O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 21 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 17

8 DE DEZEMBRO DE 2012

No momento em que Laura chegou a Eastwich, a claridade desbotada do inverno já começava a enfraquecer. As condições da estrada eram precárias, e, apesar de seu aguçado senso de direção usual, ela se perdera temporariamente. Mesmo tendo viajado menos de cento e sessenta quilômetros, sentiu como se estivesse muito longe de casa.

Era final de tarde quando seu carro finalmente serpenteou o caminho, seguindo o longo percurso com destino a uma antiga mansão em estilo vitoriano, na gélida e interiorana região da Nova Inglaterra. Outrora grandiosa, a casa agora se encontrava em um estado de decadência parcial. Era um local deserto, levemente fantasmagórico. Ela conseguia ouvir o som de corvos grasnando enquanto sobrevoavam os ramos nus das árvores. O pesado céu cinza era o prenúncio de mais neve.

Laura parou na irregular estrada de cascalho. Saiu do carro e observou a casa, aliviada por finalmente ter chegado ao seu destino. Mas todas as venezianas estavam fechadas, e a casa parecia deserta.

Droga! — resmungou, já pensando na longa viagem e no tempo desperdiçado. Nesse momento, percebeu que a varanda estava iluminada.

No banco do passageiro, apanhou a maleta que continha a caveira e se dirigiu para a frente da casa. Colocando a maleta no chão da varanda, parou em frente à aldrava de bronze com rosto de leão. Incerta em relação a quem ou o que esperar, respirou profundamente antes de bater na sólida porta de madeira da entrada.

Conseguiu ouvir dentro da casa um barulho de cachorros latindo e que pareciam correr em direção à porta. Seus ruídos de rosnar e arranhar, no outro lado, atemorizavam Laura. De repente, se deu conta de sua vulnerabilidade, pois se encontrava sozinha, na varanda de uma casa estranha, no interior, a quilômetros de distância de sua residência. Talvez Michael estivesse certo. Talvez ela não tivesse pensado com clareza suficiente. Não fazia idéia de que tipo de pessoa vivia lá. E sem a pusessem para correr com aqueles cães atrás dela? Ou coisa pior?

Seu medo logo se intensificou mais ainda com o som de pesados parafusos deslizando lentamente, seguido pelo ruído de uma chave grande e velha girando na fechadura. Quem quer que vivesse neste lugar mantinha-se trancafiado. Chegou a pensar que naquela casa moravam loucos trancafiados. Ela nunca deveria ter corrido o risco de ir lá sozinha, mas agora era tarde demais para ir embora. A porta rangia ao se abrir. Parou após alguns centímetros, exatamente no comprimento da corrente que a prendia ao batente.

— Quem é? — alguém grunhiu agressivamente, com um pesado sotaque aparentemente estrangeiro.

Laura sequer conseguiu determinar se era homem ou mulher.

— E… eu sou Laura Shepherd, do Instituto Geográfico Smithton — começou.

— O que você quer? — a voz interrompeu em um tom impaciente, surpreendentemente grosseiro.

— Vi… vim para encontrar um A. Crockett-Burrows.

Houve uma longa pausa, durante a qual Laura perguntou a si mesma se tivera um vislumbre de um olhar desconfiado surgindo das profundezas do interior sem iluminação, antes de a voz finalmente responder:

— Espere aqui! — bateram a porta na cara de Laura.

Nervosa, ela deu uma espiada no jardim cheio de mato, quase todo encoberto por abundante neve. Querubins de pedra estavam agarrados a vasos cobertos de arbustos, e pôde notar uma cerca grande e impenetrável ao redor de toda a propriedade, bem na hora em que começava a escurecer.

O barulho dos cachorros, que ainda latiam e arranhavam a porta, serviu apenas para aumentar sua inquietude. Se ali moravam os Crockett-Burrows, para onde foram? Por que a deixaram esperando? Ela fuçou em seu bolso e apalpou o celular, a única ligação que tinha com o mundo exterior. Isso a tranqüilizou.

