O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 32
A Grande Laje de Pedra:
Desesperada, empurrei a enorme pedra. Ela não se moveu. Tentei de novo, desta vez impulsionando meu corpo inteiro contra ela. A pedra, no entanto, não saiu do lugar. Tentei repetidas vezes. Durante o que pareceram eras, empurrei-me e joguei-me contra ela, mas todos os meus esforços foram em vão. Eu não tinha muito tempo. Agora, até a chama de meu isqueiro começava a diminuir.
Caí em lágrimas. Eu estava totalmente acabada. Não agüentava mais. Virei-me e recostei-me à pedra, exausta. Foi quando ouvi um som forte de raspagem e senti algo se mover atrás de mim.
Virei-me e reacendi meu isqueiro para verificar que uma das extremidades dos anéis concêntricos de pedra entalhada pareceu girar sutilmente, em sentido anti—horário.
Animada, juntei todas as minhas forças e, empurrando firme, consegui girar o anel de pedra na mesma direção, até que ouvi o barulho de uma forte batida, e não se moveu mais.
Empurrei o segundo anel, e ele se mexeu para a direção oposta, até que também soasse como se tivesse sofrido uma pancada.
O terceiro e último anel se movimentou, a exemplo do primeiro, em sentido anti-horário, até que finalmente cada um dos anéis de hieróglifo parecia corretamente alinhado a cada um dos demais anéis concêntricos de pontas entalhadas, como os mostradores de alguma fechadura de uma gigantesca pedra com os quais combinava.
Eu estava atônita. Era como se houvesse tropeçado em alguma espécie de porta esculpida na pedra. Talvez essa, afinal de contas, fosse uma saída. Empurrei todo o peso de meu corpo novamente contra a tábua, porém, por mais que tentasse, ela não se movia. O que eu deveria fazer?
Durante algum tempo, analisei uma caveira de pedra esculpida no interior da laje. Havia algo nela que me fazia desejar tocá-la. Inseri meus dedos em suas órbitas e empurrei sua mandíbula aberta, mas nada aconteceu. Finalmente, fiquei tão frustrada que comecei a esmurrar a tábua gigante o mais forte que pude. Quando fiz isso, acidentalmente prendi a caveira de pedra no meio dela.
Olhei para a caveira. Ela parecia ter se movido. Então, pressionei-a fortemente, apoiando todo meu peso contra sua testa. De repente, a caveira afundou-se de volta à pedra, e esta começou a se afastar de mim, como alguma porta antiga de caixa-forte rangendo as dobradiças ao se abrir.
Senti um calafrio correr pela espinha. O que eu tinha feito? O que havia aberto? Que segredos obscuros se escondiam atrás daquela porta? Acendi meu isqueirinho e encarei o vazio.
A Câmara Secreta:
Berrei. Minha voz ecoou em um espaço parecido com uma caverna. Permaneci lá por alguns instantes, sem saber o que fazer. Eu estava prestes a atravessar a porta quando me lembrei do que havia acontecido no templo acima. De acordo com meus conhecimentos, atrás daquela porta deveria existir um precipício; ou talvez pudesse haver cobras e escorpiões lá. Segurei o isqueiro perto do chão para verificar o que havia sob os pés. O piso parecia relativamente sólido. Lentamente, dei um passo adiante, para me ver dentro de uma grande câmara.
Pude apenas distinguir que suas paredes eram decoradas com caveiras esculpidas em pedra, fileiras e fileiras delas. Elas se estendiam à minha frente. Parecia ser alguma espécie de tumba. Quem sabe eu estivesse prestes a encontrar restos mortais que jaziam intactos aqui por milhares de anos?
Olhei para me certificar de que não havia qualquer sinal de ossos ou sarcófagos, quando meu isqueiro falhou e apagou. Eu o sacudi diversas vezes. A chama estava tão baixa que era difícil vê-la.
Então, algo extraordinário aconteceu, e meus olhos foram levados para o extremo oposto da câmara, onde algo parecia brilhar na escuridão. Pensei que fosse minha imaginação. Fechei os olhos e os abri novamente. Porém, não estava equivocada. Pe alguma maneira, um feixe de luz fino e desbotado começou a penetrar na escuridão da tumba.
