O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 25
Naquela tarde, mais cedo Laura havia comparecido ao funeral de Ron. Quando elevou a voz para cantar o hino “Rock of Ages”, soou como se outra pessoa o cantasse. Poucas pessoas compareceram à cerimônia; apenas algumas pessoas tinham chegado quando Laura ocupou seu lugar próximo à frente. Sentiu-se um pouco desconfortável por ser a única representante do museu ali. Ainda assim, pressupôs que Ron não teria se importado. Ele teria desejado que as coisas fossem singelas, sem qualquer estardalhaço.
Ela chegara à capela afastada somente após as três horas. O desejo de Ron havia sido que seu funeral ocorresse no campo, no qual adorava caminhar. E era lá onde gostaria que suas cinzas fossem espalhadas.
Enquanto ouvia o sermão do padre, Laura percebeu que seus pensamentos iam e vinham, retornando à cerimônia que Michael e ela haviam oferecido a Alice. O padre comentara sobre o quão alegre
Alice havia sido. Isso fizera parte de quem ela era. Não era apenas o modo como se lembrava dela. As pessoas, às vezes desconhecidas, comentavam o quanto era animada. Sua natureza fora “brilhante”, não havia outra palavra para expressar isso.
No funeral de Alice, o padre falara sobre o aspecto especial de sua alegria. Especulara que talvez tivesse sido tão alegre pelo fato de que, embora não soubesse, seu tempo aqui seria muito curto, e então Deus a ajudara a aproveitar todos os momentos possíveis de sua breve existência. Na ocasião, Laura não encontrou nenhum conforto nas palavras do religioso, mas agora questionava se o que ele dissera podia fazer algum sentido.
O padre do funeral de Ron prosseguiu:
— Quando eu conversei com Ron em nossa última cerimônia juntos, parecia que havia encontrado algum conforto na crença de que sua amada esposa Lilian tentava se comunicar com ele do além — ao ouvir isso, a atenção de Laura retornou abruptamente ao momento presente.
“Era isso!”, pensou. “Deveria ser esse o motivo por que Ron parecia tão distintamente feliz antes de sua morte. Ele estava convencido de que sua esposa, que havia morrido alguns anos atrás, tentava se comunicar com ele. Isso poderia ter alguma coisa a ver com a caveira de cristal?”, perguntou-se. “A caveira de cristal de fato proporcionava um meio de comunicação com os mortos, exatamente como a velha mulher dissera? Talvez pudesse realmente oferecer uma maneira de se comunicar com Alice?”
Ficou pensando se o padre tinha conhecimento de algo mais a respeito da recém-surgida crença de Ron na vida após a morte e a idéia de que ele poderia de alguma forma se comunicar com os mortos. Isso, é óbvio, ainda não explicaria por que e como Ron tinha morrido, mas chegou à conclusão de que precisava falar com o padre assim que a cerimônia terminasse.
— Ao menos agora eles podem ficar juntos, reunidos no amor de Deus — o padre continuou.
Laura olhou para o caixão de Ron, repousando fechado à sua frente: uma vida terminada e destinada ao fim que teve. Porém, sentia-se satisfeita por pensar que ao menos as últimas semanas de Ron lhe haviam proporcionado algum tipo de conforto e esperança. Acreditar que você poderia estar com seus amados novamente fazia o universo parecer um lugar mais gentil e amável. Sem dúvida, parecia muito melhor alternativa.
— Agora, entregaremos o corpo de Ronald Smith à paz eterna — o padre fechou a cerimônia de modo solene. — Cinza a cinza, pó a pó — o som do melancólico órgão começou quando o caixão de Ron deslizou lentamente sobre uma esteira rolante atrás da cortina do crematório.
Laura ficou contente quando a cerimônia chegou ao fim. Levantando-se para sair, retirou-se da capela seguindo pelo mesmo lado dos outros convidados quando foi surpreendida ao ver Anna Crockett-Burrows e sua criada sentadas na fileira do fundo. O que ela fazia lá? Não parecia fazer sentido algum. Essa mulher não havia dado a Laura qualquer indício de que havia conhecido Ron. Na verdade, relembrando-se de seu encontro com Anna, a idosa tinha sido completamente evasiva quando perguntara sobre ele.
Ansiosa para falar com o padre antes que este fosse embora, Laura aguardou pacientemente no lado de fora da capela, onde ele conversava com alguns convidados remanescentes. Porém, antes que tivesse a chance de conversar com o religioso, Anna Crockett-Burrows e sua governanta se aproximaram.
