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Neuropatia Periférica
INTRODUÇÃO
Neuropatia periférica é um termo genérico, que se refere aos distúrbios dos nervos periféricos,
independente da causa. Existem inúmeras causas, mas é sabido que em aproximadamente 20%
dos pacientes não se consegue estabelecer a etiologia do dano neural.
CLASSIFICAÇÃO
QUANTO À EXTENSÃO DA DOENÇA
• Mononeuropatia: lesão isolada do nervo.
• Mononeuropatia Múltipla (MM): comprometimento sequencial e aleatório de vários
nervos.
• Polineuropatia (PNP): dano difuso dos nervos de modo simétrico, seguindo, na maioria das
vezes, a orientação distal para proximal.
QUANTO AO TIPO DE FIBRAS NERVOSAS ENVOLVIDAS
• Sensitivas nas: sensibilidade dolorosa, térmica e função autonômica.
• Sensitivas grossas: sensibilidade tátil e propriocepção.
• Motora: fraqueza e atro a.
• Mista.
QUANTO AO TEMPO
• Aguda: até 4 semanas.
• Subaguda: 4 a 12 semanas.
• Crônica: acima de 12 semanas.
QUANTO AO TIPO DE LESÃO
Axonal, desmielinizante ou mista. Essas subdivisões são fundamentais para direcionar a
investigação.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Anamnese:lista de medicamentos usados; comorbidades; história de vacinação, trauma, parto,
cirurgia ou infecção prévia; perda de peso; exposição a tóxicos ou álcool; história familiar.
QUADRO CLÍNICO GERAL
Sintomas sensitivos positivos (dor, formigamento, queimação, agulhada) e/ou negativos
(dormência, hipoestesia ou anestesia de qualquer modalidade sensitiva) no território acometido.
Alteração da marcha e equilíbrio, pela associação ou não de ataxia sensitiva e fraqueza. Re exos
tendinosos normais, reduzidos ou abolidos. Fraqueza classi cada pela escala de força em 0 a 5 e
atro a. Sintomas disautonômicos: hipotensão postural, disfunção erétil, distúrbio es ncteriano,
diarreia ou constipação, alteração da sudorese, alteração pupilar, olhos e boca secos.
Mononeuropatias: geralmente por causas compressivas ou traumáticas. Em poucos casos, pode
ser o início de um comprometimento generalizado, a exemplo de: diabetes, hanseníase,
amiloidose, hipotireoidismo, acromegalia, artrite reumatoide.
NERVO/LOCAL CLÍNICA
Síndrome do Túnel do Carpo Mediano no Sensitivo: face palmar do 1o, 2o, 3o e metade
punho radial do 4o dedo Fraqueza nos músculos:
Abdutor curto do polegar, oponente do
polegar e exor curto do polegar
Neuropatia do Ulnar no sulco ulnar no Sensitivo: face palmar e dorsal do 5o dedo e
cotovelo ou túnel cubital metade ulnar do 4o dedo Fraqueza: músculos
intrínsecos da mão, abdutor do dedo mínimo,
1o interósseo dorsal, adutor do polegar, exor
ulnar do carpo, exor profundo do 4o e 5o
dedos (mão em garra)
Paralisia do sábado à noite Nervo radial na Sensitivo: face radial do dorso da mão Quadro
goteira do úmero agudo de fraqueza dos músculos extensores
dos dedos e do punho (mão caída)
Neuropatia do nervo bular na cabeça da Ramo bular profundo: fraqueza na extensão
fíbula. do pé e dedos, com hipoestesia numa área
Pode comprimir o nervo bular comum ou semelhante a um triângulo, entre o hálux e o
apenas um dos seus ramos 2o pododáctilo Ramo bular super cial:
fraqueza para eversão do pé, com alteração da
sensibilidade na face lateral da perna e dorso
do pé
Meralgia parestésica Nervo cutâneo lateral da Hiperpatia disestésica na face lateral da coxa,
coxa no ligamento inguinal sem sintomas motores
Mononeuropatia múltipla: envolvimento em tempos diferentes de múltiplos, assimétricos e
não contínuos nervos periféricos. Em 1/3 dos casos o padrão é desmielinizante, devendo suspeitar
de causas autoimunes, como a polineuropatia in amatória desmielinizante crônica (CIDP) e suas
variantes neuropatia motora multifocal (NMM) ou neuropatia multifocal desmielinizante
adquirida sensitiva e motora (MADSAM); hereditária, como a neuropatia hereditária sensível à
compressão (HNPP) ou infecciosa, como a hanseníase. As principais suspeitas na forma axonal são
as vasculites sistêmicas ou limitadas do sistema nervoso periférico (SNP). Outras causas são:
sarcoidose, crioglobulinemia, doença de Lyme, amiloidose e paraneoplásico. As pessoas com
diabetes e o vírus da imunode ciência humana (HIV) podem ter os dois padrões.