“Aquilo fazia sentido”, Laura pensou. “A antiga civilização maia geralmente construía uma pequena coluna de ar dentro da estrutura de suas pirâmides, para unir a câmara funerária ao mundo externo. Era uma característica de suas pirâmides, as quais eram notavelmente semelhantes às do antigo Egito. Como os antigos egípcios, os maias acreditavam que após a morte as almas dos falecidos viajavam através dessa coluna para ocupar seu lugar no além, por toda a eternidade. Essa “coluna dos espíritos” no interior da pirâmide em Luvantum deveria estar em um ângulo que permitia que os raios de sol do amanhecer brilhassem dentro da tumba”.
O diário de Anna continuava…
Essa coluna do sol da manhã iluminava uma grande estrutura feita de pedra na extremidade oposta da câmara. A princípio, pensei que fosse um sarcófago, porém era circular, formato não adotado normalmente para abrigar os corpos de pessoas mortas. Tratava-se, na verdade, de um altar caprichosamente esculpido. Eu observava enquanto o brilho e a intensidade da coluna aumentavam. Então, de repente, uma explosão de luz preencheu toda a câmara assim que o raio de sol tocou um objeto estranho presente no altar. Não pude compreender bem o que era, mas parecia brilhar na escuridão, como se estivesse iluminado por alguma chama interna muito grande. Brilhava como se fosse feito de ouro líquido, irradiando luz em todas as direções.
Em todos os lugares que olhasse, havia contornos coloridos que refletiam-se pela câmara e saltavam de volta às paredes com o formato de pequeninos arco-íris, que, aos milhares, de uma hora para outra, passaram a ocupar todo aquele local. Caí de joelhos, boquiaberta.
Nunca estivera diante de tanta beleza radiante. Até o momento, palavras me faltam quando tento descrever a grandiosidade daquilo que vi, como se eu estivesse testemunhando os raios da primeira aurora. E eu jurava, embora sem sentido, ter escutado o som de vozes entoarem e depois cantarem em alegre uníssono, como se emanassem de dentro do objeto. Lágrimas escorreram-me pela face, e meu coração bateu forte de alegria diante daquela cena mágica.
Laura percebeu que a tinta ia ficando borrada e a letra, difícil de ler.
Então, quando o sol subiu no céu, do lado de fora, o espetáculo fabuloso que eu testemunhava começava a esmorecer. Os arco-íris desapareceram. As paredes da câmara começaram a recuar em meio à escuridão sombria, e o brilho dourado lentamente começou a desaparecer. Meu momento de fantasia havia passado, e eu me agarrei à idéia de que não importasse o que houvesse no altar, eu o queria.
No entanto, quando me dirigia para lá, como se estivesse em transe, não prestava atenção onde pisava e acabei tropeçando em uma prancha de pedra no meio do chão da câmara. Por um momento, assim que caí, imaginei que tivesse tropeçado subitamente em algum antigo alçapão e estaria prestes a mergulhar na minha morte, dentro de um poço profundo, cheio de lanças afiadas e destinadas a empalar in-trusos indesejados. Ou talvez tivesse caído sobre um fio que faria uma ponte levadiça de bambu descer e me espetar do alto. Felizmente, não era nenhuma dessas opções, e eu caí com o rosto no chão.
Contudo, quando me pus em pé e cambaleei de um lado a outro da sala, imaginei que poderia ser atacada por um fatal escorpião branco. Teria sua cauda suspensa e estaria a postos; ou talvez uma cobra gigante pudesse de uma hora para outra descer, balançando-se de uma das vigas do teto, sibilando alto, sua cabeça bamboleando bem diante de mim e sua língua chicoteando para frente e para trás dentro da boca, a poucos centímetros do meu rosto. Eu teria que me esquivar e afastá-la com o que havia sobrado de minha chama desguarnecida. Porém, felizmente, todos esses perigos existiam apenas na minha imaginação.
Muito trêmula, porém ilesa, finalmente cheguei ao altar. Ele era enorme e se estendia para além da altura da minha cabeça. Subi na base do grande degrau e, assim que me lancei ao alto, fiquei cara a cara com o objeto. Era realmente magnífico, verdadeiramente assustador, incrivelmente belo. Parecia emitir uma luz tremeluzente e brilhar à minha frente.
