GPS: Clínica Médica
Dermatologia – Coordenador: Omar Lupi
INTRODUÇÃO E CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS
Candidíase, candidose, monilíase designam uma micose produzida essencialmente por Candida
albicans e, por vezes, por outras espécies de Candida, comprometendo, isolada ou conjuntamente,
mucosas, pele e unhas e, raramente, outros órgãos.
A C. albicans é uma levedura de distribuição universal, sapró ta no tubo gastrointestinal e na
mucosa vaginal e é, eventualmente, patógena. São fungos oportunistas que agridem o homem
em determinadas condições, dentre elas: modi cações siológicas, como na gravidez e em
doenças como diabetes; de ciências imunológicas; terapia com antibióticos, corticoides e
imunossupressores; estados de umidade prolongada, como em lavadeiras e fraldas de bebês;
maceração cutânea.
Existe, em condições normais, um fator sérico natural anticandida, que di culta a invasão da
levedura.
Lesões satélites na candidíase.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Existem diversas formas clínicas de candidíase. São elas:
CANDIDÍASE ORAL
Também denominada sapinho ou estomatite cremosa, esse tipo é comum em lactentes
(contaminação pela passagem durante o canal de parto vaginal), idosos e imunodeprimidos,
especialmente os com síndrome da imunode ciência adquirida (AIDS).
As lesões apresentam-se como placas cremosas brancacentas, circulares ou ovais, isoladas ou
con uentes, que são recobertas por induto esbranquiçado e podem comprometer toda a cavidade
oral.
Perlèche (queilite angular) são lesões ssuradas na junção dos lábios que ocorrem em especial
nos idosos, pelo uso de próteses dentárias.
CANDIDÍASE VULVOVAGINAL
São mais propensas à candidíase vulvovaginal as gestantes, as diabéticas, as pacientes em uso de
anticoncepcionais, antibioticoterapia prolongada, irritação mecânica ou química da mucosa
vaginal (duchas vaginais).
O quadro caracteriza-se por leucorreia e placas esbranquiçadas na vulva e mucosa vaginal,
acompanhadas de prurido.
CANDIDÍASE BALANOPREPUCIAL
Homens idosos, diabéticos, portadores de mose, higiene inadequada, umidade local, uso de
cremes ou pomadas com corticoides são fatores predisponentes.
Apresenta-se como lesões eritematosas ou eritematoerosivas na glande, recobertas ou não por
induto esbranquiçado. Eritema e edema podem ser observados no prepúcio, acompanhados, às
vezes de ardor e prurido.
CANDIDÍASE INTERTRIGINOSA
Obesidade, diabetes, umidade (doença ocupacional em lavadeiras, hiperidrose nos pés) e higiene
inadequada são mais comuns de causar esse tipo de candidíase.
Atinge as dobras axilares, inguinais, submamárias, interdigitais e caracteriza-se por lesões
erosivas, úmidas, ssuradas, que são envoltas por colarete córneo, bastante sugestivo. Geralmente
há lesões satélites que se iniciam como vesículas ou pústulas. Pode ter prurido de intensidade
variável e ardor.
CANDIDÍASE FOLICULAR
Diabéticos e imunodeprimidos podem desenvolver foliculite da barba por C. albicans que se
caracteriza por lesões pustulosas e foliculares ou erosivas e crostosas, semelhantes às foliculites
bacterianas ou dermatofíticas.
PARONÍQUIA E ONICOMICOSE
Afecção ocupacional, causada por contato continuado com água, sabão e detergentes. As
mulheres são muito acometidas. Além disso, a retirada de cutícula e lavagem excessiva também
predispõem ao quadro. Outras causas são diabetes, imunodepressão e desnutrição.
Na paroníquia, há lesão eritematoedematosa periungueal dolorosa, que pode levar à
onicólise. Em geral, além de C. albicans, outros fungos, dermató tos e algumas bactérias também
podem participar do processo.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
CANDIDÍASE MUCOCUTÂNEA CRÔNICA
Causada pela suscetibilidade para infecções fúngicas, bacterianas e virais, esse tipo é raro e grave.
Possui duas formas:
CONGÊNITA
Anomalia genética autossômica recessiva que pode ocorrer em um defeito da imunidade celular
ou humoral, endocrinopatias ou de ciência de ferro. Inicialmente se dá com estomatite ou
paroníquia, seguidas de lesões papulosas ou nodulares, que se transformam em cornos cutâneos.
Na mucosa oral, há placas cremosas, brancacentas, que podem atingir faringe, laringe e esôfago. Podem ocorrer também queilite angular hipertró ca, paroníquia, intertrigo, onicodistro a,
conjutivite, blefarite e, eventualmente, enterite, uretrite, cistite e endocardite.
ADQUIRIDA
A imunodepressão pode ser causada por corticoides, citostáticos, linfomas, tumores malignos,
infecção por vírus da imunode ciência humana (HIV) e outros. Surge no adulto e as lesões
atingem mucosas, peles e unhas.
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
O diagnóstico pode ser con rmado pelos seguintes exames:
EXAME MICOLÓGICO DIRETO
Realizado com potassa (KOH) ou coloração pelo Gram, no qual se observam pequenas leveduras
ovais arredondadas, de parede na, com brotamento único ou múltiplo. São Gram-positivas.
