GPS: Clínica Médica

Fernanda Mazza · Capítulo 58 de 96

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Leptospirose

INTRODUÇÃO

É uma doença febril aguda que pode variar desde uma forma inaparente até situações graves, com alto risco de óbito.

Tem distribuição mundial e, no Brasil, é endêmica, tornando-se epidêmica nos períodos chuvosos, principalmente em locais

onde há grande concentração de roedores infectados.

É uma doença de noti cação compulsória no Brasil.

CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS

É dividida em duas fases:

• Precoce (septicêmica): dura de 3 a 7 dias, com início súbito de febre, cefaleia, mialgias (principalmente nas panturrilhas),

anorexia, náuseas e vômitos. Pode haver diarreia, artralgia, hiperemia ou hemorragia conjuntival, fotofobia, dor torácica e tosse

seca. Sufusão conjuntival é um achado característico.

• Tardia (imune): em 15% dos casos pode haver evolução para formas mais graves, que iniciam após a primeira semana da

doença. A manifestação clássica é a síndrome de Weil, caracterizada pela tríade: icterícia rubínica, insu ciência renal aguda e

hemorragias (pulmonar é a mais comum). A icterícia é o sinal mais característico e surge entre 3 a 7 dias da doença.

É causada por espiroquetas do gênero Leptospira. A mais importante é a Leptospira interrogans.

O homem é um hospedeiro acidental dessa bactéria. O principal reservatório são os roedores, mas pode ocorrer em caninos,

suínos, bovinos, equinos, ovinos e caprinos.

A infecção no homem ocorre com a exposição direta ou indireta à urina de animais infectados. A penetração do microorganismo

ocorre por meio da pele não íntegra ou mucosas. A transmissão entre humanos é irrelevante do ponto de vista epidemiológico.

O período de incubação é de 1 a 30 dias, com média de 5 a 14 dias.

DIAGNÓSTICO CLÍNICO

A suspeita de leptospirose deve ser feita em todo paciente que apresente febre, cefaleia e mialgias associadas a antecedentes

epidemiológicos nos últimos 30 dias anteriores à data de início dos sintomas ou pelo menos um dos seguintes sintomas: sufusão

conjuntival, sinais de insu ciência renal aguda, icterícia e/ou aumento de bilirrubinas e fenômenos hemorrágicos.

Atenção para a presença de um ou mais dos sinais de alerta:

• Tosse, dispneia, taquipneia.

• Oligúria.

• Fenômenos hemorrágicos.

• Hipotensão.

• Alteração do nível de consciência.

• Vômitos frequentes.

• Arritmias.

• Icterícia.

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL

É feito por sorologia. O mais utilizado é o ELISA (do inglês Enzyme-Linked Immunosorbent Assay – ensaio imunoenzimático), IgM e

microaglutinação.

Em pacientes que não tenham sinais de alerta no momento do primeiro atendimento, a sorologia deve ser realizada a partir do

sétimo dia de início dos sintomas.

A sorologia deve ser coletada sempre no primeiro atendimento de pacientes com sinais de alerta e que carão internados, com

uma segunda amostra no intervalo de 7 a 15 dias entre elas.

DIAGNÓSTICO POR IMAGEM

Exames de imagem não fazem diagnóstico de leptospirose, porém ajudam a avaliar complicações da doença e devem ser solicitados

de acordo com o quadro clínico do paciente.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

• Na fase precoce: dengue, in uenza, malária, riquetsioses, doença de Chagas aguda, toxoplasmose e febre tifoide.

• Na fase tardia: hepatites virais agudas, hantavirose, febre amarela, malária grave, dengue hemorrágica, febre tifoide,

endocardite, riquetsioses, pneumonias bacterianas, pielonefrite aguda, apendicite aguda, sepse, meningites, colangite,

colecistite aguda, coledocolitíase, vasculites, lúpus eritematoso sistêmico, síndrome hemolítico-urêmica, entre outras.

COMPLICAÇÕES

• Hemoptise.

• Hemorragia pulmonar aguda.

• Síndrome da angústia respiratória aguda.

• Fenômenos hemorrágicos: petéquias, equimoses, sangramento em Sistema Nervoso Central (SNC) ou outros órgãos.

• Insu ciência renal aguda não oligúrica e hipocalêmica no estágio inicial da fase tardia, que pode evoluir para necrose tubular

aguda com indicação de diálise.

• Miocardite ou arritmias.

• Pancreatite.

• Meningite asséptica.

TRATAMENTO

A antibioticoterapia está indicada em qualquer período da doença, mas sua e cácia é maior nos primeiros 7 dias de início dos

sintomas. Para pacientes que carão internados podem ser indicados:

• Penicilina G Cristalina: 1,5 milhões UI via endovenosa (EV), de 6/6 horas; ou

• Ampicilina: 1 g EV, de 6/6 horas; ou

• Ceftriaxona: 1 g a 2 g EV, de 24/24 horas.

• Se houver contraindicação ao uso de betalactâmicos: Azitromicina, 500 mg EV por dia.

Para pacientes que farão tratamento domiciliar podem ser indicados:

Doxiciclina: 100 mg via oral (VO), de 12/12 horas, por 7 dias (contraindicado para crianças com menos de 9 anos, gestantes e

• pacientes com nefropatias ou hepatopatias crônicas); ou

• Amoxicilina: 500 mg VO, de 8/8 horas para adultos e 50 mg/kg/dia, de 8/8 horas para crianças.

A duração da antibioticoterapia em qualquer situação deve ser de pelo menos 7 dias.

As medidas de suporte clínico são primordiais no tratamento da leptospirose: reposição hidroeletrolítica, assistência

cardiorrespiratória, transfusões de sangue e derivados, nutrição, acompanhamento rigoroso do volume urinário e da função renal,

indicando precocemente a diálise para reduzir o dano renal e a letalidade da doença.