Estiquei-me para pegá-lo, como se estivesse hipnotizada…
Depois disso, contudo, a tinta tinha ficado borrada e a letra, ilegível. Laura conseguiu apenas decifrar as últimas poucas linhas, que diziam: “fiquei cara a cara com o objeto. Era realmente magnífico, verdadeiramente assustador, incrivelmente belo. Parecia emitir uma luz tremeluzente e brilhar à minha frente…” Porém era isso. Era tudo o que Laura conseguira ler.
Ela olhou para as páginas que sobraram, a tinta borrada, as palavras que haviam sido escritas de maneira tão límpida não existiam mais. Não eram mais do que manchas sujas no papel ressecado.
“Seria a caveira de cristal o que Anna encontrara naquele altar nas profundezas da pirâmide de Luvantum?”, Laura questionou. Sem dúvida soou um pouco absurdo; porém, se fosse verdade, teria sido absolutamente incrível. Encontrar um objeto como aquele era algo com que a maioria dos arqueólogos poderia apenas sonhar. O entusiasmo de descer uma escadaria secreta, entrar em uma câmara oculta e encontrar algo que permanecera intacto durante milênios era mais do que a maioria poderia sequer esperar.
Porém, não estava claro, no que sobrava do diário de Anna, se realmente era ou não a caveira de cristal o que havia encontrado lá. E Laura precisava saber com certeza, para seu relatório.
E essa não era a única pergunta que precisava esclarecer ao Professor Lamb e seu Conselho de Curadores. Mesmo se lá fosse o local em que Anna havia encontrado a caveira de cristal, seu diário ainda não explicava que porcaria a caveira realmente era e por que motivo Ron Smith estava com ela no momento de sua morte.
O diário não trazia nem mesmo alguma luz às suas perguntas mais particulares. Por exemplo, como a caveira de cristal poderia ser utilizada na comunicação com os mortos, o que Ron queria dizer quando disse que tinha “visto o futuro”, ou o que a própria Anna pretendia transmitir com suas últimas palavras: “o futuro está gravado na pedra”.
Laura simplesmente tinha que descobrir mais coisas.
Ela conectou-se à internet e deu busca no nome da cidade que Anna e o pai tinham descoberto, Luvantum. Procurou nos verbetes. O melhor que conseguiu encontrar foi “Antiga cidade maia localizada em Belize (antigas Honduras Britânicas). Construída por volta de 600 a.C. Escavada em 1936. Grupo liderado por Gus Arnold, do Museu Britânico. Arquitetura representativa do período: pirâmides-templos, palácios, campos para jogos com bola e praças. Muitas esculturas em pedra e hieróglifos. Escadaria ‘secreta’ e câmara dentro da pirâmide central. Detalhes elaborados na porta da câmara e no altar principal. Sem outros achados em ocorrências”.
Foi essa última parte que chateou Laura: “Sem outros achados em ocorrências”! Se a caveira de cristal fora
descoberta em Luvantum, por que aparentemente não havia qualquer registro, nem mesmo no próprio web site do Museu Britânico?
Fez a busca por Gus Arnold. Ele havia morrido trinta e cinco anos antes. O site forneceu uma lista de itens, livros e publicações que ele escrevera, mas nada sobre Luvantum.
Se Anna tinha descoberto a caveira em Luvantum, então por que não havia aparecido em nenhum registro oficial? Por que Gus Arnold, na época o especialista em civilização maia do Museu Britânico, nunca escrevera sobre isso ou fizera qualquer referência a respeito? Era tudo muito misterioso.
A experiência de Laura também lhe dizia que a caveira não lembrava nem vagamente qualquer outro artefato maia antes visto.
Tampouco se parecia com um objeto que fora produzido por qualquer outra civilização antiga que houvesse florescido na região, como os astecas ou os toltecas. Seu estilo era muito mais abstrato e estilizado do que esse. Nenhuma obra de arte parecia tão anatomicamente precisa, tão “real” como a caveira de cristal.
Laura perguntou-se se Anna poderia ter inventado tudo aquilo, escrevendo um diário para acrescentar autenticidade à sua alegação de que a caveira era antiga. Talvez simplesmente estivesse planejando vendê-la ao museu, tivesse criado a história de sua descoberta e fraudado um velho diário, simplesmente para aumentar seu valor. Essa era realmente uma possibilidade. Afinal de contas, alguns aspectos da história pareciam um pouco implausíveis.