Polineuropatia (PNP): o quadro clássico é de um comprometimento simétrico, difuso e
ascendente, em que normalmente o envolvimento sensitivo precede o motor.
Casos particulares podem acometer principalmente as bras nas, pelo menos no início,
chamando atenção para causas como: diabetes, hanseníase, amiloidose, HIV, vírus T-linfotrópico
humano (HTLV), hepatite B ou C, paraproteinemia, paraneoplásico, mieloma ou idiopática em pacientes idosos. Ou lesar de modo generalizado os gânglios sensitivos (ganglioneuronopatia),
surgindo sintomas principalmente de bras sensitivas grossas, como pode ocorrer nas síndromes
paraneoplásicas (câncer de pulmão de pequenas células ou de mama), síndrome de Sjögren,
esclerodermia, lúpus, paraproteinemia, HTLV ou após outras infecções.
Apesar de a PNP ter inúmeras causas, podemos agrupá-las em três principais grupos:
autoimune, hereditária e tóxico-metabólica. E ainda dividi-la em aguda e crônica.
CLASSIFICAÇÃO DAS POLINEUROPATIAS
POLINEUROPATIA AGUDA AXONAL OU DESMIELINIZANTE
Polirradiculopatia desmielinizante Padrão desmielinizante, M>>S, P>D,
in amatória aguda (AIDP) ou Síndrome de somado à arre exia e disautonomia. Pode
Guillain-Barré evoluir para insu ciência respiratória,
exigindo abordagem imediata. Há ainda suas
variantes axonais, de pior prognóstico,
neuropatia motora axonal aguda (AMAN),
neuropatia axonal sensitiva motora aguda
(AMSAN) e Síndrome de Miller-Fisher,
caracteriza-se pela tríade: ataxia,
oftalmoparesia e arre exia, associada à
presença do Ac. Anti-GQ1b
Por ria Polirradiculopatia axonal, M>>S, P>D e
disautonômica. Pode associar-se a quadro
recorrente de dor abdominal, delirium, psicose
e convulsão
PNP diftérica PNP SM desmielinizante, associada à paralisia
da faringe, laringe e turvação visual
Tóxico/medicamentoso Botulismo (axonal-M), dapsona (axonal SM),
nitrofurantoína, vincristina (axonal-M),
cisplatina (axonal-S), paclitaxel (axonal-S),
piridoxina em excesso (axonal-S), tálio
(axonal-SM), arsênio (axonal-SM),
organofosforados (axonal- SM), trianilfosfato
(axonal-SM), sais de ouro (desmielinizante) e
n-Hexano (desmielinizante).
PNP do doente crítico Ocorre em pacientes submetidos a internações
com quadro grave, sepse, uso de antibióticos,
bloqueadores neuromusculares, corticoide.
