O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 52
Enquanto prosseguiam viagem em silêncio, Laura percebeu que a floresta ao redor parecia ter se tornado mais densa. Quanto mais avançavam, as árvores, não tão facilmente acessíveis a madeireiros, pareciam ficar maiores, e seus galhos pareciam alcançar o céu. Ela havia esquecido o poder incrível de lugares selvagens como esse. A floresta a lembrava do quanto ela era pequena e frágil. Havia uma crueza, uma força elementar nesses lugares selvagens que era tanto divertida como assustadora. Era um local em que a natureza reinava suprema. Fazia Laura se recordar do respeito que os seres humanos deviam ao mundo natural, cujas forças, embora facilmente negligenciadas, ainda determinavam as vidas de todos no planeta.
Ela se deu conta de que seus pensamentos voltavam-se novamente ao velho que encontrara na pista de pouso. Então ele era um “curandeiro”. A idéia a intrigava. Ela nunca havia conhecido uma pessoa assim antes, mesmo em viagens anteriores de escavação à América Central. “Arqueólogos nojentos” em geral pareciam surpreendentemente ter pouco a ver com a população local. Ela ficou perplexa ao vê-lo tão despretensioso, parecendo tão comum. Era difícil acreditar que ele era um homem que sabia como curar pessoas. Parece que ele poderia ser muito mais capaz do que aparentava. Porém, o que mais intrigava Laura era o que Dr. Brown havia dito antes na pista de pouso.
— Então o que você sabe a respeito de curandeiros falando com os mortos? — ela vociferou para Dr. Brown.
— Não muito — ele respondeu.
— Então o que o faz pensar que aquele homem que encontramos anteriormente era um especialista?
— Bem, eu diria a você que tudo isso é um monte de besteiras, se não fosse por aquele garotão.
Laura olhou para ele de modo interrogativo.
— Disseme que meu pai estava morto — ele olhou intensamente para Laura. — Eu estava aqui, não havia meios de saber. — Provou-se ser verdade — ele desviou o olhar.
— Sinto muito por ouvir isso — Laura falou.
— Aconteceu há dezoito meses. Ele tinha oitenta e seis anos. Insuficiência cardíaca.
Brown esticou a palma da mão e olhou para o céu.
— Ei, acho que vai parar de chover. Dirigiu-se para frente.
Laura seguiu atrás dele, em silêncio, sobre um espinhaço. Acima deles, um pesado céu de um único tom de cinza começava a se fragmentar assim que a chuva principiou a diminuir e fragmentos de raios de sol começaram a penetrar nas nuvens.
— Estamos quase lá! — Brown sorriu assim que se aproximou do cume da colina. — Dê uma olhada — disse, passando seu binóculo para Laura.
Nesse momento ouvia-se na floresta um som profundo e crescente de lâminas cortantes, e Laura ofegou, em choque, quando um enorme helicóptero Chinook de exército se ergueu acima da copas das árvores, bem à frente deles. Seu holofote poderoso perfurava a abóbada da floresta, cintilando nela desagradáveis fragmentos de azul elétrico, iluminando bolsões de árvores com sua luz artificial e obscura.
Laura mal teve tempo de prestar atenção no que estava acontecendo, quando Carlos veio galopando por trás, em direção a eles, gritando ao mesmo tempo em que desmontava da mula.
— Rápido! Escondam-se! Eles estão procurando a Dra. Shepherd.
— Merda! — Laura sussurrou, quando se apressava para desmontar de seu animal, os olhos analisando rapidamente a floresta, à procura de algum lugar para se esconder.
— Aqui, atrás dessas árvores — sussurrou Carlos, conduzindo sua mula para fora do caminho, para trás de um agrupamento de árvores particularmente denso.
Dr. Brown sentou-se resoluto em sua mula.
— Que diabo está acontecendo? — reclamou. — Você nunca me disse que era uma criminosa procurada.
— Por favor! — Laura implorou, seguindo Carlos. — Não é o que parece. Eu posso explicar — assim que disse isso, ela começou a se perguntar por que cargas d’água conseguiria sequer começar a explicar como havia terminado nessa situação.
— Sim, acho que é melhor — Brown falou de modo rabugento. — Pondo todo o grupo em perigo, arriscando nossas vidas — ele murmurou enquanto deslizava relutante para fora de sua mula e se unia a Laura e Carlos, escondendo-se atrás das enormes raízes de apoio da grande quantidade de troncos de árvore cinza-prateados.
Pairando alto sobre eles agora, como um falcão mecânico poderoso, as lâminas do helicóptero chiavam. O piloto e o co-piloto faziam uma varredura na floresta abaixo. Felizmente, para Laura e seu grupo, a folhagem estava tão densa que os pilotos conseguiam ver pouco além da espessa folhagem da abóbada da floresta, mais de 60 metros acima das cabeças de Laura e de seus companheiros.
Atrás das árvores, Dr. Brown lançou um olhar reprovador para ela.
— O que você fez, assaltou um banco?
— É claro que não — Laura respondeu, indignada. Ela estava prestes a tentar se explicar, quando o som do giro das lâminas do helicóptero de repente ficou mais alto, enquanto a aeronave rodeava mais baixo, tentando captar um ângulo melhor entre as árvores.
As mulas começavam a ficar irritadas, puxando nervosas suas rédeas. Laura se esforçou para acalmá-las, mas foi inútil. De repente, o som de lâminas cortantes tornou-se um rugido ensurdecedor, enquanto um segundo helicóptero imenso, para transporte de tropas, mergulhou sobre suas cabeças, até aterrissar na antiga cidade em ruínas que se localizava no vale, no lado imediatamente oposto.
A mula de Laura entrou em pânico. Seus olhos tinham um brilho branco de pavor. Ela tentou desesperadamente contê-la, mas suas rédeas foram arrancadas de suas mãos assim que o animal precipitou-se. Ela apenas conseguiu agarrar firme sua mochila e o cabo de corda pelo qual estava pendurada na frente da sela, enquanto o animal partia em alta velocidade em direção à floresta, retornando em direção à pista. As outras mulas também se moveram inquietas, puxando teimosamente suas rédeas, recusando-se a sossegar.
— Temos que sair daqui! — Dr. Brown se apavorou, subindo de volta em sua mula.
Carlos subiu no animal restante e esticou um braço para fazer com que Laura subisse atrás dele. — Venha! — ele disse.
— Não posso — Laura respondeu, sem se mover e lançando sua mochila de volta ao ombro. — Eu tenho que encontrar aquela pedra!
Brown e Carlos a encararam por um momento, como se ela fosse maluca. Laura teve uma sensação terrível de
déjà vu, mas tomou sua decisão.
— Bem, não sem nossa ajuda! — Brown exclamou, virando sua mula para ir embora. — Venha, Carlos!
Carlos conteve seu animal tempo o suficiente para dar a Laura uma última chance para mudar de opinião e subir. Mas Laura simplesmente olhou para ele, boquiaberta, incapaz de explicar sua decisão, até Carlos desistir e permitir que seu animal virasse e partisse.
— Não! Por favor! Espere! — Laura berrou às costas de Brown quando ele começou a ser levado.
— Você fica se quiser, Dra. Shepherd, mas você está sozinha — Brown gritou de volta para Laura enquanto desaparecia na floresta.
Carlos olhou para trás, acima do ombro, preocupado, enquanto também era conduzido em meio a floresta, onde desapareceu.
De repente, sentiu-se abandonada e sozinha.