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Derrame Pleural
INTRODUÇÃO
O acúmulo de líquido no espaço pleural é condição patológica presente em uma variedade de
doenças, frequentemente causado por enfermidades extrapleurais. O derrame pleural representa
alteração nos mecanismos siológicos de formação ou de drenagem do líquido pleural.
Até 25% dos atendimentos em centros de pneumologia apresentam como meta investigativa-
terapêutica ou achado clínico-radiológico o derrame pleural, e até 15% não apresentarão diagnóstico
etiológico con rmado, mesmo com a abordagem inicial completa.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
ANAMNESE
As principais queixas, como dispneia, dor torácica e tosse, são inespecí cas. A avaliação dos sintomas,
sua intensidade e cronologia são importantes. Devem ser avaliadas a presença de febre, sudorese e
outras queixas sistêmicas. Histórias medicamentosa e ocupacional, bem como anamnese direcionada
para as principais síndromes, também devem ser realizadas.
EXAME FÍSICO
O exame clínico é preferencialmente realizado com o paciente sentado e com o tórax nu. A macicez à
percussão é o achado mais acurado para diagnóstico. O quadro a seguir mostra os possíveis achados,
em geral mais exuberantes quando há maior volume de líquido pleural no hemitórax afetado.
ACHADOS MAIS COMUNS AO EXAME FÍSICO
MANOBRA SEMIOLÓGICA CARACTERÍSTICA
Expansão torácica Diminuída, assimétrica
Frêmito toracovocal Diminuído ou abolido
Percussão convencional Macicez
Percussão auscultada Diminuída na técnica convencional e mudança
para nota aguda no topo do derrame
Ausculta do murmúrio vesicular Abolido
Ausculta de estertores, incluído atrito pleural Por vezes presentes, dependente da etiologia
Ressonância vocal Diminuída ou abolida
DIAGNÓSTICO POR IMAGEM
Os exames de imagem auxiliam na determinação do diagnóstico, na avaliação da magnitude do
derrame, sua localização, distribuição e acessibilidade. Servem ainda para visualização de possíveis
causas e complicações. A radiogra a torácica sempre deve ser solicitada.
RADIOGRAFIA DE TÓRAX
POSTEROANTERIOR E PERFIL
Revela derrames maiores de 200 mL – borramento do ângulo costofrênico. Derrames maiores podem
determinar atelectasia compressiva e eventualmente desvio contralateral da traqueia e do
mediastino. Pode ocorrer padrão de pseudotumor (líquido encistado na cissura) e padrão
subpulmonar (ligamento pulmonar curto e largo).
DECÚBITO LATERAL IPSILATERAL AO DERRAME COM RAIOS HORIZONTAIS
Demonstra líquido livre, sendo importante para orientar a punção e para visualização de pequenos
derrames.
ULTRASSONOGRAFIA DE TÓRAX
Sensibilidade próxima a 100% para visualização do líquido pleural, utilizado para visualização de
pequenos derrames (5 mL), para diferenciação entre componentes líquidos (derrame pleural, abscesso e empiema) e componentes sólidos (massa, espessamento pleural). Utilizado para guiar com
maior segurança a punção de pequenos derrames e derrames loculados.
TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA DE TÓRAX
Melhor método para avaliação de derrames complicados por permitir maior detalhamento anatômico.
Demonstra adequadamente o espaço pleural, parênquima, mediastino e relações vasculares.
Preferencialmente realizada após aspiração, ao menos de parte do derrame pleural. Útil para
demonstrar massas pulmonares, nodularidades pleurais, além de con rmar tromboembolismo
venoso pulmonar (angiotomogra a) e sugerir empiema (realce do contraste).
TORACOCENTESE
INDICAÇÕES
O derrame pleural que apresente uma das condições abaixo deve ser puncionado, desde que haja
possibilidade clínica (coagulação adequada, ausência de extensas lesões cutâneas torácicas) e
radiológica (puncionabilidade). Causa desconhecida, potencial de complicação e derrames muito
sintomáticos, mesmo com etiologia e tratamento já de nidos.
TÉCNICA
Deve ser asséptica e o posicionamento do paciente é importantíssimo, para melhor rendimento da
punção e menores taxas de complicações. Além da investigação pertinente ao caso, deve-se tentar
aspirar volume adicional de líquido para alívio sintomático. A análise começa já durante a aspiração –
aspecto e odor do líquido pleural. Hemotórax e empiema são facilmente identi cados.
