GPS: Clínica Médica

Fernanda Mazza · Capítulo 80 de 96

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GPS: Clínica Médica

Doenças Pulmonares Intersticiais Difusas

INTRODUÇÃO

 

As doenças pulmonares intersticiais difusas (DPID) são heterogêneas com características clínicas,

siológicas, radiográ cas e patológicas comuns. Diversas doenças agudas e crônicas, com vários graus

de brose, são descritas nesse grupo. Embora muitas dessas doenças envolvam o espaço alveolar, os

vasos e os bronquíolos, elas são agrupadas sob a designação de doenças pulmonares intersticiais.

Existem muitas causas de DPID, mas um pequeno número de condições é responsável pela maioria

dos casos, dentre esses, brose pulmonar idiopática (FPI), pneumonia de hipersensibilidade (PH),

sarcoidose, pneumonia intersticial não especí ca (associada ou não às colagenoses), doenças

ocupacionais, pneumonia em organização e bronquiolites.

O diagnóstico diferencial é de extrema importância para que o manejo seja adequado, mesmo

que, em alguns casos, a resposta ao tratamento seja pobre e o prognóstico reservado.

 

ETIOLOGIA

 

As DPID podem ter causas conhecidas ou desconhecidas. A gura a seguir mostra as principais

entidades que compõem o grupo de DPID.

Classi cação das doenças pulmonares intersticiais utilizada nas Diretrizes de Doenças Pulmonares

Intersticiais da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

 

CARACTERÍSTICAS DAS DPID MAIS COMUNS

 

IDADE

 

Em pacientes com idade abaixo de 50 anos, a sarcoidose e as colagenoses são as DPID mais comuns, e,

em pacientes com mais de 50 anos, a brose pulmonar idiopática predomina.

 

SEXO

 

As doenças ocupacionais e a paracoccidioidomicose são muito mais comuns em homens. A

linfangioleiomiomatose ocorre exclusivamente no sexo feminino.

 

HISTÓRIA FAMILIAR

Associações familiares têm sido identi cadas em algumas doenças comuns, como FPI e sarcoidose. A

pneumonia de hipersensibilidade também pode acometer indivíduos de uma mesma família, em

razão da exposição a um antígeno comum no ambiente doméstico.

 

TABAGISMO

 

Várias DPID estão diretamente relacionadas com o tabagismo, como bronquiolite respiratória,

pneumonia descamativa e histiocitose pulmonar de células de Langerhans. O tabagismo também é

fator de risco para FPI; já a PH é incomum em fumantes.

 

EXPOSIÇÃO AMBIENTAL E OCUPACIONAL

 

Diversas exposições ambientais e ocupacionais associam-se com DPID, por isso, a história de todas as

ocupações e possíveis exposições no ambiente doméstico é fundamental. As pneumoconioses

(decorrentes da inalação de poeiras inorgânicas) mais comuns são a silicose e a asbestose. A silicose

decorre mais frequentemente, de exposição em indústrias cerâmicas, de abrasivos, construção de

estradas e túneis, jateamento de areia, corte e moagem de pedras, pedreiras, fundições e escavação

de poços. A asbestose ( brose pulmonar por exposição a bras de asbesto) decorre, mais comumente,

de trabalho na indústria de brocimento (80%), fabricação de telhas e caixas-d’água, fricção (10%),

como embreagem, lonas e pastilhas de freio, e outras (10%), como mineração.

 

EXPOSIÇÃO A DROGAS

 

Mais de 400 fármacos podem resultar em DPID. Algumas drogas, principalmente os quimioterápicos,

podem causar toxicidade pulmonar semanas ou anos após a sua cessação, como podem ter a sua

toxicidade aumentada se houver exposição a altas frações de O 2. Os fármacos que mais comumente

resultam em DPID são: amiodarona, antibióticos, anti-in amatórios não esteroides (AINE), drogas

(nitrofurantoína e nilutamida) e antineoplásicos (bleomicina, bussulfano, clorambucil, ciclofosfamida,

MTX, mitomicina e nitrosureias). Os quadros podem ser agudos ou crônicos. As apresentações

histológicas são variáveis e, em geral, inespecí cas.

 

DIAGNÓSTICO CLÍNICO

O diagnóstico de DPID baseia-se em uma história clínica detalhada, dados de exame físico, exames de

imagem, avaliação funcional e exames laboratoriais.

Na ausência de quadro infeccioso ou neoplásico, pode-se diagnosticar DPID como uma síndrome

caracterizada por dispneia inicialmente ao exercício; in ltrado pulmonar intersticial bilateral,

demonstrado pela radiogra a de tórax; distúrbio ventilatório restritivo, acompanhado de redução da

capacidade pulmonar de difusão do monóxido de carbono (DLco); anormalidade do gradiente

alveoloarterial de oxigênio (P[A-a]O2) ao repouso ou após exercício e achados histopatológicos

in amatórios e de brose.

Considerando a diversidade de entidades que causam DPID, a história e o exame físico devem ser

cuidadosamente realizados e avaliados. Exposição ocupacional/ambiental, uso de medicações,

tabagismo, sintomas articulares, são situações que devem ser priorizadas na anamnese.

Geralmente, o curso clínico das DPID é crônico, sendo a dispneia e a tosse seca as principais

queixas. Pode, entretanto, ocorrer apresentação aguda (dias a semanas), subaguda (semanas a

meses) ou recorrente.

 

Os aspectos do exame físico que devem ser salientados são o baqueteamento digital e os achados de

ausculta pulmonar.

• Baqueteamento digital: é encontrado em 30% a 50% dos casos de brose pulmonar idiopática

e em casos de pneumonia de hipersensibilidade crônica, o que se correlaciona com pior

prognóstico.