E embora Anna nunca tivesse sugerido a idéia de tentar vender a caveira ao museu ou qualquer outra coisa parecida, aquela teoria não parecia fazer sentido. Teria ela talvez descoberto a caveira em outro lugar?
Era mais complicado do que parecia, Laura tinha certeza. A pergunta era: como descobriria isso, agora que Anna estava morta, e a criada, relutante em conversar com ela?
Olhou novamente para a caligrafia de Anna na anotação dos nomes das outras pessoas que a haviam acompanhado a Luvantum. Pesquisou seus nomes: Frederick Crockett-Burrows, Gus Arnold, Bunny Jones e Richard Forbes. Todos deveriam estar mortos há muito tempo.
Laura tomou um banho e começou a se aprontar para o trabalho. Estava quase saindo de casa quando se viu atraída novamente pelo diário. Havia algo que ela queria confirmar. “Richard era arqueólogo recém-formado em Cambridge, desejoso por obter experiência no campo”. Havia algo relacionado a esse nome que parecia vagamente familiar. Richard Forbes.
Na internet, pesquisou o nome no site de busca. Havia centenas de Richard Forbes, o mais famoso deles era um criador de Labradores estabelecido no estado do Kentucky!
Refinou a busca adicionando a categoria “arqueólogo”. Isso reduziu o resultado a somente três. Um era doutorando na Universidade de Maryland, outro era especialista em cultura aborígene, de Brisbane, Austrália.
Sob a terceira entrada, um registro prolífico de trabalho apareceu inesperadamente, de artigos acadêmicos publicados principalmente entre os anos 1950 e 1970.
Laura pensou por um momento. Se Richard Forbes fora “recém-graduado” em 1936, ele deveria ter cerca de vinte e um anos na época, exatamente a idade precisa para estar no auge de sua carreira por volta da década de 1950. Então, talvez fosse ele. Contudo, os artigos listados eram quase todos sobre história antiga européia, particularmente a Idade do Bronze. Havia, porém, um artigo recente listado, sobre a cerâmica maia. Mas isso era tudo.
Poderia este ser o mesmo Richard Forbes que acompanhara Anna Crockett-Burrows a Levantum? Laura estava intrigada com a idéia de que era seguramente possível.
“Extraordinário, porém”, ela pensou, “era o fato de que, se esse fosse o mesmo Richard Forbes, ele também nunca escrevera sobre a descoberta da caveira. A história da Anna começava a parecer um pouco suspeita. Mas como poderia descobrir mais?”
“Seria possível que esse Richard Forbes ainda estivesse vivo?” Ela olhou para sua entrada na pesquisa. O último artigo havia sido publicado na década de 1990, por uma pequena editora acadêmica em Cambridge, Inglaterra, chamada Crestwell Hall. Eles haviam publicado todos os seus principais artigos recentes e situavam-se na mesma cidade que o diário de Anna afirmava que Richard se formara, nos anos 1930. Então, talvez estivesse no caminho certo, apesar de não haver mais detalhes fornecidos para seu endereço de contato.
Laura olhou para seu relógio de pulso, calculando o fuso horário em relação à Grã-Bretanha. Embora ainda fosse cedo para ela, o Reino Unido estava cerca de cinco horas adiantado, ou seja, deveria ser próximo de meio-dia para eles. Todos deveriam estar em seus escritórios agora. Ela então pegou o telefone a chamou o “Auxílio à lista internacional”.-
— Receio que não haja endereço ou telefone listado — veio a breve resposta. — Supondo-se que você tenha o nome correto, eles devem ter fechado a empresa ou sido adquiridos por outra companhia.
Desapontada, Laura largou o telefone e se sentou, refletindo por um instante. Todos os demais artigos eram muito antigos e suas editoras, ainda mais misteriosas, então, provavelmente nem valesse a pena tentar. Porém, havia uma possibilidade, uma remota, mas ainda válida. Voltou a acessar a internet. Procurou pela Sociedade de Membros do Museu Britânico. Buscou o nome de Richard. Nada ali.
Bocejou, sentindo os efeitos da falta de sono, quando teve outra idéia. Entrou no web site da Sociedade Real de Artes e Ciências da Grã-Bretanha.
Era uma tentativa valiosa. O acesso a detalhes sobre os membros foi negado.
— Droga — ela disse.
Realmente precisava sair para trabalhar.
Levantou-se e foi para o museu.