TORACOCENTESE PARA O DIAGNÓSTICO DOS DERRAMES PLEURAIS
COMPLICAÇÕES
São raras quando a técnica adequada é respeitada.
PNEUMOTÓRAX SECUNDÁRIO IATROGÊNICO
Punção pulmonar acidental – 5% dos casos, mas somente 2% desses necessitam de intervenção de
drenagem pleural.
EDEMA PULMONAR DE REEXPANSÃO
Pode ser grave tendo como causa a rápida retirada de líquido, especialmente em grandes derrames,
que alteram a negatividade da pressão pleural. Minimizado em caso de uso de pleuromanômetro.
Entretanto, não há base cientí ca para a usual retirada de no máximo 1,5 L por receio do edema de
reexpansão. Tratamento de suporte.
HEMOTÓRAX
Raro, dano à rede vascular intercostal.
DOR CRÔNICA
Rara, dano à rede nervosa intercostal.
DISSEMINAÇÃO DE NEOPLASIA MALIGNA EM TRAJETO DA AGULHA
Raríssima.
FÍSTULA BRONCOPLEURAL
Rara, grande dano punctório em parênquima pulmonar muito comprometido.
AVALIAÇÃO DO LÍQUIDO PLEURAL PELOS CRITÉRIOS DE LIGHT
Os critérios de Light são os mais utilizados e facilmente reprodutíveis. Apresentam sensibilidade de
94% e especi cidade de 74% para o diagnóstico de exsudatos.
PARÂMETROS ANALISÁVEIS NO LÍQUIDO PLEURAL
PARÂMETRO CARACTERÍSTICA
Citologia diferencial Linfocítica: transudatos, tuberculose, neoplasia maligna (sólida e
hematopoiética), quilotórax, doenças autoimunes, sarcoidose
Neutrofílica: derrames relacionados com pneumonia, tuberculose
pleural (primeiros 3 dias), pancreatite aguda
Presença de eosinó los: pneumotórax, hemotórax, asbestose,
reação a fármaco, parasitoses, micoses, raramente em linfoma,
tromboembolismo pulmonar, vasculite de Churg-Strauss
Presença de plasmócitos: mieloma múltiplo e demais
paraproteinemias
Células mesoteliais Presentes na pleura normal e nos transudatos, raras na tuberculose
pleural e no empiema
Citopatológico (pesquisa de Na suspeita de neoplasia maligna
células malignas)
pH pH pleural normal é 7,64; queda do pH (< 7,3) indica consumo
metabólico da pleura, como no derrame parapneumônico
complicado, empiema, extensa carcinomatose pleural ou pleurite
reumatoide
Glicose Glicose pleural normal equivale à sérica, queda da glicose (< 60
mg/dL) também indica consumo metabólico da pleura
ADA (adenosina Classicamente relacionado com tuberculose pleural, com ponto de
deaminase) corte > 40-60 U/L (isoenzima ADA-2); pode elevar-se em empiemas,
malignidades e pleurite reumatoide
Albumina Gradiente do valor sérico menos pleural > 1,2 indica transudato
Amilase Presente na pancreatite, em quadros de agudos e graves abdominais
e em uma minoria dos casos de neoplasia maligna (10%)
Colesterol e triglicerídeos Diferenciação entre quilotórax e pseudoquilotórax
Células nucleadas Transudatos: < 10.000/µL
Exsudatos: > 10.000/µL
Estudos imunológicos Na suspeita de doenças autoimunes
TRANSUDATOS
São os derrames pleurais pobres em proteína, não in amatórios e sem capacidade de loculação.
Costumam ter coloração amarelada e pálida, sendo principalmente linfocíticos. Quando volumosos,
causam dispneia e restrição. Não causam febre nem dor pleurítica. A causa mais comum de derrame
pleural é a insu ciência cardíaca congestiva.