• Ausculta pulmonar: estertores nos, profusos e intensos (em velcro), audíveis nas bases

pulmonares, indicam, em geral, doenças brosantes, tais como pneumonia intersticial usual,

inespecí ca com brose e pneumonia de hipersensibilidade crônica. São incomuns nas doenças

pulmonares granulomatosas. Outro ruído adventício de destaque são os grasnidos. São sons

semelhantes aos emitidos pelas gaivotas, audíveis ao nal da inspiração. Indicam bronquiolite e

doença peribronquiolar, sendo importante achado na pneumonia de hipersensibilidade.

 

Os pacientes com DPID podem apresentar queixas de comprometimento sistêmico antes dos sintomas

respiratórios. Entretanto, em algumas doenças do colágeno, o quadro pulmonar pode preceder em

meses ou anos a manifestação da doença reumática. Em todo paciente com DPID de causa inaparente,

achados de colagenoses devem ser pesquisados, especialmente em mulheres com menos de 50 anos

de idade. Eles englobam rigidez matinal prolongada, edema articular, fenômeno de Raynaud, fotossensibilidade, rash facial, olhos secos, boca seca, úlceras orais/genitais, edema mãos/braços,

engrossamento da pele, ulcerações nos dedos, disfagia/pirose, di culdade para levantar da cadeira,

subir escadas ou pentear os cabelos.

Sintomas de re uxo gastroesofágico sugerem esclerodermia, doença mista do tecido conjuntivo

e bronquiolite obliterante com pneumonia organizada (BOOP) ou brose pulmonar por aspiração.

 

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL

 

Os exames laboratoriais geralmente trazem poucas informações na investigação das DPID. Exames de

rotina incluem hemograma, eletrólitos séricos, ureia e creatinina, elementos anormais do sedimento

(EAS), testes de função hepática, cálcio sérico e, em casos selecionados, a detecção de autoanticorpos

e outros.

A eosino lia pode estar presente na pneumonia eosinofílica, na sarcoidose, na toxicidade a

drogas e nas vasculites. Hipercalcemia pode ser encontrada na sarcoidose e na linfangite

carcinomatosa, nesta, como síndrome paraneoplásica. A enzima conversora de angiotensina não é

especí ca para sarcoidose e não deve ser usada isoladamente para decisões terapêuticas. A pesquisa

de autoanticorpos deve ser realizada na suspeita de associação com doença do colágeno. Entretanto,

títulos baixos de fator antinúcleo (FAN) e fator reumatoide (FR) são inespecí cos. Na suspeita de

vasculite, a dosagem de anticorpo anticitoplasma de neutró lo (ANCA) deve ser solicitada. Pesquisa

de precipitinas para antígenos de mofos e pássaros não é disponível no Brasil.

 

Nas doenças agudas, de até 3 semanas de evolução, causas infecciosas são frequentemente

consideradas e tratadas empiricamente. A bronco broscopia com biópsia transbrônquica e o lavado

broncoalveolar podem dar informações relevantes tanto nas doenças infecciosas, como nas não

infecciosas. Caso a resposta não seja adequada, e os dados obtidos pela broncoscopia sejam

inconclusivos, a indicação de biópsia pulmonar cirúrgica deve ser rapidamente considerada para

permitir o diagnóstico e tratamento de diversas entidades, especialmente as de apresentação aguda

com rápida evolução para insu ciência respiratória, tais como a pneumonia intersticial aguda

idiopática (síndrome de Hamman-Rich), pneumonia em organização criptogênica, pneumonia

eosinofílica aguda, pneumonia de hipersensibilidade, toxicidade pulmonar por drogas e vasculites.

 

DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR

RADIOGRAFIA DE TÓRAX

 

É o primeiro exame de imagem para investigação das DPID. Entretanto, tem limitações, podendo ser

normal em 10% a 15% dos pacientes sintomáticos. Nas doenças brosantes, nas fases mais

avançadas, além do in ltrado reticular difuso e faveolamento, pode-se observar diminuição dos

volumes pulmonares associada à distorção parenquimatosa. A presença de in ltrado reticular difuso,

com preservação de volumes pulmonares ou mesmo sinais de hiperinsu ação, deve levar à suspeita

de doença cística ou de doença que resulta em obstrução ao uxo aéreo ou en sema associado.

 

TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA DE ALTA RESOLUÇÃO (TCAR)

 

Apresenta sensibilidade de 94% e especi cidade de 96% na detecção das DPID, podendo ser

considerada a macroscopia pulmonar. É utilizada também como guia de tipo e local da biópsia, e,

eventualmente, acrescenta informações quanto à atividade da doença e seu prognóstico.

O reconhecimento dos principais padrões tomográ cos (consolidações, vidro fosco, padrão

reticular, nodular, cístico, em mosaico) e sua distribuição (central ou periférica; unilateral ou bilateral;

terço superior, médio ou inferior) auxilia a estreitar os diagnósticos diferenciais das DPID. De modo

geral, as doenças granulomatosas, como a sarcoidose e a silicose, predominam em lobos superiores.

As doenças brosantes, como FPI, asbestose e doenças pulmonares intersticiais associadas às

colagenoses, predominam em lobos inferiores.

Algumas DPID envolvem mais as regiões medulares dos pulmões (paracoccidioidomicose,

hemorragias alveolares, edema pulmonar), enquanto outras afetam a periferia dos pulmões (FPI,

pneumonia eosinofílica crônica, BOOP e outras).

Outros achados associados devem ser observados: derrame pleural é encontrado em

colagenoses, lesões por drogas ou, mais comumente, na carcinomatose linfática. Também podem ser

observadas placas pleurais acompanhando a asbestose, sendo conclusivas para o diagnóstico.