— Olá — Laura falou delicadamente. Não sabia que você conhecia Ron.
— Foi por sua causa que viemos — a velha mulher respondeu de modo enigmático. — Viemos pois sabíamos que estaria aqui.
— Mas por quê? — Laura perguntou, perplexa.
— Você deseja ouvir a mensagem de sua filha, não é?
A verdade é que ela realmente queria saber se Alice tinha uma mensagem para ela. De fato, queria saber, com uma intensidade que não conseguia avaliar. Precisava saber, mais cedo ou mais tarde, se havia alguma verdade no que Anna havia lhe dito duas noites antes.
— Eu ia te perguntar a respeito — começou, hesitante. — Como você sabia…?
— … Sobre a fita? — Anna terminou a sentença por Laura. — Eu não sabia. Foi o modo de sua filha convencê-la de que era ela falando, não eu. Sua filha diz que há mais uma coisa, algo muito mais importante.
— O que é? — perguntou.
— É mais urgente — Arma fez uma pausa. — Porém ela mesma quer lhe dizer quando você estiver sozinha. Você está com a caveira?
Laura voltou para seu carro, no estacionamento da capela, e retirou a maleta com a caveira de dentro do porta-malas. Pelo celular, tentou telefonar para Michael, a fim de contar a ele que estava com Anna Crockett-Burrows, mas a ligação caiu na caixa postal; então, deixou um recado.
Ouviu atrás de si um carro dar a partida, e virou-se para ver o padre indo embora, dirigindo-se à saída. Ela acenou para tentar chamar sua atenção, mas foi tarde demais. Ele havia partido em direção à luz fraca.
No estacionamento, olhou ao redor. Estava quase vazio agora. O carro de Crockett-Burrows era o único veículo que ainda estava lá, além do seu. À medida que caminhava de volta à capela, começou a sentir uma ansiedade motivada por sua decisão de permanecer sozinha nesse lugar remoto.
Tentou ignorar aquela parte que dizia que aquilo não era seguro, que aquela não era uma coisa sensata a fazer. Havia uma parte maior que desejava acreditar em Anna, que desejava crer que ela realmente poderia ter uma mensagem de Alice. Queria, mais do que tudo, acreditar que Alice ainda estava lá, em algum lugar.
Fez uma pausa e olhou para o céu limpo. Queria acreditar que lá, em algum lugar na vastidão do cosmos, sua filha ainda existia. Libertava-se um instante da idéia de que Alice estava simplesmente morta, descansando no cemitério — pensamento que se pendurava como uma mó a fazer pressão em sua mente, entristecendo.
A porta da capela rangeu, abrindo-se lentamente, quando Laura entrou novamente. Agora estava escuro lá dentro, exceto pelas chamas tremeluzentes das grandes velas brancas próximas ao altar. A capela parecia vazia. Laura disse “olá” em voz alta antes de pisar além dos pilares de pedra, então viu a velha mulher sentada, olhando diretamente para frente, de costas, na primeira fileira.
Seus passos ecoaram pelo assoalho de mármore rígido à medida que se dirigia de maneira hesitante pelo corredor. Olhou ao redor da capela. A criada não estava em nenhum lugar visível.
— Sente-se aqui — Anna disse, indicando o lugar a seu lado, junto ao banco da frente — … e me dê a caveira.
Laura sentou-se próximo a ela, pegou a caveira cuidadosamente dentro da maleta e a passou para a mulher:
— Quem sabe você consiga explicar… — começou.
— Não há tempo para perguntas — disse Crockett-Burrows rudemente, enquanto a outra lhe entregava a caveira. — Pegue uma caneta e papel e anote tudo o que eu disser — completou. — Eu deverei canalizar essa informação e depois poderei não me recordar de nada do que eu fiz ou disse.
Anna sorriu para a caveira ao mesmo tempo em que a colocava em seu colo, acariciando-a com seus dedos enrugados. Um arrepio correu pela espinha de Laura diante dessa imagem.
Laura fez conforme a senhora pedira e começou a procurar dentro de sua pasta algo em que escrever. Retirou o celular e o colocou sobre o banco enquanto continuava a procurar caneta e papel. Assim que ela os encontrou, Anna acidentalmente derrubou o celular de Laura. Ao cair no chão duro, ele fez um estalo.
