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Epilepsia
INTRODUÇÃO
Epilepsia é um transtorno neurológico, caracterizada por manifestações clínicas paroxísticas e
recorrentes, que ocorrem pela ativação anormal, excessiva e sincrônica de muitos neurônios
cerebrais. As manifestações clínicas podem ser caracterizadas por alterações de funções sensitivas,
motoras, autonômicas, de comportamento e/ou de consciência e são denominadas crises
epilépticas. É necessária a ocorrência de mais de uma crise não provocada, com intervalo superior
a 24 horas, para se estabelecer o diagnóstico clínico de epilepsia. Apresenta incidência de cerca de
0,5% a 2% na população geral; pode ter início em qualquer idade, porém 75% surge com menos
de 20 anos (principalmente anterior aos 10 anos de idade) e apresenta mortalidade cerca de duas
a três vezes maior do que na população em geral.
PERÍODOS RELACIONADOS ÀS CRISES DE EPILEPSIA
Os períodos das crises podem ser subdivididos em:
• Período ictal: é o período no qual ocorre a crise propriamente dita, e apresenta duração
variável, dependendo do tipo de crise; seu início e término podem, no entanto, ser de difícil
determinação clínica.
• Período pós-ictal: é o período compreendido entre o nal de uma crise até o retorno do
paciente à sua condição normal de base; em alguns tipos de epilepsia (como na epilepsia do
lobo temporal, p. ex.), pode ser acompanhado por manifestações clínicas, como confusão pós-
ictal.
• Período interictal: é o período no qual o paciente está livre de crises.
• Estado de mal epiléptico: estado de mal epiléptico ou status epilepticus é uma emergência
médica, com taxa de mortalidade de cerca de 15% a 20% em adultos, de nida como um
estado no qual o paciente apresenta crises recorrentes, sem recuperação da consciência entre
elas, ou apresenta uma crise de longa duração (pelo menos 30 minutos, pela de nição
antiga).
Mais recentemente, admite-se que, se um paciente apresentar uma crise epiléptica com duração
superior a cinco minutos, o estado de mal epiléptico deve ser considerado, porque muito
provavelmente não apresentará melhora espontânea e esse tempo já é su ciente para gerar dano
cerebral, tanto quanto uma crise de maior duração.
Em pacientes com epilepsia, o estado de mal epiléptico geralmente é precipitado por retirada
abrupta de droga antiepiléptica (DAE) ou doença intercorrente. De acordo com a apresentação
clínica, pode ser classi cado em convulsivo e não convulsivo.
CLASSIFICAÇÃO DAS CRISES EPILÉPTICAS E EPILEPSIAS
As crises epilépticas podem ser de origem generalizada (primária ou secundária) ou focal (com ou
sem generalização secundária). De acordo com classi cação proposta pela Liga Internacional
Contra Epilepsia (International League Against Epilepsy – ILAE), em 2010, as crises generalizadas
primárias teriam origem não em todo o cérebro, mas em redes de neurônios que rapidamente
distribuiriam as descargas bilateralmente, não necessariamente incluindo o córtex inteiro,
podendo mesmo ser assimétricas.
Para ns didáticos, no entanto, consideram-se crises generalizadas primárias aquelas que
têm origem generalizada em ambos os hemisférios cerebrais e são acompanhadas por perda de
consciência desde o início. Representam cerca de 40% de todas as crises epilépticas.
CRISES GENERALIZADAS PRIMÁRIAS
Podem ser:
• Crises tônico-clônicas generalizadas (em qualquer combinação): crises que evoluem
clinicamente a partir de atividade motora tônica, clônica e/ou tônico-clônica.
• Crises de ausência: podem ser típicas ou atípicas. As crises de ausência típicas ocorrem na
infância e são caracterizadas por breves lapsos de consciência, com duração de poucos
segundos, que podem ocorrer várias vezes ao dia, com pouca ou nenhuma manifestação
motora e sem confusão pós-ictal. As alterações ao eletroencefalograma (EEG) caracterizam-se
por descargas generalizadas e sincrônicas de complexos espícula e onda ritmados a 3,0 Hertz
(Hz) ou ciclos por segundo. As crises de ausência atípicas ocorrem geralmente em indivíduos
mais velhos, apresentam duração maior das crises e são mais frequentemente acompanhadas
por manifestações motoras. A ILAE reconhece ainda mais dois tipos de crises de ausência com
características especiais: crises de ausência mioclônicas e ausência com mioclonias palpebrais.
