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Cefaleia
INTRODUÇÃO
A cefaleia é uma queixa muito frequente na prática clínica e deve ser considerada um sinal de
alerta, seja ela importante ou não.
O termo cefaleia é usado para designar a presença de sensação dolorosa em todo o segmento
cefálico (cabeça, pescoço e face). Geralmente resulta de distúrbios que afetam estruturas sensíveis
à dor, localizadas na cabeça e no pescoço, como meninges, vasos sanguíneos e músculos, podendo
ocorrer em qualquer faixa etária.
Embora seja uma condição benigna, na maioria dos casos, principalmente nos quadros
crônicos, a cefaleia pode ser a primeira manifestação clínica de uma série de doenças sistêmicas e
exige uma apurada investigação clínica.
O diagnóstico é feito considerando-se o per l da crise isolada e o comportamento do tipo de
cefaleia reincidente. Sendo assim, informações como a época de início, a frequência de crises, os
fatores associados e desencadeantes, a relação com ciclo menstrual e o intervalo entre as crises
são fundamentais para uma correta caracterização do tipo de cefaleia e da de nição terapêutica.
CLASSIFICAÇÃO
QUANTO À ETIOLOGIA
CEFALEIAS PRIMÁRIAS
São decorrentes de um desequilíbrio eletroquímico com origem no sistema nervoso central (SNC)
que, como resposta, causa dor no segmento cefálico. Neste caso, o próprio sintoma caracteriza a
doença. Deste modo, exames de imagem, liquor ou exames laboratoriais não auxiliam no
diagnóstico. Os principais exemplos para esse tipo de cefaleia são a enxaqueca, a cefaleia tipo
tensional e a cefaleia em salvas. Um provável caráter hereditário e uma susceptibilidade
individual para desencadear cada crise caracterizam este grupo de cefaleias.
CEFALEIAS SECUNDÁRIAS
Por outro lado, as cefaleias secundárias ocorrem como manifestação de uma doença de base;
nestes casos, é possível que já encontremos alterações nos exames de imagem, liquor ou em
exames laboratoriais de rotina. Como exemplo temos as meningites, os processos expansivos
intracranianos, as hemorragias intraparenquimatosas e as infecções sistêmicas.
Na primeira abordagem do paciente com cefaleia, é de fundamental importância que o
médico faça corretamente a distinção entre cefaleia primária e secundária, para que solicite
exames complementares quando não tiver condições seguras do diagnóstico de cefaleia primária.
QUANTO À INSTALAÇÃO
O modo como a cefaleia se instala e a forma como evolui podem nos direcionar para a sua
etiologia. Assim, podemos falar em cefaleia explosiva, aguda, subaguda e crônica. Esta
distribuição no tempo pode ser observada na gura.
Classi cação das cefaleias quanto ao seu modo de instalação.
CEFALEIAS EXPLOSIVAS
Iniciam abruptamente, atingem sua intensidade máxima em segundos; como exemplos podemos
citar a ruptura de um aneurisma e a cefaleia relacionada ao coito.
CEFALEIAS AGUDAS
Atingem seu pico máximo em algumas horas, podendo fazer parte tanto das cefaleias primárias
como das secundárias. Exemplos comuns são: enxaqueca, cefaleia tensional e meningites.
CEFALEIAS SUBAGUDAS
Apresentam uma instalação mais insidiosa, atingindo seu ponto máximo em alguns dias,
podendo durar até 3 meses. Esse tipo de instalação é bastante característico das cefaleias
secundárias decorrentes de hematomas subdurais, por exemplo.
CEFALEIAS CRÔNICAS
São geralmente cefaleias primárias que se instalam por anos. Podem ser persistentes, ocorrer
diariamente ou quase diariamente, permanecer por um período mínimo de quatro horas ou
ocorrer em períodos variáveis, alternando com períodos de acalmia. Como exemplos citamos a
enxaqueca e a cefaleia em salvas.
