GPS: Clínica Médica
Depressão
INTRODUÇÃO
A depressão é um transtorno emocional que apresenta um caráter epidêmico. Cerca de 6% da
população mundial é afetada por esta doença. Ao longo da vida, uma em cada 20 pessoas irá
apresentar depressão.
Ela pode ocorrer em um único episódio ou tornar-se uma afecção crônica. Após um episódio,
existe a chance de 50% para o aparecimento de uma segunda crise. Depois desta, o aumento é de
cerca de 70% e, após o terceiro episódio, já ultrapassa os 90% a probabilidade de ocorrer nova
crise.
Assim como determinadas doenças clínicas crônicas, o paciente deverá submeter-se sempre
a algum tipo de tratamento adequado, pois, durante toda a vida haverá o risco de recaídas.
É mais prevalente em mulheres entre 30 e 50 anos, apesar de poder acometer ambos os
sexos, em qualquer idade. Outro dado muito signi cativo é o fato de que 15% dos pacientes
deprimidos graves cometem suicídio.
Também é importante salientar que a doença é a maior causa de incapacitação para o
trabalho entre as pessoas na faixa de 15 a 44 anos, no mundo inteiro.
ETIOLOGIA
A etiologia do transtorno depressivo é multifatorial, envolvendo estressores psicológicos,
interpessoais, biológicos e ambientais que agem no cérebro. Consequentemente, a patogênese da
depressão envolve a disfunção cerebral real em resposta às forças etiológicas (p. ex.: eventos
dolorosos, como perdas precoces na vida e separações importantes, podem sensibilizar recaptura
de neuroquímicos e, mais tarde, propiciar o aparecimento de quadros depressivos.
Assim, poderíamos dizer que a pessoa nasce com uma predisposição genética (familiar) que,
somada a determinados fatores de ordem ambiental e psicológica, causarão o aparecimento de um transtorno depressivo em algum momento da sua vida.
FATORES DE RISCO
HISTÓRIA FAMILIAR
Ter um membro da família com depressão (pai, mãe, avós) aumenta o risco de uma pessoa
desenvolver um quadro semelhante, principalmente se houver, nesta mesma família, casos de
alcoolismo. O fato de o paciente ser dependente químico do álcool, que é uma droga depressiva,
também é um fator de desencadeamento de depressão e complica bastante o resultado do
tratamento.
ESTADO CIVIL
Pessoas divorciadas possuem mais chance de desenvolver depressão, assim como aquelas que
vivem sozinhas.
LOCAL DE MORADIA
Está comprovado que as pessoas que vivem em áreas urbanas têm o dobro de chance de
apresentar depressão em relação à população rural.
EXPERIÊNCIAS INFANTIS
Crianças abandonadas, perda de um dos pais antes da adolescência, abuso sexual, violência física
ou emocional ou até mesmo divórcio dos genitores são fatores que aumentam o risco de
depressão em pessoas adultas.
TRABALHO
Pessoas descontentes com sua vida pro ssional e aquelas desempregadas também apresentam
risco aumentado para depressão. Existem pesquisas que mostram que pessoas desempregadas
por mais de seis meses apresentam uma taxa de depressão três vezes maior do que a população
empregada.
SEXO
A depressão atinge os homens em uma proporção de um em cada dez e as mulheres de uma em
cada quatro. Elas também sofrem com formas especí cas de depressão ligadas à própria biologia
feminina.
ESTRESSE
Fatores estressantes como divórcio, perda de emprego ou de uma pessoa querida (pessoas da
família ou círculo de amizade) certamente contribuem muito para o aparecimento de quadros
depressivos que podem ir de um luto normal até um transtorno depressivo bem grave.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
CAUSAS PARA O SUBDIAGNÓSTICO
Na maior parte dos casos existe um subdiagnóstico da depressão. Várias são as explicações para
esse fato:
a) Do ponto de vista do paciente:
– Não se considerar doente.
