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Síndromes Coronarianas Agudas
INTRODUÇÃO
Existem duas formas de apresentação das síndromes coronarianas agudas (SCA): a síndrome
coronariana com supra de segmento ST e a sem elevação do segmento ST.
A principal diferença de siopatologia entre as duas é a presença de oclusão total do vaso
culpado na SCA com supra de ST, enquanto nas SCA sem supra de ST a artéria culpada apresenta-
se subocluída.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
O fator preditor mais importante na avaliação de um paciente com dor torácica é a característica
da dor. Além disso, ao se analisar a história clínica do paciente, a presença de fatores de risco para
doença arterial coronariana também é um fator para esse diagnóstico.
A dor anginosa típica costuma ser de caráter opressivo, muitas vezes com irradiação para
membro superior esquerdo ou mandíbula. Pode estar associada a náuseas, vômitos e sudorese.
Muitas vezes, esses pacientes têm história prévia de dor anginosa precipitada por exercício; isto é,
angina estável, mas isso nem sempre acontece.
A dor torácica pode ser dividida, de forma didática, em dor tipo A ou de nitivamente
anginosa; dor tipo B ou provavelmente anginosa; tipo C ou provavelmente não anginosa; e tipo D,
de nitivamente não anginosa. Um paciente admitido com dor torácica só deve ter alta hospitalar
após a primeira avaliação se houver outra causa diagnosticada para esta dor. Todo paciente com
dor torácica típica ou de natureza duvidosa deve permanecer em repouso em unidade de
emergência/dor torácica, onde deve realizar eletrocardiogramas seriados com intervalo de 6 em 6
horas e curva de marcadores de necrose miocárdica.
Os achados de exame físico dos pacientes admitidos com SCA podem ser bastante
inespecí cos. No caso de infarto agudo do miocárdio (IAM), pode-se auscultar B4. A ausculta
pulmonar deve buscar de nir se há congestão pulmonar, achado que pode ser encontrado em
casos de IAM. Pacientes com dispneia, sopro cardíaco novo, instabilidade hemodinâmica ou
arritmias devem ser tratados de maneira agressiva e, possivelmente, encaminhados à
coronariogra a de imediato.
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
Quando admitimos um paciente com IAM com supra de ST, não devemos esperar o resultado das
enzimas cardíacas para a tomada de decisão. Neste caso, a presença de dor anginosa e o
eletrocardiograma evidenciando supra de ST são su cientes para a de nição de uma estratégia de
reperfusão. As enzimas cardíacas devem ser coletadas, porém o resultado será checado
posteriormente.
Pacientes com quadro de dor torácica devem coletar troponina e CKMB fração massa na
admissão. Quando a CKMB massa não estiver disponível, deve-se utilizar a CKMB, menos
especí ca do que a fração massa. Devem ser realizadas três coletas desses marcadores, com
intervalo de 6 horas entre elas. A diferença na caracterização entre um quadro de angina instável
e um IAM sem supra ST é a presença da troponina positiva.
A troponina geralmente começa a elevar-se 4 horas após o início dos sintomas, com pico em
24 horas e meia-vida em torno de 7 a 10 dias. A CKMB massa eleva-se entre 2 a 4 horas após o
início da dor, com pico entre 12 a 24 horas, durando até 72 horas.
É prudente também coletar hemograma e bioquímica de pacientes admitidos com dor
torácica anginosa.
DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR
A realização de eletrocardiograma e marcadores enzimáticos de forma seriada está indicada nos
pacientes admitidos com dor torácica.
O primeiro eletrocardiograma deve ser realizado no máximo 10 minutos após a chegada do
paciente ao hospital.
A radiogra a de tórax deve ser solicitada sempre que houver suspeita de outro diagnóstico,
como dissecção aórtica ou pneumonia. Além disso, deve ser feita sempre que o paciente
apresentar dispneia ou ausculta para congestão pulmonar.
O ecocardiograma pode ser realizado e auxilia na avaliação da função ventricular e na
presença de disfunção segmentar ao ecocardiograma, o que pode ajudar no diagnóstico de IAM.
ELETROCARDIOGRAMA (ECG)
Na SCA sem supra de ST, podemos ter eletrocardiogramas com a presença de infradesnível do
segmento ST, inversão de onda T com característica de simetria e, em até 50% dos casos,
eletrocardiogramas com alterações inespecí cas da repolarização ventricular.
Eletrocardiograma. A. IAM com supra ST. B. SCA sem supra ST com infra ST. C. SCA sem supra ST com
inversão de T.
