O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 53
Laura tentou se consolar com o pensamento de que ao menos estava bem próximo de Luvantum, e o sempre presente helicóptero felizmente parecia ter ido embora, pelo menos por enquanto. Talvez dessa forma, sem Dr. Brown, Carlos e as mulas, ela ficasse menos visível e houvesse uma chance menor de ser pega. Quem sabe agora conseguisse, afinal, encontrar o pedaço que faltava da pedra com o hieróglifo. Pelo menos era o que dizia para si enquanto lutava e se arrastava por seu caminho através da vegetação rasteira, tentando chegar além do espinhaço, na esperança de conseguir ver o que estava adiante, do outro lado do vale.
Finalmente encontrou um ponto além do espinhaço, no qual o solo começava a inclinar no vale à frente, e ela descobriu outro bom lugar para se esconder, atrás de algumas árvores. Ela ainda tinha o binóculo de Dr. Brown consigo, então o levantou até os olhos e espreitou através de uma fenda distante, entre as árvores.
O que ela viu tirou seu fôlego. Bem à sua frente, com todos os lados cercados por íngremes colinas cobertas de vegetação, estava uma das visões mais esplêndidas que ela já vira. Uma grande cidade em ruínas com templos, palácios, praças e morros. Pirâmides ainda mais grandiosas erguiam-se acima das copas das árvores, tudo banhado pela mais bela luz dourada do Sol da noite.
Mas havia apenas um pequeno problema. Todo o lugar, a antiga cidade maia de Luvantum pela qual havia se arriscado tanto, estava absolutamente fervilhando de soldados, todos olhando para ela. Parecia haver centenas deles, todos carregando metralhadoras, e, acima de sua cabeça, muitos outros helicópteros para transporte de tropas circulavam, aguardando sua vez de aterrissar.
Laura estava amedrontada, tanto que quase largou seu binóculo. Lá estava ela, no mínimo a apenas algumas centenas de metros de seu objetivo, porém era absolutamente impossível acessá-lo. Seu choque logo começou a se transformar em desespero. O que ela faria? Como seria possível chegar a algum lugar perto do sítio arqueológico — sem mencionar o interior da câmara secreta, dentro do coração da pirâmide principal?
Ela se atirou no chão, desbaratada, quando pensou ouvir um sussurro vindo de alguns arbustos próximos. Virou-se. Não havia ninguém. Então circundou cuidadosamente o outro lado da árvore. Segurou a respiração. Tinha certeza de que podia escutar soldados à distância gritando ordens em espanhol.
Ela ouviu o ruído novamente. Assustadoramente, ainda parecia vir detrás dela. Eu já fui cercada?, ela se perguntou. Escutou um galho rachando logo atrás. O mais silenciosamente que conseguiu, começou a retirar seu canivete lentamente do bolso, e estava prestes a se virar para conferir, quando sentiu aquela mão masculina gigante apertar sua boca e nariz; seu braço, que segurava o canivete, foi torcido para trás, e ela foi violentamente lançada ao solo.
Apavorada, começou a chutar e a se debater contra o agressor, dando cotoveladas nas suas costas e chutando suas canelas.
- Ah, pare! Sou eu! — sussurrou uma voz masculina irritada. Seu sotaque guatemalteco era inconfundível. Laura reconheceu sua voz de imediato. Era Carlos. Ela parou de se debater.
- Mas que droga — Laura sussurrou quando ele a soltou e esfregou as canelas onde o havia chutado.
- Eles a teriam visto — Carlos falou, apontado na direção das vozes dos soldados que soavam como se estivessem se aproximando.
- Desculpe-me.
- Não podemos ficar aqui — sussurrou Carlos. — Siga-me!
Apoiada nas mãos e nos joelhos, Laura seguiu Carlos enquanto ele se arrastava através da vegetação rasteira, e não demorou muito até que se vissem escalando a entrada de uma pequena caverna escondida entre vegetação espessa.
Uma vez lá dentro e em segurança, eles espreitaram a borda da caverna para ver Dr. Brown à distância, sendo arrastado à força em sua direção. Atrás dele, Laura reconheceu um dos quatro soldados da pista de pouso. Ele estava cutucando Dr. Brown na parte inferior das costas com um cano de arma e gritando ordens em espanhol:
- Anda, cabron! (Ande, homem!).
Enquanto isso, seus camaradas se espalhavam entre as árvores, armas a postos, e todos se dirigindo a Laura e Carlos. Laura percebeu que eram esses soldados que ela ouvira vociferar ordens em espanhol a Dr. Brown mais cedo. Inicialmente ele declarou sua inocência, mas agora, apavorado com o que poderiam fazer a ele, tentava apenas dar a eles o que queriam.
- Saia, Dra. Shepherd! Desista! Você não tem nenhum lugar para ir! — ele gritou.