CLASSIFICAÇÃO
QUANTO À INSTALAÇÃO
Nos casos das cefaleias crônicas, devemos valorizar sempre qualquer alteração no padrão da dor,
seja na intensidade, na frequência ou no modo de instalação. Sempre que isso acontecer, será
necessária uma nova investigação com exames clínico, laboratorial e de imagem para que possa
ser afastada uma cefaleia secundária.
ENXAQUECA
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Caracterizada pelo aparecimento de dor de cabeça recorrente, uni ou bilateral, de caráter pulsátil,
com intensidade moderada a grave, incapacitante. Pode ser precedida ou não de sintomas
neurológicos que são denominados aura. A aura é um sintoma neurológico decorrente da
disfunção no córtex ou tronco cerebral, que precede a crise em alguns minutos, quando então,
aparece a dor. Existem vários tipos de aura, sendo as visuais as mais frequentes, caracterizadas por escotomas, espectro de forti cação e hemianopsias. Auras motoras e sensitivas também podem
ser encontradas e se manifestam como hemiplegia e hemiparestesias transitórias.
As crises de enxaqueca são geralmente associadas à náusea, aos vômitos e à foto, fono ou
osmofobia. Geralmente têm duração de 4 a 72 horas. Caracteristicamente melhoram com repouso
e pioram com o movimento. Algumas situações podem desencadear as crises de dor, como o
jejum prolongado, a privação de sono e a ingesta de alimentos gordurosos e bebidas alcoólicas.
DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR
Os exames laboratoriais e de imagem não são necessários para o diagnóstico da enxaqueca. Ele é
feito pela história clínica, que é bastante característica. Apenas nos casos de dúvida diagnóstica
ou em situações nas quais há alteração do padrão da dor é que deverão ser solicitados exames
laboratoriais e de imagem.
TRATAMENTO
Na fase aguda, o tratamento consiste em medidas não farmacológicas, como repouso em quarto
escuro e sono, e medidas farmacológicas com as seguintes medicações:
MEDIDAS FARMACOLÓGICAS PARA TRATAMENTO DA ENXAQUECA
MEDICAÇÃO DOSE
Naproxeno 250 a 1.100 mg/dia
Dipirona 500 a 1.000 mg/dia ou IV diluída
Sumatriptano 25, 50 ou 100 mg VO ou 6 mg SC Pode ser
repetido de 1-2 h, dose máxima 200 mg/dia
(VO) ou 12 mg SC
Naratriptano 1 a 5 mg/dia
Ibuprofeno 300 a 800 mg/dia
PROFILAXIA
A pro laxia está indicada em pacientes que apresentam crises intensas e frequentes, com duas ou
mais crises/mês. As seguintes drogas podem ser utilizadas para esse m:
PROFILAXIA PARA CRISES INTENSAS E FREQUENTES DE ENXAQUECA
MEDICAMENTOS DOSE
Amitriptilina 25 a 75 mg/dia
ß-bloqueadores 80 a 240 mg/dia (propranolol) 100 a 150
mg/dia (atenolol)
Flunarizina 10 a 20 mg/dia
Valproato de sódio 750 a 1.500 mg/dia
Topiramato 100 a 200 mg/dia
CEFALEIA TENSIONAL
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Trata-se de dor em pressão ou aperto, em todo o segmento cefálico, com duração de minutos a até
sete dias. Apresenta intensidade leve a moderada, não sendo agravada pela atividade física. Em
geral, não tem sintomas associados; apenas uma pequena parte dos pacientes irá se queixar de
foto ou fonofobia.
A cefaleia tensional apresenta alta prevalência na população em geral, mas sua
siopatologia ainda é pouco conhecida. Um fator desencadeante frequente desse tipo de cefaleia
é o estresse.
O diagnóstico é feito baseando-se na anamnese e no exame físico.
DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR
Os exames laboratoriais e de imagem não são necessários para o diagnóstico.