TRATAMENTO
CONDUTA NA SCA COM SUPRADESNÍVEL DE ST
Na admissão de um paciente com SCA com supra de ST, deve-se lembrar que o ponto mais
importante do tratamento é a reperfusão do vaso culpado, visto que existe oclusão total do
mesmo com posterior necrose miocárdica transmural, caso não haja reperfusão nas primeiras
horas do IAM.
CORONARIOGRAFIA
Nos pacientes com quadro de SCA com supra de ST, a estratégia de realização de coronariogra a
seguida de angioplastia primária deve ser utilizada caso o hospital disponha de um laboratório de
hemodinâmica, com intervencionista acessível.
Caso isso não seja possível, deve-se fazer uso dos trombolíticos assim que o supra de ST for
identi cado no eletrocardiograma. Entretanto, pacientes admitidos com instabilidade clínica, seja
por congestão pulmonar, dor refratária ou arritmias, devem ser encaminhados preferencialmente
à angioplastia primária.
TROMBOLÍTICOS
Nas primeiras 3 horas do IAM com supra de ST, os trombolíticos mostraram-se tão e cientes
quanto a angioplastia primária, porque o trombo ainda não se organizou, porém, quanto mais o
tempo passa, mais favoráveis são os resultados da angioplastia em relação à trombólise.
Os trombolíticos derivados da brina devem ser de escolha, caso estejam disponíveis. No
Brasil, temos a tenecteplase e a alteplase. Caso não estejam disponíveis, deve-se fazer uso da
estreptoquinase.
As doses para sua utilização são as citadas abaixo:
Tenecteplase
0,53 mg/kg/dose IV em bolus lento.
Alteplase
15 mg de dose de ataque, seguida da dose de 0,75 mg/kg em 30 minutos (máximo de 50 mg) e,
posteriormente, 0,5 mg/kg em 1 hora (máximo de 35 mg).
Estreptoquinase
Apresenta maior incidência de eventos hemorrágicos, porém está indicada caso os outros
trombolíticos não estejam disponíveis. Sua dose é de 1.500.000 unidades em 1 hora.
CONTRAINDICAÇÕES ABSOLUTAS AO USO DE TROMBOLÍTICOS
Qualquer sangramento intracraniano
AVC isquêmico nos últimos meses
Dano ou neoplasia no sistema nervoso central
Trauma signi cante na cabeça ou rosto nos últimos três meses
Sangramento ativo ou diástese hemorrágica (exceto menstruação)
Qualquer lesão vascular cerebral conhecida (malformação arteriovenosa)
Suspeita de dissecção de aorta
Obs.: Lembrar que idade não é mais limitante para trombólise.
OUTRAS DROGAS
Além da reperfusão do vaso culpado, deve-se lembrar que outras classes de drogas estão
indicadas em pacientes com IAM com supra de ST.
Antiagregantes plaquetários
• Ácido acetilsalicílico (AAS): 200 mg na admissão, seguidos de 100 mg/dia posteriormente.
• Clopidogrel: dose de ataque de 300 mg, seguida de 75 mg/dia. Para pacientes submetidos à
angioplastia, a dose de ataque de 600 mg mostrou-se e caz em reduzir trombose de stent
após o procedimento em pacientes que não utilizavam a droga previamente.
As duas drogas devem ser associadas.
Dois novos antiplaquetários estão disponíveis no Brasil e podem substituir o clopidogrel
nesses pacientes: o prasugrel e o ticagrelor.
O prasugrel mostrou-se e caz em reduzir trombose de stent em pacientes após IAM, além de
reduzir desfechos, especialmente no subgrupo de pacientes diabéticos, porém com elevação do
risco hemorrágico, e está contraindicado para pacientes com idade superior a 75 anos, história
prévia de acidente isquêmico transitório (AIT) ou acidente vascular encefálico (AVE) e peso
corporal abaixo de 60 kg. Sua dose é de 60 mg de ataque, seguida de 10 mg/dia.
O ticagrelor mostrou-se superior ao clopidogrel sem uma elevação signi cativa do risco
hemorrágico. Tem sido bastante utilizado na SCA e está contraindicado em pacientes com
bradiarritmias e broncospasmo prévio. Sua dose de ataque é de 180 mg, seguida de 90 mg de 12
em 12 horas.
O AAS deve sempre ser prescrito na admissão desses pacientes, exceto se houver alergias. E
deve ser associado um segundo antiplaquetário, que pode ser um dos três citados acima,
dependendo do per l de cada paciente.
Antitrombínicos
Pacientes encaminhados prontamente à angioplastia primária não precisam manter
anticoagulação após o procedimento caso o vaso culpado esteja aberto.