De repente, a voz estava de volta, gritando com os cães em espanhol. Uma porta foi batida dentro da casa, e os latidos cessaram. A porta de entrada estava destrancada e rangeu ao ser aberta. Dentro, na soleira, uma mulher mexicana bem corpulenta, de quarenta e poucos anos. O seu olhar era de desconfiança quando examinou Laura de cima a baixo. Sua postura ríspida era tudo, menos acolhedora.

— A senhorita Arma Crockett-Burrows irá recebê-la agora — disse agressivamente. — Siga-me! — Virou-se e caminhou de volta ao lúgubre interior da casa. Laura pressupôs que essa mulher era uma espécie de governanta ou criada.

Hesitou por um momento antes de entrar na velha e empoeirada casa repleta de antigüidades. Um carrilhão soou,

bem no momento em que seguia a empregada, atravessando o hall e subindo a escadaria majestosa. As paredes estavam guarnecidas de retratos de ancestrais abastados, há muito tempo falecidos, que a encaravam de cima daquelas molduras com bordas douradas. No alto da escadaria, chegou a um longo corredor ao final do qual havia uma porta.

— Espere aqui! — disse a criada, antes de bater na porta e entrar.

— Dra. Laura Shepherd — anunciou, antes de conduzir Laura para dentro da velha e mal iluminada sala de visitas em estilo vitoriano, clareada apenas por um par de velhas luminárias sobre armários cobertos de renda.

Enquanto os olhos de Laura se acostumavam à escuridão, ela observava os espelhos com molduras douradas e pesados móveis de madeira que preenchiam a sala. Invólucros de vidro abrigavam pequenos animais empalhados, paralisados em poses falsas, fazendo referência à época anterior à sua morte. Olhando a mobília decorada e as numerosas antigüidades, teve a sensação de que estava em um tempo passado.

Apesar de haver fogo na lareira, achou a sala surpreendentemente fria. No canto afastado da sala, sentada à sua espera em uma velha poltrona de couro, estava uma senhora muito idosa, que deveria ter cerca de noventa anos. Vestida de modo elegante e com um colar de pérolas e um casaco Chanel de lã preta cobrindo todo seu corpo, de ossatura fina, parecia estar esperando visitas.

— Obrigada, Maria — a velha falou com um sotaque nitidamente britânico antes de a criada se virar e sair. — Ah, Maria, — ela a chamou — que tal um chá? — Aquela senhora idosa falou com toda a confiança de alguém com uma vida privilegiada. Era visivelmente acostumada a ser servida sem ter de fazer qualquer esforço, não apenas durante as necessidades da velhice, mas no decorrer de toda sua longa vida.

Ela gesticulou para Laura:

— Agora! Aproxime-se para que eu possa vê-la! — ordenou, finalmente se dirigindo a ela.

Hesitou por um momento antes de se aproximar:

— Eu… — começou.

— Você veio por causa da caveira! — a senhora a interrompeu.

Laura estava um pouco desconcertada.

— Sim, eu estava me perguntando…

— Sente-se aqui, por favor! — Foi interrompida novamente pela senhora, que lhe indicou uma cadeira de veludo desconfortavelmente próxima à dela.

Subitamente se deu conta de que a velha olhava para frente, sem sequer olhá-la, assim que se sentou na ponta do assento. Mas estava obviamente muito atenta a ela.

— Você precisará vir um pouco mais perto que isso — exigiu.

Enquanto se curvava para mais perto, a velha senhora esticou os dedos enrugados em direção ao seu rosto. Instintivamente desviou-se, espantada com o comportamento estranho da mulher. Mas assim que a senhora tocou em sua face com os dedos unidos, ainda olhando para frente, aos poucos foi ficando claro que ela era cega.

— Meus olhos já não funcionam mais, mas ainda posso enxergar — explicou enigmaticamente.

Laura se curvou para frente mais uma vez, tentando controlar seu desconforto enquanto deixava a outra correr os dedos suavemente pelos contornos de seu rosto.

Os olhos daquela senhora brilharam assim que ela a “viu”.