PRINCIPAIS CAUSAS DE DERRAME PLEURAL TRANSUDATIVO
DIAGNÓSTICO CARACTERÍSTICA
Insu ciência cardíaca congestiva Geralmente bilateral, congestão pulmonar ou sistêmica
associada
Cirrose (hidrotórax hepático) Casos avançados, predomínio à direita, relacionado com
ascite
Síndrome nefrótica e insu ciência Geralmente pequeno e bilateral
renal
Hipoalbuminemia Pequeno e bilateral, outros sítios de edema, albumina
sérica < 1,6 g/dL
Atelectasia Pequeno, causado pelo aumento da pressão negativa
pleural
Diálise peritoneal Volumoso, à direita, até 48h após diálise peritoneal
Pericardite constritiva Derrame bilateral, área cardíaca normal
Urinotórax Unilateral, por uropatia obstrutiva, única causa
transudativa de pH baixo
Pulmão encarcerado Unilateral, por alteração nas pressões hidrostáticas por
processo in amatório prévio
Obstrução de veia cava superior Hipertensão venosa aguda grave ou obstrução linfática,
geralmente relacionada com malignidade primária
pulmonar
Fístula dural-pleural Líquor no espaço pleural, ß2-transferrina positiva no
líquido pleural
EXSUDATOS
A presença de ao menos um dos três critérios diagnostica exsudato. Resultados limítrofes diminuem
sua acurácia para 80%. Nesses casos, análises repetidas e aferição de outros marcadores, como o
gradiente de albumina, especialmente em usuários de diurético, são úteis. Raramente um derrame
exsudativo apresentará proteína menor de 3 g/dL.
CRITÉRIOS PARA O DIAGNÓSTICO DE EXSUDATOS
CARACTERÍSTICAS
Proteína do líquido / Proteína sérica > 0,5
LDH do líquido / LDH sérico > 0,6
LDH do líquido > 2/3 do limite superior da normalidade do LDH sérico
LDH: lactato desidrogenase.
Os exsudatos são derrames in amatórios. Podem ser infecciosos, neoplásicos, autoimunes, entre
outros. Empiema e derrames malignos podem tornar-se hipertensivos. Os principais exsudatos são
exempli cados a seguir.
CAUSAS MAIS COMUNS DE DERRAMES PLEURAIS EXSUDATIVOS
DIAGNÓSTICO CARACTERÍSTICAS CARACTERÍSTICAS CLÍNICA TRATAMENTO
GERAIS DO LABORATORIAIS
LÍQUIDO PLEURAL
Derrame Amarelo, âmbar, Neutrofílico, pH > Dor pleurítica, Antibiótico
parapneumônico raramente turvo 7,3; LDH pode estar febre
simples elevado, glicose >
60 mg/dL
Derrame Amarelo, âmbar, Neutrofílico, pH < Dor pleurítica, Antibiótico e
parapneumônico pode ser turvo 7,2; LDH > 1.000 febre drenagem pleural
complicado U/L; glicose < 60
mg/dL
Empiema Pus, turvo, restos Neutrofílico, Dor pleurítica, Antibiótico e
celulares, odor intensa destruição febre drenagem
pútrido celular, germe pleural, por vezes
(anaeróbios) identi cado no descorticação
cultivo do líquido pulmonar ou
outros tipos de
cirurgia
Tuberculose Amarelo, âmbar Linfocítico, células Dor pleurítica, Tuberculostáticos,
pleural mesoteliais < 5%; febre raramente há
ADA > 40 U/L; necessidade
BAAR positivo em cirúrgica
2%-7% das
pesquisas,
aumento de
rendimento na
cultura
Neoplasia maligna Sero-hemático, por Linfocítico, células Dispneia, Quimioterapia
vezes âmbar mesoteliais > 5%; restrição para tumores
citopatológico sensíveis,
positivo em 55% pleurodese para
dos casos alívio de
sintomas –
usual-mente
talcagem pleural
Tromboembolismo Hemático (60%), Celularidade Dor pleurítica, Anticoagulação
pulmonar amarelo (40%) variável dispneia, plena, suporte
taquicardia, ventilatório
hemoptise
Quilotórax Leitoso Linfocítico, Dispneia, Dieta pobre em
triglicerídeos > 110 desnutrição, gorduras, com
mg/dL; presença de relação com triglicerídeos de
quilomícrons ruptura de cadeia média,
ducto torácico, nutrição
linfomas parenteral, tratar
doença de base,
octreotida,
cirurgia
Pleurite lúpica Amarelo Linfocítico, Dor pleurítica, Analgesia, tratar
presença de células pode haver a doença de base
LE e FAN febre e
dispneia
Pleurite Esverdeado- Linfocítico, pode Assintomático, Tratar a doença
reumatoide amarelado, haver queda do pH menos de base
descamação e glicose provavelmente
pleural dispneia,
febre, tosse e
dor pleurítica
Pancreatite aguda Amarelado Neutrofílico, Assintomático, Tratar a doença
aumento de dispneia, de base
amilase do líquido geralmente à
pleural em relação esquerda
à sérica
Hemotórax Hemático Hematócrito do Dor, dispneia, Drenagem
líquido > 50% do geralmente torácica, por
hematócrito sérico traumático ou vezes
iatrogênico necessidade de
procedimento de
maior porte
Síndrome da unha Amarelado, pode Linfocítico Unhas Tratar doença de
amarela ser leitoso amareladas e base (autoimune,
espessadas, neoplásica,
derrame congênita), por
pleural (pode vezes pleurodese
ser quiloso), e shunt
linfedema pleuroperitoneal
Abscesso hepático “pasta de Exsudato Dispneia, Metronidazol, por
amebiano roto anchovas”, marrom tosse, dor vezes drenagem
pleurítica na torácica
ruptura
LDH: lactato desidrogenase; ADA: adenosina desaminase; BAAR: bacilos álcool-acidorresistentes; LE:
lúpus eritematoso; FAN: fator antinúcleo.