Os padrões tomográ cos reticulares nas DPID podem ser classi cados em septal e não septal. O

padrão reticular septal apresenta espessamento dos septos interlobulares (linhas de Kerley). É

observado no edema intersticial pulmonar, na carcinomatose linfática e em diversas outras condições,

como na sarcoidose. O padrão reticular não septal (irregular) indica, em geral, brose intralobular,

sendo típico das doenças intersticiais brosantes, tais como FPI, PH crônica, pneumonia intersticial

inespecí ca e outras. Nódulos e árvore em brotamento indicam envolvimento bronquiolar in amatório ou infeccioso. Espaços císticos são observados em diversas condições, especialmente na

granulomatose de células de Langerhans, linfangioleiomiomatose e pneumonia intersticial linfoide.

Faveolamento indica doença brosante em fase avançada. Consolidação refere-se ao aumento da

atenuação do parênquima pulmonar com perda das silhuetas vasculares. Nas opacidades em vidro

fosco, os vasos de fundo permanecem visíveis. Essas opacidades re etem doenças intersticiais ou de

preenchimento alveolar incompleto. Consolidação e vidro fosco sugerem doença não brosante,

devendo o diagnóstico histológico ser buscado em razão de maior chance de tratamento bem-

sucedido.

Diversas DPID têm aspecto tomográ co altamente sugestivo, permitindo imediata suspeita

diagnóstica. Na FPI, existem opacidades lineares irregulares (padrão reticular) de distribuição em

crescente na região subpleural e predominando nas bases, além de faveolamento. Na pneumonia de

hipersensibilidade aguda ou subaguda, nódulos centrolobulares mal-de nidos são característicos,

podendo se associar a áreas de vidro despolido e áreas com aprisionamento de ar, re etindo a

bronquiolite.

Na sarcoidose, além de adenomegalias hilares e mediastinal, pode haver distribuição de nódulos

ao longo de feixe broncovascular e nas regiões subpleurais.

 

ECG E ECOCARDIOGRAMA COM ESTIMATIVA DA PRESSÃO DA ARTÉRIA PULMONAR

 

São importantes em diversas condições. Hipertensão pulmonar pode signi car comprometimento da

circulação pulmonar ou doença avançada, de pior prognóstico.

 

PROVAS DE FUNÇÃO PULMONAR

 

A redução dos volumes pulmonares resulta, classicamente, em padrão restritivo nas DPID. A difusão,

medida pelo monóxido de carbono (CO)/difusão do monóxido de carbono (DCO), é um teste sensível,

podendo sugerir DPID, mesmo na ausência de achados radiológicos, como ocorre nas colagenoses. Nas

doenças intersticiais de modo geral, mas especialmente nas brosantes, há hipoxemia que se agrava

com o esforço, o que pode ser facilmente mensurado por oximetria digital em repouso e após exercício

de degrau em consultório, feito por 3-4 minutos.

A avaliação da função pulmonar é importante para diagnóstico precoce, para predição do

prognóstico e para acompanhamento da doença e a resposta ao tratamento. Em pacientes com

dispneia e exames de imagem normais, a presença dos achados funcionais clássicos pode resultar em indicação de biópsia pulmonar. Na FPI e na PH crônica, saturação de esforço abaixo de 90% e difusão

do CO < 40% indicam pior prognóstico. Na FPI, variações signi cativas (± 10%) na capacidade vital

forçada, após 6 meses de tratamento, correlacionam-se com a sobrevida.

As DPID geralmente apresentam padrão restritivo, porém a associação com en sema pode

manter os volumes pulmonares normais. Quando o padrão for obstrutivo, suspeitar de doenças que

comprometem a região peribronquiolar como paracoccidioidomicose, sarcoidose, carcinomatose

linfática ou que se associam a padrão cístico como a linfangioleiomiomatose (LAM), ou com asma

(pneumonia eosinofílica crônica, síndrome de Churg-Strauss). O tabagismo é um fator confundidor

frequente, podendo resultar em DPOC associada.

 

LAVADO BRONCOALVEOLAR

 

O papel do lavado broncoalveolar (LBA) no diagnóstico e manejo do paciente com DPID ainda não é

bem de nido, motivo pelo qual não é realizado de forma rotineira. Este pode ser útil na elaboração

dos diagnósticos diferenciais em associação a dados clínicos e de imagem. O achado de linfocitose no

LBA com relação CD4/CD8 > 3,5 associada a quadro clínico e radiográ co sugestivo pode de nir o

diagnóstico de sarcoidose. Na PH, linfocitose importante (> 30% na contagem diferencial) é a regra.

Outras condições, como a FPI, podem resultar em elevação dos neutró los, e, ocasionalmente,

eosinó los. Nas pneumonias eosinofílicas, pode inexistir eosino lia sanguínea, mas os eosinó los

serão muito elevados no LBA.

 

BIÓPSIA PULMONAR

 

A biópsia pulmonar não é necessária em todos os casos, mas, quando indicada, é fundamental que

seja analisada por patologista especializado em pulmão e correlacionada com dados clínicos, de

imagem e dados laboratoriais para se chegar ao diagnóstico de nitivo.

Cerca de 40% dos casos de DPID exigem biópsia para con rmação diagnóstica. O tecido

pulmonar pode ser obtido por meio de bronco broscopia com biópsia transbrônquica,

minitoracotomia ou por cirurgia videoassistida.

 

BIÓPSIA PULMONAR TRANSBRÔNQUICA (BTB)

A biópsia transbrônquica tem maior rendimento nas doenças com envolvimento do feixe

broncovascular, como a sarcoidose e a carcinomatose linfática, nas doenças infecciosas, na pneumonia de hipersensibilidade aguda e subaguda, na BOOP (diagnóstico aceito com quadro clínico e

tomográ co típicos), na silicose e na proteinose alveolar. Os achados podem ser conclusivos, p. ex.,

encontro de abundantes partículas de sílica, ou permitem o diagnóstico de correlação como

granulomas bem formados com os demais dados na sarcoidose, ou malformados com exposição

relevante na pneumonia de hipersensibilidade. O achado de brose na biópsia transbrônquica (BTB) é,

em geral, destituído de signi cado diagnóstico.

