O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 41
Para espanto de Laura, vista agora, através do prisma da caveira de cristal, a fotografia desfocada de Anna Crockett-Burrows de repente pareceu se tornar nitidamente focada, e ela pôde ver tudo de modo claro pela primeira vez.
Na última vez em que olhara para a foto da jovem Anna, parecia como se esta estivesse diante de algum tipo de rocha ou pedra, mas a fotografia estava turva demais para distinguir qualquer detalhe decente. Mas agora que olhava para a foto através da caveira de cristal, conseguia ver o que não tinha visto antes.
Anna não estava à frente de nenhum pedaço velho de rocha. Conseguiu ver que estava, na verdade, na frente de uma pedra com hieróglifos incrustados!
Além disso, parecia um portal de pedra. E enquanto alguns dos hieróglifos continuavam escondidos atrás do corpo de Anna, aqueles que eram visíveis de repente entraram nitidamente em foco, agora ampliados e surpreendentemente claros.
Laura passou o olho nas inscrições, que agora estavam nitidamente legíveis, e por instinto começou a traduzi-los. Algo nesses hieróglifos pareceu vagamente familiar. Ela reconheceu o estilo de escrita de algum lugar.
O anel de hieróglifos externo dizia:
“Está escrito… nos ciclos do tempo… que…”
Seu queixo caiu quando subitamente começou a entender.
“Não pode ser “, pensou consigo. Era quase inacreditável.
Ela agarrou a foto e a caveira e as colocou sobre sua mesa de trabalho no outro lado da sala. A pedra profética que a intrigara ao longo das últimas semanas lá estava, junto com suas anotações.
Novamente olhou para a fotografia através da caveira e observou o pedaço semicircular da pedra com hieróglifos que estiveram o tempo todo sobre a mesa em seu escritório.
— Faz parte da mesma pedra! — sussurrou para si mesma admirada. — Santo Deus! Faz parte da mesma pedra!
Sua respiração ficou rápida e agitada. Mal podia acreditar. O pedaço de pedra com o hieróglifo que estivera lá em seu escritório durante semanas, desde quando havia sido confiscado pela alfândega e entregue ao museu, aquela que ela tentava, com tanto esforço, traduzir e descobrir de onde viera, era, na verdade, de Luvantum, da mesma cidade maia onde Anna Crockett-Burrows afirmara ter encontrado a caveira de cristal.
Pôde ver tudo isso muito claramente agora que olhava para a fotografia através da caveira.
Conseguiu ver que o pedaço de pedra quebrada sobre sua mesa tinha, na verdade, feito parte do sólido portal de pedra com hieróglifos incrustados na entrada da câmara, dentro do templo-pirâmide em Luvantum. Originalmente tinha feito parte de um portal que protegia a entrada para a câmara onde Anna Crockett-Burrows havia encontrado a caveira de cristal.
Mal podia acreditar.
Após semanas de esforço e especulação, finalmente se deparava com a resposta para o mistério de onde o fragmento de pedra tinha vindo.
Se ela pudesse apenas solucionar o que o restante da pedra dizia, mas a maior parte do restante dos hieróglifos estava tão desgastada que ela ainda não tinha conseguido traduzi-los, e o anel interno de hieróglifos faltava por completo.
Laura estava prestes a largar a caveira novamente e desistir de quaisquer outras tentativas de tradução quando acidentalmente teve um vislumbre de um dos hieróglifos desgastados através da caveira. Ela fechou os olhos e os abriu mais uma vez, mas não tinha imaginado. Como os hieróglifos na foto, quando olhados através do cristal transparente, aqueles em sua mesa de trabalho também surgiram ampliados e não mais corroídos, mas, em vez disso, pareciam tão nítidos e claros como no dia em que foram entalhados.
Ela sabia que não seria possível, mas lá estavam eles diante dela, claros como o dia.
Suas mãos tremiam enquanto segurava a caveira diante deles e começava a traduzi-los.
Ela já sabia que os três primeiros glifos diziam “está escrito nos ciclos do tempo que…”. Mas agora conseguia reconhecer a inscrição seguinte.
Era o pictograma gracioso que representava o “pôr do sol”. Ela também reconheceu o contorno característico dos hieróglifos que os maias usavam para transmitir a idéia de uma data; um determinado número de pontos e linhas para comunicar o número, combinado com um “glifo de cabeça variante” para transmitir o nome do dia. Então, a série de glifos seguinte significava “no dia chamado de…”
Ela começou a traduzir os números e os nomes dos dias que conhecera por meio de seus estudos sobre o calendário maia antigo, que forneceram a ela a data, em maia: “13 Baktun… 0 Katun… 0 Tun… e 0 Kin…”
Em outras palavras, a seqüência completa de hieróglifos que ela passara tanto tempo decifrando, na verdade dizia: “Está escrito… nos ciclos do tempo… que… ao pôr do sol… no dia chamado de 13 Baktun… 0 Katun… 0 Tun… e 0 Kin…
Mas os glifos internos ainda faltavam, e mesmo na fotografia estavam obscuros atrás da jovem Anna Crockett-Burrows. Laura havia traduzido todos os glifos que conseguira, mas agora havia alcançado a borda do pedaço de pedra quebrada e não podia mais traduzir.
