O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 50 de 112

Páginas do PDF

O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 47

14 DE DEZEMBRO DE 2012

Por favor, permaneçam em seus assentos e mantenham seus cintos de segurança afivelados! Repito, por favor, fiquem em seus assentos e mantenham seus cintos de segurança afivelados!

O aviso do capitão veio pelo sistema de alto-falantes. O pequeno avião Cessna desceu abruptamente, chocando-se contra uma nuvem. Os motores gemeram ruidosamente com o peso, antes de uma rajada de vento acertar a cauda do avião e se erguer novamente. Ela apertou a caveira em seu colo. Ela não esperava isso. A minúscula aeronave agitava-se na tempestade, voando a esmo como se fosse um brinquedo.

O voo de Laura para a Cidade da Guatemala chegou sem problemas, mas seu voo de conexão para Luvantum seria uma história diferente. O que ela não sabia, antes de embarcar, era que a aeronave seria pega na ponta do rabo de um furacão de final da temporada que sopraria ao longo da costa de Honduras e que agora se extinguia sobre as montanhas maias, para onde voava naquele instante. Ela se perguntou se o piloto havia previsto esse mal, ou se fora pego despreparado.

A chuva açoitava as janelas ferozmente. Embaixo da aeronave via-se o que parecia um imenso oceano de suntuosa floresta verde, mas nessas condições climáticas tudo o que Laura conseguiu avistar foi os contornos cinzentos e ameaçadores dos cumes cobertos de selva que pareciam se segurar ainda mais perto das pontas das frágeis asinhas do avião.

Havia apenas mais sete passageiros a bordo, e eles estavam extraordinariamente silenciosos. Até a comissária de bordo parecia nervosa. Tendo verificado se os cintos de segurança de todos estavam afivelados, ela retirou os sapatos e se segurou em seu assento dobrável virado para o fundo, que se localizava atrás da cabine do piloto. Laura fechou os olhos e tentou se acalmar.

Outra rajada de vento acertou o avião, desviando-o lateralmente. Laura pensou em Michael. Ela sabia que ele julgara seu comportamento irresponsável, tomando a caveira do jeito que o fez, porém ela não tivera escolha. O que tinha visto através da caveira era extraordinário. Não podia ignorar a possibilidade de que realmente pudesse ser uma mensagem de Alice.

De repente o avião levantou-se. Laura sentiu seu estômago lançar-se ao teto, antes que a aeronave recomeçasse o vôo normalmente. Os outros passageiros arfaram. Laura havia passado por turbulências muitas vezes antes, mas nada desta dimensão, nunca nada tão assustador quanto aquilo. Abriu os olhos e olhou para a comissária de bordo para se retranquilizar, mas seu rosto mal podia esconder o medo. A comissária lançou o olhar para o alto antes de fazer o sinal da cruz, da maneira utilizada por católicos devotos em todo o mundo ao pedir a proteção de Deus.

Laura refugiou-se novamente em seus pensamentos. Pegar a caveira sem autorização exatamente quando Michael e Caleb precisavam dela para sua pesquisa tinha sido uma coisa. Havia sido ruim o suficiente para Michael lidar com a situação, mas agora a vida de Laura corria risco. Ela apertou a caveira mais fortemente, ao mesmo tempo em que os motores roncaram. “Se este avião cair agora, tudo isso terá sido em vão. Todos os meus esforços terão sido desperdiçados”.

A comissária agora ajustava o “suporte” ou a posição de “queda”, curvando-se para frente, em direção ao colo, com os braços embalando a cabeça, os antebraços protegendo o crânio, enquanto toda a fuselagem começava a chacoalhar. Outro solavanco, e as máscaras de oxigênio se soltaram de seus compartimentos, bamboleando bem à frente dos rostos congelados de pavor dos passageiros.

O avião sacudiu novamente. De repente, houve uma batida forte e um “estampido” que soou como se a aeronave estivesse sendo estraçalhada de modo violento, rasgada em duas com o impacto do avião chocando-se contra o solo abruptamente e continuando a se bater, sacudir e estremecer à medida que a velocidade diminuía na pista rígida e enlameada. O piloto se esforçava para tentar pará-la desviando o curso sob o vento e chuva fortes, quando finalmente veio a repousar antes do final da pista de pouso minúscula aberta na floresta.

