O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 36 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 33

11 DE DEZEMBRO DE 2012

Laura não estava em vias de desistir. No trabalho, naquela manhã, telefonou para a Sociedade Real e explicou que queria descobrir se um Richard Forbes era membro.

— De fato temos um Richard Forbes na lista — o secretário associado a informou.

— Isso é maravilhoso. Você poderia me dar o número dele?

— Infelizmente não estou autorizado a dar nenhuma informação além dessa. Todos os dados de contato dos membros são estritamente confidenciais — o secretário respondeu.

— Mas estou ligando do Instituto Geográfico Smithson e gostaria muito de falar com ele, em relação a um relatório urgente que estou escrevendo — Laura explicou.

— Receio que a única maneira de conseguir acesso a detalhes pessoais de nossos membros seja por meio de um requerimento por escrito ao diretor da Sociedade, resumindo a finalidade de sua pesquisa. Ele então pode encaminhar sua solicitação ao membro em questão, e ele vai decidir se quer ou não entrar em contato com você.

Laura suspirou. Quem sabia quanto poderia demorar até conseguir uma resposta? Seu tempo se esgotava para finalizar o relatório sobre a caveira. O que iria fazer?

— Quanto tempo levará? — perguntou.

— Difícil dizer. Depende do prazo para retornar a nós. Geralmente algumas semanas, no mínimo.

Frustrada, pediu para falar com o diretor.

— Acredito que ele esteja fora da cidade. Você precisa enviar uma requisição por escrito.

— Quando o diretor retornará? — ela perguntou.

— Não nas próximas duas semanas — o secretário respondeu. — Mas você está ligando dos Estados Unidos, certo?

— Sim. Por quê?

— Bem, você pode se interessar em saber que ele está em seu país neste momento. Ele está em Boston, para a cerimônia de entrega do prêmio da Sociedade Internacional, esta noite, e então ficará fora, passando férias com a família.

— Onde está acontecendo? — Laura perguntou.

— No Boston Hilton — foi a resposta.

Era isso. Laura decidiu que iria ao encontro do diretor enquanto ele ainda estivesse no mesmo lado do Oceano Atlântico que ela.

Telefonou para o Boston Hilton e pediu para ser transferida ao diretor da Sociedade, mas não houve resposta no ramal de seu quarto. Ela tentou novamente por diversas vezes, porém ainda sem sucesso. Aparentemente, ele passaria toda a tarde preparando-se para o evento daquela noite, antes de deixar o hotel na manhã seguinte. Precisaria falar com ele pessoalmente, ao que parecia.

— A que horas é a cerimônia de hoje à noite?

— Sete e meia — o recepcionista respondeu.

Laura olhou para o relógio. Já se passava do meio-dia. Se precisava seguir para Boston antes da cerimônia de entrega do prêmio, estava atrasada. Ligou para Michael, cujo telefone estava na caixa postal, para avisá-lo que voltaria tarde. Em seguida, dirigiu-se ao aeroporto.

Sentiu alívio por chegar ao Boston Hilton sem atraso. O hotel estava cheio de pessoas preparando-se para a cerimônia. Ela esquivou-se e seguiu pelo salão do tapete vermelho até o balcão da recepção, onde um dos assistentes administrativos da Sociedade ofereceu-se para tentar encontrar o diretor para ela.

Enquanto aguardava pacientemente para entrar no salão de baile, lançou um olhar curioso sobre a Ordem das Apresentações e o Cronograma de Prêmios. A Sociedade Real possuía muitas categorias diferentes de prêmios: Artes em geral, Ciência como um todo e categorias especiais para Arqueologia, Engenharia, Medicina, Filosofia, e assim por diante. Ela teve uma reação atrasada, e seus olhos subitamente saltaram de volta para o saguão de “Arqueologia”.

Lá, incluído na curta lista de indicados, estava exatamente o nome que procurava. Um “Richard Forbes” havia sido indicado para um prêmio por sua “longa contribuição para o campo da arqueologia”. Ela mal pôde acreditar nisso, mas lá estava, bem à sua frente, claro como o dia.

“É óbvio que a questão era se este se tratava do mesmo Richard Forbes pelo qual procurava. Possivelmente seria a mesma pessoa que acompanhara Anna Crockett-Burrows e sua equipe de Luvantum, na década de noventa ou talvez fosse outra pessoa, alguém totalmente alheio àquele Richard Forbes”. Ela estava louca de curiosidade para saber. Foi então verificar na recepção. “Sim”, havia um Richard Forbes hospedado no hotel nesta noite, e, “sim”, ele já havia chegado.

Laura mal podia conter sua satisfação quando pediu para ser transferida para o quarto dele. Era o momento da verdade, o da espera por alguém atender. Após alguns momentos, um homem idoso atendeu ao telefone.

— Boa tarde, aqui é Richard Forbes — respondeu com um tradicional sotaque inglês.

— Olá, eu sou a Dra. Laura Shepherd, arqueóloga do Instituto Geográfico Smithton. Eu gostaria muito de conversar com o senhor sobre uma escavação da qual possivelmente participou há muitos anos.

— Sim — Richard disse. — Qual delas?

— Luvantum — houve uma pausa

— Onde? — Richard perguntou.

“Ah, não, ele vai dizer que nunca ouviu falar a respeito.”

— Luvantum, nas Honduras Britânicas, agora Belize — ela explicou.

Houve um longo silêncio no outro lado da linha.

— Lu-van-tum — Richard disse lentamente, dando muita ênfase à palavra. — A cidade da pedra sagrada — ele ficou mais uma vez em silêncio, então suspirou fundo. — Isso foi há muito, muito tempo — fez uma pausa —, uma época que eu prefiro esquecer, de várias maneiras.

