O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 9
Laura realmente não queria olhar para a caveira. Havia um milhão de coisas que ela preferia fazer a abrir aquela maleta. Em vez disso, ligou o computador. Começou a pesquisar o banco de dados internacional de museus, para verificar se a caveira de cristal estava listada.
Sua tela piscou : “nenhuma informação encontrada”.
“Interessante”, pensou. Não havia registro algum de uma caveira de cristal em nenhum museu do mundo. Isso a tornava única. Realmente deveria dar uma olhada nela.
No entanto, olhando novamente em direção à maleta de couro escuro, teve aquela estranha sensação de temor. “Talvez devesse examinar a papelada de Ron em vez disso”, pensou. Mas sabia que simplesmente estaria adiando o momento inevitável de ter que tirar a coisa de dentro da maleta. Quanto mais demorasse a fazer isso, mais difícil seria. Realmente teria que tirá-la e olhar para ela, sem mais delongas.
Então, tomando coragem, se aproximou da maleta. Com os dedos trêmulos, soltou a trava e levantou a tampa. Esticou o braço com cautela para apanhar a caveira.
Porém, mal havia tocado sua superfície gelada e vítrea, ouviu algo no corredor, no lado de fora.
Era o nítido som de passos pesados, parecendo desajeitados, aproximando-se cada vez mais.
De repente, houve uma pancada alta, como se algo pesado tivesse despencado no chão do lado de fora de porta. Alarmada, pôs a caveira de volta à sua maleta.
Curiosa, abriu a porta cuidadosamente. Era Janice, auxiliar de escritório e fofoqueira oficial, vasculhando por ali,
com sua surpreendente mini-saia e saltos altíssimos, tentando comprimir um laptop de volta em uma grande caixa de papelão, cujo conteúdo completo ela havia espalhado de algum modo pelo chão, na tentativa de entrar sem bater.
— Desculpe! Mais algumas coisas de Ron. Quero dizer, do Dr. Smith, que a polícia enviou — guinchou Janice, por entre a goma de mascar.
“Deus, como pode ela ter largado o computador de Ron?”
— Espero que este laptop ainda funcione — disse, indiferente.
— Eu também — disse Laura, de modo seco, enquanto se curvava para ajudar a recolher todas as canetas, papéis e outros itens de papelaria agora espalhados pelo corredor.
— Eu ouvi dizer a respeito do que aconteceu com ele — Janice completou, de modo conspiratório. — Não é terrível? Quero dizer, você, coitadinha, encontrá-lo daquele jeito?
— Obrigada, Janice — Laura disse, erguendo-se e oferecendo-se para pegar a caixa para a outra, que caminhava tranqüila, diretamente para o escritório, deixando a caixa sobre a mesa. Ela teve um vislumbre da parte superior da caveira de cristal, visível dentro da maleta, e virou-se.
— Nossa, essa é a caveira? — perguntou, examinando a maleta aberta.
Laura balançou a cabeça afirmativamente enquanto Janice prosseguia:
— Eu ouvi dizer algo a respeito da maldição dessa coisa. Ela dominou Ron. Dizem que ele a olhou nos olhos, ela o deixou totalmente maluco, e ele se matou — Janice olhou para Laura alegremente, aguardando sua reação.
— Isso é um absurdo, Janice respondeu, bem segura. — Não há nada que sugira que esta caveira tenha algo a ver com a morte de Ron.
Embora tivesse dito com autoridade, na verdade estava tentando convencer a si mesma tanto quanto a Janice.
— Bom, tudo é a mesma coisa — esta insistiu. — Eu não gostaria que aquela coisa ficasse no meu escritório.
Laura deu um suspiro profundo:
— Obrigada — agradeceu, segurando a porta aberta para que ela saísse.
— Quero dizer, pobrezinha de você, por causa de tudo o que você já passou — ainda gracejou, refletindo enquanto caminhava corredor abaixo.
Laura fechou a porta firmemente e refletiu como algumas palavras de Janice tinham o efeito de fazê-la se sentir tão imprestável.
Bateu a tampa da maleta que continha a caveira, fechando-a, e observou a série de caixas de papelão agora empilhadas à sua frente.
Passou o restante do dia analisando cuidadosamente documentos de Ron e procurando arquivos que fizessem qualquer menção à caveira de cristal. Quando escureceu, ainda estava estudando a correspondência do colega, enquanto os funcionários finalizavam seu dia no museu.
Ela fez uma pausa na pesquisa para observar uma fotografia de Ron tirada em um sítio arqueológico na América Central. Sorridente e relaxado, cercado por membros de sua equipe, parecia notavelmente bem e feliz. Ela virou a foto. A data no verso mostrava que havia sido tirada menos de cinco anos antes.
“Ele não parecia um homem que teria escolhido se matar”, pensou, lembrando-se do comentário de Janice. “Ele não escolheu se matar, não é? Mas o que aconteceu naquela noite fatídica? Definitivamente, parece que alguém mais esteve no museu”.
Naquele momento, um som melancólico trouxe a atenção de Laura de volta para o presente: “Oxlahun baktun, mi katun, mi tun, mi kin, oxlahun baktun, mi katun,mi tun, mi kin”.
Aquilo lhe soava terrivelmente familiar. Era o mesmo sussurro sinistro ela ouvira na noite em que encontrou Ron morto. Sentiu em sua alma o pavor que aquele som lhe causava.
Mais uma vez, o sussurro pareceu vir do corredor, do lado de fora do escritório.
“O que é isso? Quem é?”, Laura perguntou a si mesma. Moveu-se lentamente e procurou ouvir atrás da porta de vidro fosco, mas ainda não conseguiu chegar a conclusão alguma.
Respirou profundamente e escancarou a porta. Assim que fez isso, o sussurro parou. Não havia ninguém lá.
No entanto, uma luz ainda estava acesa em um dos escritórios, algumas portas abaixo. Caminhou cuidadosamente pelo corredor e parou atrás da porta, que estava entreaberta. Levantava a mão para bater, quando pensou ter visto algo como uma sombra escura movendo-se do outro lado do vidro fosco. Então, ergueu o pulso.
De repente, a porta se abriu à sua frente, e seu coração parecia ter parado.
— Trabalhando até tarde de novo, Dra. Shepherd? — alguém disse.
Era Jacob, em pé junto à entrada, prestes a desligar a luz assim que saiu da sala.
— Meu Deus, Jacob. Você quase me matou de susto! — Laura estava visivelmente agitada.
— Desculpe, senhora. Apenas fazendo minhas rondas — ele explicou. — Certificando-me de que tudo esteja em ordem. O que eu posso fazer por você?
— Estava pensando… você escutou algo?
— Como o quê?
— Como uma espécie de sussurro ou cantarolar.
Jacob parecia pálido.
— Não, senhora. Nada mesmo. Por quê?
— Ah, não importa — Laura disse, agora pensando que talvez tivesse imaginado. — Desculpe por tê-lo incomodado.
Ela se sentiu um pouco burra quando retornou a seu escritório.
“O que há de errado comigo?”, perguntou a si mesma. “Por que eu estou ficando tão apreensiva? E por que eu não consigo sequer olhar para aquela caveira?”