O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 23
Foram de carro ao escritório de Michael, em silêncio. O novo prédio da Nanon Systems era um conjunto sólido de cromo e vidro, um imponente monumento para o progresso e atividades comerciais. Como um centro de pesquisa de ponta, não havia escapado da universal pressão para valorizar sua aparência — a necessidade de ser belo. Não apenas os resultados que a empresa conquistara, mas também o edifício no qual os funcionários trabalhavam agora se adaptava a essa exigência de mercado. A ciência saíra do domínio casual dos prédios de universidades e agora estava alojada nos
escritórios hi-tech tão valorizados pela cidade.
Quando chegaram aos portões, um carro esporte vermelho estava de saída.
— É tudo o que eu preciso! — Michael resmungou enquanto um homem saía do carro e ia em direção a eles.
— Olá, Michael! — sorriu o homem de quarenta e poucos anos com aparência de urso. Era Caleb Price, o chefe de Michael, presidente da empresa.
— Oi, Caleb. Acabei de concluir aquele artigo — Michael improvisava uma explicação como justificativa para ter trazido sua esposa ao escritório em uma noite de domingo. — Só dei uma passada para apanhar alguns papéis para a reunião de amanhã.
— E como vai a adorável Laura? — perguntou Caleb.
Era o tipo de comentário paternalista de conotação levemente sexual que Laura poderia mesmo esperar do novo patrão de Michael.
— Bem — respondeu.
Caleb ainda a encarava, e ela percebeu que esperava que aquela conversa fosse levada adiante. Esforçando-se para pensar em algo, sugeriu:
— Você está mantendo Michael ocupado com esse seu novo “Projeto Z”. Do que se trata?
Caleb franziu as sobrancelhas:
— Poderíamos lhe dizer, Laura, mas então teríamos que matá-la!
Ela ficou horrorizada por um momento, até perceber que Caleb ria maliciosamente. Ele levantou-se.
— Você conhece as regras, Michael. Confidencialidade total em todos os projetos novos, e isso inclui esposas e família.
— Eu sei, Caleb. Absoluta — Michael respondeu.
— Até amanhã — Caleb disse e retornou para seu carro.
— Poxa vida, Laura, você realmente me colocou em maus lençóis — Michael disse depois que o chefe se foi.
— Desculpe-me.
— No que diz respeito ao Caleb, eu ainda estou em meu período de experiência.
— Mesmo depois de passado mais de um ano?
— Sim — ele respondeu entre dentes.
Estacionou o carro e marchou em direção ao conjunto de escritórios hi-tech carregando a maleta com a caveira, enquanto a esposa seguiu atrás, tentando acompanhar.
— O problema é que os caras do museu não têm o equipamento exato, mas nós temos… — ele disse enquanto entrava pelas portas giratórias de vidro do prédio onde não havia expediente naquela hora.
No vestíbulo, um guarda olhou sobre seus monitores do circuito interno de segurança e acenou com a cabeça ao reconhecer Michael:
— Boa noite, Dr. Greenstone.
Michael acenou de volta, enquanto batia com força seu cartão de segurança nas catracas e continuava sua conversa com Laura. Dirigiram-se aos elevadores.
— … Bem aqui temos o laboratório de cristal mais avançado do país, e o que você verá em breve é uma explicação simples e racional para esta coisa — ele disse enquanto ambos entravam no elevador e se dirigiam ao laboratório no segundo andar.
Michael bateu seu cartão novamente para ter acesso ao laboratório de cristal.
Uma vez lá, retirou a caveira da maleta e a colocou embaixo de um grande microscópio de última geração.
— Sob este microscópio eletrônico temos ampliação de um milhão de vezes — explicou enquanto posicionava os olhos no visor.
Ele pareceu intrigado:
— Não compreendo.
— O quê? — Laura perguntou.
— Você está certa. Sem marcas de ferramentas — fez uma careta.
Ela parecia satisfeita. Michael estava chegando exatamente ao mesmo resultado de Ian, no laboratório do museu. Não podia deixar de sentir um prazer secreto, muito embora soubesse que um resultado mais conclusivo teria ajudado melhor com o relatório para seu chefe, o diretor do museu, Professor Lamb.
