GPS: Clínica Médica

Fernanda Mazza · Capítulo 16 de 96

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Escabiose

INTRODUÇÃO

 

Doença tão antiga quanto a própria humanidade, a primeira referência à escabiose foi feita na

obra “Etimologiae”, do santo Isidoro de Sevilla, no ano 579 d.C. Em 1073, o médico Aben Zohr a

caracterizou como doença parasitária, mas somente em 1687 os médicos Giovanni Cosimo

Bonomo e Diacinto Cestoni descrevem o Sarcoptes no livro “Osservazioni intorno a Pelicelli del

corpo umano”.

Tem como sinonímia: sarna (Brasil), seven-year itch (América do Norte) e escabiosis

(Colômbia).

 

CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS

 

Tem como etiologia o ácaro Sarcoptes scabiei, variedade hominis.

Distribuição cosmopolita podendo acometer todas as faixas etárias, sendo mais comum em

crianças, idosos e de cientes mentais, sem predileção entre os sexos. São considerados fatores

predisponentes aglomerados, higiene inadequada e promiscuidade.

O mecanismo de contágio é dado pelo contato direto com a pele, roupas e outros objetos

infectados. A forma crostosa possui maior infectividade.

O ciclo do parasita tem início com a penetração da fêmea na pele, abrindo um túnel e

produzindo 1 a 4 ovos por dia. Após eclosão dos ovos, o parasita adulto desenvolve-se em 10 a 14

dias e sobrevive por 4 a 6 semanas.

 

DIAGNÓSTICO CLÍNICO

 

A característica clínica mais evidente é o prurido intenso, com recrudescência à noite, tanto pelo

efeito mecânico do parasita quanto pela resposta imune do hospedeiro.

O diagnóstico é essencialmente clínico. Deve-se considerar os dados históricos, como prurido

intenso noturno, presença de sintomas em outros membros da família, bem como observação do

“túnel ou galeria” ao exame físico.

 

SARNA CLÁSSICA

 

Pápulas, escoriações e formação de galerias ou túneis, que consistem em linhas elevadas,

tortuosas, de 2 a 3 mm de longitude, que são pouco perceptíveis pelo olho não treinado. Podem

ocorrer pústulas e vesículas. As lesões acometem dorso das mãos e dos pés, punho, cotovelo, axila,

região inguinal, região inframamária, tronco, nádegas e porção interna das coxas.

 

Escabiose nas mamas.

 

Escabiose na área da virilha.

Lesões escoriadas de escabiose.

 

SARNA CROSTOSA OU NORUEGUESA

 

É uma dermatite psoriforme das mãos e dos pés, com unhas distró cas. Essas lesões têm grande

quantidade de ácaros e são altamente contagiosas. Pode-se suspeitar de imunossupressão nesses

doentes.

 

SARNA NODULAR

 

Apresenta lesões nodulares eritematopurpúricas, altamente pruriginosas, mais frequentemente

nas áreas genital, inguinal e axilar.

 

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL

 

A identi cação do ácaro permite o diagnóstico de nitivo. Pode ser realizada por: raspado das

lesões em lâmina montada em óleo de imersão (prova de Muller); “ácaro teste”; microscopia de

epilumiscência com dermatoscópio; teste de coloração dos túneis com azul de metileno; e biópsia

para estudo histopatológico.

Histopatologicamente, além da identi cação do ácaro, observam-se hiperqueratose, acantose,

rica in ltração de eosinó los e edema.

 

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

 

O diagnóstico diferencial deve ser feito com todas as dermatoses que cursam com prurido,

incluindo dermatite atópica, dermatite de contato, prurigo estrófulo, urticária papular, eczema

asteatótico, dentre outras afecções.

 

COMPLICAÇÕES

 

Infecção bacteriana secundária é a mais frequente.

 

TRATAMENTO

A abordagem terapêutica envolve orientação sobre medidas gerais de higiene, abordagem dos

contatos prolongados, alívio do prurido e instituição de drogas escabicidas tópicas ou sistêmicas.

O tratamento deve ser repetido após 1 semana, objetivando eliminar os ácaros após sua

eclosão, já que os medicamentos utilizados não possuem atividade ovicida e caz.

 

MEDIDAS GERAIS

 

As roupas de uso pessoal e de cama devem ser lavadas e passadas a ferro quente, sendo

desnecessária a imersão em água fervente.

 

ABORDAGEM DOS CONTATOS PROLONGADOS

 

Tratar todos os indivíduos que estejam em contato prolongado com o paciente, mesmo que sejam

assintomáticos, visando estabelecer pro laxia e evitar a reinfecção.

 

ALÍVIO DO PRURIDO

 

O prurido pode permanecer por semanas após o tratamento. Nesses casos, pode-se utilizar

corticosteroides tópicos (como valerato de betametasona 0,03%, 2 vezes ao dia) ou anti-

histamínicos (como hidroxizina 0,5-0,6 mg/kg à noite).

 

TRATAMENTO TÓPICO

 

PERMETRINA 5%

Droga de escolha. São recomendadas 2 a 3 aplicações à noite, seguidas por segunda aplicação

após 7 dias. Devese aplicar em todo o corpo, abaixo do pescoço, exceto em crianças e

imunode cientes, nos quais a cabeça deve ser incluída. O uso em recém-nascidos menores de 2

meses, grávidas e nutrizes é desancoselhado.

 

MONOSSULFIRAM 25%

Diluir na proporção de 1 parte do medicamento em 2 a 3 partes de água para adultos e 3 a 4

partes de água para crianças, com aplicação semelhante à da permetrina. Deve-se orientar o

paciente a abster-se de bebidas alcoólicas durante e após 10 dias do tratamento, pelo potencial

efeito antabuse.

BENZOATO DE BENZILA 10%-25%

É a substância ativa do bálsamo-do-peru, atualmente em desuso pelos efeitos adversos que

provoca, como irritação primária, xerose e piora do prurido.

 

ENXOFRE PRECIPITADO (5%-10%) EM VASELINA LÍQUIDA OU PASTA D’ÁGUA

Tratamento de escolha para menores de 2 meses, grávidas e lactantes. A aplicação deve ser

semelhante à da permetrina.

 

LINDANO 1% (GAMA-HEXA-CLORO-CICLO-HEXANO)

No Brasil, tem comercialização proibida, em virtude dos relatos de neurotoxicidade e pela

associação com aumento de tumores no sistema nervoso central, sobretudo em crianças.

 

TRATAMENTO SISTÊMICO

 

• Ivermectina: usada em dose única. Um comprimido de 6 mg para cada 30 kg de peso,

repetido após 1 semana. Não é indicada para crianças com menos de 15 kg, lactantes e

pacientes com alteração da barreira hematoencefálica.