BIÓPSIA PLEURAL FECHADA COM AGULHA DE COPE OU DE ABRAMS
A biópsia de pleura pode ser realizada logo após a toracocentese diagnóstica e antes do alívio
sintomático da aspiração do derrame pleural. Realizada também sob anestesia tópica, obtém
fragmentos da pleura parietal. Mais útil em doenças com característica de reação pleural difusa, como
nas granulomatosas – especialmente tuberculose, e atualmente controversa para diagnóstico de
comprometimentos pleurais anatomicamente mais localizados, como na malignidade.
Acrescenta 5% de rendimento diagnóstico quando aliada à toracocentese, que já costuma render
diagnóstico em 85% dos casos de tuberculose pleural e 55% de carcinomatose pleural. Aumenta o
risco de hemopneumotórax e de dor pós-procedimento.
PLEUROSCOPIA
Procedimento cirúrgico que permite aumentar o rendimento diagnóstico quando a toracocentese ou
toracocenteses repetidas não forem efetivas. Alia um endoscópio à instrumentação pleural,
preferencialmente por videocirurgia. Permite ampla visualização da cavidade pleural, múltiplas
biópsias das pleuras parietal e visceral, além de intervenções como lise de aderências, talcagem
pleural e avaliação do parênquima pulmonar adjacente. Necessita anestesia geral e drenagem pleural
fechada ao nal do procedimento.
TRATAMENTO
Consiste em dois pilares fundamentais: alívio sintomático e tratamento da causa da doença. Sempre
que possível, deve ser realizado alívio sintomático do derrame pleural, aspirando-se quantidade maior
que a alíquota a ser enviada ao laboratório. O prognóstico está diretamente relacionado com a doença
de base.
Derrames tipo transudato costumam regredir após tratamento da doença de base e
diureticoterapia.
Dos derrames relacionados à pneumonia, os parapneumônicos simples não necessitam de
tratamento além da antibioticoterapia. Os complicados devem ser drenados, bem como os empiemas
pleurais. Em caso de grande loculação ou resposta inadequada à antibioticoterapia e drenagem
pleural, a pleuroscopia ou intervenção cirúrgica aberta devem ser realizados.
Tuberculose pleural deve ser tratada com esquema básico de tuberculostáticos.
Derrames malignos poderão ser tratados com pleurodese, especialmente talcagem via dreno
torácico ou pleuroscopia, em casos de recidiva e restrição por dispneia. Algumas neoplasias malignas,
primariamente de mama e alguns casos de carcinoma brônquico, podem responder à quimioterapia.
Hemotórax deve ser drenado.
Doenças autoimunes geralmente respondem ao tratamento sistêmico.
DERRAME PLEURAL SEM ETIOLOGIA DEFINIDA
Em até 15% dos derrames pleurais, mesmo após detalhada investigação, incluindo procedimentos
invasivos com análise de citologia e histologia, o diagnóstico não é con rmado. Em caso de melhora
sintomática, regressão do derrame pleural e ausência de in ltrado pulmonar ou nodularidade pleural,
o diagnóstico provavelmente será de benignidade. Em caso de não resolução ou recidiva, malignidades como carcinomas e linfomas, ou doenças como tromboembolismo pulmonar, infecção
fúngica e tuberculose são mais prováveis.