– Preconceitos.
– Onipotência (acredita que resolve tudo sozinho).
b) Do ponto de vista do médico:
– Não reconhecer a depressão como doença.
– Não ter provas laboratoriais.
– Considerar como consequência da doença básica.
c) Do ponto de vista da própria doença:
A depressão confunde-se com outras doenças físicas, por isso também torna-se necessária a
realização de exames complementares: hormônios tireoidianos, testagem psicológica e imagem.
É de fundamental importância distinguir o paciente com depressão de uma pessoa que esteja
vivendo uma situação de luto ou tristeza, que a princípio não são passíveis de serem medicadas.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
PRINCIPAIS SINTOMAS ENCONTRADOS EM UM QUADRO DE DEPRESSÃO
a) Sintomas físicos:
– Emagrecimento ou ganho de peso
– Dores que não respondem a nenhum tratamento
– Cansaço constante
– Perda de energia
b) Sintomas emocionais:
– Irritabilidade e tristeza durante a maior parte do tempo
– Perda de interesse nas atividades cotidianas
– Perda da libido
– Insônia e excesso de sono diurno
– Apatia
– Sentimentos de culpa, fragilidade, ruína e insegurança
– Choro fácil e sem motivo aparente
– Di culdade de atenção e de concentração
– Di culdade de memória
– Baixa autoestima
– Ideias de morte e suicídio
– Comportamento autodestrutivo
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Algumas doenças e medicações podem também causar depressão.
PRINCIPAIS DOENÇAS E AGENTES FARMACOLÓGICOS ASSOCIADOS AO
DESENCADEAMENTO DE ESTADOS DEPRESSIVOS
Agentes farmacológicos Anti-hipertensivos: reserpina, alfa-metildopa,
propranolol e clonidina Neurolépticos
Antiparkinsonianos: levodopa, carbidopa,
amantadina
Corticosteroides
Interrupção do uso de anfetamina, cocaína e
álcool
Outros: cicloserina, vincristina, vimblastina,
cimetidina, indometacina etc
Doenças endócrinas Tireoide: hipo e hipertireoidismo
Paratireoides: hiperparatireoidismo
Hipó se: hipopituitarismo
Suprarrenais: hipercortisolismo e doença de
Addison
Pâncreas: diabetes mellitus
Doenças neurológicas Esclerose múltipla
Parkinson
Epilepsia
Apneia do sono
Tumores
Doença cerebrovascular
Demências
Doenças do colágeno Lúpus eritematoso
Artrite reumatoide
Doenças nutricionais Pelagra, anemia perniciosa, hipervitaminose
A, beribéri etc
Doenças infecciosas Sí lis terciária, toxoplasmose, mononucleose,
hepatite, encefalite, AIDS etc
Neoplasias Abdominais, carcinomatose etc Para o diagnóstico diferencial entre doenças físicas que também podem causar depressão,
devemos levar em consideração:
1- A presença de patologia orgânica deve ser cuidadosamente investigada.
2- Avaliar nível de consciência (quadros iniciais de “Delirium” X Humor depressivo).
3- Antecedentes familiares e pessoais de depressão são frequentes na doença.
4- Veri car sintomas cognitivos de depressão (ideias de culpa, prejuízo de autoimagem, sensação
de desamparo, pessimismo, ideias de suicídio)
5- Anedonia presente (incapacidade de o paciente sentir prazer nas mínimas coisas). Se a
principal alteração do humor do paciente for apatia, em vez de depressão a causa é orgânica.
TRATAMENTO
Ao iniciarmos o tratamento de um transtorno depressivo, devemos levar em consideração os
fatores psicológicos, sociais e biológicos do paciente.