 

BIÓPSIA PULMONAR CIRÚRGICA (BPC)

A morbidade e o rendimento da biópsia obtida por toracotomia aberta ou videoassistida são

semelhantes. As vantagens da cirurgia videoassistida são a melhor visualização do parênquima

pulmonar e a possibilidade de retirada de amostras de locais distintos e distantes. Em pacientes com

DPID de evolução aguda, em ventilação mecânica, em insu ciência respiratória grave que não toleram

o colapso pulmonar necessário para a cirurgia videoassistida, a melhor opção é a toracotomia. A

biópsia pulmonar cirúrgica é mais comumente indicada nas DPID brosantes, na suspeita de

vasculites e bronquiolites.

É recomendada a retirada de amostras de, no mínimo, dois locais diferentes, uma de local normal

ou com pouco comprometido e a segunda amostra de local com alterações moderadas. As áreas com

doença muito avançada à TCAR devem ser evitadas, pois, geralmente, mostram alterações bróticas

inespecí cas, não sendo possível de nir um padrão histopatológico.

A biópsia pulmonar não deve ser indicada se a TCAR de tórax mostrar sinais difusos de pulmão

em fase terminal, apenas com sinais de brose já estabelecida, com faveolamento e bronquiectasias

de tração. A biópsia pulmonar trará poucas informações e, nessa fase, provavelmente, o paciente não

terá benefício com o tratamento. A biópsia também não está indicada na presença de insu ciência

respiratória grave (exceto em casos de doença aguda) e nos pacientes com risco cardiovascular

elevado.

Fluxograma para diagnóstico das DPID.

 

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

 

Amplia-se quando se trata de hospedeiro imunocomprometido, incluindo então diversas condições

infecciosas e não infecciosas. A investigação quanto aos fatores de risco e testes diagnósticos para

infecção por vírus da imunode ciência humana (HIV) deve ser rotineira.

 

PRINCIPAIS CAUSAS DE DOENÇAS PULMONARES INTERSTICIAIS DIFUSAS

 

PNEUMONIAS INTERSTICIAIS IDIOPÁTICAS

 

O diagnóstico de FPI pode ser feito clinicamente, preenchidas todas as condições a seguir:

• Idade acima de 50 anos.

• Exclusão de causas possíveis ou conhecidas para doença intersticial, tais como drogas, exposições

ambientais/ocupacionais e colagenoses.

• Estertores inspiratórios bibasilares.

• Distúrbio funcional restritivo e/ou de troca gasosa em repouso ou exercício e/ou DCO reduzida.

• TCAR mostrando in ltrado reticular bibasilar com faveolamento e ausência de achados sugestivos

de outras doenças ( brose central, nódulos centrolobulares, vidro fosco fora das áreas de brose,

placas pleurais etc.).

 

As pneumonias intersticiais idiopáticas são um grupo heterogêneo de doenças pulmonares de causa

desconhecida, decorrentes de dano ao parênquima pulmonar, resultando em graus variáveis de

in amação e brose. As lesões de padrão descamativo (pneumonia intersticial descamativa e

bronquiolite respiratória associada à doença intersticial pulmonar), caracterizadas por acúmulo de

macrófagos nos alvéolos e bronquíolos respiratórios, são incluídas na classi cação das pneumonias

intersticiais idiopáticas, porém a maioria dessas lesões decorre do tabagismo.

 

Das pneumonias intersticiais idiopáticas destacam-se as seguintes entidades:

 

PNEUMONIA INTERSTICIAL USUAL (PIU)

É caracterizada por áreas de brose intercaladas com áreas de parênquima normal, focos de brose

ativa (denominados focos broblásticos), faveolamento e distribuição da brose nas regiões

subpleurais. A PIU é o substrato anatomopatológico da brose pulmonar idiopática, mas pode,

eventualmente, ter outras causas.

 

PNEUMONIA INTERSTICIAL INESPECÍFICA (PINE)

É caracterizada por in amação e/ou brose de distribuição homogênea. É a pneumonia intersticial

mais comum em portadores de colagenoses e é também expressão frequente de lesão pulmonar por

drogas.

 

PNEUMONIA EM ORGANIZAÇÃO (PO, OU BRONQUIOLITE OBLITERANTE COM PNEUMONIA

ORGANIZADA – BOOP)

Caracteriza-se por brose intraluminal em organização nos espaços aéreos distais e in amação

intersticial. A BOOP pode não ter causa aparente (idiopática) ou ser decorrente do uso de fármacos ou

de colagenoses, além de diversas situações menos frequentes. A pneumonia intersticial usual tem

prognóstico sombrio.

 

PNEUMONIA INTERSTICIAL AGUDA (PIA)

É um termo usado para uma lesão pulmonar aguda de causa desconhecida caracterizada clinicamente

por insu ciência respiratória aguda com in ltrados pulmonares bilaterais e histologicamente por

dano alveolar difuso, uma combinação antigamente denominada síndrome de Hamman-Rich. Biópsia

pulmonar é necessária para o diagnóstico.

 

PNEUMONIA INTERSTICIAL BRONQUIOLOCÊNTRICA (PIB)

Caracteriza-se por uma combinação de brose e in amação, em proporções variáveis, nas regiões

peribronquiolares. Metaplasia bronquiolar e achados de agressão bronquiolar são comumente

associados. As causas mais comuns são microaspiração de suco gástrico, por re uxo, e inalação de

antígenos, na pneumonia de hipersensibilidade.

