O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 51
15 DE DEZEMBRO DE 2012
Na manhã seguinte, eles desmontaram o acampamento. Mais uma vez, Laura amarrou sua mochila com a caveira de cristal ao cabo de corda embaixo da sela, na esperança de que ali ficasse segura. “Pelo menos não demoraria demais”, falou para si mesma, flutuando pelo entendimento de que, tudo correndo bem, eles deveriam chegar a seu destino ao final daquele mesmo dia.
Não demorou muito para que, depois da partida de Laura, os soldados descobrissem seu local de acampamento abandonado. Eles ficaram muito agitados quando se depararam com os resquícios latentes da fogueira do acampamento do grupo, com as brasas ainda mornas da noite anterior. Eles também ficaram muito satisfeitos com o fato de as condições úmidas e enlameadas significarem que teriam pouca dificuldade para encontrar e seguir Laura e seus companheiros de trilha.
Ao meio-dia, a alguns quilômetros de distância, Brown e Laura proseavam sobre as origens misteriosas da antiga civilização maia, mas tiveram que interromper a conversa quando chegaram a uma bifurcação no caminho e tiveram de decidir qual direção seguir. Tendo tomado o lado esquerdo da bifurcação, não demoraria até alcançarem uma grande rocha que bloqueava parcialmente o caminho à frente. A mula de Laura assumiu o comando e começou a cercar a obstrução, quando uma mortal cascavel de repente começou a chocalhar seu rabo embaixo da rocha.
Amedrontada com o som, a mula empinou, zurrando alto. Ao ver a cobra, o animal esquivou-se para trás e pisou de modo nervoso para um dos lados. Ao fazê-lo, não viu uma fileira fina de arbustos, a borda do penhasco que limitava o caminho.
O animal começou a escorregar pela beira do penhasco, seus cascos raspando freneticamente enquanto tentava recuperar a pisada. Rochas e pedras soltas caíram na lateral.
Laura agarrou a frente de sua sela e a segurou firme. Olhou fixamente para baixo, petrificada, enquanto os escombros pareciam cair em câmera lenta antes de acertar a superfície das águas profundas muito abaixo, provocando um esguicho.
Carlos interveio rapidamente, agarrando as rédeas da mula bem a tempo de ajudar o animal assustado a recuperar sua pisada.
— Essa foi por pouco! — exclamou Dr. Brown. — Você não ia querer acabar lá. Se a queda não a matasse, a correnteza provavelmente o faria — acrescentou procurando ser prestativo.
Laura esforçou-se para manter sua assustada mula de volta à direção da pista. Puxando as rédeas com força, ela ficou em frente à rocha que havia escondido a cobra. Agitada, sua mula levantou-se e começou a bufar.
Carlos desmontou de sua mula e começou a golpear com um graveto grande o solo próximo à rocha. Ele então levou sua mula nervosa para trás da rocha. Dr. Brown seguiu a orientação de Carlos, e sua mula seguiu cuidadosamente sua volumosa forma.
— Sugiro que você faça o mesmo — aconselhou Laura.
Ela também desmontou de sua mula e puxou as rédeas do animal. No início, recusou-se a sair do lugar; ficou com as orelhas esticadas, hesitante em dar um único passo. Apenas quando Carlos voltou detrás da rocha balançando seu grande graveto, o animal começou a se mover, mas ainda relutante. Depois, deu um meio-galope, quase arrastando Laura pelo chão.
Quando passou pela rocha, parou abruptamente, e todos pararam para olhar o precipício atrás. Laura estava arrepiada em ver que havia escapado por tão pouco. Ela espreitou-se através das árvores para ver que a beira do penhasco no qual tinha quase caído formava apenas uma pequena parte da margem do enorme buraco escavado no solo. Parecia uma cratera gigante com paredes verticais no meio do chão da floresta.
