O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 93 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 90

21 DE DEZEMBRO DE 2012

O coração de Michael afundou. Já era o amanhecer do dia do experimento, e o avião estava bem em seu caminho para “Los Ammuro”, uma base aérea militar de alta segurança no meio do deserto no Novo México, e o último ponto de parada antes do destino final da caveira, o “Laboratório Z”, as próprias instalações subterrâneas de testes da Nanon Systems, uma das localizações mais confiáveis e secretas do planeta.

Provavelmente estava a apenas minutos de ser descoberto na base aérea. Ele tinha, na melhor das hipóteses, uma hora até chegarem ao laboratório e as portas da van serem abertas.

O avião tocou o solo, e, enquanto parava ao final da pista, conseguiu ouvir os guardas quando retornavam para o compartimento de carga e subiam de volta na parte dianteira da van de segurança. Ele se arrastou rapidamente para a área imediatamente atrás de sua cabine e se prendeu à parede interior. Bem a tempo! O motorista deu partida no motor e lançou um rápido olhar por sobre o ombro, através da janelinha atrás de sua cabine, para confirmar que a caveira de cristal ainda estava bem ao fundo. Michael escondeu-se embaixo, fora da visão, imediatamente atrás do motorista.

Sob forte segurança, a van deu a volta e desceu a rampa baixa, saindo do avião a atravessando a pista. Agora fora unida por uma escolta em veículo militar e acompanhada por um helicóptero policial circulando do alto, enquanto ela deixava a base e todo o comboio atravessava o deserto, dirigindo-se às instalações subterrâneas ultra-secretas do “Laboratório Z”.

Embora não conseguisse enxergar, a parte do laboratório que era acima do solo era visível à distância, a partir da perspectiva aérea do helicóptero policial. Localizava-se apenas alguns quilômetros além de uma cordilheira baixa.

Do lado externo, as instalações pareciam enganosamente despretensiosas, como a notória “Área 51”, uma simples coleção de prédios não descrita do tipo hangar no meio do deserto. Porém, a cerca de imenso perímetro, completada com câmeras de circuito interno de segurança, cães de guarda e constantes patrulhas armadas sugeriam que havia mais no lugar do que poderia parecer à primeira vista. Todo o complexo era ainda cercado por uma cadeia de montanhas baixas, e a única maneira de acessar a base ultra-secreta era por meio um túnel rodoviário através dessas colinas.

Todas as tentativas de Michael para soltar a caveira de cristal haviam sido inúteis. Em menos de trinta minutos o comboio chegaria ao completo subterrâneo. Lá, seria liquidado.

Ele podia ouvir o som de rock explodindo da cabine do motorista da van enquanto ela atravessava o deserto. Os agentes de segurança haviam ligado o rádio. Sua tarefa estava quase cumprida. Eles começavam a relaxar e cantavam alegremente, felizes e fora do tom. Embora Michael normalmente gostasse um pouco de rock progressivo, ele sentiu uma amarga pontada de ironia quando percebeu o que eles estavam cantando.

Era a famosa canção da banda de rock REM: “It’s the end of the world, as we know it”.

Michael balançou a cabeça tristemente. Se eles soubessem. Essa seria a última vez em que esses caras cantariam casualmente acompanhando o rádio, a última vez em que eles ficariam à vontade em uma missão quase completa. Ao final desse mesmo dia, eles seriam dizimados, seus corpos esmagados e destruídos como se fossem sugados através do vindouro buraco negro, até total aniquilação.

Michael foi o único que compreendeu a ironia da situação, enquanto permanecia abaixado, fora da visão, no fundo da van. Mas quase desejou poder trocar de lugar com os guardas e estar em um lugar em que ele felizmente não teria consciência do que o futuro reservava. Desejou que também pudesse cantar junto, fora do tom e na ignorância, sem qualquer noção do que o terrível destino conjurava à frente, sem qualquer conhecimento da aproximação do apocalipse.

“Como eu posso ter errado tão terrivelmente?”, repreendeu-se. Ele havia estado tão convencido de que a única coisa que poderia resultar de sua pesquisa sobre a caveira de cristal seria benéfico, que ajudaria a humanidade a afastar as fronteiras do tempo e espaço. Era uma idéia tão maravilhosa e empolgante.

Contudo, percebeu que havia sido simplesmente seduzido por esse conceito científico, completamente incapaz de enxergar que aquela adulteração no tecido que estrutura nossas vidas, Espaço e Tempo, poderia ser tão perigoso.

Só havia sido capaz de enxergar as possibilidades maravilhosas, as fórmulas e as teorias, não a fria e dura realidade, potencialmente muito mais destrutiva do que qualquer coisa que ele sequer houvesse imaginado.