Eletroencefalograma de paciente de 9 anos de idade, evidenciando descargas generalizadas e
sincrônicas de complexos espícula e onda ritmados a 3,0 Hz.
• Crises mioclônicas: caracterizadas por contrações únicas ou em sucessão, com sensação
súbita de choque pelo corpo. Na epilepsia mioclônica juvenil (EMJ), na qual podem ocorrer,
além das mioclonias (geralmente sem perda de consciência), crises de ausência e/ou crises
tônico-clônicas generalizadas, mais frequentes ao despertar, o EEG tipicamente apresenta
descargas generalizadas de complexos espícula e onda irregulares, ritmados a cerca de 4,0 Hz
a 6,0 Hz, que podem ser precipitados pela fotoestimulação intermitente. As crises mioclônicas
podem ser classi cadas também como atônicas e tônicas.
Eletroencefalograma de paciente com epilepsia mioclônica juvenil, evidenciando descargas
generalizadas de complexos espícula e onda irregulares, precipitados pela fotoestimulação
intermitente.
• Crises clônicas: manifestadas por contrações sincrônicas e quase rítmicas, podendo ser
simétricas e bilaterais, de extremidades superiores e inferiores, geralmente com exão dos
cotovelos e extensão dos joelhos.
• Crises tônicas: manifestadas por aumento súbito e sustentado do tônus muscular, podendo
ocorrer o chamado grito epiléptico, por causa da saída forçada do ar pelas cordas vocais em
adução.
• Crises atônicas: são episódios de queda, que ocorrem por causa da perda súbita do tônus
muscular.
CRISES FOCAIS
Crises focais teriam sua origem primariamente dentro de redes de neurônios limitadas a um
hemisfério cerebral, podendo ser bem localizadas ou mais espalhadas, com generalização
secundária ou não. Nas crises de início focal, pode ou não ocorrer prejuízo da consciência. De
acordo com a ILAE – 2010, as crises de início focal devem ser descritas de acordo com o grau de
prejuízo que ocorre durante a crise, como descrito a seguir.
CRISES SEM PREJUÍZO DA CONSCIÊNCIA (ANTES DENOMINADAS CRISES
PARCIAIS SIMPLES)
• Com componentes motores ou autonômicos: crises focais motoras ou crises focais
autonômicas.
• Com sintomas sensoriais subjetivos ou fenômenos psíquicos: auras.
CRISES COM PREJUÍZO DA CONSCIÊNCIA (ANTES DENOMINADAS CRISES
PARCIAIS COMPLEXAS)
Conhecidas como ‘‘crises discognitivas’’. As crises discognitivas podem ser acompanhadas de
automatismos, que são movimentos repetitivos, de um ou mais membros, boca, movimentos
mastigatórios, que se assemelham a movimentos voluntários e, geralmente, estão relacionados à
epilepsia do lobo temporal (“crises com automatismos típicos do lobo temporal”).
CRISES SECUNDARIAMENTE GENERALIZADAS
Crises evoluindo para crises convulsivas bilaterais com componentes tônicos, clônicos ou tônico-
clônicos. As crises de início focal, com ou sem prejuízo da consciência podem evoluir para crises
secundariamente generalizadas.
ESPASMOS EPILÉPTICOS
O termo espasmos epilépticos foi incluído pela ILAE e engloba os espasmos infantis (reconhecidos
previamente). Como não há, até o momento, conhecimento su ciente para classi car os
espasmos como de início focal, generalizado ou ambos, a ILAE classi couos em um grupo próprio,
de modo de início “desconhecido”.
