GPS: Clínica Médica

Fernanda Mazza · Capítulo 13 de 96

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GPS: Clínica Médica

Dermatologia – Coordenador: Omar Lupi

INTRODUÇÃO E CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS

 

Candidíase, candidose, monilíase designam uma micose produzida essencialmente por Candida

albicans e, por vezes, por outras espécies de Candida, comprometendo, isolada ou conjuntamente,

mucosas, pele e unhas e, raramente, outros órgãos.

A C. albicans é uma levedura de distribuição universal, sapró ta no tubo gastrointestinal e na

mucosa vaginal e é, eventualmente, patógena. São fungos oportunistas que agridem o homem

em determinadas condições, dentre elas: modi cações siológicas, como na gravidez e em

doenças como diabetes; de ciências imunológicas; terapia com antibióticos, corticoides e

imunossupressores; estados de umidade prolongada, como em lavadeiras e fraldas de bebês;

maceração cutânea.

Existe, em condições normais, um fator sérico natural anticandida, que di culta a invasão da

levedura.

 

Lesões satélites na candidíase.

 

DIAGNÓSTICO CLÍNICO

Existem diversas formas clínicas de candidíase. São elas:

 

CANDIDÍASE ORAL

 

Também denominada sapinho ou estomatite cremosa, esse tipo é comum em lactentes

(contaminação pela passagem durante o canal de parto vaginal), idosos e imunodeprimidos,

especialmente os com síndrome da imunode ciência adquirida (AIDS).

As lesões apresentam-se como placas cremosas brancacentas, circulares ou ovais, isoladas ou

con uentes, que são recobertas por induto esbranquiçado e podem comprometer toda a cavidade

oral.

Perlèche (queilite angular) são lesões ssuradas na junção dos lábios que ocorrem em especial

nos idosos, pelo uso de próteses dentárias.

 

CANDIDÍASE VULVOVAGINAL

 

São mais propensas à candidíase vulvovaginal as gestantes, as diabéticas, as pacientes em uso de

anticoncepcionais, antibioticoterapia prolongada, irritação mecânica ou química da mucosa

vaginal (duchas vaginais).

O quadro caracteriza-se por leucorreia e placas esbranquiçadas na vulva e mucosa vaginal,

acompanhadas de prurido.

 

CANDIDÍASE BALANOPREPUCIAL

 

Homens idosos, diabéticos, portadores de mose, higiene inadequada, umidade local, uso de

cremes ou pomadas com corticoides são fatores predisponentes.

Apresenta-se como lesões eritematosas ou eritematoerosivas na glande, recobertas ou não por

induto esbranquiçado. Eritema e edema podem ser observados no prepúcio, acompanhados, às

vezes de ardor e prurido.

 

CANDIDÍASE INTERTRIGINOSA

 

Obesidade, diabetes, umidade (doença ocupacional em lavadeiras, hiperidrose nos pés) e higiene

inadequada são mais comuns de causar esse tipo de candidíase.

Atinge as dobras axilares, inguinais, submamárias, interdigitais e caracteriza-se por lesões

erosivas, úmidas, ssuradas, que são envoltas por colarete córneo, bastante sugestivo. Geralmente

há lesões satélites que se iniciam como vesículas ou pústulas. Pode ter prurido de intensidade

variável e ardor.

 

CANDIDÍASE FOLICULAR

 

Diabéticos e imunodeprimidos podem desenvolver foliculite da barba por C. albicans que se

caracteriza por lesões pustulosas e foliculares ou erosivas e crostosas, semelhantes às foliculites

bacterianas ou dermatofíticas.

 

PARONÍQUIA E ONICOMICOSE

 

Afecção ocupacional, causada por contato continuado com água, sabão e detergentes. As

mulheres são muito acometidas. Além disso, a retirada de cutícula e lavagem excessiva também

predispõem ao quadro. Outras causas são diabetes, imunodepressão e desnutrição.

Na paroníquia, há lesão eritematoedematosa periungueal dolorosa, que pode levar à

onicólise. Em geral, além de C. albicans, outros fungos, dermató tos e algumas bactérias também

podem participar do processo.

 

DIAGNÓSTICO CLÍNICO

 

CANDIDÍASE MUCOCUTÂNEA CRÔNICA

 

Causada pela suscetibilidade para infecções fúngicas, bacterianas e virais, esse tipo é raro e grave.

Possui duas formas:

 

CONGÊNITA

 

Anomalia genética autossômica recessiva que pode ocorrer em um defeito da imunidade celular

ou humoral, endocrinopatias ou de ciência de ferro. Inicialmente se dá com estomatite ou

paroníquia, seguidas de lesões papulosas ou nodulares, que se transformam em cornos cutâneos.

Na mucosa oral, há placas cremosas, brancacentas, que podem atingir faringe, laringe e esôfago. Podem ocorrer também queilite angular hipertró ca, paroníquia, intertrigo, onicodistro a,

conjutivite, blefarite e, eventualmente, enterite, uretrite, cistite e endocardite.

 

ADQUIRIDA

 

A imunodepressão pode ser causada por corticoides, citostáticos, linfomas, tumores malignos,

infecção por vírus da imunode ciência humana (HIV) e outros. Surge no adulto e as lesões

atingem mucosas, peles e unhas.

 

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL

 

O diagnóstico pode ser con rmado pelos seguintes exames:

 

EXAME MICOLÓGICO DIRETO

 

Realizado com potassa (KOH) ou coloração pelo Gram, no qual se observam pequenas leveduras

ovais arredondadas, de parede na, com brotamento único ou múltiplo. São Gram-positivas.