— Não pode ser cristal de verdade — murmurou Michael, mais para si do que para a esposa. — Deve ser de plástico ou de vidro — fez mais uma pausa. — Só há uma maneira de dizer. Aqui, me dê uma mão com isso — ele disse, pedindo a Laura que o auxiliasse a afastar um pesado móvel deslizante da parede, para revelar um grande tanque de vidro com líquido transparente.
— O que é isso?
— O teste do ácido! — Michael respondeu enquanto apagava as luzes.
Colocou a caveira de cristal sobre o tanque em uma plataforma de metal. Em seguida, apertou um botão, e a plataforma começou a descer em direção ao líquido.
— O que você está fazendo? — Laura se incomodou com a idéia de que o marido estava prestes a mergulhar a caveira em ácido. Ela espreitou o tanque para ver a caveira de cristal ficar submersa no líquido, no qual desapareceu.
— Onde está? — ela parecia aterrorizada.
— Sem pânico — Michael disse. — Não é ácido de verdade, é apenas álcool. Na verdade, é álcool benzílico, de mesmo índice de refração que o cristal de quartzo. Veja!
Acionou uma chave, e a caveira reapareceu miraculosamente. Laura estava aliviada; ele, surpreso.
— Inferno! E cristal. 100% dióxido de silício, quartzo puro. Esse teste de luz polarizada sem dúvidas comprova — apertou outro botão, e a caveira se elevou, saindo do tanque.
— Eu me pergunto se é piezelétrico — Michael ponderou.
— Ei, menos palavreado nerd! — Laura provocou. Ela não fazia idéia do que o marido falava. — Você está me confundindo!
— O que você espera? — ele respondeu. — Eu sou físico. Pessoas como eu confundem todas as demais há séculos.
Laura animou-se por ver que o humor de Michael estava melhorando.
— Mas, falando sério, você se questiona se é o quê?
— Piezelétrico — ele repetiu. — Como o tipo de cristal que empregamos em todos os nossos eletrônicos.
Colocando luvas cirúrgicas, ele esfregou a caveira, limpando-a, e a dispôs sobre outro equipamento, que possuía uma grande armação de metal. Acionou uma chave, e um mecanismo semelhante a um torno começou a se fechar ao redor da caveira.
— Não a estrague, Michael!
— Está tudo bem — explicou. — Quando você pressiona quartzo piezelétrico, ele emite uma descarga elétrica. Veja!
Laura estava assombrada por ver faíscas saindo da caveira e voando na sala escurecida enquanto era apertada entre as “mandíbulas” da máquina.
— Não é só isso — Michael continuou. — Se você aplicar uma corrente elétrica nela, seu formato e densidade mudam. Observe! — ele anexou alguns eletrodos à caveira e bateu de leve em outra chave. O rosto da caveira começou a distorcer.
Laura estava desconcertada:
— O que é isso?
— Não se preocupe, é perfeitamente normal — Michael reassegurou antes de observar a caveira e ver a imagem do rosto de Laura aparecer dentro dela de repente. Ele observou. Aquela imagem era desbotada e sem vida. Os olhos de Laura estavam fechados. Parecia um cadáver.
Michael imediatamente desligou a máquina e a imagem horripilante desapareceu tão rapidamente quanto havia aparecido.
— O que há de errado? — Laura perguntou, preocupada com a expressão do marido.
— Nada — ele descartou a aparição perturbadora como nada mais do que uma ilusão fugaz.
— Mas isso é incrível!
— Não exatamente — Michael respondeu. — É por isso que usamos esta coisa todos os dias em todos os nossos equipamentos eletrônicos — disse enquanto retirava a caveira da máquina de eletrodos. — Quartzo piezelétrico tem todo o tipo de controle de tempo, armazenamento de informações e mecanismo de comunicação.
— Comunicação? — seus ouvidos se aguçaram.
— Estamos falando de relógios, computadores e celulares aqui, Laura, não de conversar com os mortos — ele sorriu ironicamente. — Este é o tipo de coisa que usamos para fazer microchips — continuou. — No interior desses minúsculos chips de cristal de silício é onde as informações são realmente armazenadas dentro do computador.
Laura balançou a cabeça, intrigada:
— Isso é incrível.
— Esse tipo de cristal é como os “neurônios” dentro do computador, os “olhos” dentro do televisor ou as “orelhas” dentro do telefone.
