivelmente em uma semana.
SULFATO DE MAGNÉSIO
Reduz a necessidade de internação nos casos mais graves (VEF1 < 30%, ausência de melhora após a
primeira hora – VEF1 > 60%). Não há efeitos colaterais signi cativos (dose: 1,2-2 g IV em 20-30
minutos).
OXIGÊNIO
Deve ser utilizado nas crises moderadas e graves. Nos pacientes adultos, o objetivo é manter a
saturação arterial de oxigênio ≥ 92%, sendo que em gestantes e pacientes com doenças
cardiovasculares a meta é mantê-la ≥ 95%.
METILXANTINAS
Não há evidências de benefício do seu uso na terapêutica da crise aguda de asma.
SEDATIVOS
Seu uso deve ser criterioso quando não houver necessidade de intubação orotraqueal, já que podem
causar apneia no paciente.
VENTILAÇÃO INVASIVA
Pacientes admitidos com alteração do nível de consciência (agitação ou sonolência), bradicardia ou
iminência de parada cardiorrespiratória devem ser submetidos imediatamente a suporte ventilatório
com ventilação não invasiva ou intubação orotraqueal. Esta também deve ser considerada durante a
evolução clínica do paciente, não devendo ser adiada quando indicada.