— Meu Deus — disse Crocket-Burrows, levantando-se. Ela cambaleou para o lado, colocando todo o seu peso sobre o telefone.
— Meu telefone! — Laura exclamou, perturbada com as ações desajeitas de Anna.
— Desculpe-me — esta disse enquanto sentava-se novamente.
Laura pegou o telefone e o testou, mas estava quebrado.
— Bem, ao menos não seremos perturbadas — Anna acrescentou, e Laura se questionou se tivera um vislumbre passageiro de sorriso nos lábios da velha senhora.
Naquele momento, ouviu a porta de entrada da capela bater com força e, ao virar-se, viu a governanta reaparecendo no fundo, com dois enormes cães pretos da raça dogue alemão. Deviam ser os cachorros que ouvira latir em sua visita à casa de Anna. Virou-se novamente para ela, pensando no que Alice tinha para lhe dizer.
pela janela do porão. O que quer que fosse, estava determinado a descobrir. Afastou as cortinas, limpou a sujeira e ficou à espreita. Porém, estava escuro demais para ele distinguir o que havia dentro.
Então enfiou a mão no bolso do casaco e puxou uma caneta-lanterna. Deitou-se no chão e iluminou a escuridão. O que viu iluminado por sua lanterna acertou-o como um soco no estômago.
Lá, afixada na parede imunda do porão, havia uma coleção de fotografias, todas de Ron Smith! Ao todo, deveria haver cerca de vinte. Imagens pausadas do circuito interno de televisão e fotos Polaroid do rosto de Ron, todas tiradas de ângulos diferentes. Ron parecia não saber que era fotografado. Sua expressão era neutra, sem emoção. Em uma estante, ao lado das imagens, estava uma caveira.
Mas não se parecia com o que tinha visto do lado de fora. Então, moveu seu farolete lentamente pelo interior. De repente, a lanterna iluminou algo muito mais próximo dele. O choque que teve nesse momento fez com que se afastasse um pouco para trás.
Sua respiração vinha em curtas arfadas, até que teve coragem de olhar novamente. Agora segurava o farolete com as mãos trêmulas. Era um rosto que ele já vira. Iluminada em meio à escuridão, diante dele, estava a cabeça inerte de Ron Smith, empalada em um espeto!
Michael sentiu-se mal. Um forte gosto de bife surgiu em sua boca. Afastou-se por mais alguns centímetros, cambaleando, e sentiu-se nauseado. Ficou lá por alguns momentos, apoiado, com as mãos nas coxas. Estava chocado. Aquilo era Ron. Era sua cabeça! Mas como isso poderia acontecer? De que modo? Laura tinha ido ao funeral de um cadáver decapitado? O que estava acontecendo?
Endireitou-se e caminhou de volta à janela do porão. Precisava saber mais. Respirou profundamente e deitou-se mais uma vez, pronto para olhar de novo. Entretanto, não tinha se preparado para o que viu em seguida, assim que apanhou sua lanterna e tornou a iluminar o interior.
Lá, para seu terror, havia outro conjunto de fotografias afixadas à suja parede do porão. Essas fotos, a exemplo das de Ron, tinham sido tiradas de diferentes ângulos. Porém, desta vez, o que viu foi de arrepiar, pois a semelhança era inconfundível. Tais fotografias eram todas de Laura, seu rosto, uma máscara gélida de pavor.
— Ai, meu Deus! — ele sussurrou. — Deus, não!
Não tinha certeza se conseguiria suportar olhar por mais tempo, porém sentiu que era necessário. Tinha que saber o que mais havia lá. Seu braço tremia agora, enquanto a lanterna iluminava a base de outra estante. Fora tomado de pavor. Teve uma profunda sensação de afundamento na boca do estômago, e o farolete pesou em sua mão quando iluminou mais em cima.
— Não, não pode ser! — disse para si. — Não pode ser ela — Porém, não houve engano. Lá, bem à sua frente, captada pela luz de sua lanterna, estava a verdade horripilante. Diante dele estava o rosto de Laura. Era sua cabeça, inanimada, sem cabelos, empalada em um espeto! Não poderia haver qualquer dúvida de que se tratava dela. Michael reconheceu a inconfundível curva de seus finos ossos da face, seus olhos arregalados, belos lábios e nariz adunco, todos os detalhes da mulher que amava.