— Então, de onde é? — Laura perguntou.
— Vamos ver, sim? — Michael disse enquanto colocava cautelosamente a caveira embaixo de um dispositivo de imagem conectado a um computador. Ele digitou em “Busca Global” e a máquina começou a escanear a caveira lentamente em todos os ângulos. Um mapa-múndi apareceu na tela do computador. Cada continente era destacado em vermelho enquanto processava a informação, antes de anunciar em suaves vozes moduladas pela máquina: “Origem desconhecida”.
Michael e Laura se entreolharam, perplexos. E Michael sugeriu:
— Ok, vamos dar uma olhada na estrutura molecular.
Ele digitou em “Analisar Estrutura Molecular” e o scanner começou a girar ao redor da caveira enquanto a tela do computador formava uma imagem tridimensional de uma matriz octogonal cristalina. A imagem se desfez antes de a máquina tentar reconfigurá-la, somente para se fragmentar novamente.
Michael estava maravilhado:
— Nunca vi nada parecido antes. Sua estrutura molecular é octogonal em vez de hexagonal — ambos observavam enquanto o computador continuava tentando formar uma imagem estável, mas a cada tentativa a matriz se desfazia.
— Não é igual a nenhum outro cristal da Terra!
Entreolharam-se.
— E parece ser instável no aspecto molecular — ele coçou o queixo, pensando profundamente, quando teve uma idéia.
— Espere um pouco! Isso pode ter aplicabilidade — disse animado. — Vamos verificar suas propriedades óticas.
Ele agarrou a caveira e a colocou em uma máquina de laser.
Acionou uma chave, e um feixe estroboscópico de laser queimou a parte inferior da caveira. Esse feixe de luz vermelha refratou a partir dos olhos dela e reluziu em uma parede próxima. Ambos observavam admirados enquanto o feixe preciso começava a registrar dígitos, gravando-os na pintura da parede.
Parecia um código misterioso que, estampado, dizia:
“122120121221201212212012122120121221201212212012 122120121221201212212012122120121221201212212012”
Depois de alguns segundos, o feixe de laser foi interrompido e começou a produzir um buraco negro no meio dos dígitos. O buraco aumentou cada vez mais, ao mesmo tempo em que começava a surgir fumaça. Levou um tempo para que os dois percebessem o que estava acontecendo, até Michael desligar a máquina, pegar um extintor de fogo e tentar apagar a latente marca negra antes que explodisse em chamas.
— Que droga é essa? — Laura berrou.
— Não faço idéia — respondeu Michael, enquanto examinava os dígitos recém-queimados na parede — mas acho que é algum tipo de código.
Ele examinou os dígitos mais de perto.
— Na verdade, se parece um pouco com um código terciário.
— Um o quê? — rebateu Laura.
— Nossos computadores — Michael explicava — são constituídos de cristal comum e reduzem todos os cálculos a números um e zero, o que chamamos de “código binário”. Porém isso, olhe, é uma série de números um, zero e também dois, o que chamaríamos de “código terciário”.
Laura estava impressionada.
— Parece que o cristal dentro da caveira é capaz de cálculos muito mais complexos do que todos os nossos computadores — Michael continuou.
— Você acha mesmo?
— Pense nisso! — ele se virou para Laura. — Se eu estiver certo e este for um código terciário, esse tipo de cristal de matriz octogonal poderia proporcionar poder computacional que fosse além dos nossos sonhos mais loucos.
Seu olhos agitados brilhavam.
— Caleb não acreditará. Toda a empresa vai querer saber a respeito.
Fez, em seguida, uma pausa, em virtude de um pensamento momentâneo:
— Mas primeiro eu preciso descobrir onde aquela mulher idosa conseguiu esta coisa — ele sussurrou quase que para si mesmo.
— Ela disse que foi em uma expedição arqueológica na América Central.
— Não há como esta coisa ser antiga — Michael respondeu. — Isso é algo da próxima geração. Quer dizer, será que um competidor terá chegado ao limite? Essa é a tecnologia de amanhã nos dias de hoje — exclamou —, falando
efetivamente o slogan de sua empresa.
— Verei essa mulher amanhã para ela confirmar de onde tirou isso. Você vem?
— Não posso — Laura respondeu. — Preciso ir ao funeral de Ron.