O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 4
4 DE DEZEMBRO DE 2012
Professor Lamb, diretor do Museu Geográfico Smithton, era um homem baixa estatura, com voz fina e a barba por fazer. Estava vestido com um paletó de lã. Uma descoberta a respeito da migração populacional no final da era Paleolítica e uma trajetória vitoriosa, com patronos abastados, o auxiliaram numa ascensão aparentemente sem esforços para alcançar sua alta posição no mundo acadêmico.
Honestamente, Laura o achava um pouco desagradável e suspeitava de que ele pudesse ter sido um aproveitador na época em que os professores ainda conseguiam se safar desse tipo de coisa.
Mesmo assim, seu charme superficial não estava presente quando entrou com ele no distrito policial — uma construção dos anos 1960, de fachada cinza desbotado, localizado no centro de Nova Iorque — e tomaram o elevador até o quarto andar.
— Tenho certeza de que a polícia descobrirá — disse ele, confiante.
— Vamos esperar que sim — Laura concordou. Ela não queria contrariar seu chefe, mas não tinha tanta certeza. Fazia três dias que Ron havia morrido, mas parecia que haviam se passado apenas minutos desde que o encontrara. Desde então, suas noites eram incômodas quando se lembrava do que acontecera. Em seus sonhos, aparecia sempre o corpo caído e inerte de Ron. Lá estava seu colega, o calado e aplicado Ron Smith, morto quando estava sozinho em sua sala. Ficava cada vez mais difícil para ela se concentrar no trabalho, e sua mente era incapaz de deter a incessante busca da causa da morte de seu colega.
“Provavelmente trata-se de suicídio. É aquela época do ano”, ela disse a si mesma enquanto tirava as luvas. Faltava menos de um mês para o Natal. Laura ouvira em algum lugar que os índices de suicídio aumentam nesse período. Aparentemente é uma época do ano em que a diferença entre a realidade dolorosa que a vida é e o modo como as pessoas gostariam que fosse pode ser tão opressiva que estas veem poucas razões para continuar a viver. “Ron perdera Lilian, sua esposa. Talvez ele tenha achado que não conseguiria encarar outro Natal sozinho. Possivelmente, o futuro seria desolador demais sem ela”.
Ainda assim, a idéia do colega cometer suicídio não fazia sentido. Certamente não explicava por que parecera tão feliz nas últimas poucas vezes que ela o tinha visto, muito mais feliz do que fora desde sua perda, muitos anos antes.
— Sente-se — disse o Detetive Dominguez. Sua voz soava mais profunda do que nunca, enquanto Laura e Lamb entravam em seu escritório por uma porta de vidro na qual se lia a palavra “Homicídios”. Fechou a porta atrás dos dois e sentou-se à sua mesa: — E desculpem-me pelo barulho. As coisas estão sempre um pouco agitadas por aqui.
Mesmo com a porta fechada, a sala do detetive não podia ficar isolada do turbilhão que acontecia lá fora, e suas paredes de vidro eram incapazes de protegê-la do alvoroço e do falatório constantes vindo de todos os lados do movimentado departamento de polícia.
Detetive Dominguez estava fortemente resfriado e não havia clima para conversas fúteis.
— Certo! — disse, apanhando na mesa o relatório forense intitulado “Dr. Ronald D. Smith — falecido”, que ele começou a ler a partir de então, sem qualquer tentativa de fazer uma delicada introdução.
— Sem sinais de nenhum ferimento a bala ou faca, sem sinais de nenhum machucado, sem evidências que possam sugerir estrangulamento, sufocação ou qualquer outra Reforma de violência física capaz de lesionar o corpo.
Levantou os olhos para Laura e disse:
— Então, você ficará feliz em ouvir que estamos descartando assassinato.
Laura sentiu-se aliviada. Não percebera o quanto esse pensamento a estava incomodando até então.
Dominguez assoou o nariz e continuou:
— Para suicídio, não há sinal de enforcamento ou qualquer outra lesão auto-infligida; não há evidência de toxinas, comprimidos, álcool, drogas de nenhuma espécie. Não há nem mesmo um traço de antidepressivos em sua corrente sangüínea.