— É um “cenote” — explicou Dr. Brown —, uma entrada para o sistema subterrâneo do rio. Os antigos maias acreditavam que tocas como estas sejam portais para o mundo subterrâneo. Mergulhar nelas era uma das cerimônias de iniciação para os curandeiros. Se um jovem aprendiz conseguisse nadar de uma dessas entradas para outra, se tornava um xamã — ele olhou para Laura. — É claro que a vasta maioria deles simplesmente se afogava.
Ele virou-se e retornou à sua mula.
— Dr. Brown pensa na antiga civilização maia apenas como um povo primitivo — disse Carlos, enquanto Laura e ele subiam de volta em suas mulas e seguiam Dr. Brown ao longo da trilha da floresta. — Ele se esquece que eles ergueram cidades magníficas…
— … Utilizando apenas tecnologia da idade da pedra! — Dr. Brown interrompeu.
— Certo, ou seja, eles não tinham ferramentas de metal — Carlos respondeu — mas apenas veja o que fizeram sem elas!
Laura podia dizer que ambos realmente gostavam desse tipo de provocação.
— Se a antiga civilização maia era tão primitiva — Carlos prosseguiu com entusiasmo —, por que eles tinham dezessete diferentes calendários interligados, enquanto nós temos apenas um? São sete maneiras diferentes de calcular que dia é! E pelo fato de cada um desses calendários se basear nos verdadeiros movimentos dos planetas e das estrelas
por todo o universo, o dia que lhe diziam não era apenas quando era o dia, mas também onde a Terra estava naquele dia em relação a todos aqueles outros planetas e estrelas. Eles podiam até usar a posição e orientação de seus templos-pirâmides para verificar seus cálculos e medir a posição de todos esses dezessete diferentes planetas e estrelas em relação à Terra de modo bastante preciso. Não me parece um povo primitivo.
— Porém não tinham sequer telescópios — Brown disse em tom de provocação.
— Não faz diferença — Carlos disse. — Eles ainda compreendem “os ciclos do tempo”, os ciclos de todos os planetas diferentes, como Vênus. E o calendário Venusiano, ou de Contagem Longa, era extremamente complicado. Ao contrário de nosso simples calendário solar, que simplesmente conta quantos dias a lua leva para fazer a órbita na Terra, seu calendário de Contagem Longa não apenas contava o ano Venusiano.
— Ele simplesmente não conta quanto tempo leva para Vênus e Terra orbitarem efetivamente um em relação a outro. Esse é um processo que dura, em média, quinhentos e oitenta e quatro dias, mas varia entre quinhentos e oitenta e quinhentos e oitenta e sete. Seu calendário de Contagem Longa, no entanto, mede algo muito mais interessante que isso. Os maias eram mais interessados em por que a duração deste ciclo variava. Eles tinham mais interesse na relação entre o eixo de rotação do planeta Vênus ao redor do Sol e o eixo de rotação da Terra ao redor do Sol, um ciclo que oscila durante um grande período de tempo.
— Eles estavam interessados em quanto tempo levava para a Terra, o Sol e Vênus retornarem à mesma posição em relação ao outro. E esse é um processo que opera em um ciclo de cinco mil e duzentos anos, ou, como os maias diziam, este “ciclo de tempo” dura exatamente um milhão, trezentos e oitenta e seis mil e quinhentos e sessenta dias. E é isso que seu calendário de Contagem Longa lhes proporcionava. Eles calculavam e compreendiam tudo isso sem o auxílio de telescópios modernos. Nós não sabemos exatamente como eles o fizeram.
— Carlos é um especialista em astronomia maia e não escutaremos uma palavra proferida contra eles — disse Brown.
— Como eu constatei — Laura respondeu.
— Na verdade, Carlos está estudando a torre astronômica em Luvantum e tem planos de tentar restaurá-la — Brown explicou.
— Sim, é uma das melhores em seu gênero no mundo maia antigo — Carlos falou, orgulhoso. — Eu já realizei um trabalho de escavação preliminar em seus arredores e descobri diversos pedaços de cristal — acrescentou.