TRATAMENTO
O tratamento não farmacológico é recomendado, assim como sioterapia motora e correções
posturais. No tratamento farmacológico os anti-in amatórios não hormonais, como naproxeno
sódio 550 a 1.100 mg são e cientes no controle da dor.
PROFILAXIA
Na pro laxia dos casos crônicos são utilizados os antidepressivos tricíclicos como a amitriptilina,
na dose de 25 a 75 mg/dia, com boa resposta.
CEFALEIA EM SALVAS
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Também conhecida como cluster headache, a cefaleia em salvas é caracterizada pelo seu padrão
típico temporal da dor e sua predileção pelo sexo masculino (4:1). Apresenta períodos de dor
diária repetindo-se por mais de 14 dias até alguns meses, seguidos de um período de remissão
dos sintomas. Este ciclo se repete. As salvas são separadas por períodos assintomáticos que duram
de 14 dias a 1 ano ou mais. A idade de início dos sintomas ocorre entre 20 e 40 anos.
O quadro tem início súbito, é sempre unilateral, do mesmo lado, com localização
principalmente frontal, temporal ou em qualquer combinação dessas áreas. Caracteriza-se por
uma dor excruciante, acompanhada por sinais e sintomas autonômicos, como congestão nasal,
lacrimejamento, hiperemia conjuntival, sudorese frontal, rinorreia, edema palpebral, síndrome de
Horner, com miose e ptose parcial ipsilateral à dor. Repete-se de uma a quatro vezes ao dia.
Frequentemente inicia-se no período noturno e a apneia do sono pode ser um fator
desencadeante, assim como o uso de bebidas alcoólicas, histamina e medicamentos derivados da
nitroglicerina.
DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR
Os exames laboratoriais de rotina e de imagem não se mostram alterados nesse caso, e não
auxiliam no diagnóstico.
TRATAMENTO
Administração de oxigênio a 100% sob máscara, 5 a 7 litros/minuto, durante 15 minutos, tem se
mostrado bastante efetiva para abortar a crise. O sumatriptano subcutâneo na dose de 6 mg tem
ação rápida e e caz. O sumatriptano também pode ser usado via oral, na dose de 100 a 200 mg,
porém, seu efeito é mais lento.
PROFILAXIA
O tratamento preventivo tem como objetivo abreviar o período da salva, e para tal, podemos
utilizar as seguintes medicações:
MEDICAÇÕES PARA PREVENIR A CEFALEIA EM SALVAS
MEDICAÇÃO DOSE
Verapamil 160 a 240 mg/dia
Carbonato de lítio* 300 a 900 mg/dia
Valproato de sódio 1.000 mg/dia
Nimodipina 60 a 90 mg/dia
*controle frequente do nível sérico de lítio.
CEFALEIA CRÔNICA DIÁRIA
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Acomete o paciente diariamente ou quase que diariamente, tem duração de mais de 4 horas, por
mais de 15 dias/mês. Nesses casos estão englobados a cefaleia tensional crônica, enxaqueca
crônica e cefaleia por uso abusivo de analgésicos, entidade bastante comum na prática clínica,
caracterizada pelo consumo maior ou igual a 50 g de analgésico comum/mês ou consumo maior
ou igual a 100 comprimidos/mês de combinações analgésicas com ou sem associação de opioides. É caracterizada por um padrão de dor atípica, diária e constante, que pode se sobrepor a um
padrão de dor já existente. Seu diagnóstico pode ser feito apenas com a suspensão do analgésico,
o que resulta na melhora da cefaleia.
TRATAMENTO
Com a suspensão do uso abusivo de analgésico, após alguns dias, o padrão da cefaleia
preexistente irá aparecer; assim, poderá ser tratada adequadamente com as medidas pro láticas.
Durante a fase de abstinência da medicação, a cefaleia pode ser controlada com uso de triptanos
orais.