O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 73 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 60

19 DE DEZEMBRO DE 1012

A Unidade de Segurança Warnburton era sediada em um prédio feio e imponente em estilo neovitoriano, em uma ilha enfadonha em East River que contemplava um trecho secreto de água da cidade conhecido pelo nome, de certa forma apropriado, de Hell Gate.

Laura tinha ouvido falar desse lugar. Era conhecido pelo uso de TEC, terapia eletroconvulsiva, um tipo controverso de tratamento psiquiátrico que se tornara popular durante os anos 1950. Esse tipo de “terapia” envolvia amarrar um paciente com tiras de couro ao redor dos pulsos e tornozelos, prender eletrodos em ambos os lados da testa e em seguida desferir um choque elétrico massivo ao cérebro, um processo comumente acompanhado por uma série de convulsões ou espasmos involuntários.

— Um choquinho, talvez — Dr. Bacher sempre gostava de brincar, mas a técnica aparentemente fora efetiva no tratamento de toda uma gama de enfermidades mentais, desde depressão profunda e ansiedade até psicose.

O tratamento, contudo, começou a cair em popularidade quando foi divulgado que os choques elétricos tinham de ser aplicados regularmente para que fossem eficientes, freqüentemente deixando pacientes um pouco mais do que vegetais durante o processo. Efeitos colaterais indesejados também incluíam deslocamento de ossos e fraturas, assim como ataques cardíacos, às vezes durante a administração do procedimento. De fato, uma quantidade de estudos provou que um número significante de pacientes obteve “resultados conclusivos negativos”. Em outras palavras, eles morriam ou cometiam suicídio durante o curso do tratamento. Como resultado, a técnica agora era usada na maioria das instituições psiquiátricas apenas como um tratamento de último recurso. Dr. Bracher, diretor da Unidade de Segurança Warnburton, no entanto, continuou sendo um grande fã do procedimento.

Embora vendada e com camisa de força na chegada à unidade, Laura ainda reconheceu o distinto cheiro de desinfetante de hospital, destinado em vão a disfarçar o odor da urina dos pacientes. Menos familiar a ela eram os gritos, os urros e a linguagem maluca dos outros internos, enquanto era conduzida além das alas e pelo corredor branco abaixo, em direção à sua cela.

— Aqui, isso deve ajudá-la a se acalmar um pouco — disse Dr. Bacher removendo a venda de Laura e segurando seu braço para que o grande enfermeiro agora se debruçasse sobre ela com uma seringa. O enfermeiro fincou prontamente a agulha sob sua pele e injetou algo que fez sua cabeça rodar quase que imediatamente. Os dois atendentes abriram a porta e posicionaram Laura, de certa forma sem cerimônia, dentro de seu novo quarto antes que a porta fosse fechada com uma pancada e trancada atrás dela.

No momento em que o efeito do sedativo passou, ela percebeu onde estava. Os olhos de Laura teceram seu caminho pelos quadrados limpos de estofamento que, semelhantes a tijolos, compunham as paredes de sua cela. Não havia nenhuma janela, nada para mostrar qualquer vida que existisse além daquelas quatro paredes. Ela sabia que não deveria ter expressado o que pensava anteriormente, e agora veja onde tinha ido parar. Olhou ao redor das paredes grossas e opressivas da cela acolchoada na qual se encontrava presa, e tinha a esperança de que Dr. Bacher não fosse alguém que guardasse rancor durante muito tempo.

Ela já estava um tanto quanto entediada com a regularidade opressiva das sólidas e gris costuras em plástico bege. Ela conseguia apenas imaginar os horrores, os estados apavorantes vivenciados por aqueles que tinham se encaixotado naquele quarto antes dela. E agora lá estava ela, perante a probabilidade de o dia 21 de dezembro surgir diante dela, enquanto era aprisionada nesse buraco do inferno monstruoso, incapaz de fazer algo a respeito.

Michael disse que ela ficaria lá durante pelo menos três meses. O pensamento de estar ali mais do que três dias era absolutamente insuportável, e ela sequer teria mais do que três dias antes de os acontecimentos de 21 de dezembro a atingirem. Não apenas isso, ela não sabia exatamente o que aconteceria. Ela havia estado tão perto de Alice, tão perto de descobrir o que aconteceria, e agora isso. Como ela ao menos chegaria perto da caveira novamente? Como ela sequer conversaria com Alice?

Suspirou. Não havia nada mais que pudesse fazer, exceto esperar, enquanto o tempo fazia tique-taque e aproximava todos do final. Tudo o que ela podia fazer era aguardar até ter sua avaliação com Dr. Bacher, marcada para mais tarde naquele dia, e esperava que pudesse encontrar uma maneira de fazê-lo compreender. Ironicamente, ele agora era sua única esperança.

Dr. Bacher havia negado categoricamente que Michael realizasse visitas durante o primeiro mês de seu encarceramento. O médico tinha alegado que os visitantes eram “uma distração e levariam a um excesso de agitação da paciente”. Se ele soubesse! Um mês! O homem não fazia idéia de que sequer existiria uma semana seguinte. Se ela não conseguisse sair daquele lugar, o mundo terminaria, e ela nunca mais veria Michael novamente.

Desesperadamente, lutou dentro dos confins de sua camisa de força, mas esta a mantinha resolutamente em cheque. Ela agitou os dedos dos pés, a única parte dela que ainda estava livre. Se pudesse explicar as coisas ao Dr. Bacher. Se ela conseguisse falar com ele, então poderia apenas fazê-lo avaliar a gravidade da situação que todos eles enfrentaram.

Um barulho penetrou o silêncio opressivo no interior da cela acolchoada. Uma chave se moveu na fechadura, e a porta se abriu. Quando aconteceu, Laura ouviu os choros horrendos de um dos outros internos.

