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Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica
INTRODUÇÃO
A doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) emergiu na última década como uma
importante causa de doença hepática crônica. Está entre as três principais causas de hepatopatia
crônica mais prevalente do mundo.
Considerada forma de doença hepática metabólica não resultante do efeito de alcoolismo,
toxinas, agentes infecciosos ou outras causas exógenas identi cáveis.
A DHGNA abrange um espectro variado de alterações histopatológicas, com diferentes
correlações clínicas. Nesse espectro está incluída desde a esteatose leve com evolução estável ao
longo dos anos, processo relativamente benigno e “não progressivo”, até casos de doença
progressiva (esteato-hepatite não alcoólica – EHNA), sendo que em 9% a 20% destes a
progressão poderia culminar em cirrose hepática e suas possíveis complicações – hipertensão
porta, insu ciência hepática e carcinoma hepatocelular.
CLASSIFICAÇÃO
Podemos classi car a etiologia da DHGNA em primária (ou metabólica) e secundária. A DHGNA
primária está associada à síndrome de resistência insulínica e a componentes da síndrome
metabólica (diabetes mellitus tipo 2, obesidade e hipertrigliceridemia). A DHGNA é considerada,
atualmente, por diversos autores, como o componente hepático da síndrome metabólica.
Existem outras causas para a DHGNA, tais como drogas (corticosteroides, estrogênio sintético,
amiodarona etc.), procedimentos cirúrgicos (bypass jejunoileal, ressecção extensa de delgado e
derivações bilipancreáticas), nutrição parenteral total prolongada e toxinas ambientais (derivados
petroquímicos). Essas condições foram chamadas de secundárias para diferenciálas da DHGNA
associada primariamente à resistência insulínica.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
A maioria dos pacientes com DHGNA é assintomática ou apresenta-se com hepatomegalia, ou
com elevação de enzimas hepáticas de causa obscura. Alguns doentes têm queixas de astenia,
fadiga fácil e sensação de plenitude, desconforto ou mesmo dor leve em quadrante superior
direito do abdome. Pacientes com hepatopatia avançada podem apresentar-se com
manifestações da descompensação hepática, tais como: icterícia, hipertensão porta, ascite e
encefalopatia hepática.
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
HEPATOGRAMA
As mais comuns anormalidades laboratoriais encontradas na DHGNA são discretas elevações das
aminotransferases. As aminotransferases normais não excluem com segurança a ausência de
lesões necroin amatórias e de brose. Alguns doentes apresentam elevações da fosfatase alcalina
ou da gama-glutamiltransferase (gama-GT).
HEMOGRAMA E BIOQUÍMICA
As anormalidades na albumina sérica, atividade da protrombina, bilirrubinas ou hematológicas
(leucopenia e trombocitopenia) não são frequentes, a menos que uma doença hepática avançada
(cirrose hepática) esteja presente.
A dosagem da glicemia de jejum, triglicerídeos, teste de tolerância à glicose e o cálculo do
índice HOMA-IR (> 2,3) são importantes na avaliação da síndrome metabólica e resistência
insulínica, fator mais relevante nos pacientes com DHGNA.
DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR
IMAGEM
Métodos de imagem como ultrassonogra a, tomogra a computadorizada e ressonância
magnética são utilizados para o diagnóstico da DHGNA. Na maioria dos pacientes com DHGNA, o
achado é incidental nesses métodos, geralmente para avaliação de outras patologias abdominais. Os três métodos apresentam boa acurácia para detectar in ltração gordurosa no fígado, porém
não permitem diferenciar esteatose de esteato-hepatite.
A ultrassonogra a é o método mais utilizado na prática clínica (barato, con ável e de fácil
acesso) para o diagnóstico da esteatose hepática.
BIÓPSIA HEPÁTICA
A biópsia hepática para análise histopatológica permanece como o exame padrão-ouro para o
diagnóstico da doença, com diversas vantagens em seu favor: é o único método capaz de
realmente diferenciar a esteatose simples da EHNA, possibilita a graduação (atividade
necroin amatória) e o estadiamento (extensão da brose), de nindo assim a gravidade da
DHGNA, apesar das limitações de amostragem e variabilidade entre observadores; permite ainda
excluir outras possíveis causas de hepatopatia crônica.
Apesar de estar clara a importância da biópsia hepática nos pacientes que presumidamente
apresentam DHGNA, não é recomendada a indicação rotineira do método para todos os pacientes.
O exame é invasivo, com potencial para a iatrogenia, e a conduta terapêutica parece não se alterar
frente ao seu resultado.
Marcadores indiretos de brose hepática (marcadores sorológicos e elastogra a hepática)
apresentam limitações no seu emprego por falta de estudos especí cos na DHGNA e precisão na
determinação de brose incipiente, como também por não serem capazes de diagnosticar EHNA.
TRATAMENTO
As opções terapêuticas podem ser direcionadas aos componentes da síndrome metabólica
(obesidade, hiperinsulinemia ou resistência insulínica/diabetes), ao estresse oxidativo e à
citoproteção.
MUDANÇA DE ESTILO DE VIDA E PERDA DE PESO
A etapa inicial no manejo da DHGNA, geralmente associada à síndrome metabólica, é a
modi cação do estilo de vida, levando à perda de peso, através de dieta hipocalórica e exercícios físicos (sendo recomendada a perda de 7%-10% do peso no período de 6 meses a 1 ano, com
redução posterior gradual até se atingir o peso ideal).
Finalmente, após falha com dieta, exercícios e terapia farmacológica para perda de peso, a
cirurgia bariátrica pode ser uma opção em indivíduos obesos grau III. Entretanto, não estão
estabelecidas a segurança e a e cácia em indivíduos com brose avançada e com cirrose hepática,
além da possibilidade de ocorrer descompensação hepática pela perda rápida de peso.
TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
Nenhum tratamento medicamentoso disponível atualmente demonstrou e cácia comprovada em
alterar a história natural da DHGNA.
METFORMINA
Em relação às drogas sensibilizadoras de insulina, embora a metformina seja amplamente
prescrita e promova a normalização das transaminases, não há melhora histológica hepática, não
sendo, portanto, recomendada.
PIOGLITAZONA
A pioglitazona, uma tiazolidinediona, demonstrou diminuição dos níveis das aminotransferases e
melhora nos graus de esteatose e de in amação, sem, entretanto, diminuir o grau de brose.
Deve ser utilizada com cuidado nos pacientes com função miocárdica diminuída (insu ciência
cardíaca classes III e IV) pelo risco aumentado de descompensação da insu ciência cardíaca
congestiva.
VITAMINA E
A vitamina E, na dose diária de 800 UI, demonstrou diminuir o estresse oxidativo que causa a
lesão hepatocelular e a progressão da doença nos casos de esteato-hepatite não alcoólica, com
melhora das transaminases e do grau de in amação, sem haver, no entanto, melhora do grau de
brose. Entretanto, alguns estudos apresentaram pontos controversos da vitamina E, como a
possibilidade do aumento da mortalidade em geral e o aumento do risco de câncer de próstata, devendo, assim, ser utilizada com cautela até que resultados de novos estudos estejam
disponíveis.
ÁCIDO URSODEOXICÓLICO
Quanto às drogas citoprotetoras como o ácido ursodeoxicólico (AUDC), os estudos não
demonstraram melhorias na histologia hepática. Portanto, o AUDC não está recomendado para o
tratamento da DHGNA ou para a EHNA.