Pacientes submetidos à trombólise devem manter anticoagulação após a trombólise, que
deve ser iniciada após queda da relação do PTT para abaixo de 2,0.
A heparina de baixo peso molecular mostrou-se superior à heparina não fracionada (HNF) em
pacientes com SCA e deve ser utilizada na dose de 1 mg/kg/dose, de 12 em 12 horas.
Em pacientes com idade superior a 75 anos, a enoxaparina deve ser utilizada na dose de 0,75
mg/kg/dose, de 12 em 12 horas, e pacientes com clearance de creatinina abaixo de 30 mL/min
devem usar a dose de 1 mg/kg/dia.
A HNF deve ser priorizada para pacientes clinicamente instáveis, pois pode ser antagonizada
caso seja necessário. Além disso, a HNF apresenta mais segurança para o paciente portador de
insu ciência renal crônica (IRC) e também para pacientes com peso corporal acima de 100 kg.
Sua dose de ataque é de 80 U/kg, seguida de 18 U/kg/h de manutenção.
O fondaparinux está disponível no Brasil e pode ser utilizado na SCA na dose de 2,5 mg
subcutânea (SC), 1 × dia, com excelente per l e cácia-segurança, causando menos eventos
hemorrágicos, porém aumenta o risco de trombose de cateter na sala de hemodinâmica, não
sendo assim a heparina de escolha de grande parte dos intervencionistas.
Estatinas
A atorvastatina mostrou redução da mortalidade em pacientes com SCA e deve ser iniciada nas
primeiras 24 horas, na dose de 80 mg/dia, sendo utilizada quando não houver contraindicações.
Anti-hipertensivos
Os inibidores da enzima conversora da angiotensina (ECA) e os betabloqueadores devem ser
utilizados para os pacientes que apresentem estabilidade clínica dentro das primeiras 24 horas.
Outros
Os nitratos não reduzem mortalidade na SCA, porém devem ser utilizados para alívio dos
sintomas.
Em ambiente no qual haja telemetria e monitorização sistemática da pressão arterial, deve-se
utilizar a nitroglicerina na dose de 5 mcg/min até 200 mcg/min. A solução mais usada é a diluição
de uma ampola de 5 mL em 245 mL de soro, com uma relação de 5 mcg/min em cada 3 mL/h da
solução.
Mor na em doses baixas e benzodiazepínicos podem ser utilizados para ansiólise. A mor na
tem o benefício de reduzir a dor com posterior redução da pressão arterial e frequência cardíaca.
CONDUTA NA SCA SEM SUPRADESNÍVEL DE ST
AVALIAÇÃO PELO TIMI RISK
Pacientes admitidos com SCA sem supra de ST devem ser avaliados pelo escore TIMI RISK para
avaliação de prognóstico. Pacientes com TIMI RISK intermediário ou elevado devem ser
encaminhados à coronariogra a, e aqueles com TIMI RISK baixo podem ser estrati cados com
métodos funcionais.
CORONARIOGRAFIA
Os estudos mostram que, nos pacientes com SCA sem supra de ST em que optamos por
coronariogra a, esta deve ser realizada em um período de 12 horas a 48 horas. Pacientes com
instabilidade clínica devem ser encaminhados à coronariogra a imediatamente.
TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
O que diferencia a angina instável do IAM sem supra de ST é a presença de troponina positiva. Do
ponto de vista de tratamento, seguimos uma sequência semelhante.
Todos os pacientes devem ser medicados com dupla antiagregação (doses citadas na SCA com
supra de ST).
A anticoagulação está indicada em todos os pacientes, exceto se houver contraindicações.
Devem ser prescritos estatina, betabloqueadores, inibidores da ECA e nitratos, conforme
citado anteriormente. Lembrar que inibidores da ECA e betabloqueadores são medicações que
devem ser utilizadas nas primeiras 24 horas, caso haja estabilidade clínica.
Importante ressaltar que o controle do duplo produto na SCA é fundamental para redução do
consumo miocárdico no momento de isquemia. A nitroglicerina ajuda na redução da pressão
arterial (PA) de forma rápida, e podemos utilizar os betabloqueadores por via endovenosa, caso
sejam necessários. Temos disponível o metoprolol, ampola com 5 mg, dose máxima de 15 mg (5
mg a cada 5 minutos) em infusão lenta. O metoprolol é uma droga de meiavida longa, portanto,
não deve ser utilizado em pacientes com qualquer sinal de instabilidade. O esmolol é um
betabloqueador de meia-vida de aproximadamente 10 minutos, portanto, deve ser utilizado em
pacientes em infusão contínua, quando buscarmos redução da frequência cardíaca (FC), porém
com receio de congestão pulmonar ou bradicardia.