Eles haviam finalmente pousado, por mais milagroso que parecesse. Muitos dos passageiros caíram em lágrimas, outros bateram palmas alegremente. A atmosfera era de evidente alívio, com um extravasar de toda a intensidade de emoção reprimida que os passageiros haviam acabado de vivenciar, temendo que estivessem prestes a morrer, que seus corpos fossem espalhados pela floresta e nunca mais vissem seus entes amados novamente.

Assim que Laura saiu do avião, percebeu que as juntas de suas mãos que agarravam a mochila com a caveira estavam brancas por tê-la de segurar tão firmemente. Havia sido uma viagem e tanto. Ela ficou contente quando sentiu sob os pés a terra firme da pista de pouso da floresta. Era bom estar em solo firme mais uma vez.

Entre os vôos na Cidade da Guatemala, Laura havia trocado a maleta da caveira por uma mochila mais prática. Ela também trocou seu elegante terno de trabalho feito de linho e sapatos abertos de couro por um par de tênis de corrida,

jeans, camiseta e uma barata capa de chuva de plástico. Como ela estava contente por ter conseguido! A chuva foi torrencial.

O “prédio do terminal”, na pista de pouso de Santa Cruz, consistia em nada mais do que uma simples cabana de telhado de zinco, sem paredes, no meio de uma vasta extensão de mata virgem. Assim que se protegeu embaixo de seu abrigo com o punhado de outros passageiros, um danificado ônibus escolar amarelo irrompeu na esburacada faixa única da “estrada” em direção a eles.

Ela esperava que fosse seu acompanhante, Dr. Brown, mas esse ônibus chegara para levar os demais passageiros à “cidade” vizinha de Santa Cruz, na verdade, uma vila.

Laura ficou onde estava, apesar da insistência do motorista em levá-la à cidade também. Os outros passageiros também pareceram relutantes por deixá-la para trás, tamanho era o espírito de camaradagem que se estabelecera no desfecho daquele tumultuado voo. Todos estavam visivelmente preocupados com sua segurança caso ficasse presa sozinha na selva, principalmente após escurecer.

Ela observou o velho ônibus danificado se afastando, descendo a pista e desaparecendo em uma nuvem de fumaça de diesel. Só então percebeu que não estava totalmente sozinha. Um punhado de soldados locais ensopados de chuva e desesperados se abrigavam sob outra cabana enrugada e minúscula, na lateral da pista. Ali onde Laura estava nada ficou além de um porco esquelético e um casal de cães perdido.

Laura mal podia acreditar que era lá que havia combinado de encontrar Dr. Brown. Ele concordara em levá-la às ruínas de Luvantum, ao final do dia seguinte. A pressa de sua partida a havia deixado mal preparada. Ela não tinha nenhum mapa da região e estava totalmente incerta de como exatamente deveria chegar lá. Ela esperava que Dr. Brown não tivesse se esquecido do encontro. Procurou o celular minuciosamente e tentou ligar para ele, mas não havia sinal.

Seria uma longa caminhada de dez quilômetros, especialmente neste tempo, até Santa Cruz, o assentamento mais próximo. E como a “estrada” começava na pista de pouso, Laura podia ter certeza que não passaria ninguém que pudesse oferecer uma carona. E mesmo que presumisse que Dr. Brown morasse em Santa Cruz, ela, na verdade, não tinha nenhuma noção de onde ele morava. Não havia nada mais a fazer, a não ser esperar. Pelo menos era um alívio não estar mais na aeronave.

Enquanto esperava, teve conhecimento do quanto a pista de pouso aberta era realmente pequena. A menos de cinco metros de onde estava, começava a selva. Ela pôde ver raízes de sustentação gigantes, os grossos caules entrelaçados de árvores, galhos esticando-se ao alto e a escuridão da floresta. Não tinha voltado lá desde que trabalhara em um sítio arqueológico no sul do México, quando então descobrira que estava grávida de Alice.

