O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 89 de 112

Páginas do PDF

O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 86

Michael retornou ao lado do leito de Laura, mais desesperado do que nunca. Ela apenas permanecia ali, em estado inalterado. Ele afagou seu queixo e pensou em tudo o que havia perdido. Perdera Alice, seu emprego, e Laura poderia ir a qualquer momento. Ele apenas desejava ter escutado o que ela tentara explicar para ele antes. E agora ali estava ela, completamente incapaz de comunicar algo.

Ele pegou sua mão. Estava tão convencido de sua insanidade quando ela contara a ele sobre a profecia: “Todas as crianças do futuro morrerão!”. As palavras enviaram um arrepio espinha abaixo quando ele se recordou da conversa que havia tido na cela da polícia.

Deus, o quanto doía nele; se a houvesse escutado. Porém, toda aquela coisa de conversar com Alice, ele simplesmente não conseguia lidar com esse tipo de idéia na ocasião. Ele realmente estava convencido que Laura havia perdido a linha. E ele havia estado tão absorvido na própria pesquisa sobre a caveira de cristal, que realmente ficara bravo quando ela levou consigo a caveira para a América Central. No entanto, agora compreendia. Ela havia necessitado da caveira para traduzir a profecia, a qual poderia ter ajudado a prevenir a destruição. Porém, ninguém o daria ouvidos, e a ameaça era tão iminente, tão fatal.

— Sinto muito, minha querida, eu não escutei. Agora eles não escutarão. Eu sinto muito, muito mesmo.

Michael abaixou a cabeça, envergonhado, quando se sentou ao lado da cama da esposa e afundou-se cada vez mais em um oceano de desespero. Ele segurou a mão flácida na sua, seus olhos analisando o rosto dela, em busca de qualquer sinal de vida. Ele havia atingido o ponto mais baixo de sua história, e ainda assim era totalmente incapaz de compartilhá-lo com a mulher que amava, incapaz de encontrar consolo nos braços de sua esposa, ou conforto nas palavras dela. Laura estava totalmente alheia a tudo. Michael teve que lutar contra a tentação de agarrá-la e sacudi-la, de dizer “Acorde, Laura! Temos que sair desse pesadelo em que nos encontramos”.

Além de seu corpo impotente, ele conseguia ver a janela do hospital. Através de sua grosseira moldura de metal, um céu vazio no qual escuras nuvens da noite começavam a descer. Parecia que há apenas alguns segundos havia sido manhã, e agora a luz desaparecera dos céus e o dia terminava. Os rígidos dígitos vermelhos no relógio eletrônico ao lado da cama de Laura marcavam quinze para as cinco da tarde. Michael se esforçou muito para reter um choro que surgiu em sua garganta.

— Não! — ele berrou. — Não!

A enfermeira-chefe surgiu na porta.

— Você está bem?

Mas Michael estava estarrecido demais para responder.

A enfermeira olhou ao redor, nervosa.

— Por favor, senhor, isto é um hospital. Sua esposa não piorou nada.

Quando Michael falhou ao responder, a enfermeira saiu. Ele mal notou sua presença. Tudo o que ele conseguia pensar era que em menos de vinte e quatro horas tudo acabaria, a vida de Laura, sua vida, tudo o que vira, tocara e sentira não existiria mais. Tudo e todos seriam consumidos no redemoinho final.

Não havia futuro para ninguém. Tudo estava acabado. Não havia nenhuma esperança. Não havia nada mais que ele pudesse fazer, a não ser esperar. Seria uma espera realmente agonizante até o fim, sabendo o que mais ninguém sabia, embora talvez fosse melhor que não soubessem que, em vinte e quatro horas, não haveria amanhã.

“Acorde!” — ele queria gritar para o mundo. “Este é o fim. Você não sabe que este é o maldito fim! Não haverá amanhã! Nenhum de vocês sabia?”

Mas qual seria a razão? Quem acreditaria nele? Simplesmente seria uma maneira garantida de o expulsarem rapidamente do prédio negando a ele suas últimas, poucas e preciosas horas com Laura.

De repente, foi apoderado pela amargura com o pensamento de que Laura já estava a meio caminho de lá, a meio caminho da morte, já um pouco mais do que um cadáver. E muito em breve ele se uniria a ela. Ele não conseguia suportar mais. Ele embalou sua cabeça nas mãos e caiu em prantos, soluçando incontrolavelmente sob o peso esmagador do próprio desespero.

Naquele momento, sentiu aquela mão velha, escura e enrugada surgir suavemente tocando em seu ombro. Ele virou-se para ver quem era. Mal conseguia acreditar em seus olhos.