 

A sobrevida de portadores de brose pulmonar idiopática situa-se entre 3 e 5 anos, enquanto, em

pacientes com pneumonia intersticial inespecí ca, a sobrevida é maior. O prognóstico é excelente em

portadores de BOOP.

 

MANEJO

O tratamento da FPI é em geral de suporte. Antioxidantes, como a acetilcisteína, são prescritos com

frequência, mas estudos de nitivos sobre sua e cácia devem ser disponíveis em breve. Novos

tratamentos, como a pirfenidona, estão sendo testados em ensaios internacionais.

A PINE associada às colagenoses, a forma mais comum de apresentação, é tratada quando existe

repercussão clínica e funcional relevante, ou quando a TC de tórax mostra lesões extensas. O

tratamento farmacológico envolve a utilização de imunossupressores associados a corticosteroides.

A PO idiopática ou criptogência em geral responde bem ao uso de prednisona, dada inicialmente

na dose de 05 a 0,75 mg/kg e reduzida progressivamente nos próximos seis meses. A PIA é tratada

com metilprednisolona 40-60 mg intravenosa (IV) a cada 6 horas, por 7-10 dias, com redução

posterior. A mortalidade situa-se em torno de 65% dos casos. A PIB não responde ao tratamento

farmacológico, sendo essencial o afastamento ou o tratamento da causa, como o re uxo

gastroesofágico.

 

DOENÇAS PULMONARES GRANULOMATOSAS

 

As doenças pulmonares granulomatosas difusas representam um grupo de enfermidades

heterogêneas com achado histopatológico comum de formação de granulomas. O conjunto de métodos e de análises imunológicas, histopatológicas e clínico-radiológicas permite discriminar

diferentes enfermidades com apresentação muitas vezes semelhantes, mas com etiologias e

prognósticos distintos. Além da sarcoidose, muitas outras doenças apresentam-se com formação

granulomatosa e nem sempre o diagnóstico diferencial é realizado. Salienta-se, a seguir, algumas

dessas enfermidades, as quais apresentam características clínico-radiológicas similares, gerando

di culdades na sua diferenciação.

 

PNEUMONIA DE HIPERSENSIBILIDADE

 

Pneumonia ou pneumonite de hipersensibilidade (PH) é uma síndrome complexa causada pela

exposição a diversas pequenas substâncias orgânicas, que ocorre em indivíduos suscetíveis, os quais

apresentam uma resposta imune exagerada nas pequenas vias aéreas e parênquima pulmonar. A

pneumonia de hipersensibilidade no Brasil, em geral, decorre de exposição a pássaros ou mofo no

ambiente doméstico ou no trabalho, e a isocianatos, na indústria ou uso de tintas.

 

O diagnóstico de pneumonia de hipersensibilidade é feito por associação de diversos achados:

• Exposição identi cada por história, especialmente se o afastamento resulta em melhora clínica e o

contato, em piora ou surgimento de sintomas. Pássaros e mofo visível são os maiores fatores de

exposição.

• Achados clínicos, radiológicos e funcionais compatíveis. A TCAR é de grande utilidade se revelar

dois ou três dos seguintes achados: opacidades em vidro despolido, nódulos centrolobulares,

perfusão em mosaico; brose pode ser predominante.

• LBA: linfocitose.

• Histopatologia compatível ou conclusiva: granulomas malformados, não caseosos, pneumonia

intersticial com predomínio peribronquiolar, bronquiolite; achados de brose. A biópsia com

achados característicos pode ser isoladamente conclusiva.

 

São descritas apresentações aguda, subaguda e crônica, mas esta classi cação não é completamente

adequada, pois os critérios para entendimento da latência entre a exposição ao antígeno e o

aparecimento da doença ainda são incertos, podendo ou não representar diferentes estágios da

doença.

PH aguda caracteriza-se por uma síndrome in uenza like, que usualmente ocorre poucas horas

após a exposição ao antígeno, podendo desaparecer espontaneamente e reaparecer com nova exposição. A tomogra a de tórax pode ser normal; quando alterada, evidencia achados de vidro fosco

ou pequenos nódulos mal de nidos. PH subaguda costuma resultar de baixas e repetidas exposições

aos antígenos, sendo caracterizada por dispneia, fadiga e tosse insidiosas, com ou sem febre, sendo,

em geral, uma enfermidade progressiva. Os achados tomográ cos são de vidro fosco, nódulos mal

de nidos, padrão em mosaico e aprisionamento aéreo. PH crônica pode ocorrer nos pacientes cujo

diagnóstico de PH aguda e/ou subaguda não foi realizado com progressão da doença. A apresentação

clínica é de dispneia progressiva e tosse, fadiga e perda de peso. Devido ao considerável número de

casos com sobreposição de PH subaguda e crônica, o padrão tomográ co é muito variável. Vidro fosco

ou nódulos mal de nidos e áreas de padrão em mosaico, associados à brose, podem ser observados.

As provas de função pulmonar costumam mostrar padrão restritivo com diminuição da difusão

de CO.

Pacientes com PH aguda raramente necessitam ir à biópsia. PH subaguda, independentemente

da etiologia, é caracterizada por pneumonite intersticial granulomatosa bronquiolocêntrica. O

processo in amatório é predominantemente de linfócitos. Os granulomas são pequenos,

malformados, não necróticos. Hiperplasia linfoide em forma de agregados linfoides

peribroncovasculares é encontrada na maioria dos pacientes. São também observadas células

gigantes com várias inclusões citoplasmáticas. Na PH crônica observa-se brose e distorção da

arquitetura sobrepostas aos achados da PH subaguda.

 

Manejo

O diagnóstico precoce e o afastamento da exposição representam a estratégia mais importante do

tratamento da PH. Corticoide sistêmico tem sido a droga de escolha, embora sua e cácia seja ainda

controversa. Deve ser mantido em torno de 3-6 meses nos casos de PH subaguda com evolução

favorável, mas em situações de progressão ou de PH crônica, cursos mais prolongados podem ser

necessários.