- Socorro! — uma mulher estava gritando. — Ele vai me matar. Socorro! — ela guinchou novamente. Dr. Bacher colocou-se diante dela, ignorando os choros que vinham do corredor abaixo. Dois enfermeiros demoraram-se atrás dele.

- O que está acontecendo? — perguntou Laura, intrigada com a comoção.

- Estou aqui para nossa pequena avaliação — disse Dr. Bacher. — Ah, aquilo? — falou, observando a expressão intrigada de Laura. — Em sua mente, Mary Macanaly é esfaqueada até a morte pelo menos cinco vezes ao dia — ele riu-se.

“Deus”, pensou, “como eu terminei neste hospício?”

Um dos enfermeiros estava em pé à moldura da porta, inclinando-se contra ela.

- Estamos aqui caso precise de nós — ele lembrou Dr. Bacher. Forte como uma casa, o homem parecia capaz de lidar com qualquer paciente com uma única mão, por mais desafiador que fosse seu comportamento.

- Sim, obrigado. Precisarei de apenas 15 minutos — respondeu Bacher.

Deus, tudo o que Laura tinha era 15 minutos para tentar convencê-lo a deixá-la sair daquele lugar.

O psiquiatra entrou na cela acolchoada, enquanto os atendentes aguardavam do lado de fora. As portas se fecharam firmemente com uma batida atrás dele.

Bacher rodeou próximo da entrada da cela, balançando-se um pouco sobre os calcanhares. Após o tempo decepcionante e solitário que ela havia tido até o momento em Warnburton, com a companhia apenas de paredes acolchoadas à prova de som, estava quase contente por vê-lo. Ele era, afinal de contas, seu único contato com o mundo exterior, agora que ele havia negado todos os demais visitantes.

- Oi, Laura, então você se acalmou um pouco agora? — ele questionou, em seu usual tom de falso amigo.

- Sim. Obrigada — Laura estava agora com seu melhor comportamento. Essa era sua única chance, embora remota, de tentar mudar as coisas, de tentar colocar Bacher do seu lado, de tentar fazê-lo começar a enxergar as coisas como elas realmente eram. Então, daria a ele tudo o que ele queria. Ela contaria a ele tudo o que sabia.

- Agora, onde estávamos? — ele prosseguiu. — Isso mesmo! — ele disse olhando suas anotações. — Vejo que você tem visto coisas que as outras pessoas não foram tão sortudas de ver?

- Sim, é isso — ela começou e percebeu que soava como se estivesse louca. O problema era por onde começar. Tinha apenas quinze, agora menos de catorze minutos, para explicar a coisa toda.

Enquanto tentava decidir por onde começar, Bacher passou a instigá-la por meio de suas anotações do que Michael já havia contado a ele.

- Deixe-me ver agora. Houve o incidente em seu escritório com a inscrição em pedra, não antes de você reportar a seu médico que estava ouvindo coisas. Então, quando você viu seu marido depois de sua viagem para a selva, disse a ele que tinha visto sua filha, como tudo isso se sucedeu?

- Não é fácil de explicar — respondeu Laura, esforçando-se muito para decidir como se expressar melhor —, mas eu acho que me deparei com algo importante. Você entende, a maioria das pessoas fechou suas mentes para qualquer realidade além desta. Elas pensam que esta é tudo o que há. Elas não percebem que há todo um outro mundo lá fora.

- Quando você fala outro mundo, o que exatamente quer dizer? — Laura não tinha certeza se ele estava genuinamente tentando compreender, mas não tinha escolha, exceto dar a ele o benefício da dúvida.

- Quero dizer, a dimensão para a qual as almas dos mortos vão. Ninguém sequer morre de verdade, apenas vamos para outro lugar. É isso o que venho tentando dizer a Michael, mas ele não compreende. Nossa filha, Alice, ela de fato não morreu e se foi, está apenas em outro reino e está tentando se comunicar comigo por intermédio da caveira — acrescentou.

Ah, não, tudo estava sendo expressado da maneira errada, sua explicação. Ela estava sob tamanha pressão que era difícil colocar tudo em palavras.

- Então você afirma que sua filha está tentando se comunicar com você por intermédio da caveira — ele disse. — Por que ela desejaria fazer isso?

- Eu acho que ela é como… uma mensageira.

- Uma mensageira? Para quem? Para o quê? — perguntou.

- Para todos aqueles que amamos do outro lado.

Bacher pareceu intrigado.

- Os mortos conseguem ver tudo o que acontece em nosso mundo. E como não há tempo em sua dimensão, eles podem ao menos ver o que está ã frente em nosso futuro. No entanto, eles são menos poderosos para intervir diretamente. Como o xamã maia, Hunab Ku, eles se consideraram abandonados quando viram, milhares de anos atrás, que destruiríamos nosso mundo. É por isso que eles enviaram a caveira de cristal. Assim, conseguiriam se comunicar conosco em nosso momento de necessidade. É por isso que enviaram minha filha, Alice. Ela veio tentar nos alertar.

- Agora, deixe-me tornar isso claro — Bacher disse. — Você crê que sua filha morta pode conversar com você por intermédio da caveira, e que ela foi enviada por todas as demais pessoas mortas para tentar nos salvar de algum tipo de… Armagedom iminente.

- Correto… — respondeu Laura.

Dr. Bacher inclinou a cabeça e coçou o queixo.

- Hummm, interessante…

- … Mas eu não sei exatamente o que acontecerá — Laura prosseguiu. — É por isso que preciso falar com ela. É por esse motivo que preciso ver a caveira de cristal novamente. Preciso falar com Alice.

- Isso ajudaria? — inquiriu Bacher.

- Sim. Se eu pudesse vê-la, exatamente como na última vez, poderia mudar tudo.