GPS: Clínica Médica

Fernanda Mazza · Capítulo 49 de 96

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Retocolite Ulcerativa

INTRODUÇÃO

 

A retocolite ulcerativa (RCU) idiopática é uma doença in amatória intestinal autoimune, com

períodos de exacerbação e remissão, incluindo aspectos como localização, extensão anatômica,

in amação, gravidade, manifestações extraintestinais e resposta ao tratamento proposto.

 

DIAGNÓSTICO CLÍNICO

 

A RCU se caracteriza principalmente pelo acometimento retal, podendo se estender a todo o

cólon. Ocorre in amação na mucosa de forma contínua, se apresentando comumente com

diarreia aguda ou crônica, hematoquesia, acompanhada ou não de pus ou muco, febre e dor

abdominal.

Além dos sinais e sintomas acima recorrentes, pode vir acompanhada de emagrecimento

importante, urgência evacuatória, tenesmo e diarreia no período noturno.

Podem aparecer manifestações extraintestinais concomitantemente à doença, tais como:

reumatológicas (artralgia periférica, sacroileiite, espondilite anquilosante, osteoporose precoce),

dermatológicas (psoríase, eritema nodoso, pioderma gangrenoso), oftalmológicas (uveíte,

episclerite, neurite óptica), hepatobiliares (colangite esclerosante primária, litiase biliar, esteatose

hepática não alcoólica), renais (litíase renal, glomerulonefrite, amiloidose), cardiopulmonares

(pneumonites, pericardite) e vasculares (trombose venosa profunda).

 

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL

 

A RCU por ser multifatorial e poligênica, às vezes necessita de exames laboratoriais e marcadores

sorológicos para investigação diagnóstica, não conclusiva em exames endoscópicos ou de

imagem.

A contagem de leucócitos séricos e plaquetas inseridas no hemograma completo, velocidade

de hemossedimentação (VHS) e proteína C reativa (PCR) são exames de baixo custo que podem predizer atividade de doença e gravidade, apesar da falta de especi cidade.

Para afastar outras causas, exame parasitológico de fezes, coprocultura, sorologia para

citomegalovírus (CMV) e antivírus da imunode ciência humana (HIV) 1 e 2 devem ser pedidos de

rotina, assim como pesquisa de toxinas A e B de Clostridium difficile, principalmente em pacientes

recentemente internados.

Marcadores sorológicos como o anticorpo anticitoplasma de neutró los (ANCA) e anticorpo

anti-Saccharomyces cerevisae (ASCA) são usados na diferenciação de doença de Crohn (DC) da RCU;

o ANCA, em estudos diversos, está presente em 60%-70% dos pacientes com RCU, sendo os outros

marcadores direcionados para DC, porém, uma negatividade não afasta RCU.

Os marcadores fecais como a lactoferrina fecal, calprotectina fecal e a elastase

polimorfonuclear neutrofílica são proteínas derivadas de neutró los, usadas somente no

acompanhamento e na atividade da doença.

 

DIAGNÓSTICO COMPLEMENTAR

 

RADIOGRAFIA

 

A radiogra a (Raio X) de abdome simples ou rotina de abdome agudo pode ser solicitada na

suspeita de megacólon tóxico, perfuração ou obstrução. A dilatação do cólon transverso maior que

6 cm ou diâmetro cecal maior que 9 cm caracterizam o megacólon tóxico como uma atividade da

RCU.

Na RCU crônica, o RX simples de abdome pode mostrar um segmento do cólon de formato

tubular, sem haustrações, se tornando, na maioria das vezes, um exame inicial.

 

ENEMA OPACO

 

O enema opaco contrastado avalia a extensão e as complicações da RCU, podendo auxiliar no

diagnóstico diferencial de RCU e DC, que se confundem no diagnóstico.

A perda ou espessamento das haustrações, úlceras atingindo a submucosa, granularidade da

mucosa, pólipos in amatórios, redução luminal (câncer de cólon?), perda das válvulas retais,

alargamento do espaço pré-sacral, ileíte de re uxo e pseudopólipos in amatórios são alterações

vistas no exame.

EXAME ENDOSCÓPICO

 

Está presente a forma contínua e difusa com edema, congestão, friabilidade, granularidade da

mucosa e microulcerações, recobertas de brina ou não, e úlceras maiores, que não ultrapassam 1

cm.

O reto é acometido em 95%, dos casos o íleo terminal (chamado de ileíte de re uxo) é

raramente comprometido; a retossigmoidite (em 45% dos casos), seguida da colite esquerda e do

cólon transverso (em 40% dos casos) e pancolite (em 15% dos casos).

 

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

 

Doença de Crohn do cólon, esquistossomose, Campylobacter jejuni, Yersinia enterocolitica, Shigella

sp, Salmonella sp, Escherichia coli entero-hemorrágica, Entamoeba hystolitica, Clostridium difficile,

diarreia por anti-in amatórios não esteroides (AINE), neoplasias, colite pseudomembranosa,

colites virais (CMV) e colite microscópica são patologias com semelhança endoscópica a RCU.

 

COMPLICAÇÕES

 

Megacólon tóxico, neoplasia maligna de cólon, perfurações, hemorragia digestiva baixa, choque

hemorrágico e anemia ferropriva estão entre as principais.

 

TRATAMENTO

 

CORTICOSTEROIDE

 

Prednisona 1-2 mg/kg, no máximo entre 40-60 mg/dia via oral (VO), hidrocortisona 300-400

mg/dia via endovenosa (EV) ou metilprednisolona 0,75-1 mg/kg/dia EV, na fase aguda da

doença.

 

ANTIBIÓTICOS

 

Cipro oxacino 800 mg/dia e/ou metronidazol 1,2 g/dia VO, em um breve curso de tratamento.

 

SALICILATOS

Sulfassalazina 2-4 g/dia VO, mesalazina 1,6-4,8 g/dia VO, mesalazina 250 mg/1 grama/dia

supositório vr, mesalazina 1-3 gramas/dia enema vr, mesalazina 1-2 g/dia sachê VO e mesalazina

MMX de liberação prolongada 2,4 - 4,8 g/dia VO; outros salicilatos não estão disponíveis no Brasil.

 

IMUNOSSUPRESSORES

 

Azatioprina 2-3 mg/kg/dia VO, 6 mercaptopurina 1-1,5 mg/kg/dia VO, ciclosporina 2-4 mg/dia EV

por 1 a 2 semanas (doença grave) seguido de 6-8 mg/kg/dia VO e metotrexato 15/25 mg via

intramuscular (IM) ou subcutânea (SC) semanal.

 

BLOQUEADORES DO FATOR DE NECROSE TUMORAL (ANTI-TNF) (TERAPIA BIOLÓGICA)

 

In iximabe 5 mg/kg EV nas semanas 0, 2 e 6, depois de 2 em 2 meses contínuo; adalimumabe

160 mg (4 seringas) SC, 80 mg SC após 2 semanas (2 seringas), 40 mg SC (1 seringa) 2 semanas

após a segunda aplicação de modo contínuo, de 2 em 2 semanas (terapêutica em vias de

aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – [Anvisa], aprovada pela Food and Drug

Administration – [FDA].