Observou um macaquinho fazendo acrobacias entre os galhos mais altos das árvores. Ela pôde ouvir o pio e o guincho das aves da floresta enquanto elas se arremessavam em direção à vegetação rasteira. Não podia esperar para ir a Luvantum. Apenas tinha a esperança de que Dr. Brown aparecesse logo.

Então, subitamente, uma figura surgiu na moita da floresta, como se viesse do nada. Era um homem maia pequeno e idoso, vestido com uma camisa de algodão simples e calças brancas. Ele usava um lenço vermelho na cabeça e exibia uma faixa de mesma cor amarrada ao redor do pulso. Ele estava encharcado. O homem parou quando a viu e a encarou com tanto interesse que a surpreendeu. Sua testa estava enrugada quando se aproximou. Ele balançou a cabeça. Se fosse alguém que tivesse vindo passar uma mensagem sobre Dr. Brown, seu comportamento parecia um pouco atípico.

— Você está com Dr. Brown? — ela indagou.

— Por que eles a enviaram? — ele perguntou, incrédulo. — Onde está ele?

Laura estava perplexa.

— Quem?

— Aqueles que chamam de Ron — o velho homem respondeu.

Laura se perguntou se havia ocorrido uma confusão sobre exatamente qual arqueólogo do Instituto Geográfico Smithton era aguardado.

— Você quer dizer Ron Smith? — ela não tinha idéia de como Dr. Brown poderia ter imaginado que era Ron Smith quem viria, em vez dela.

O velho homem a olhava, mostrando-se muito interessado…

— Ele está morto, não é?

— Sim — ela respondeu.

O velho pareceu quase vacilar por um momento, parecendo perder o equilíbrio, quando deu um passo. Um olhar de desolação completa assolou seu rosto. Ele olhou para frente, inexpressivo, os olhos fora de foco, e sussurrou:

— Então não há esperança para nenhum de nós!

Laura estava prestes a perguntar o que ele queria dizer, quando uma voz forte e retumbante começou a berrar, em sotaque americano:

— Dra. Shepherd! Olá! Dra. Shepherd!

Ela se virou para ver um homem branco de meia-idade, acima do peso e barbudo, soprando e bufando estrada abaixo, na direção dela. Ele vestia um tradicional uniforme cor creme de exploradores da floresta, completado com um chapéu, e ostentava uma capa de chuva amarela brilhante sobre as calças de equitação encharcadas, enquanto descia a estrada em direção a Laura, no lombo de uma mula, e gritava:

— Olá!

Atrás dele, um homem dessa localidade puxava as rédeas de duas mulas de carga, tentando atraí-las para baixo da cobertura da floresta. O grupo de soldados perto deles observava e ria.

Ao chegar perto de Laura, o homem com a capa de chuva amarela desmontou da mula e esticou a palma da mão suada.

— Dra. Shepherd, o nome é “Brown” — Laura apertou sua mão, antes que ele terminasse de saudar: — A seu serviço!

— Prazer em conhecê-lo. Por favor, me chame de Laura.

— Prazer em conhecê-la, Dra. Shepard — disse ele.

Laura virou-se novamente para descobrir que o homem maia com quem falara tinha ido embora. Ele havia desaparecido, tão rapidamente quanto tinha surgido anteriormente, e ela se viu questionando se poderia tê-lo imaginado.

— Você viu…? Quem era? — perguntou ao Dr. Brown.

— Ah, seu nome é Hunab Ku — respondeu em um gesto de repúdio com o braço.

— Então ele não está com você? — ela perguntou.

— Claro que não. E, se eu fosse você, não teria muito o que fazer com ele.

— Por que não? Quem é ele?

— Ah, ele é o xamã local, curandeiro ou médico bruxo para você. Me dá um medo tremendo — ele disse, enquanto verificava a correia da sela de sua mula para apertá-la. — Mas não se preocupe, ele provavelmente é bastante inofensivo.

— Tudo bem, eu não estava preocupada — falou enquanto Brown subia de volta à sua mula.

— Porém ele acabou de me perguntar sobre meu colega morto!

— Não me surpreende! — Brown encolheu os ombros. — Eles acreditam na comunicação com os mortos por aqui, e como o xamã, para essas pessoas pobres — balançou a cabeça em direção ao seu guia local — ele é o especialista nesta região.

