GPS: Clínica Médica
Demência
INTRODUÇÃO
As síndromes demenciais incidem com maior frequência na população idosa e são evolutivas. Com
o progressivo aumento da expectativa de vida da população mundial, torna-se cada vez mais
necessária sua correta abordagem.
No Brasil, a prevalência de demência é de 1,6% na idade entre 65 e 69 anos e chega a 38,9%
em idade superior a 84 anos. Além do envelhecimento, são fatores que aumentam a chance de
demência: predisposição genética, baixa escolaridade, sedentarismo na vida adulta, dislipidemia,
diabetes, hipertensão arterial sistêmica, traumatismo craniano e depressão. A doença de
Alzheimer (DA) é a forma mais comum.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Para o diagnóstico de demência é necessário alteração de memória acompanhada de prejuízo em
um ou mais domínios cognitivos (linguagem, gnosias, praxias ou funções executivas) com
impacto nas atividades de vida diária (AVD). No entanto, a memória pode estar relativamente
preservada em fases iniciais de demência frontotemporal (DFT). O quadro de disfunção cognitiva
acima do esperado para a faixa etária mas com AVD preservadas recebe o nome de disfunção
cognitiva mínima (mild cognitive impairment – MCI) e possui taxa de conversão para DA de 80%
em 6 anos.
Diante de um quadro de desordem cognitiva, é fundamental excluir causas de demência
secundárias. O diagnóstico das demências primárias, de característica degenerativa, é feita entre
as 3 principais: DA, demência por corpúsculos de Lewy (DCL) e DFT.
A demência vascular (DV) é a segunda causa mais comum de demência e pode ocorrer
isoladamente ou em associação com DA e decorre de um ou mais infartos em áreas estratégicas
relacionadas à cognição.
CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS DE CADA TIPO DE DEMÊNCIA
CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS
DA Esquecimentos e alteração executiva
DFT Alteração de comportamento e linguagem
DCL Di culdade visuoespacial, parkinsonismo e
hipersensibilidade a neurolépticos
DV Evolução em degraus e sinais focais
O principal teste de rastreio é o miniexame do estado mental (MMT). Outros testes simples podem
completar a investigação, como o teste do relógio e de uência verbal (números de animais em 1
minuto). A avaliação neuropsicológica mais detalhada está indicada em casos limítrofes. As AVD
instrumentais e básicas devem ser investigadas. As instrumentais (atividades bancárias, uso de
controle remoto e computador, p. ex.) estão impactadas antes das básicas (alimentação e higiene
pessoal).
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL E POR IMAGEM
Os biomarcadores representam uma evolução na con rmação de DA, mas não substituem os
critérios clínicos, devendo ser solicitados apenas em situações atípicas, como em casos de
instalação precoce ou de rápida evolução. Podemos subdividilos em marcadores de depósito beta-
amiloide, de lesão neuronal e neurodegeneração.
BIOMARCADORES PARA CONFIRMAÇÃO DE DA
Depósito Beta-amiloide LCR -A Beta 1- 42 Diminuído
PET CT – Amiloide Captação áreas
associação
Lesão neuronal LCR – TAU fosforilada Aumentado
Morte neuronal/ LCR – TAU total Aumentado
neurodegeneração PET – CT 18FDG Hipometabolismo
RM de encéfalo bilateral
Atro a medial
hipocampo
LCR = líquido cefalorraquidiano.
Os exames complementares mais importantes a serem solicitados em pacientes com demência
são para afastar causas tratáveis de disfunção cognitiva, listadas a seguir.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
O principal diagnóstico diferencial deve ser realizado com disfunções tratáveis que desencadeiam
transtornos cognitivos, como:
• Depressão.
• Hipotireoidismo.
• Hipovitaminose B12.
• Síndrome da imunode ciência adquirida (AIDS).
• Alcoolismo.
• Hidrocefalia de pressão normal.
• Lesões expansivas intracranianas (hematoma subdural e tumores).
• Sí lis.
COMPLICAÇÕES
As complicações decorrentes da evolução das demências degenerativas são: infecções, quedas da
própria altura, delirium, transtornos do sono e do apetite e, em fases mais avançadas, disfagia,
broncoaspiração e úlceras de decúbito. Os familiares de portadores de demência estão
frequentemente deprimidos e necessitam de constante orientação sobre os cuidados e
prognóstico. A opção por instituição de longa permanência para idosos (ILPI) é frequente e deve
ser discutida abertamente pelo médico.
TRATAMENTO
Um antidepressivo deverá ser iniciado, mesmo na dúvida se há depressão como causa ou
associada à demência. Os pacientes com demência vascular devem tratar os fatores de risco de
doenças cerebrovasculares e fazerem uso de antiagregante plaquetário ou anticoagulante,
quando indicados. A DCL e a DFT não possuem tratamento especí co.
O tratamento para DA é realizado por equipe multidisciplinar com o objetivo de manter o
portador apto sicamente e com treinamento cognitivo, sendo interessante recomendar resenhas
de noticiários, telenovelas e diário.
Tratamento farmacológico de DA é feito com inibidores de acetilcolinesterase* (IACE) em
monoterapia ou em associação com antagonista de receptor NMDA** em fases moderadas e
avançadas. Os IACE têm e ciência e per l de tolerabilidade semelhantes entre si, tendo a forma
de adesivo transdérmico (ATD) da rivastigmina uma leve vantagem na tolerabilidade sobre os
demais. O uso das medicações listadas não impede o avanço da demência.
TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
DROGAS DISPONÍVEIS EFEITOS COLATERAIS DOSES POR DIA
Rivastigmina oral e ATD* Náuseas, diarreia, insônia, Oral: 6 mg a 12 mg em 2
anorexia, tonteiras, tomadas ATD: 5 ou 10
ansiedade, síncopes e
reação cutânea (ATD)
Galantamina oral* Náuseas, diarreia, 16 mg a 24 mg
síncopes, tonteira e
tremores
Donepezil* Náuseas, diarreia, 10 mg
síncopes, cãibras,
ansiedade, perda de peso
Memantina** Sonolência, náuseas 20 mg a 30 mg