- Maldição! — Laura sussurrou, enquanto se enfiava de volta na caverna. Era isso. Eles a encontrariam agora. Ela não gostava de pensar no que poderia acontecer quando eles o fizessem. Uma coisa era certa, ela nunca encontraria a pedra profética. E isso acontece bem agora, quando ela estava tão perto do que a havia levado até ali.
Olhou ao redor da caverna, desesperada, procurando algum lugar melhor para se esconder. Mas suas paredes eram lisas. De qualquer forma, tinha certeza de que em breve a encontrariam, mesmo se conseguisse achar uma fenda conveniente ou fissura grande o suficiente para se espremer dentro.
Mas assim que seus olhos se adaptaram à escuridão, enxergou melhor a caverna e percebeu que havia duas câmaras nela, a da frente e a do fundo. Arrastou-se através do fundo, onde pôde ver um feixe estreito de luz do dia que brilhava através de um furo minúsculo no teto.
Assim que seus olhos seguiram o feixe de luz até o solo, ela ficou surpresa em descobrir que a parte mais funda da caverna estava parcialmente preenchida com água, cerca de nove a doze metros abaixo da saliência na qual agora se encontrava. Era, na verdade, um “cenote”, uma entrada para o sistema subterrâneo do rio, em princípio semelhante ao grande buraco no solo em que ela quase caíra anteriormente.
Ela olhou fixamente na água profunda logo abaixo, antes de se virar para Carlos.
- Para onde isso leva? — perguntou.
- Ninguém sabe — Carlos disse. — Embora alguns afirmem que sai por baixo de uma das pirâmides.
- Outro caminho! — exclamou Laura. — Você tem certeza?
- Eles dizem que os antigos construíram a pirâmide no alto da câmara maior, ou cenote, pois a consideravam a mais sagrada, a entrada principal para o submundo. Mas ninguém sabe ao certo — Carlos respondeu.
Laura refletiu sobre isso por um momento. Aquilo fazia sentido, pensou, visto que ela já sabia que uma das pirâmides mais famosas da América Central, o grande templo de Kukulkan (ou El Castillo, como os espanhóis a chamam), na antiga cidade maia de Chichen Itza, na Península de Yicatan, sul do México, tinha sido originalmente construída bem no alto do que havia sido o principal poço de água, ou cenote, bem no coração da antiga cidade.
Alguns tinham especulado que era para fornecer água para nutrir a alma da divindade à qual o templo era dedicado. No caso de Chichen Itza, esse era o principal deus de toda a América Central — a serpente voadora com penas cor de arco-íris conhecida pelos maias como Kukulkan. Para os astecas posteriores, esse deus era conhecido como Quetzalcoatl. Embora, talvez, Laura refletiu, a pirâmide em Chichen Itza estivesse posicionada dessa forma para permitir que o deus Kukulkan tivesse acesso ao submundo.
E aqui, em Luvantum, talvez a idéia tivesse sido enterrar ou esconder a caveira de cristal em sua câmara secreta dentro da pirâmide mais importante, bem no alto do cenote principal — exatamente na entrada principal para o submundo —, para que, de alguma forma, a caveira fosse banida para aquele tradicional mundo dos mortos indicado na mitologia maia.
Talvez fosse verdade o que Carlos dissera, que a pirâmide principal em Luvantum fora erguida no alto do cenote principal, a maior câmara do sistema subterrâneo do rio. Laura, contudo, não tinha condições de escrever uma tese neste exato momento, especialmente quando fora da caverna ela conseguia escutar os soldados se aproximando.
Havia apenas uma maneira de descobrir. Retirou sua mochila e começou a despir-se de sua blusa.
— O que você está fazendo? — Carlos mal conseguia acreditar no que via.
Ela começou a remover os tênis.
- Você está louca? — Carlos exclamou.
“Provavelmente”, Laura pensou consigo. Mas tinha chegado tão longe e não estava disposta a desistir agora.
- Eu vou arriscar — disse.
- Mas ninguém saiu dessa com vida! — Carlos explicou.
- Você vem ou não? — Laura insistiu, ignorando seu aviso e devolvendo a pergunta para ele.
- Prefiro enfrentar os soldados — respondeu.
- Então me dê uma mão com isso — Laura passou para ele a extensão de corda em sua mochila e retirou uma grande lanterna à prova d’água. Enquanto ela a testava, Carlos enrolou a corda ordenadamente antes de devolver a ela, que a amarrou em seu cinto.
- Seja cuidadosa lá embaixo — propôs gentilmente —, depois de toda essa chuva o nível da água começa a subir e não haverá muitos lugares para parar e respirar.
- Obrigada pelo estímulo! — Laura falou. Embora estivesse tentando não levar seu apuro a sério, seus olhos desmentiam seus nervos.
Ela verificou se as alças de sua mochila estavam colocadas corretamente, acendeu sua lanterna, respirou profundamente, levantou os braços sobre a cabeça e mergulhou na água profunda.
- E atenção com as correntezas fortes! — a voz de Carlos enfraqueceu como um choro abafado que Laura não conseguiu ouvir, pois já mergulhara, borrifando água ao seu redor.