De repente, sentiu-se tomado de fúria. Queria amassar a caveira de cristal, despedaçá-la em um milhão de pedacinhos minúsculos. Desejava que nunca a tivesse visto. Apenas veja onde o havia trazido, trazido a todos. Ela estava prestes a destruir tudo e todos que conhecia. E isso era tudo sua culpa. Enterrou a cabeça nas mãos. Ah, como desejava nunca ter colocado os olhos naquela caveira, jamais.

Repousou lá por um momento, sem saber o que fazer, antes de decidir que o que o xamã havia sugerido era provavelmente a única opção deixada em aberto para ele. Se ao menos conseguisse compreender o que Hunab Ku tentava dizer-lhe, deveria realmente tentar. Ele devia isso a Laura e a todos os outros, pelo menos tentar fazer isso.

Ajoelhou-se diante da caixa transparente da caveira, fechou os olhos, respirou profundamente e inclinou-se para frente, para permitir que sua testa descansasse suavemente no vidro, exatamente como Laura havia feito com a caveira de cristal na Unidade de Segurança Warnburton. Lá ele permaneceu por alguns minutos, seu cabeça pressionada contra o vidro, enquanto tentava “projetar sua consciência dentro da caveira”.

No lado de fora, o comboio entrou em um túnel comprido através das montanhas, e o interior da van mergulhara na escuridão. Mas, independentemente disso, nada aconteceu na traseira da van. Michael rapidamente começou a ficar frustrado.

— Vamos, vamos! — ele sussurrou para si mesmo, impaciente com o tempo que o processo parecia demorar.

Ele se esforçava bastante para projetar sua consciência dentro da caveira, exatamente como o xamã havia tentado ensinar, mas parecia que nada fazia a menor diferença.

Redobrou os esforços, tentando pensar naquelas flores danificadas e franzindo as sobrancelhas intensamente, enquanto pressionava a testa com ainda mais força contra a proteção de vidro. Porém, nada aconteceu.

De volta ao exterior, o comboio surgiu do lado oposto do túnel. Tinha viajado sob a cadeia de montanhas que protegia o Laboratório Z. Menos de quatrocentos metros adiante, fez uma parada na estrada, em frente a alguns portões de segurança. Quando Michael despontou na janela lateral da van, seu nível de ansiedade elevou.

Eles haviam chegado à entrada das instalações secretas e subterrâneas de pesquisa, o posto de controle em que a estrada estreita encontrava a cerca de vasto perímetro.

Em intervalos regulares ao longo da cerca, sentinelas armados estavam a postos. Os guardas no portão começaram a verificar os documentos dos motoristas e a fazer perguntas sobre a natureza de sua missão. Michael julgava impossível agora se concentrar em projetar sua consciência dentro da caveira de cristal. Ele se apertou contra a parte traseira da cabine do motorista e ouviu com atenção que os guardas pediram para o motorista da van e seus colegas saírem do veículo.

Ele congelou e esperou, como um homem condenado, certo de que esse era um sinal de que eles queriam revistar o automóvel. Santo Deus, se eles revistassem o veículo agora, seu paradeiro certamente seria descoberto, e assim seria. Fim do jogo!

Que diabo falaria? Como poderia se explicar? Não havia uma palavra que pudesse pronunciar que o fizesse passar por aqueles portões de segurança naquele momento.

Assim que se esforçou para ouvir o que estava acontecendo, os guardas no portão começaram a revistar o motorista e seu bando. O guarda-chefe então se aproximou da van e acendeu sua potente lanterna na estreita janela lateral, em direção ao fundo do veículo, para verificar que eles estavam levando a carga que alegavam.

Sentiu seu coração martelar no peito enquanto esperava a trava por combinação fazer “clique” e chiar, e as portas se escancararem. Todo o inferno certamente seria libertado. Estaria em grande apuro. Deus sabia qual seria sua penitência pelo que havia acabado de fazer, tentando seqüestrar a caveira de cristal em seu trajeto para o grande experimento de Caleb. Ele não gostava de imaginar.

Pior ainda, nunca mais veria sua amada esposa novamente, e todo o mundo estaria perdido para sempre, estupidamente e desnecessariamente destruído, em nome do progresso científico. Era uma possibilidade muito desanimadora, de fato.

Michael fechou os olhos fortemente e, pela primeira vez em sua vida, viu-se rezando:

— Deus, eu tenho que chegar até Laura, preciso impedir o que está acontecendo aqui.

Naquele momento, ele ficou atordoado por ouvir o Chefe de Segurança carimbando os documentos do motorista e os devolvendo, confirmando que tudo parecia estar em ordem. O motorista e seus colegas subiram de volta à sua cabine, o bloqueio foi erguido e os guardas no portão acenaram para todo o comboio enquanto seguiam viagem, diretamente para o complexo do Laboratório Z.