ETIOLOGIA
Epilepsia surge a partir de funções desordenadas cerebrais, que podem ser primárias do cérebro
ou secundárias a uma variedade de processos patológicos, como alterações metabólicas, infartos
cerebrais, tumores, infecções, traumas ou outras condições com risco aumentado de
desenvolvimento de epilepsia. A ILAE classi ca as causas de epilepsia como:
• Genéticas: resultantes de um defeito genético conhecido ou presumido e relacionadas a
causas primárias, geralmente associadas à história familiar de epilepsia.
• Estruturais e/ou metabólicas: relacionadas a causas secundárias, como acidentes
vasculares cerebrais, tumores, traumas, infecções etc.
• Desconhecidas: podem estar relacionadas a defeitos genéticos ou ser a consequência de um
transtorno ainda não conhecido.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
O diagnóstico de epilepsia é essencialmente clínico e a investigação inicial geralmente é su ciente
na maioria dos casos, pois cerca de 60% a 80% dos pacientes apresentam bom controle das crises
com DAE.
ANAMNESE
A investigação de pacientes com epilepsia inicia-se com a realização de anamnese, durante a qual
tenta-se estabelecer as características semiológicas das crises da maneira mais detalhada possível
e busca-se antecedentes relacionados às condições de gestação e parto, desenvolvimento
neuropsicomotor, convulsões febris na infância, infecções, traumatismos cranianos, história
familiar de epilepsia, etilismo crônico, fatores precipitantes ou desencadeantes de crises etc.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
EXAME NEUROLÓGICO
Na tentativa de se identi car possíveis dé cits neurológicos focais que possam corresponder a
alterações estruturais intracranianas.
DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR
• Exames de sangue: hemograma completo; bioquímica do sangue (incluindo dosagens de
sódio, potássio, cálcio, magnésio e fosfatos); funções renal e hepática.
• EEG: o ECG interictal de rotina é realizado com os objetivos principais de corroborar o
diagnóstico clínico de epilepsia, auxiliar na classi cação da desordem epiléptica e prover
informações prognósticas em alguns casos. Ele pode ser normal no período interictal (cerca de
10% dos pacientes com epilepsia têm EEG repetidamente normais), o que não invalida o
diagnóstico clínico de epilepsia.
Atividade epileptiforme interictal (caracterizada pela presença de espículas e/ou ondas
agudas, seguidas ou não de ondas lentas e fortemente associadas à epilepsia) pode ter projeção
focal ou generalizada, dependendo do tipo de epilepsia.
A monitorização por videoeletroencefalogra a (videoEEG) permite correlacionar o registro
eletroencefalográ co com as manifestações clínicas apresentadas pelo paciente, por meio da
análise simultânea do EEG e das imagens obtidas em vídeo do comportamento clínico, e está
especialmente indicada para pacientes com epilepsia de difícil controle, suspeita de crises
pseudoepilépticas e candidatos à cirurgia da epilepsia.
• Neuroimagem: os exames de neuroimagem incluem a tomogra a computadorizada (TC) e,
especialmente, a ressonância magnética (RM) do crânio.
A RM é importante na detecção de atro a hipocampal (relacionada à epilepsia do lobo
temporal por esclerose hipocampal) e apresenta sensibilidade superior à TC na detecção de lesões
tumorais intracranianas.
No Brasil, porém, devido à prevalência de neurocisticercose, a TC desempenha papel
importante na detecção de possíveis lesões calci cadas, não bem visualizadas à RM.
Exames de neuroimagem funcional, como a tomogra a por emissão de pósitrons (PET) e a
tomogra a por emissão de fóton único (SPECT), estão relacionados ao estudo do metabolismo
cerebral e ao uxo sanguíneo cerebral regional, respectivamente, na tentativa de se localizar a
zona epileptogênica (porção de córtex cerebral cuja ressecção é necessária e su ciente para o
controle da maioria das crises do paciente), e estão particularmente indicados para os casos de
pacientes candidatos à cirurgia da epilepsia.
TRATAMENTO
As DAE devem ser escolhidas de acordo com o tipo de crise descrito pelo paciente, familiares ou
testemunhas e o EEG pode também auxiliar na classi cação do tipo de crise (especialmente nas
epilepsias generalizadas, como EMJ e ausências, p. ex.). Os objetivos do tratamento com DAE são reduzir a frequência e a severidade das crises, ao ponto de elevar ao máximo a qualidade de vida
dos pacientes, tanto do ponto de vista físico, quanto psicológico e social.