Exatamente como Laura havia pensado, a felicidade recente de Ron não era ocasionada por remédios. Era como se uma nuvem cinzenta tivesse caído sobre ele. Não que Ron falasse muito, ele nunca o fizera. Mas quando sorriu para ela naquele dia, pouco antes de morrer, era como se estivesse sorrindo tanto por dentro como por fora. Nenhum antidepressivo disponível no mercado seria capaz de fazê-lo sorrir daquele jeito.
— Então, se foi suicídio — continuou Dominguez —, não temos idéia de como ele o fez ou por quê?
Laura estava confusa. Não parecia fazer sentido. Enquanto a polícia não podia descartar a possibilidade de suicídio, ela estava tão intrigada quanto eles a respeito do modo como Ron poderia ter feito isso e do que teria motivado essa resolução. Afinal de contas, ele parecera tão atipicamente feliz antes de morrer.
“Então será que ele não morreu de causas naturais?”, Laura se perguntou, quando o detetive acrescentou:
— Mais estranho ainda é que os registros médicos do Dr. Smith mostram que ele gozava de perfeita saúde física.
Estou querendo dizer que esse cara só foi ao médico para fazer seu check-up anual, tendo em vista que ele tem convênio médico. Acontece que ele fez isso há apenas algumas semanas, e os resultados dos exames que fizera revelaram saúde muito boa. Os médicos não encontraram nada de errado no seu organismo.
O detetive olhou de viés para Laura antes de apanhar outro documento.
— Na autópsia também… não há nenhuma evidência de ataque cardíaco ou falência de algum órgão.
Isso também não fazia sentido.
Ele largou o relatório da autópsia e olhou novamente para Laura, fitando-a diretamente nos olhos.
— Então o que temos aqui é um mistério — concluiu.
— E quanto à mensagem que ele deixou? — ela perguntou. — “Eu vi o futuro…”? Você acha que se trata do quê? O que você acha que ele viu?
O Detetive Dominguez apenas encolheu os ombros e assoou o nariz:
— Quem sabe se não foi apenas uma coincidência?
Laura não estava convencida.
— E quanto à caveira? — perguntou o Professor Lamb. Esse havia sido o principal motivo pelo qual acompanhara a colega ao distrito policial.
— Agora há outro mistério — respondeu Dominguez. — Nossos homens examinaram cada parte daquela coisa e não conseguiram encontrar nenhuma impressão digital nela, nem mesmo a do Dr. Smith! — tornou a se voltar para Laura. — Você tem certeza de que ele a estava segurando?
— Absoluta — ela respondeu ao mesmo tempo em que sacudia a cabeça.
— E você está certa de que simplesmente não limpou suas impressões digitais após bater na cabeça dele com o objeto?
Ele colocou o lenço no bolso e a encarou.
Laura foi surpreendida. Dominguez realmente estava sugerindo que ela assassinara Ron? No entanto, a curvatura de seus lábios logo lhe mostrou que se tratava do tipo de comentário que no mundo do crime era considerado humor.
— Só estou brincando, Dra. Shepherd. Humor de policial — confirmou.
Laura não estava lá muito interessada por aquilo, quando ele prosseguiu:
— Não se preocupe, sua barra está limpa.
Ele sacudiu o pulso.
— Na verdade, não há evidências para sugerir que mais alguém estivesse envolvido — assoou o nariz outra vez. — Na minha opinião, o caso está encerrado.
Laura estava consternada com o fato de a polícia ter chegado a uma conclusão tão rápida em suas investigações. Não parecia certo. “Era a vida de Ron Smith”, ela pensou, totalmente finalizada sem qualquer explicação verdadeira.
Se o inquérito policial sequer havia começado a responder como Ron tinha morrido, sabia menos ainda sobre o motivo de sua morte. Era como se fosse um final indigno e insatisfatório à existência de toda uma vida.
— Sem dúvida deve haver algo mais que você possa fazer para descobrir o que aconteceu com ele, não? — ela insistiu.
— O que você está tentando dizer? — Dominguez encolheu os ombros novamente e abriu as palmas das mãos. — Não há qualquer circunstância suspeita.
Laura não via exatamente dessa forma, mas a única coisa com a qual o detetive pareceu preocupado foi em apanhar as coisas de Ron e enviá-las rapidamente de volta ao museu. Como o pesquisador não tinha “nenhum parente vivo para herdar seus bens mais pessoais”, o detetive parecia ansioso por simplesmente lavar as mãos em relação a tudo isso.