 

Sarcoidose é uma doença heterogênea caracterizada por granulomas sem necrose que in ltram

diversos órgãos. O pulmão está afetado na maioria das vezes e, desses casos, um percentual bastante

signi cativo apresenta comprometimento extrapulmonar. A sarcoidose exibe achados sistêmicos em

1/3 dos casos; os mais comuns são adenomegalias, lesões de pele e lesões oculares, especialmente a

uveíte, que pode preceder por anos o diagnóstico da doença. Na presença de uveíte granulomatosa, o

pneumologista deve pesquisar cuidadosamente a possibilidade de sarcoidose e tuberculose. Eritema nodoso associado à adenomegalia mediastinal e hilar bilateral, com teste de derivado proteico

puri cado (PPD) negativo, é virtualmente diagnóstico de sarcoidose. Lúpus pernio, uma lesão típica

de face, indica sarcoidose crônica. Comprometimentos sistêmicos importantes, como cardíaco,

neurossarcoidose e nefrocalcinose por hipercalciúria, possuem grande impacto no prognóstico e na

qualidade de vida. A taxa de mortalidade por sarcoidose é variável e as causas de morte são brose

pulmonar, doença neurológica e cardiológica.

 

SARCOIDOSE

 

Sarcoidose pulmonar

A sarcoidose pulmonar tem uma apresentação variável, podendo ser assintomática em número

signi cativo de pacientes, cujo diagnóstico é feito incidentalmente. Os sintomas podem ser também

inespecí cos. Tosse e dispneia costumam ocorrer. Quando há envolvimento endobrônquico pelos

granulomas, a tosse e a sibilância podem ser muito proeminentes.

O curso clínico é variável, podendo ter resolução espontânea ou ter uma evolução desfavorável,

progredindo para brose.

A sarcoidose é classi cada por estágios, segundo os achados radiológicos.

 

ESTÁGIOS RADIOLÓGICOS DA SARCOIDOSE

 

ESTÁGIO AUMENTO DE LINFONODOS DOENÇA DE PARÊNQUIMA

 

I Sim Não

 

II Sim Sem brose

 

III Não Sem brose

 

IV Sim/ Não Com brose

 

Manejo

Os corticosteroides são o pilar do tratamento da sarcoidose. Nos estágios I e II há uma elevada taxa de

resolução espontânea, assim, é aconselhável um período de observação, sem tratamento, por 6-12

meses, nos pacientes sem sintomas importantes. Na doença brótica (estágio IV), a doença pode estar

inativa, sendo qualquer tratamento ine caz.

Não há dúvida que pacientes com manifestações sistêmicas graves de doença ativa (neurológica,

ocular grave, cardíaca e hipercalcemia signi cativa) devem ser tratados de maneira agressiva com

corticosteroides. Estes reduzem as citocinas pró-in amatórias envolvidas na patogenia da doença. A

dose e a duração da prednisona a ser prescrita não foram padronizadas por estudos prospectivos

randomizados. A maioria dos autores sugere doses iniciais de 30-40 mg no primeiro mês, com redução

gradativa até 10 mg aos 6 meses, e posterior manutenção por mais 6-12 meses.

De 10% a 30% dos pacientes com sarcoidose têm uma forma crônica de doença, com duração

além de 2 anos. A maior preocupação, nesses casos, reside na possível progressão para brose

pulmonar irreversível ou recaída do quadro pulmonar ou em órgãos extrapulmonares com a retirada

do tratamento. Nesses pacientes, o objetivo do tratamento passa a ser a manutenção da função

pulmonar e o impedimento de recaídas com possível repercussão grave, como na sarcoidose cardíaca.

Doses entre 10-15 mg conseguem esses objetivos na maioria dos casos. Quando os corticosteroides

são ine cazes, contraindicados ou resultam em efeitos colaterais importantes, ou quando um agente

poupador de corticoide é necessário para manutenção, uma medicação de segunda linha é indicada. O

metotrexato é o mais utilizado nesta situação, na dose semanal de 10-15 mg.

 

Diagnóstico diferencial da sarcoidose pulmonar

 

A apresentação clínico-radiológica da sarcoidose pode ser muito variável. Salientamos pelo menos

duas entidades que possuem apresentação muito semelhante, sendo importante no diagnóstico

diferencial:

 

Doença linfocítica intersticial da imunode ciência variável comum

A doença granulomatosa intersticial pulmonar linfocítica (GLILD) é uma manifestação da doença da

imunode ciência variável (CVID) e é caracterizada pela combinação de achados de granulomatose e

linfoproliferação intersticial. Sua prevalência varia entre 10%-15% nos Estados Unidos e seu curso

clínico é controverso, com impacto signi cativo na mortalidade e morbidade dos pacientes com CVID.

A GLILD geralmente tem uma apresentação insidiosa com tosse e dispneia aos exercícios. O

achado clássico histopatológico é a combinação do granuloma não necrótico (sarcoid-like, bem

circunscrito, com distribuição perilinfática) com a lesão linfoproliferativa (pneumonite intersticial

linfocítica, bronquiolite folicular e hiperplasia linfoide). Os granulomas podem ser encontrados no

pulmão, no fígado, nos linfonodos e na medula óssea. Pode ocorrer aumento do baço e adenopatia

difusa. Achados tomográ cos são dinâmicos e auxiliam a discriminar áreas de brose de outros padrões, bem como servem para monitorizar a resposta ao tratamento. Podem ser encontradas

consolidações multifocais, espessamento dos septos interlobulares e micronódulos centrolobulares

(ambos predominantemente em zonas inferiores dos pulmões), linfadenopatias mediastinal e hilar,

bronquiectasias, opacidades em vidro fosco e, algumas vezes, aprisionamento aéreo. Em casos de

maior gravidade, pode ser observada brose com áreas de faveolamento. Finos cistos de distribuição

broncovascular podem ser vistos.