PNP M>>S e axonal
Uremia aguda Principalmente quando associada ao diabetes
mellitus, à diálise e à insu ciência renal
crônica. PNP M e desmielinizante
Vasculites sistêmica ou isolada do SNP Axonal
PNP aguda autonômica pura Pós-infecciosa
POLINEUROPATIA CRÔNICA AXONAL
SM Insu ciência renal; de ciência nutricional:
vitaminas E, B1, B6 e ácido fólico; Lyme;
amiloidose sistêmica primária; crioglobulina;
gamopatia monoclonal de signi cado
indeterminado (MGUS) tipo IgA ou IgG;
doença celíaca; vasculites
S ou SM Síndrome de Sjögren; artrite reumatoide;
lúpus; esclerodermia; acromegalia; doença
pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) grave;
sarcoidose; carcinoma (pulmão e mama);
mieloma múltiplo tipo lítico (proteína Kappa)
S De ciência de vitamina B12 (mielopatia);
policitemia vera; cirrose biliar primária
M Insulinoma
M>S PNP do doente crítico
A Diabete mellitus (DM); amiloidose primária;
mieloma múltiplo (tipo lítico); linfoma;
carcinoma; de ciência nutricional;
hanseníase; uremia; doença celíaca
Genética Charcot-Marrie-Tooth (CMT) tipo 2;
neuropatia hereditária sensorial e Autonômica
(HSAN) tipos 1, 2, 3, 4 e 6; PNP amiloidótica
familiar; neuronopatia sensorial da doença de
Fabry; neuronopatia da abetalipoproteinemia;
adrenomieloneuropatia; neuropatia axonal
gigante; por ria; ataxia de Friedrich e ataxia
telangectásica; doença de Tangier
POLINEUROPATIA CRÔNICA DESMIELINIZANTE OU AXONAL
S/SM/M DM
S/SM doença hepática crônica
S/SM hipotireoidismo
S/SM hanseníase
S>SM HIV
SM Linfoma Hodgkin ou Não Hodgkin
POLINEUROPATIA CRÔNICA DESMIELINIZANTE
Imunomediada CIDP; MADSAM ou Síndrome de Lewis-
Summer; NMM; DADS (neuropatia distal
adquirida desmielinizante e simétrica)
Paraproteína Mieloma múltiplo osteoesclerótico (proteína
lambda) SM, associado ou não a Síndrome de
POEMS; MGUS tipo IgM, 1/3 associado a Ac
anti-MAG positivo, forma S ou SM;
macroglobulinemia de Waldestrom, S ou SM,
metade dos pacientes com Ac. Anti-MAG
positivo
Genética Doença de Charcot-Marrie-Tooth tipos 1, 4 e
ligado ao X; doença de Dejerine-Sottas; HNPP;
adrenoleucodistro a; leucodistro a
metacromática; doença de Krabbe; doença de
Refsum; síndrome de Cockayne; xantomatose
cerebrotendínea; distro a muscular congênita
merosina-negativa
POLINEUROPATIA DEVIDO À MEDICAÇÃO
AXONAL
SM Hidralazina, isoniazida, metronidazol,
misonidazol, nitrofurantoína, colchicina,
fenitoína, vincristina, dissul ram, análogos de
nucleosídios (ddC, ddI, d4T), amitriptilina,
zidovudina (AZT), estatinas, ciclofosfamida
S Cisplatina, piridoxina em altas doses,
talidomida
M Dapsona
AXONAL OU DESMIELINIZANTE
Amiodarona (SM); Aurotioglicose (SM);
Suramina (M>S); Paclitaxel (S>M)
Polineuropatia tóxica
AXONAL
SM Arsênio; cádmio; dissulfeto de carbono; tálio;
cianeto; acrilamida; lítio; organofosforado;
óxido de etileno
M Botulismo; mercúrio; chumbo
(monoparesiado radial); tétano; vincristina
DESMIELINIZANTE Difteria (SM)
MISTA Hexacarboneto; N-hexano; ouro; triptofano
*M: motor; S: sensitivo; P: proximal; D: distal; A: alteração autonômica.
DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR
EXAMES SOLICITADOS PARA INVESTIGAÇÃO
Hemograma, VHS, PCR, ureia, creatinina, proteína de 24h, glicose de jejum, teste oral de
tolerância à glicose, hemoglobina glicada, dosagem de vitamina B1, B6, B12, E, ácido fólico;
TGO, TGP, GGT, fosfatase alcalina, BB total e frações; anti-Ro/SSa, anti-La/SSb, fator reumatoide,
Waller Rose, prova do látex, FAN, Ac anti-DNA, Ac. Anti-RNP, Ac. Anti SM, CH50, C3, C4,
eletroforese de proteína com imuno xação no sangue e urina, crioglobulina, TSH, T4 livre, Ac
anti-HIV, ECA, ANCA, sorologia para hepatites B e C, Ac. antimitocôndria, Ac. antiendomísio, Ac
antitransglutaminase e Ac antigliadina. Dosagem urinária de porfobilinogênio e ácido delta-
aminolevulínico. Homocisteína e ácido metilmalônico. VDRL e FTA-ABS. Pesquisa de sangue
oculto nas fezes, EAS e EPF.