Mesmo a essa hora na manhã, o lugar zunia de agitação. Emparelhando sobre o ombro do motorista, Michael conseguiu ver os cientistas com aventais brancos correndo com suas pranchetas à mão; técnicos com aventais laranja e capacetes de segurança inspecionando diversas partes de maquinário; e, em todo o espaço ao redor, posicionados em localizações estratégicas por todo o local, estavam homens armados em uniformes pretos, alguns deles dirigindo veículos Humvee e Jeep. Ele também notou um punhado de tanques de óleo estacionados junto a um ponto de parada próximo à base.

A van dirigiu até uma enorme construção em cúpula no centro do complexo, ao lado da qual estava uma grande passagem protegida por uma grade de segurança. Na provisão, os documentos apropriados foram carimbados, a grade foi levantada, e a van teve permissão para seguir até o centro da construção. Parecia algum tipo de fábrica futurista ou usina de energia. Em todos os lugares em que Michael olhava havia enormes geradores, canos metálicos transportando combustível e grossos cabos de plástico transmitindo energia. Precisamente o que cada cabo, cano ou maquinário fazia, não era totalmente óbvio, mesmo para o olho bastante treinado de Michael, mas havia claramente um grande processo industrial de geração de energia elétrica envolvido.

O carro foi conduzido pelos guardas ao longo do corredor de acesso feito de concreto, entre os canos, ventiladores e geradores gigantes, em direção ao que perecia uma grande gaiola no centro de instalações. Enquanto o veículo se posicionava no lugar, entre suas barras metálicas, Michael percebeu que era, na verdade, um elevador gigante, como o tipo encontrado nas modernas minas de carvão, destinado a permitir acesso veicular à parte subterrânea do complexo do Laboratório Z.

Assim que os guardas residentes fecharam as portas da gaiola com uma batida ruidosa e o elevador começou a descer lentamente aos níveis inferiores, foi tomado pela percepção assustadora de que em apenas alguns breves minutos ele finalmente seria descoberto. Era isso. Nenhuma tentativa de trazer Laura de volta ou de impedir o experimento acabaria bem. Seu tempo tinha se esgotado. Era tarde mais. O futuro agora estava gravado em pedra. Não havia mais nada que ele pudesse fazer, a não ser sentar-se lá e aguardar ser descoberto.

Ele cambaleou contra a parede e, enquanto o elevador prosseguia em sua descida lenta e constante, colocou as mãos nos bolsos e entregou-se ao fantasma. De repente, tomou consciência de um pequeno objeto dentro de seu bolso. Ele havia estado tão preocupado que sequer havia percebido que colocara a jaqueta de volta, muito menos que suas mãos deviam ter se arrastado para dentro dos bolsos.

Era quase como se o objeto tivesse cutucado sua mão. Puxou a mão para fora e abriu a palma. Teve uma profunda sensação de tristeza com o que viu. Era o pequeno medalhão prateado em formato de coração de Laura. Aquele que comprara para ela, que ela sempre usara ao redor do pescoço para lembrar-se de Alice.

Ela nunca havia se separado daquele medalhão até o dia em que o entregara ao xamã maia, para transmiti-lo a Michael na eventualidade de não conseguir voltar de dentro da caveira.

Abriu-o para ver a minúscula fotografia desbotada que guardava dentro dele, de Laura e Alice sorrindo felizes em suas últimas férias juntas na praia.

Eles haviam sido uma família, mas ambas o tinham deixado: primeiro, Alice; depois, Laura. Contudo, ele estava feliz em ter esta pequena lembrança delas, esta pequena parte do mundo que havia sido tão pessoal para Laura estava com ele agora.

Dominado pela tristeza, suspirou de maneira profunda e aborrecida, e então, quase involuntariamente, seus dedos passaram pelo medalhão, levantou-o até os lábios e o beijou, através de seu punho delicadamente cerrado. Ele sentiu um arrepio percorrer a parte posterior de sua coluna quando se virou novamente para observar a caveira de cristal, ainda repousando diante de si em sua caixa de tungstênio e com vidro à prova de balas.

Enquanto olhava fixamente para a caveira, algo dentro dele mudou. A raiva e o ressentimento que sentira haviam ido embora e não se sentia mais repleto de uma sensação desesperada de urgência. Não havia mais nada que ele pudesse fazer, a não ser olhar profundamente no interior cristalino da caveira, às belas inclusões e bolhas suaves que pareciam brilhar diante de si como minúsculas estrelas em um sistema solar distante.

Sua respiração estava mais relaxada e profunda, quando delicadamente repousou a testa na caixa da caveira mais uma vez.

Ele sussurrou:

— Laura! Eu te amo! — e, enquanto o elevador continuava sua descida lenta, porém constante, seu corpo de repente sucumbiu no chão, quando finalmente obteve êxito em projetar sua consciência nas profundezas da caveira de cristal.