A observação de lamentos, de modo geral, indica a forma invasiva do fungo, onde se
veri cam ainda pseudo-hifas e blastoconídeos.
CULTURA
Desenvolve-se bem em ágar-Sabouraud-dextrose, acrescido de antimicrobianos. Apresenta-se
como colônia de coloração branca ou bege, de consistência cremosa e brilhante (“aspecto de
pingo de vela”).
Para identi cação de C. albicans, podem ser utilizadas provas morfológicas.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
O diagnóstico diferencial depende da localização da infecção.
As lesões de candidíase oral podem confundir-se com leucoplasia pilosa, líquen plano e lesão
oral de sí lis secundária. A diferenciação se baseia na facilidade de remoção das placas
esbranquiçadas da candidose.
A candidíase vulvovaginal deve ser diferenciada da vulvovaginite gonocócica e vaginose
bacteriana, em que notamos na candidíase uma secreção esbranquiçada e cremosa como “leite
coalhado”, sendo a diferenciação por exame micológico mais especí co.
A candidose intertriginosa tem como diagnósticos diferenciais a tinea cruris e tinea pedis,
sendo o diagnóstico feito por exame micológico e, eczemas, que clinicamente apresentam menor
intensidade do prurido e presença escassa de vesículas na candidose.
COMPLICAÇÕES
As complicações da candidíase ocorrem em razão da disseminação hematogênica do fungo,
podendo alcançar qualquer sistema, e isso se dá mais frequentemente em pacientes
imunodeprimidos, como os portadores de neoplasias malignas, doenças degenerativas e AIDS. As
infecções sistêmicas mais comuns pelo fungo são: esofagite, endocardite, meningite, artrite e
endoftalmite.
TRATAMENTO
O tratamento deve ser feito inicialmente com medidas que controlem ou eliminem os fatores
predisponentes, caso existam. Várias medicações podem ser empregadas nas diferentes
manifestações clínicas das candidíases.
TRATAMENTO TÓPICO
CANDIDÍASES MUCOCUTÂNEAS
Para as candidíases mucocutâneas de pequena extensão, pode ser usado somente o tratamento
tópico com cremes, soluções e cremes vaginais.
No mercado, encontramos uma série de medicações tópicas e cientes para o tratamento das
candidíases cutâneas e devem ser utilizadas de 1 a 2 vezes ao dia por, no mínimo, 21 dias ou até a
remissão completa do quadro, dentre elas: isoconazol em creme, solução e spray; oxiconazol em
creme e solução; cetoconazol em creme; tioconazol a 1% em creme, loção, pó e spray; clotrimazol
em creme e solução; miconazol em loção cremosa e creme, loção, pó; econazol em creme e loção; ciclopiroxolamina em creme, solução e esmalte; terbina na a 1% em creme, solução, spray e gel;
amorol na em creme a 0,25% e esmalte a 5%.
CANDIDÍASE ORAL
Nistatina suspensão oral 100 mil unidades por mL; em prematuros e recém-nascidos, 1 mL a cada
6 horas; lactentes e crianças, 2 mL a cada 6 horas; crianças maiores e adultos, 4 mL a 6 mL ao dia.
Permanecer com a suspensão retida na cavidade bucal (realizar bochechos) antes de degluti-la.
CANDIDÍASE VULVOVAGINAL
Nistatina, cremes imidazólicos (isoconazol, miconazol, fenticonazol) na apresentação creme
vaginal – 1 vez à noite, por 7 a 10 dias.
Fenticonazol óvulo vaginal – 1 óvulo em dose única.
CANDIDÍASE BALANOPREPUCIAL
Tratamento semelhante à candidíase vulvovaginal.
TRATAMENTO SISTÊMICO
Nos casos mais extensos e recorrentes de candidíase, deve ser utilizada a terapia tópica
combinada à terapia sistêmica. E principalmente nos casos de candidíase folicular, paroníquia,
oncomicose e candidíase mucocutânea crônica, a terapia tópica isolada pode não ser su ciente e,
então, devemos iniciar o tratamento sistêmico. Para isso, temos disponíveis vários antifúngicos
orais, sendo os descritos a seguir os que representam maior atividade contra as espécies de
Candida.
FLUCONAZOL
É a primeira escolha.
• Candidíase oral e balanoprepucial: 50-100 mg/dia, por 7 a 14 dias.
• Candidíase vulvovaginal: 150 mg em dose única.
• Candidíase mucocutânea crônica ou sistêmica: 200-400 mg/dia até a remissão do quadro.
ITRACONAZOL
Tem espectro de ação maior, incluindo outros fungos. Usado na dose de 200 mg ao dia, por 5 dias.
CETOCONAZOL
Menos efetivo e menor tolerância.
Dose: 200-400 mg ao dia, por 7 dias, e, em mucocutânea crônica, até a remissão do quadro.
ANFOTERICINA
Em casos de candidíase sistêmica, a anfotericina B é o medicamento de escolha, podendo
também ser utilizados o uconazol e o itraconazol. Anfotericina B na dose de 0,3-1,0 mg/kg/dia,
uconazol 100-800 mg/dia VO ou IV e itraconazol na dose de 200 mg IV (1 a 2 vezes ao dia) ou
200 mg VO, 2 vezes ao dia.