Rx de tórax, Rx do esqueleto (osso longo, pelve, coluna e crânio), US da pelve, mama e próstata,
PSA, mamogra a, marcadores tumorais, avaliação ginecológica. Endoscopia digestiva alta,
colonoscopia. Avaliação da medula óssea
Dosagem de metais pesados
Outros: exame de lâmpada de fenda, Teste de Schirmer, biópsia de glândula salivar e lacrimal;
Teste de Schilling
Ac anti-MAG (MGUS IgM, macroglobulinemia de Waldestrom, DADS), Ac. anti-GM1 (NMM,
AMAN), Ac. Anti-GQ1B IgG (S. Miller Fisher) Ac anti-HU, Ac anti Yo
VHS: velocidade de hemossedimentação; PCR: proteína C reativa; TGO: transaminase glutâmico
oxalacética; TGP: transaminase glutâmico pirúvica; GGT: gamaglutamiltransferase; ECA: enzima
conversora da angiotensina; ANCA: anticorpos anticitoplasma de neutró los; EPF: exame
parasitológico de fezes; EAS: exame simples de urina; US: ultrassonogra a; MGUS: gamopatia
monoclonal de signi cado indeterminado.
ELETRONEUROMIOGRAFIA (ENMG)
Exame que permite avaliar o padrão da neuropatia e local de acometimento. Na ENMG, o padrão
desmielinizante homogêneo e simétrico, sem bloqueio de condução ou dispersão temporal,
sugere uma causa herdada.
LÍQUIDO CEFALORRAQUIDIANO (LCR)
Feito quando há suspeita de condição imunomediada, na procura da dissociação
albuminocitológica ou infecciosa, com evidências de pleocitose ou positividade em culturas ou
PCR. P.Ex.: AIDP, CIDP, sarcoidose, HIV, borreliose, MGUS, macroglobulinemia de Waldestrom. BIÓPSIA DO NERVO (SURAL, FIBULAR SUPERFICIAL OU CUTÂNEO DORSAL DA MÃO)
Indicado quando há espessamento do nervo à palpação ou um distúrbio assimétrico e multifocal,
sem outra con rmação diagnóstica. Por exemplo, hanseníase, vasculite, amiloidose, sarcoidose e
algumas neuropatias desmielinizantes.
TESTE GENÉTICO
Deve-se suspeitar de uma condição hereditária, quando estamos diante de uma condição
insidiosa, de longa duração, por vezes iniciada na infância ou juventude, mesmo na ausência de
outros casos na família. Achados no exame clínico de pé cavo, deformidades da coluna, atro a
importante com preservação da marcha e poucos sintomas sensitivos objetivos, comparados aos
motores, também falam a favor de uma mutação genética.
TRATAMENTO
O primordial a ser feito é o tratamento da doença de base, para impedir ou retardar a evolução da
neuropatia. No caso das doenças autoimunes na fase aguda, há a opção de ser feita
imunoglobulina humana IV (0,4 g/Kg/dia em ciclos de 5 dias) ou plasmaférese. Quando crônica,
pode ser feito corticoide oral ou azatioprina para manutenção da remissão.
Quando existir queixa de dor neuropática, pode ser usado em monoterapia ou em
combinação: antidepressivo tricíclico (amitriptilina, nortriptilina ou desipramina) e/ou um
inibidor da recaptação da noradrenalina e serotonina (duloxetina ou venlafaxina) e/ou um ligante
de alfa2-delta de canal de cálcio (gabapentina ou pregabalina).
A melhora da força motora e equilíbrio se dá principalmente pela reabilitação sioterápica.