— Então meu ex-colega Ron Smith esteve aqui? — ela perguntou.

— Estou aqui há dois anos. Eu nunca o vi! — Brown respondeu.

— Nesse caso, é melhor eu descobrir como ele o conheceu — ela preparou-se para seguir o velho curandeiro dentro da floresta, mas hesitou quando não conseguiu ver nenhuma trilha óbvia e percebeu que, na verdade, não sabia por qual caminho ele tinha ido.

— Vá atrás dele se quiser — Dr. Brown disse — mas você nunca o encontrará seguindo por aí — ele mostrou a profundidade da floresta. — De qualquer maneira, é melhor nos mexermos ou nunca chegaremos ao acampamento antes do cair da noite — ele acrescentou assim que o guia apareceu ao seu lado com as outras duas mulas.

O guia passou as rédeas de um dos animais para Laura.

— Isso parece pesado — ele disse, esticando o braço para pegar a mochila de Laura. — Por favor, deixe-me carregá-la para você — ele ofereceu.

— Não. Não… eu consigo — ela respondeu com um toque ansioso. Ela não queria correr o risco de ninguém mais manusear a caveira de cristal.

O guia pareceu intrigado.

Laura pegou as rédeas de sua mula, amarrou a mochila no cabo de corda embaixo da sela do animal e subiu nele, quando ela, Dr. Brown e o guia partiram em direção à ensopada selva, no dorso das mulas, com o guia picando folhas e frondes com seu facão enquanto prosseguiam.

À medida que as mulas serpenteavam ao longo do caminho sinuoso e a chuva caía em lâminas firmes, Laura não conseguia impedir que seus pensamentos retornassem repetidas vezes para a mesma pergunta, a de como o pequenino homem velho e modesto, um estranho completo no meio da floresta, esperava encontrar seu colega morto, Ron Smith. E como poderia saber algo a respeito dele!? Simplesmente não parecia fazer sentido algum.

Enquanto eram conduzidos em fila única, percebeu que nunca havia partido para um destino remoto com tamanha pressa e tão despreparada. Tinha consigo apenas as roupas que vestia, uma lanterna à prova d’água e um canivete que comprara na Cidade da Guatemala. Ela não montava a cavalo desde que era adolescente, e certamente nunca tinha montado o lombo de uma velha mula desajeitada.

— Então o que a traz aqui pouco tempo após a notícia? — ele elevou a voz para ser ouvido sobre a chuva.

— Estou procurando o pedaço que falta de uma pedra profética maia que venho decifrando — Laura estava relutante para revelar detalhes completos de sua missão, especialmente a menos que ortodoxa técnica que utilizara para localizar seu paradeiro.

— Então você já tem alguma parte desta pedra?

— Sim, em meu escritório.

— E você acha que encontrará o restante dela aqui?

Laura balançou a cabeça em afirmativa.

Dr. Brown deu uma inspirada aguda e balançou a cabeça.

— Você se deu conta de que não há esperança alguma de encontrar intacto o resto desta pedra que está procurando?

Laura olhou para ele desconfiadamente.

— … Com todos os terremotos e erosão, sem mencionar os saqueadores no decorrer dos anos — ele balançou a cabeça novamente.

Laura não sabia o que dizer. Isso era tudo o que ela precisava ouvir. Que, apesar de todos seus esforços, de ter arriscado seu relacionamento com Michael, a destruição efetiva de sua carreira, não havia nenhuma chance real de encontrar o que procurava, de qualquer maneira.

Brown virou-se para o guia local:

— O que você acha, Carlos? — ele bramiu. — Quais são as chances de encontrar as sobras de alguma “pedra profética” — ele disse quase com desdém —, intacta, em Luvantum?

Carlos parou de picar a mata, pensou por um momento e encolheu os ombros antes de responder:

— É difícil dizer. É muito remoto. Nós acabamos de iniciar um mapeamento preciso e detalhado do local. Então, não podemos afirmar com certeza.

Ele então se virou para Laura e acrescentou, da maneira mais diplomática que pôde:

— Talvez não encontre.

Laura sentiu-se cheia de desesperança.