O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 18
Laura nada conseguia falar. Desde o momento em que entrara na sala, pensou que a senhora idosa fosse excêntrica, mas isso era demais, era outra história. Em todos seus anos de carreira como arqueóloga, nunca tinha ouvido uma explicação tão absurda a respeito de um objeto.
Ela começava a duvidar seriamente da sanidade da velha mulher. Mas, na tentativa de ser diplomática, procurou falar, mesmo que fosse inconscientemente num tom bem paternalista:
— Bem, devo dizer que eu nunca ouvi nada parecido com isso.
Com isso, a velha senhora se girou para ela, com os olhos queimando de impaciência, e vociferou:
— Sim, mas você ouviu o sussurro, não ouviu?
Laura estava chocada, enquanto a mulher idosa começava a girar, agitada, a caveira nas mãos. “Como ela sabia disso?”, perguntou-se.
— É como começa… É como eles chamam sua atenção — Anna prosseguiu. — E a forma com que acenam para você através do véu entre os mundos — Seus olhos cegos estavam abertos e arregalados; sua voz, estranha como a de uma cobra; sua garganta, raspando a cada respiração.
— Eles?
— Alguém do outro lado. Alguém está tentando se comunicar com você.
Os olhos cegos de Anna agora se reviravam por completo, enquanto continuava girando a caveira nas mãos, sua voz agora soava estranhamente distante e devaneadora.
— Perdoe-me, mas estou tentando escrever um relatório científico sério — Laura disse, esforçando-se para manter sua diplomacia. — Não é exatamente por isso que vim aqui.
— Mas você deve ouvir quando eles te chamam — Anna insistiu.
— Olha, eu realmente não tenho tempo para isso — vociferou Laura, levantando-se.
— Não! Por favor! Não vá — suplicou Anna. Ela anseia por falar com você.
— Eu realmente preciso voltar. — Está ficando tarde. Posso pegar a caveira de volta, por favor?
— Maria! Maria! — Anna gritou impacientemente, ignorando a solicitação, e a governanta surgiu na porta. — Maria, você sabe o que deve fazer.
Laura ficou alarmada. Nervosa, deu uma olhada para a criada assim que ela deixou a sala. O que Crockett-Burrows ordenava que fizesse?
— Por favor. Eu realmente devo levar a caveira de volta para o museu — decidiu tentar uma negociação, embora estivesse agora começando a considerar deixar a caveira para trás em prol da própria segurança.
No entanto, a mulher idosa a ignorou. Em vez disso, parecia questionar a caveira em seu colo:
— Como posso convencê-la?
Laura perguntou a si mesma se deveria simplesmente tomar a caveira da velha mulher e correr, mas pensou melhor.
— Por favor, eu preciso da caveira — implorou.
— Muito bem. Pegue-a — Anna de repente endireitou-se e a ofereceu.
Surpresa com a rápida mudança de atitude, Laura pegou a caveira e começou a guardá-la apressadamente de volta na maleta.
— Mas olhe atrás do guarda-roupa que você encontrará — Anna acrescentou, com um ar de satisfação no rosto.
— Encontrar o quê? — perguntou, intrigada com o que a outra dizia.
— A fita de Wilson! — respondeu, com um sorriso astuto.
O rosto de Laura perdeu totalmente a cor quando estava lá, em pé, paralisada de susto, olhando chocada para Anna.
— Mas? — perguntou, com voz hesitante. — Como você sabe disso?
— Eu não — respondeu —, mas sua filha sabe.
— O quê!? — Laura ouviu a si mesma exclamar, descrente.
— Sim — a mulher confirmou. — Alice diz: “Olhe atrás do guarda-roupa que você encontrará”.
Aquela idosa estava lá, sentada, olhando para frente, aparentando satisfação consigo mesma, enquanto Laura lutava com o pavor, e depois com o pânico. Sua mente oscilava. Não conseguia pensar direito. Tudo o que sabia é que precisava sair de lá, e rápido.
Agarrou a maleta com a caveira e se virou para fugir.
Mas assim que saiu correndo da sala e precipitou-se pelo corredor rumo às escadas, viu a criada correndo em sua direção, bem ao final do corredor, gritando com ela em um espanhol ininteligível. Assim que ambas convergiram em direção ao alto da escadaria, a criada começou a apalpar o coldre de couro trazido em torno da cintura, tentando retirar algo dele.
“Jesus! Ela vai sacar uma arma”. Laura podia sentir o coração bater mais forte no peito, e tudo parecia andar em câmera lenta, ao mesmo tempo em que a criada apontava a arma diretamente para ela.
“É isso”, pensou, paralisada no lugar. “É assim que minha vida vai acabar. Ela vai atirar em mim. Vou morrer aqui, nas mãos dessas duas mulheres malucas”.
Sentiu-se surpreendemente desprendida e serena em relação a isso — até pensar em Michael ouvindo o noticiário e como isso seria terrível para ele.
Fechou os olhos, e houve um flash de luz.
Abriu os olhos e houve outro flash, antes de se dar conta de que a criada não segurava uma arma, e sim uma velha câmera Polaroid. Laura mal conseguia acreditar. Ela quase gargalhou de alívio quando percebeu que estava viva! A
criada estava simplesmente tirando fotos com flash.
Contudo, a sensação de alívio durou somente até começar a se perguntar que diabo a criada pretendia. Tirando
fotos de uma mulher aflita? Ainda assim era muito estranho.
Virou-se para ver Anna Crockett-Burrows em pé, silenciosa, na outra extremidade do corredor.
“Quem sabia o que elas poderiam fazer em seguida?”, ela se perguntou, e, dentro de instantes, o desejo de sair viva daquela casa sinistra voltou a ser sua única preocupação.
Voou escadaria abaixo, com a criada em perseguição calorosa, a fim de tirar mais fotografias. Conseguiu ouvir os cães latindo assim que se lançou pelo hall até a porta de entrada.
Apavorada com a possibilidade de a porta estar trancada, tentou o trinco. A porta felizmente abriu. Bateu-a com força atrás de si para atrasar a saída da empregada. Correu a toda pelo cascalho até a proteção de seu carro, saltou nele e, naquela noite, partiu veloz.