Padrão ventilatório restritivo com difusão reduzida é mais comumente observado, mas distúrbio

combinado (restritivo/obstrutivo) pode ocorrer.

 

Manejo

Não há estudos prospectivos que de nam o curso natural da doença, assim como não há padronização

do manejo ou tratamento e ainda é controversa a diferença de prognóstico quando comparados

tratamentos ativos à observação simples da evolução. Os corticoides comumente representam a

primeira linha de tratamento. Imunossupressores podem ser indicados em casos resistentes.

 

Doença crônica por berílio

A doença crônica por berílio foi descrita há 66 anos, em trabalhadores que apresentaram sintomas de

longo tempo após a interrupção da exposição, sem remissão espontânea. Algumas exposições

conhecidas são de trabalhadores de produção e manutenção na extração e fundição de metais com

ligas de berílio, soldadura, fusão ou tratamento de aquecimento de ligas, limpeza ou reconstrução de

fornos e processamento de materiais dentários.

Portanto, em presença de processo granulomotoso e informação de qualquer exposição ao

berílio, a investigação deve ser realizada. A doença está relacionada à hipersensibilidade e é

caracterizada por pneumonite granulomatosa crônica com envolvimento de pele, fígado, linfonodos,

rins, músculos e pulmão.

Na doença imunológica do pulmão, os pacientes afetados costumam apresentar tosse, dispneia

aos exercícios e algumas vezes febre. Os testes de função pulmonar demonstram distúrbio ventilatório

restritivo e a tomogra a computadorizada mostra in ltrado reticulonodular. Achados radiológicos

comuns são adenopatias hilares e in ltrados nodulares em lobos superiores ou difusos, podendo

evoluir para doença mais avançada com formação de cistos, distorção das vias aéreas e nódulos

grandes calci cados. Achados histopatológicos comuns são granulomas epitelioides, células gigantes multinucleadas, corpos de Schaumann e in ltrados linfocíticos. A sensibilização pelo berílio pode ser

detectada pelo teste de proliferação linfocítica do berílio (BeLPT). Neste teste, células mononucleares

derivadas do sangue periférico ou do lavado broncoalveolar são provocadas por sais de berílio in vitro

e a resposta é considerada positiva se ocorrer a proliferação dos linfócitos sensibilizados.

A doença crônica por berílio é clinica e histologicamente indistinguível da sarcoidose e por esta

razão muitas vezes não é diagnosticada.

 

Manejo

Com base nas últimas revisões, ainda não está claro se a cessação da exposição após o diagnóstico de

sensibilização pelo berílio pode reduzir a progressão da taxa de desenvolvimento da doença crônica.

 

Outras formas de sarcoidose

 

Alguns fenótipos da sarcoidose estão associados a um pior prognóstico. O manejo dessas situações

deve ser muito seguro e cauteloso, pois os pacientes apresentam diversas complicações graves.

 

FENÓTIPOS DE MAU PROGNÓSTICO DA SARCOIDOSE

 

SARCOIDOSE FENÓTIPOS ASSOCIADOS AO MAU PROGNÓSTICO

 

IDADE DE INÍCIO > 40 ANOS – RAÇA NEGRA

 

EXTRAPULMONAR PULMONAR

 

Neuro-sarcoidose Dispneia moderada a grave na apresentação

Uveíte crônica Estágios III–IV

Lúpus pernio Obstrução ou restrição ao uxo aéreo

Esplenomegalia signi cativas

Sarcoidose cardíaca Hipertensão pulmonar

Hipercalciúria

PIORA FUNCIONAL

Nefrocalcinose

Lesões ósseas císticas Queda CVF 10–15%

Queda DCO 20%

Hipercalcemia/hipercalciúria

A hipercalcemia ocorre em cerca de 10% dos casos, sendo a hipercalciúria 3 vezes mais frequente.

Podem ser assintomáticas ou representar as primeiras manifestações da sarcoidose, com sintomas de

letargia, constipação, alteração do estado mental, insu ciência renal e/ou nefrolitíase.

O manejo inclui dieta pobre em cálcio e vitamina D, redução da exposição ao sol e uso de

corticoides e hidroxicloroquina.

 

Neuro-sarcoidose

Complicações neurológicas da sarcoidose ocorrem em aproximadamente 5%-14% dos casos e 50%

desses pacientes já apresentam doença neurológica no momento do diagnóstico. As manifestações

clínicas dependem do tipo de comprometimento, destacando-se as neuropatias craniais, doença

meníngea (meningite asséptica ou massa), hidrocefalia, doença do parênquima (endocrinopatia,

massa, vertigens, acidente vascular cerebral [AVC], disfunção vegetativa,

encefalopatia/microvasculopatia), neuropatia (mononeuropatias, axonal ou desmielinizante,

sensorial, motor, sensóriomotor), miopatia (polimiosite, nódulos, atro a).

A cefaleia ocorre por in amação meníngea, massa no Sistema Nervoso Central (SNC),

hidrocefalia e neuropatia do trigêmeo. Pode haver hemorragia, mas o mecanismo do AVC é

geralmente isquêmico. A sarcoidose é uma doença protrombótica, podendo ocorrer trombose de

pequenas e grandes artérias. Os êmbolos cardiogênicos podem ser liberados, considerando o

comprometimento cardíaco com arritmias e cardiomiopatias. A compressão arterial pelos granulomas

também é causa de isquemia.