Na maioria dos casos precisamos pensar na indicação de psicoterapia, até porque em quadros
mais leves ela é su ciente para a obtenção da cura do paciente. Em relação aos medicamentos,
podemos dizer que de fato não existem diferenças signi cativas quanto à e cácia dos diferentes
antidepressivos, porém, elas aparecem quando pensamos em termos de preço, tolerabilidade,
efeitos colaterais, interações medicamentosas e risco de vida. Concluímos, então, que nossa
conduta deve ser individualizada.
Devemos sempre avaliar o risco de suicídio do paciente em questão e reestruturar o
tratamento quando necessário.
TRATAMENTO
ANTIDEPRESSIVOS DISPONÍVEIS
• Inibidores seletivos da recaptação da serotonina:
∘ Paroxetina (20 mg – 60 mg), Sertralina (50 mg – 200 mg), Citalopram (20 mg – 60 mg)
∘ Fluoxetina (20 mg – 60 mg), Escitalopram (10 mg – 20 mg).
Se o paciente não responder em oito semanas, avaliar a troca do antidepressivo:
• Venlafaxina (75 mg – 225 mg), Mirtazapina (15 mg – 45 mg), Bupropiona (150 mg – 300
mg)
• Desvenlafaxina (50 mg – 300 mg), tricicíclicos (Amitriptilina, Imipramina, Clomipramina em
doses de 75 mg – 300 mg).
Outra alternativa é potencializar o antipressivo com:
• Carbolitium (300 mg – 900 mg)
Se ainda assim não houver remissão total do quadro:
• Inibidores da monoamina oxidase (IMAO): Tranilcipromina (20 mg – 60 mg) ou Moclobemida
(300 mg – 600 mg), ou as
• Combinações de antidepressivos.
Em último caso (quando nenhum medicamento funcionar), prescrever a eletroconvulsoterapia
(ECT).
Em depressões graves, com risco de suicídio, pacientes com características psicóticas e em
grávidas, a ECT é uma excelente opção, desde que seja administrada de forma ética, com
anestesia, pessoal treinado e ambiente apropriado.
A classi cação mais usada dos antidepressivos tem sido baseada no neurotransmissor/receptor
envolvido em seu mecanismo de ação.
CLASSIFICAÇÃO DOS ANTIDEPRESSIVOS
CLASSIFICAÇÃO DOS ANTIDEPRESSIVOS
Características Transmissor/Receptor
Conc.
Droga Vida plasmática
Tricíclicas Metabólitos média (h) 5-HT NA/NE DA máxima
Amitriptilina 8-24 +++ ++++ + 6
Nortriptilina 18-96 + ++++ + (4-5)
Clomipramina 17-28 +++ + 2,5
Desmetil- >36 + +++ 4-24
Imipramina 4-18 +++ + o 2
Desipramina 12-24 + ++++ (4-5)
Maprotilina 12-108 + +++ + 8-24
Desmetil-
Nortriptilina 18-96 + +++ (4-5)
Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina
Citalopram 33 ++++ 0 0 2-4
Fluoxetina 24-140 ++++ 0 + 6-8
168-
Nor uoxetina 216 + 0 0 –
Fluvoxamina Nenhum 13-22 +++ 0 0 2-8
Paroxetina Nenhum 24 ++++ 0 0 6
Sertralina 25-26 +++ 0 0 4-10
Desmetil- 66-109 + 0 0 8-12
Inibidores da MAO
Moclobemida Nenhum 1-2 – – – 1
Tranilcipromina 2-5 – – – 2,5
Outros
Mianserina Desmetil- 12-29 0 0 + 1-3
8-hidroxi-
Mirtazapina Nenhum 20-40 +++ +++ 0 1-3
30 min (1-
Nefazodone Vários 2-4 ++ 3h)
Veniafaxina 1-2 +++ +++ + 5 (2-7)
-Desmetil 1-11 10 (8-13)
Futuro
Reboxetina NK 13 0 +++ 0 2
Trazodona 3-7 ++ 0 0 1/2
MC PP +
Viloxazina Nenhum 4-13 0 + + 1-4
Bupropiona 10-14 0 + 0