DROGAS MAIS UTILIZADAS PARA CADA TIPO DE CRISE
CRISES GENERALIZADAS PRIMÁRIAS
• Crises com componentes tônicos, clônicos ou tônico-clônicos: valproato, lamotrigina,
fenobarbital, topiramato, levetiracetam, clonazepam (droga adjuntiva).
• Crises de ausência: valproato (especialmente se houver associação com crises tônico-
clônicas generalizadas), etosuximida, lamotrigina.
• Crises mioclônicas: valproato, lamotrigina, topiramato, clonazepam (droga adjuntiva).
CRISES DE INÍCIO FOCAL, COM OU SEM GENERALIZAÇÃO SECUNDÁRIA
Carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína, valproato, topiramato, lamotrigina, clobazam (droga
adjuntiva).
PRINCÍPIOS DO TRATAMENTO
O tratamento deve ser iniciado em monoterapia com drogas de primeira linha para cada tipo de
crise, até se atingir bom controle das crises e não ultrapassar a dose máxima diária recomendada
ou a dose tolerada pelo paciente. Pacientes do sexo feminino em idade fértil devem fazer uso
concomitante de ácido fólico, para prevenção de possíveis efeitos teratogênicos das DAE. Convém
destacar que algumas drogas, como carbamazepina, oxcarbazepina e fenitoína, podem piorar
certos tipos de crises generalizadas primárias, especialmente crises mioclônicas e de ausência.
Pacientes que apresentam controle total das crises, especialmente em monoterapia com DAE, em
geral com exame neurológico normal, com poucas alterações ao EEG e exames de imagem
normais, podem ser candidatos à retirada de DAE após um período de tratamento de dois a cinco
anos, dependendo também do tipo de epilepsia (pacientes com EMJ di cilmente cam livres de
crises após a retirada de DAE).
Quando não se atinge controle adequado após dois ensaios, em monoterapia, com DAE
consideradas de primeira linha em altas doses, e um ensaio com terapia combinada, por um período de um a dois anos, epilepsia de difícil controle é considerada. Nesses casos deve-se
realizar investigação subsequente, com monitorização prolongada por video-EEG, neuroimagem
funcional e avaliação neuropsicológica, visando a investigar a possibilidade de crises
pseudoepilépticas, classi car os tipos de crises e síndromes epilépticas, estabelecer a frequência
das crises, seus fatores precipitantes, proporcionar melhor adequação terapêutica medicamentosa
e investigar a zona epileptogênica em pacientes candidatos à cirurgia da epilepsia. Epilepsia
mesial do lobo temporal com esclerose hipocampal, p. ex., apresenta refratariedade ao
tratamento com DAE em cerca de 50% dos casos, e cerca de 70% a 80% dos pacientes
selecionadas apresentam bom controle das crises quando submetidos à cirurgia da epilepsia
(amigdalo-hipocampectomia).
TRATAMENTO DO ESTADO DE MAL EPILÉPTICO
Pacientes que desenvolvem estado de mal epiléptico, sobretudo convulsivo, são abordados em
sala de emergência, inicialmente com medidas de ABC e cuidados de suporte, com especial
atenção à permeabilidade de vias aéreas e ventilação adequada, monitorização cardíaca e
controle de sinais vitais, correção de distúrbios metabólicos e eletrolíticos, além do uso de
fármacos para o controle da atividade epiléptica, pesquisa de infecções e realização de TC do
crânio.
A maior parte das epilepsias apresenta bom prognóstico, com controle total das crises com
DAE ou mesmo tratamento cirúrgico. Causas relacionadas ao aumento da mortalidade em
epilepsia incluem, principalmente, epilepsias graves, secundárias ou não a uma doença de base,
crises de difícil controle medicamentoso, desenvolvimento de estado de mal epiléptico, assim
como risco aumentado de acidentes e traumatismos.