Por um momento, Michael foi tomado por um inimaginável terror, enquanto olhava para sua esposa morta. Lá estava ela, sem cabelos e com olhos vitrificados, olhando fixamente para ele. Ele foi pego em um momento de puro terror que parecia se estender por toda a eternidade, um instante que o levou diretamente ao inferno ao mesmo tempo em que observava, incapaz de acreditar em seus olhos. O pavor o atingiu em cheio e dilacerou sua alma, como se uma lâmina afiada fosse torcida dentro de seu coração.
— Não! — berrou, com toda a força de seus pulmões soprando para fora.
Ele se contorceu, entorpecido de choque e descrença, e vomitou. Como isso poderia ter acontecido? Que monstro miserável poderia ter feito isso? Ela o havia deixado pouco tempo antes, durante a manhã. E onde estava o restante dela? Ele precisava ir a seu encontro. Tropeçou na janela, levantou o pé e o bateu contra o vidro.
Removeu os cacos e abriu caminho.
Na semiescuridão do interior, cambaleou diante dela. O rosto de Laura estava pálido, desprovido da força vital que
a tornava sua esposa encantadora. Esticou as mãos trêmulas para tocar seu rosto. Minha Laura, minha linda Laura. Afastou a mão em repugnância. Era ela, sem dúvida, mas seu rosto estava frio, pegajoso ao toque. Algo veio em suas mãos. Era úmido e grudento. O que haviam feito a ela?
Pôs a mão no bolso e retirou sua lanterna. Suas mãos tremiam tanto que se passaram alguns segundos tortuosos até que conseguisse ligá-la. De novo, aquilo era demais. Não conseguia suportar iluminá-la para ver o que haviam feito.
Iluminou-o em seus dedos, que estavam úmidos e cinzentos.
Era argila! — apontou a lanterna para cima. Seu coração se encheu de júbilo. Não era Laura. Não era de verdade. Ele queria pular de alegria. Era apenas um modelo de argila, uma efígie dela!
A semelhança era nefasta. Ele a tocou novamente. Lágrimas de alívio corriam-lhe pelas bochechas. “Graças a Deus!”, clamou por dentro. “Graças a Deus não é você!” Desta vez não estava equivocado. Definitivamente, era apenas argila. Aproximou-se e examinou a efígie de Ron. Mais uma vez, a semelhança era inacreditável. Era rígida ao toque. Devia ter sido feita há mais tempo.
Retornou a Laura. Sua cabeça era nova, recém-moldada. A alegria que Michael sentira começava a desaparecer. Ao lado da cabeça havia uma mesa, sobre a qual repousava uma seleção de facas e lâminas. Presumiu que haviam sido utilizadas para fazer as efígies.
Pegou uma lâmina. Era afiada. “O que pretendem ao criar uma efígie de Ron, que está morto, e agora Laura?” — examinou o porão cuidadosamente em busca de mais pistas, mas não havia nenhuma. Tudo o que havia lá eram cabeças e uma caveira de argila.
Tentou abrir a porta. Trancada. Observou as fotografias que revestiam as paredes. Não importava o que faziam lá, não era bom. “Isso é muito esquisito”. Viu-se entrando em pânico com a idéia. Ele precisava contar a Laura, alertá-la de que estava em perigo!
Lançou-se janela afora e arrastou-se enquanto o vidro estilhaçado rasgava sua calça. Tropeçando, correu o mais rápido que pôde até a frente da casa e de volta a seu carro.
Saltou nele, agarrou o telefone no banco do passageiro e discou o número de Laura.
“Atenda, Laura, atenda!”, desejava que ela o fizesse, mas não houve resposta. Uma gravação o informou de que o número dela estava “fora de serviço”. Em vez disso, havia “uma nova mensagem” da esposa, à qual ouviu. Era o recado que ela havia lhe deixado mais cedo, naquela tarde:
— Oi, Michael, você não encontrará Anna aí. Você não acreditará, porém ela está bem aqui, no funeral de Ron. Ela diz que tem algo que deseja dividir comigo, em particular. Eu realmente quero ouvir o que é, então ficaremos a sós aqui na capela depois que todos se forem. Então, te vejo mais tarde. Eu te amo. Tchau!
Michael desejara que ela estivesse a salvo, mas agora parecia que seu mundo inteiro desabava, mais uma vez. Não importava a relação daquela mulher com Ron, ela também tinha modelos de Laura.
Jogou o telefone, virou a chave na ignição e pisou com força no acelerador. Seu carro roncou, saindo da garagem de cascalho enquanto a imagem grotesca de Laura que acabara de ver passava repetidas vezes em sua mente.