GPS: Clínica Médica
Retocolite Ulcerativa
INTRODUÇÃO
A retocolite ulcerativa (RCU) idiopática é uma doença in amatória intestinal autoimune, com
períodos de exacerbação e remissão, incluindo aspectos como localização, extensão anatômica,
in amação, gravidade, manifestações extraintestinais e resposta ao tratamento proposto.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
A RCU se caracteriza principalmente pelo acometimento retal, podendo se estender a todo o
cólon. Ocorre in amação na mucosa de forma contínua, se apresentando comumente com
diarreia aguda ou crônica, hematoquesia, acompanhada ou não de pus ou muco, febre e dor
abdominal.
Além dos sinais e sintomas acima recorrentes, pode vir acompanhada de emagrecimento
importante, urgência evacuatória, tenesmo e diarreia no período noturno.
Podem aparecer manifestações extraintestinais concomitantemente à doença, tais como:
reumatológicas (artralgia periférica, sacroileiite, espondilite anquilosante, osteoporose precoce),
dermatológicas (psoríase, eritema nodoso, pioderma gangrenoso), oftalmológicas (uveíte,
episclerite, neurite óptica), hepatobiliares (colangite esclerosante primária, litiase biliar, esteatose
hepática não alcoólica), renais (litíase renal, glomerulonefrite, amiloidose), cardiopulmonares
(pneumonites, pericardite) e vasculares (trombose venosa profunda).
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
A RCU por ser multifatorial e poligênica, às vezes necessita de exames laboratoriais e marcadores
sorológicos para investigação diagnóstica, não conclusiva em exames endoscópicos ou de
imagem.
A contagem de leucócitos séricos e plaquetas inseridas no hemograma completo, velocidade
de hemossedimentação (VHS) e proteína C reativa (PCR) são exames de baixo custo que podem predizer atividade de doença e gravidade, apesar da falta de especi cidade.
Para afastar outras causas, exame parasitológico de fezes, coprocultura, sorologia para
citomegalovírus (CMV) e antivírus da imunode ciência humana (HIV) 1 e 2 devem ser pedidos de
rotina, assim como pesquisa de toxinas A e B de Clostridium difficile, principalmente em pacientes
recentemente internados.
Marcadores sorológicos como o anticorpo anticitoplasma de neutró los (ANCA) e anticorpo
anti-Saccharomyces cerevisae (ASCA) são usados na diferenciação de doença de Crohn (DC) da RCU;
o ANCA, em estudos diversos, está presente em 60%-70% dos pacientes com RCU, sendo os outros
marcadores direcionados para DC, porém, uma negatividade não afasta RCU.
Os marcadores fecais como a lactoferrina fecal, calprotectina fecal e a elastase
polimorfonuclear neutrofílica são proteínas derivadas de neutró los, usadas somente no
acompanhamento e na atividade da doença.
DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR
RADIOGRAFIA
A radiogra a (Raio X) de abdome simples ou rotina de abdome agudo pode ser solicitada na
suspeita de megacólon tóxico, perfuração ou obstrução. A dilatação do cólon transverso maior que
6 cm ou diâmetro cecal maior que 9 cm caracterizam o megacólon tóxico como uma atividade da
RCU.
Na RCU crônica, o RX simples de abdome pode mostrar um segmento do cólon de formato
tubular, sem haustrações, se tornando, na maioria das vezes, um exame inicial.
ENEMA OPACO
O enema opaco contrastado avalia a extensão e as complicações da RCU, podendo auxiliar no
diagnóstico diferencial de RCU e DC, que se confundem no diagnóstico.
A perda ou espessamento das haustrações, úlceras atingindo a submucosa, granularidade da
mucosa, pólipos in amatórios, redução luminal (câncer de cólon?), perda das válvulas retais,
alargamento do espaço pré-sacral, ileíte de re uxo e pseudopólipos in amatórios são alterações
vistas no exame.
EXAME ENDOSCÓPICO
Está presente a forma contínua e difusa com edema, congestão, friabilidade, granularidade da
mucosa e microulcerações, recobertas de brina ou não, e úlceras maiores, que não ultrapassam 1
cm.
O reto é acometido em 95%, dos casos o íleo terminal (chamado de ileíte de re uxo) é
raramente comprometido; a retossigmoidite (em 45% dos casos), seguida da colite esquerda e do
cólon transverso (em 40% dos casos) e pancolite (em 15% dos casos).
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Doença de Crohn do cólon, esquistossomose, Campylobacter jejuni, Yersinia enterocolitica, Shigella
sp, Salmonella sp, Escherichia coli entero-hemorrágica, Entamoeba hystolitica, Clostridium difficile,
diarreia por anti-in amatórios não esteroides (AINE), neoplasias, colite pseudomembranosa,
colites virais (CMV) e colite microscópica são patologias com semelhança endoscópica a RCU.
COMPLICAÇÕES
Megacólon tóxico, neoplasia maligna de cólon, perfurações, hemorragia digestiva baixa, choque
hemorrágico e anemia ferropriva estão entre as principais.
TRATAMENTO
CORTICOSTEROIDE
Prednisona 1-2 mg/kg, no máximo entre 40-60 mg/dia via oral (VO), hidrocortisona 300-400
mg/dia via endovenosa (EV) ou metilprednisolona 0,75-1 mg/kg/dia EV, na fase aguda da
doença.
ANTIBIÓTICOS
Cipro oxacino 800 mg/dia e/ou metronidazol 1,2 g/dia VO, em um breve curso de tratamento.
SALICILATOS
Sulfassalazina 2-4 g/dia VO, mesalazina 1,6-4,8 g/dia VO, mesalazina 250 mg/1 grama/dia
supositório vr, mesalazina 1-3 gramas/dia enema vr, mesalazina 1-2 g/dia sachê VO e mesalazina
MMX de liberação prolongada 2,4 - 4,8 g/dia VO; outros salicilatos não estão disponíveis no Brasil.
IMUNOSSUPRESSORES
Azatioprina 2-3 mg/kg/dia VO, 6 mercaptopurina 1-1,5 mg/kg/dia VO, ciclosporina 2-4 mg/dia EV
por 1 a 2 semanas (doença grave) seguido de 6-8 mg/kg/dia VO e metotrexato 15/25 mg via
intramuscular (IM) ou subcutânea (SC) semanal.
BLOQUEADORES DO FATOR DE NECROSE TUMORAL (ANTI-TNF) (TERAPIA BIOLÓGICA)
In iximabe 5 mg/kg EV nas semanas 0, 2 e 6, depois de 2 em 2 meses contínuo; adalimumabe
160 mg (4 seringas) SC, 80 mg SC após 2 semanas (2 seringas), 40 mg SC (1 seringa) 2 semanas
após a segunda aplicação de modo contínuo, de 2 em 2 semanas (terapêutica em vias de
aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – [Anvisa], aprovada pela Food and Drug
Administration – [FDA].