Em pé atrás dele estava um homem pequeno, velho e de pele escura, vestido com jeans, jaqueta e uma camiseta maçã-verde ostentando o logo “Eu amo a Guatemala”.

— Eu recebi seu recado… pelo Dr. Brown — ele falou com suavidade.

Demorou um momento para Michael perceber quem era.

— Meu nome é Hunab Ku — disse, estendendo a outra mão.

Era o xamã maia. Embora Michael estivesse tentando encontrá-lo, ele era a última pessoa que de fato esperava ver agora, ao lado da cama de Laura, no hospital em Nova Iorque.

Michael segurou a mão do xamã com suas duas e a balançou entusiasmadamente.

— Graças a Deus, você está aqui! — ele exclamou, enxugando uma lágrima nova em seu olho. Ele continuou segurando a mão do xamã e chacoalhando-a. — Obrigado, muito obrigado por vir.

Mas seu rosto caiu novamente assim que retornou sua atenção a Laura.

— Por favor! Você tem que ajudá-la!

O xamã olhou solenemente para ela, em seu estado inerte e sem vida. Caminhou lentamente ao redor da cama, avaliando sua condição. Ele curvou-se para frente e posicionou a palma de sua mão na testa dela.

— É como eu temia — disse. — Seu amor por outra pessoa, alguém no outro lado, é tão forte que ela se esqueceu de seu amor por este mundo.

Michael olhou para ele, perplexo.

— Sua consciência está presa no interior da caveira de cristal.

— O que você quer dizer? — Michael exclamou.

— A consciência é a única coisa que pode viajar entre as dimensões — explicou o xamã — a única coisa que pode viajar entre os mundos.

— Você tem que fazê-la voltar! — Michael implorou.

— Acredito que não haja nada que eu possa fazer — o xamã respondeu tranqüilamente.

Michael olhou para o xamã em agonia. Ele havia depositado suas esperanças na hipótese de este homem o ajudaria e ele dizia que não poderia fazer nada.

— Mas deve haver algo — Michael soou desesperado.

O xamã colocou os dedos nos lábios como se para silenciá-lo.

— Eu tentarei — disse.

Ele caminhou em torno da cama de Laura. Andou ao redor diversas vezes, parecendo estar em pensamento profundo, examinando-a cuidadosamente de todos os ângulos. Então, ele parou. Teve o vislumbre de algo que repousava no armário de cabeceira, sob o vasinho de flores murchas. Era a foto perturbadora do rosto pálido e sem vida de Laura que o detetive havia dado a Michael mais cedo naquela noite, exatamente antes de ter sido chamado de volta ao hospital. Ainda estava no armário de cabeceira, onde Michael a havia largado antes, ao lado das flores murchas.

O xamã esticou o braço e a apanhou.

— O que é isto? — perguntou.

— Ah, isso — Michael respondeu solenemente. — É uma reconstrução do rosto na caveira de cristal.

O rosto do xamã se iluminou.

— Então há esperança!

Michael pareceu iludido.

— Ron não era o escolhido! — o xamã estava alegre.

— Do que você está falando? — Michael encarou o rosto radiante de xamã, perguntando-se se o velho homem tinha perdido a noção.

— A profecia disse que apenas aquele cujo rosto é o da caveira poderia nos salvar — a voz do xamã estava repleta de animação. — E é Laura! — exclamou.

— Mas você não vê que ela está morrendo!? — Michael começava a ficar irritado.

— Nada que eu consiga fazer a salvará — respondeu o xamã. — Ela precisa ser lembrada de seu amor por este mundo. E a única pessoa que pode fazer isso é você — Michael pareceu espantado. — Você precisa entrar lá e trazê-la de volta.

— Mas como? — Michael estava confuso.

— Onde está a caveira? — o xamã questionou.

— No Laboratório de Cristal da Nanon Systems — Michael respondeu antes de olhar para seu relógio. — Mas deve estar indo para o Laboratório Z agora.

— Então é para onde iremos! — declamou o xamã.

— Mas nós nunca conseguiremos entrar lá — alertou Michael.

— Então devemos impedir que ela chegue lá! — o xamã respondeu, preparando-se para sair. — Vamos!

— Mas e quanto a Laura? — Michael olhou para ela, branca como um lençol e inconsciente, deitada na cama.

— É por quem estamos indo lá! — o xamã exclamou.

— Mas… — Michael não fazia idéia do que o velho homem queria dizer.

— E traga essas flores! — o xamã gritou assim que voou para fora do quarto.

Michael hesitou por um momento, então agarrou o ramalhete de plumérias murchas, desnorteado. Ele beijou Laura amavelmente na testa, sussurrou:

— Espere aqui. Eu te amo! — e seguiu o xamã porta afora.