Intrigada, correu até as estantes e começou a derrubar os livros, folheando-os, passando os olhos pelos índices até encontrar o que procurava: uma tabela de conversão para possibilitar a tradução da data. Ela correu os dedos pela matriz das datas ao mesmo tempo em que calculava.
Olhou fixamente para o número durante muito tempo. Havia algo extremamente curioso nisso. Não podia ser! Ela pegou outro livro, encontrou sua tabela de conversão e traduziu novamente. Balançou a cabeça. Teve que confirmar duas vezes a conversão… O resultado foi o mesmo.
Laura se jogou em sua cadeira, segurando diante de si as anotações rabiscadas. Sua intuição de que a pedra continha informações sobre o futuro estava certa. Aquilo, por si só, não era incomum. Os maias antigos fizeram muitas previsões, às vezes sobre o futuro. Geralmente o objetivo dessas previsões era a respeito de eventos astrológicos como eclipses e a chegada de cometas. Eles tinham capacidade de prever eclipses que sequer podiam ser vistos, que estavam acontecendo do outro lado do mundo, ou eclipses que aconteceriam mais de mil anos depois de sua civilização entrar em colapso e desaparecer misteriosamente. Uma pedra entalhada encontrada na Guatemala até pareceu prever a ruína de seu próprio império.
No entanto, nunca tinha visto uma pedra profética entalhada com uma previsão de um futuro tão distante. A única que chegou perto foi uma pedra no México que havia previsto o eclipse solar ocorrido na Cidade do México em 1992, mas isso fora mais de vinte anos antes. Esta era a completamente diferente. Parecia prever algo que aconteceria não apenas no futuro dos maias, mas em nosso futuro próximo. A pedra previa algo que estava prestes a acontecer neste século.
— É claro que não! — ela sussurrou para si.
Mal podia acreditar nos próprios pensamentos. Mas em seguida vieram para ela, como um raio caído do céu, as últimas palavras de Anna, que ela dissera que eram de Alice:
“O futuro está gravado em pedra.”
“Então é o que Alice queria dizer”, percebeu. Anna se referia a isso em sua última mensagem. Era o que Alice queria que ela soubesse quando disse “Se você não escutar, o futuro está gravado em pedra”.
Laura estava muito emocionada. Teve uma sensação de terror e tristeza. Por isso ela havia desistido de ter esperança. Havia decidido que não era possível. Mas agora havia acontecido. Sua linda menininha efetivamente se comunicara com ela através da caveira. Essa era a mensagem de Alice. Era o que Alice tentava dizer a ela.
O que ela estava pensando? Alice estava morta. Sua menininha se fora. Mensagens além-túmulo não eram possíveis, não é mesmo?
Naquele momento, Michael entrou no escritório. Ele olhou para Laura e soube que algo estava errado.
— Eu consegui, Michael! — sua voz estava cheia de agitação.
— Conseguiu o quê?
— A mensagem da Alice. Agora eu compreendo!
Ela viu o rosto de Michael e resolveu reformular a frase.
— Agora eu compreendo o que Anna quis dizer.
Ele a encarou. Pensou que Laura tivesse superado esse negócio de se comunicar com Alice, que era apenas uma fase passageira, uma fantasia confortadora e nada mais, especialmente agora que Anna Crockett-Burrows tinha morrido. Ele presumiu que ela houvesse deixado essas idéias para trás e seguido adiante, mas neste momento ele não tinha tanta certeza.
— Do que você está falando? — perguntou apreensivo.
Laura veio até ele e pegou em suas mãos. E o levou para perto da pedra com hieróglifo, fazendo-o sentar em frente a ela e fitando seu rosto.
— “O futuro está gravado em pedra”, Michael. E isso! É isso o que ela queria dizer — disse Laura, expressando com o brilho de seus olhos toda a alegria que sentia.
Michael olhou para ela confuso, preocupado.
— Esta pedra está entalhada com uma previsão sobre o futuro! Diz que algo acontecerá no dia 13 Baktun, 0 Katun, 0 Tun e 0 Kin.
— Que em inglês significa…? — Michael se esforçava para compreender onde Laura queria chegar com tudo aquilo.
— E uma data, no calendário maia antigo — ela explicou.
— Então quando foi? — Michael esperava ouvir sobre algum acontecimento que acontecera centenas de anos antes.
— É exatamente isso — Laura respondeu, esforçando-se para ela mesma compreender — traduz-se para nosso calendário como…
Ela passou o dedo novamente pela tabela de conversão, apenas para ter certeza absoluta de que entendera certo. Michael esperava sua resposta.
— … traduz-se como… 21 de dezembro de 2012.