A observação de lamentos, de modo geral, indica a forma invasiva do fungo, onde se

veri cam ainda pseudo-hifas e blastoconídeos.

 

CULTURA

 

Desenvolve-se bem em ágar-Sabouraud-dextrose, acrescido de antimicrobianos. Apresenta-se

como colônia de coloração branca ou bege, de consistência cremosa e brilhante (“aspecto de

pingo de vela”).

Para identi cação de C. albicans, podem ser utilizadas provas morfológicas.

 

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

 

O diagnóstico diferencial depende da localização da infecção.

As lesões de candidíase oral podem confundir-se com leucoplasia pilosa, líquen plano e lesão

oral de sí lis secundária. A diferenciação se baseia na facilidade de remoção das placas

esbranquiçadas da candidose.

A candidíase vulvovaginal deve ser diferenciada da vulvovaginite gonocócica e vaginose

bacteriana, em que notamos na candidíase uma secreção esbranquiçada e cremosa como “leite

coalhado”, sendo a diferenciação por exame micológico mais especí co.

A candidose intertriginosa tem como diagnósticos diferenciais a tinea cruris e tinea pedis,

sendo o diagnóstico feito por exame micológico e, eczemas, que clinicamente apresentam menor

intensidade do prurido e presença escassa de vesículas na candidose.

 

COMPLICAÇÕES

 

As complicações da candidíase ocorrem em razão da disseminação hematogênica do fungo,

podendo alcançar qualquer sistema, e isso se dá mais frequentemente em pacientes

imunodeprimidos, como os portadores de neoplasias malignas, doenças degenerativas e AIDS. As

infecções sistêmicas mais comuns pelo fungo são: esofagite, endocardite, meningite, artrite e

endoftalmite.

 

TRATAMENTO

 

O tratamento deve ser feito inicialmente com medidas que controlem ou eliminem os fatores

predisponentes, caso existam. Várias medicações podem ser empregadas nas diferentes

manifestações clínicas das candidíases.

 

TRATAMENTO TÓPICO

 

CANDIDÍASES MUCOCUTÂNEAS

 

Para as candidíases mucocutâneas de pequena extensão, pode ser usado somente o tratamento

tópico com cremes, soluções e cremes vaginais.

No mercado, encontramos uma série de medicações tópicas e cientes para o tratamento das

candidíases cutâneas e devem ser utilizadas de 1 a 2 vezes ao dia por, no mínimo, 21 dias ou até a

remissão completa do quadro, dentre elas: isoconazol em creme, solução e spray; oxiconazol em

creme e solução; cetoconazol em creme; tioconazol a 1% em creme, loção, pó e spray; clotrimazol

em creme e solução; miconazol em loção cremosa e creme, loção, pó; econazol em creme e loção; ciclopiroxolamina em creme, solução e esmalte; terbina na a 1% em creme, solução, spray e gel;

amorol na em creme a 0,25% e esmalte a 5%.

 

CANDIDÍASE ORAL

Nistatina suspensão oral 100 mil unidades por mL; em prematuros e recém-nascidos, 1 mL a cada

6 horas; lactentes e crianças, 2 mL a cada 6 horas; crianças maiores e adultos, 4 mL a 6 mL ao dia.

Permanecer com a suspensão retida na cavidade bucal (realizar bochechos) antes de degluti-la.

 

CANDIDÍASE VULVOVAGINAL

Nistatina, cremes imidazólicos (isoconazol, miconazol, fenticonazol) na apresentação creme

vaginal – 1 vez à noite, por 7 a 10 dias.

Fenticonazol óvulo vaginal – 1 óvulo em dose única.

 

CANDIDÍASE BALANOPREPUCIAL

Tratamento semelhante à candidíase vulvovaginal.

 

TRATAMENTO SISTÊMICO

 

Nos casos mais extensos e recorrentes de candidíase, deve ser utilizada a terapia tópica

combinada à terapia sistêmica. E principalmente nos casos de candidíase folicular, paroníquia,

oncomicose e candidíase mucocutânea crônica, a terapia tópica isolada pode não ser su ciente e,

então, devemos iniciar o tratamento sistêmico. Para isso, temos disponíveis vários antifúngicos

orais, sendo os descritos a seguir os que representam maior atividade contra as espécies de

Candida.

 

FLUCONAZOL

É a primeira escolha.

• Candidíase oral e balanoprepucial: 50-100 mg/dia, por 7 a 14 dias.

• Candidíase vulvovaginal: 150 mg em dose única.

• Candidíase mucocutânea crônica ou sistêmica: 200-400 mg/dia até a remissão do quadro.

 

ITRACONAZOL

Tem espectro de ação maior, incluindo outros fungos. Usado na dose de 200 mg ao dia, por 5 dias.

CETOCONAZOL

Menos efetivo e menor tolerância.

Dose: 200-400 mg ao dia, por 7 dias, e, em mucocutânea crônica, até a remissão do quadro.

 

ANFOTERICINA

Em casos de candidíase sistêmica, a anfotericina B é o medicamento de escolha, podendo

também ser utilizados o uconazol e o itraconazol. Anfotericina B na dose de 0,3-1,0 mg/kg/dia,

uconazol 100-800 mg/dia VO ou IV e itraconazol na dose de 200 mg IV (1 a 2 vezes ao dia) ou

200 mg VO, 2 vezes ao dia.