— Por favor — Laura suplicou. — É importante…

fegl Depois da chamada, Laura cancelou seu pedido para se encontrar com o diretor da Sociedade, já que havia encontrado a pessoa de que necessitava. Ficou surpresa ao se dar conta de quão nervosa se sentia ao olhar o próprio rosto no espelho do banheiro feminino, antes de caminhar pelo saguão até o bar, onde marcara

para se encontrar com Richard Forbes. Ouvia-se uma suave música tocada ao piano quando ela entrou.

Localizou um homem idoso sentado a uma mesa pequena, em uma cadeira de veludo. De smoking e gravata borboleta, estava já, portanto, vestido para a noite. Era mais baixo do que Laura imaginava, usava óculos redondos e bigode. Uma bengala de madeira apoiava-se na mesa. Ele fitou Laura de modo distraído, por sobre um jogo de palavras cruzadas do jornal “The Times”.

— Olá. Richard Forbes? — perguntou.

Richard levantou-se firmemente e estendeu a mão para Laura. Ela a apertou e ambos sentaram.

Ele aparentava estar próximo de noventa e sete anos de idade. Laura pediu um bule de chá, enquanto Richard dobrava seu jornal.

— Estou aqui para receber um prêmio por minha grande contribuição ao ofício de arqueólogo — ele a informou.

— Você deve estar muito contente — Laura disse.

Richard deu um sorriso chocho, alisando as dobras da toalha de mesa.

— Muito obrigada por concordar em me ver — ela acrescentou —, especialmente tão em cima da hora.

— Sim — ele disse, dando uma olhadela no relógio de pulso. — Eu tenho apenas uma hora até o início da cerimônia. Eu não sei o que realmente posso te contar nesse período.

— Eu queria saber o que aconteceu enquanto esteve em Luvantum — Laura explicou.

— Luvantum — Richard repetiu, como se tivesse pensamentos conturbados — É irônico que tenha voltado a me assombrar agora, neste exato momento — ele disse, quase que para si.

— Qual é o problema agora? — perguntou.

— É uma longa história — ele desviou o olhar. — Veja bem, eu não tenho certeza disso — acrescentou, esticando o braço para apanhar a bengala e começando a se levantar. — Talvez devêssemos conversar sobre isso em outra ocasião.

Nesse momento, chegou o chá.

— Mas eu tenho um relatório urgente para escrever — Laura implorou. Richard estava em pé agora. — E eu compreendo que você precise voar de volta ã Inglaterra amanhã. Por favor, você é a única pessoa que esteve em Luvantum com quem posso falar. Anna Crockett-Burrows me deu seu relato sobre o que aconteceu, e é muito importante que eu saiba dos acontecimentos precisamente.

— Ah, Anna — ele disse e sentou novamente.

Laura serviu-lhe uma xícara de chá:

— Eu estava pensando se você não se recorda de nada que encontrou por lá.

— Eu acho que você sabe — Richard respondeu, com uma expressão retorcida no rosto. — É por isso que está aqui — sua voz agora se reduzia a um sussurro. — Você quer saber a respeito da descoberta, não é? — Laura balançou a cabeça, respondendo afirmativamente.

Richard mexeu o chá com a colher e tomou um golinho.

— Você sabe, eu não falei com ninguém sobre isso durante setenta anos. Nem mesmo minha esposa, quando era viva, antes de sofrer o ataque, sabia.

— Lamento — Laura disse.

— Anna Crockett-Burrows… ela está morta, não? — Richard perguntou.

— Sim — Laura respondeu. — Há apenas dois dias.

Os olhos de Richard pareciam marejados. Ele pegou um lenço no bolso e começou a esfregar o canto do olho.

— É ridículo — disse. — Eu não mais a vi desde que ela estava com dezessete anos.

Laura colocou a mão docilmente sobre o braço dele.

— Nossa profissão diz respeito a desenterrar o que foi enterrado, observar o que está escondido e esquecido, mas, em um nível pessoal, desenterrar o passado pode ser doloroso — Richard disse. — As vezes, é trazido à tona o que nós preferiríamos esquecer.

— Sim — concordou suavemente. — Eu sei.

— Pode parecer difícil de acreditar, mas o fato é que, de muitas maneiras, Luvantum foi o momento mais lindo de minha carreira — Richard ponderou, secando os olhos e guardando o lenço. — Devo dizer que foi uma sorte espantosa que Anna a descobrisse. Que coisa para se encontrar! Foi realmente incrível. Na verdade, primoroso. Eu acho que nós todos ficamos enciumados. Todos nós queríamos ser o número um, o primeiro a estar na cena, trazê-la para fora. Eu era jovem, imagino que não contava com isso. Presumi que a caveira de cristal era apenas um dos muitos objetos que eu encontraria ao longo da vida, embora tenha que admitir que nunca vi nada parecido, antes ou desde então. Foi realmente único.

— Então Anna Crockett-Burrows encontrou a caveira de cristal em Luvantum? — Laura perguntou-se por um momento se Richard falava sobre alguma outra descoberta e sentia que precisava confirmar o que havia acabado de ouvir.

— Sim, ela a encontrou lá mesmo — confirmou Richard.

— Então por que não há qualquer menção à caveira em nenhum dos registros oficiais da escavação?

— Eis uma longa história — respondeu Richard, antes de notar uma expressão intrigada no rosto de Laura. — Percebo que pode parecer uma coisa extraordinária no seu ponto de vista. É melhor eu explicar. Começarei com o dia em que ela encontrou a caveira de cristal naquele altar sagrado, nas entranhas da pirâmide maia.