O diagnóstico é muito difícil, mas uma apresentação sugestiva com exclusão de outros

diagnósticos e histopatologia que suporte os achados ou critério de probabilidade com resposta

favorável à imunoterapia em 6 meses de observação pode fechar o diagnóstico de neuro-sarcoidose. O

surgimento de massa no SNC em paciente com diagnóstico de sarcoidose, excluindo infecção ou

neoplasia, é su ciente para indicar corticoide empírico. Se a resposta for pobre, a biópsia da massa

deve ser realizada.

Fatores muitas vezes esquecidos que acompanham o quadro de neuro-sarcoidose são: alterações

da libido e dos ciclos menstruais, disfunção erétil, sede excessiva por diabetes insipidus,

hipercalcemia, hipercalciúria, alteração da temperatura, sono ou apetite etc.

Investigação rigorosa deve ser indicada com a realização de ressonância magnética (RM),

tomogra a por emissão de pósitrons (PET), análise do liquor e avaliação neuromuscular, sendo

fundamental para a de nição do tratamento.

 

Manejo

As decisões terapêuticas nem sempre são fáceis, pois não há estudos para de nir terapêutica ótima,

sendo a maioria baseados em série de casos ou opinião de experts. Portanto, o tratamento deve ser

orientado pelo curso clínico do paciente, pela história natural das manifestações clínicas e dos eventos

adversos das drogas a serem utilizadas.

O curso clínico pode ser monofásico (2/3 pacientes), com neuropatia cranial isolada e

envolvimento típico do nervo facial e meningite asséptica, ou progressivo/recorrente (1/3 pacientes),

com anormalidades no parênquima, hidrocefalia, neuropatias múltiplas, neuropatia periférica ou

miopatia.

O tratamento para o caso de doença monofásica consiste em prednisona (0,5-1 mg/kg/dia até 60

mg/ dia) por 1 ou 2 semanas, com redução gradual nas semanas seguintes. Nos casos de doença mais

grave deve ser mantido o tratamento com prednisona (1 mg/kg/dia) por 2 a 4 semanas, com redução

lenta de 5 mg a cada 2 semanas, com reavaliação da atividade para reduções subsequentes. Em caso

de recaída, a dose deve ser dobrada. Nos casos de aumento ventricular assintomático, a conduta pode

ser expectante, mas quando ocorrerem sintomas, mesmo leves, corticoterapia deve ser instituída.

Em casos de doença grave aguda pode ser realizada pulsoterapia com metilprednisolona (20

mg/kg/ dia, por 3 dias), seguida de prednisona, ou pode ser feita infusão de in iximabe.

A experiência com terapias alternativas ou adjuvantes é muito limitada, indicadas para evitar

doses altas de corticoides e seus efeitos adversos ou nos casos de resposta inadequada. As drogas

imunossupressoras alternativas mais estudadas são azatioprina, metotrexato, micofenolato mofetil,

ciclofosfamida, ciclosporina e clorambucil. As drogas imunomoduladoras são hidroxicloroquina,

talidomida, pentoxi lina, antifator de necrose tumoral alfa (TNF-α) (in iximabe, adalimumabe e

etanercepte).

As medidas gerais devem ser estabelecidas com treinamento de exercício, dieta, reabilitação,

tratamento da depressão, tratamento da fadiga, possivelmente devido aos níveis altos de citocinas

circulantes, intolerância ao exercício (cardíaco, pulmonar), depressão, hipogonadismo, miopatia, dor

por neuropatia de pequenas bras, doenças do sono etc.

Sarcoidose cardíaca

Detectada clinicamente em 5% dos casos e cerca de 27% a 40% em autópsias. No Japão, em torno de

70% dos casos de sarcoidose apresentam comprometimento do coração e em série. No Brasil essa taxa

é de 15%. Embora a incidência não seja tão grande na maioria dos estudos e os sinais não sejam

especí cos, há risco de morte súbita e de insu ciência cardíaca irreversível.

O screening é feito pelos sinais e sintomas, seguidos de ECG, monitorização por holter e

ecocardiograma. Os métodos de investigação apresentam baixa sensibilidade e especi cidade, exceto

RM e PET.

A falta de padrão-ouro torna o acesso e o diagnóstico difíceis. Por isso, a história e o exame físico

detalhados, seguidos do ECG, são fundamentais.

O ecocardiograma tem baixa sensibilidade, mas alta especi cidade. Os achados sugestivos de

sarcoidose cardíaca são diminuição da função do ventrículo esquerdo, anormalidades motoras das

paredes, espessamento anormal das paredes, derrame pericárdico. A RM tem sensibilidade de 100% e

especi cidade de 78%, sendo, portanto, útil na investigação.

Os desa os são estabelecer o diagnóstico quando os sinais cardiológicos são as primeiras

manifestações e/ou as únicas e escolher os melhores métodos para a avaliação. É fundamental

instituir o tratamento precocemente, antes que ocorra lesão cardíaca irreversível.

 

Manejo

O manejo da sarcoidose cardíaca inclui terapia imunossupressiva com prednisona, metotrexato,

ciclofosfamida, micofelonato mofetil, azatioprina e agentes antiTNF-α. O manejo cardiológico baseia-

se em antiarrítmicos, manejo da insu ciência cardíaca e dos distúrbios eletro siológicos. Colocação de

marca-passo, des brilador e transplante podem ser necessários.

O que se sabe é que o corticoide pode afetar a sobrevida, a função ventricular e as arritmias, que

não há diferença entre as doses altas e baixas usadas e que a sobrevida depende da fração de ejeção

ventricular esquerda e da classi cação pela New York Heart Association (NYHA). O que ainda é preciso

saber é qual a duração da terapia, qual o melhor método para monitorar a resposta à terapia, qual o

papel dos agentes poupadores de corticoide, a diferenciação entre arritmias causadas por cicatrizes ou

por granulomas ativos.