Os ouvidos de Laura se aguçaram.
— Esses pedaços de cristal aparentemente eram usados pelos sacerdotes-astrônomos nos tempos antigos para auxiliar na limpeza de sua visão. Por exemplo, quando eles olhavam para o céu noturno, acreditavam que o cristal podia ajudá-los a ver os planetas e as estrelas com maior clareza.
“Incrível”, Laura pensou. Ela teve uma súbita sensação de reconhecimento. Ela se lembrou de como, em seu escritório, a caveira de cristal havia intensificado sua visão dos hieróglifos. E agora acontecia de os próprios maias antigos terem utilizado o cristal para auxiliar no realce de sua visão.
— Realmente — Carlos prosseguiu — parece que os antigos maias acreditavam que o cristal podia auxiliá-los a enxergar, além dos planetas e das estrelas as dimensões ocultas dos céus. E era a função dessas dimensões, marcar os “ciclos de tempo” ocultos registrados em seu calendário de todos os calendários, o sagrado ou “tzolkin”, como era conhecido.
— Como você provavelmente sabe, especialistas vêm se confundindo a respeito desse calendário sagrado há anos, mas nós ainda não o compreendemos. Talvez isso ocorra porque aparentemente tem de fato a ver com outra dimensão, um “universo paralelo”, se você preferir, o qual nós, mortais, humildes seres humanos fazendo nossa parte neste pequeno planeta, simplesmente não conseguimos enxergar. Os antigos, no entanto, ao que parece, conseguiam enxergar dentro dele.
O que Carlos afirmou ofereceu a Laura um vislumbre de esperança. Ela ainda estava profundamente perturbada pelo fato de ninguém mais, nem Professor Lamb, nem Caleb, ou mesmo Michael, terem sido capazes de enxergar os hieróglifos que ela vira através da caveira de cristal, em seu escritório. Todos eles presumiram que ela estava simplesmente imaginando coisas; que estava perturbada por algum tipo de desequilíbrio mental, uma idéia que ela mesma considerou extremamente perturbadora, caso essa realmente fosse a hipótese. Mas o que Carlos dizia encorajou-a. Os próprios maias antigos aparentemente utilizaram o cristal para tentar enxergar o que normalmente não poderia ser visto. Então, afinal, talvez não estivesse ficando louca.
Ela estava quase perguntando para Carlos mais a esse respeito, quando Brown intrometeu-se.
— Parece intrigante — ele disse com desdém — mas se não chegarmos logo a esse sítio arqueológico, não conseguiremos ver nada!
Brown olhava para o céu.
— Está ficando tarde, Carlos. É melhor você ir na frente e acender a fogueira no local de acampamento antes que escureça.
— Haverá café esperando por vocês — Carlos sorriu. — Hasta luego! — ele chutou sua mula para que ela trotasse e fosse conduzido à frente.
Enquanto isso, os quatro soldados da pista de pouso chegaram à mesma bifurcação no caminho pelo qual Laura e seus companheiros haviam passado mais cedo. Indecisos sobre qual direção seguir, pararam por um momento e descansaram as armas, enquanto um deles aventurou-se à frente para investigar.
Seguindo pelo lado esquerdo da bifurcação, ele encontrou uma rocha grande bloqueando parcialmente o caminho, e atrás dela algo chamou sua atenção. Ele notou algumas marcas de casco na lama, na margem de um cenote. Ele curvou-se para olhar mais de perto. As marcas estavam frescas. Ele espreitou o penhasco, mas não havia sinal de qualquer mula ou pessoa caída. Então, percebeu outras marcas de casco, três conjuntos delas, seguindo para além da grande rocha.
Ele assobiou para seus colegas, apontando agitado na direção em que Laura e seus colegas haviam partido. Seus camaradas puseram as armas de volta aos ombros e prosseguiram com dificuldade em direção a Luvantum, agora mais próximos de quem perseguiam.