— Agora eu te vi. Deixe-me ver a caveira novamente! — ordenou, e Laura se viu abrindo a maleta e oferecendo à senhora a caveira de cristal como se fosse uma obediente serviçal.

A mulher pegou a caveira e começou a deslizá-la nas mãos. Depois riu enquanto corria os dedos suavemente por seus traços.

— Bom te ver de novo — disse calmamente para a caveira como se estivesse cumprimentando uma velha amiga.

Laura desviou o olhar. Sentiu-se estranha, como se tivesse se intrometido em um momento particular entre a velha e a caveira.

Notou sobre a mesa uma fotografia sépia emoldurada, ao lado daquela idosa. O rosto de um homem preenchia a moldura. Ele parecia ter uns cinqüenta anos. Tinha um olhar intenso e fumava um cachimbo.

Voltando o olhar, viu que a senhora agora embalava a caveira em seu colo. Seus olhos, embora fosse cega, estavam muito radiantes enquanto voltava o rosto para o céu. Ela parecia perdida em um mundo de estranho êxtase. Laura aprendera cedo que lidar com pessoas excêntricas fazia parte do trabalho do arqueólogo e estava muito ciente do quão ligadas a seus artefatos as pessoas poderiam ficar. Ela olhou para o relógio. Se fosse retornar para a cidade em uma hora razoável, teria de interromper essa esquisita reunião. Respirou profundamente.

— Estava pensando se você poderia me contar de onde a caveira veio — disse.

As mãos da senhora congelaram sobre a caveira, e ela levantou os olhos.

— Essa, minha cara, é uma longa história.

— Seria interessante ouvi-la mesmo assim — propôs.

— Muito bem — ela limpou a garganta. — Você vê essa foto? - sua mão se moveu na tentativa de tocar a moldura da foto ao seu lado, aquela que Laura acabara de olhar.

— Este é meu pai, o grande explorador britânico Frederick Crockett-Burrows — fez uma pausa. — Era um grande homem. Descanse em paz — sua voz ficou momentaneamente trêmula de emoção. — E quando eu tinha apenas dezessete anos, ele me deixou acompanhá-lo em uma de suas expedições nas selvas da América Central — Laura ouvia, encantada.

— Como vê, meu pai tinha a própria visão das coisas — Anna Crockett-Burrows prosseguiu. — Ele era membro do comitê de antigüidades do Museu Britânico, mas não era, de jeito algum, um arqueólogo convencional. Ele acreditava que a civilização teve início não no Oriente Médio, como geralmente se supunha, mas em algum lugar da região da América Central. Na verdade, meu pai acreditava que Atlantis era uma civilização de verdade, que realmente existira, e que, embora tivesse afundado embaixo do mar, seus indícios ainda poderiam ser encontrados em alguma parte do mundo.

— E sendo o homem que era realizou, sem dúvida, um trabalho em que dedicou sua vida para provar isso. Então, para tal, reuniu um grupo de exploradores, incluindo a mim, embora eu fosse apenas uma jovem naquela época. Em 1936, zarpamos de Liverpool, Inglaterra — ela tossiu — com destino às Honduras Britânicas. Meu pai ouvira rumores acerca de uma cidade perdida que alguns dizem que ainda permanece enterrada na floresta, e ele acreditava que possuía provas vitais da existência da civilização perdida de Atlantis. Naquele momento a voz da senhora ficou rouca, e ela teve de dominar um acesso de tosse. Guardando o lenço à medida que se recuperava, ela fez uma observação:

— Ó, querida. Minha voz está ficando cansada com as desolações da velhice. Abra essa gaveta, sim?

Ela apontou para a gaveta superior do pequeno móvel a seu lado. Embaraçada com a solicitação, Laura segurou o puxador. A gaveta claramente não era utilizada há algum tempo, visto que teve de fazer força para abri-la. Quando o fez, a mulher esticou o braço em direção à gaveta e retirou uma velha arma.

Laura desviou-se quando a mulher apontou o cano para ela, antes de colocar a arma sobre o móvel, e esticou mais uma vez o braço em direção à gaveta sacando um velho álbum empoeirado de capa de couro, que ofereceu a Laura.

— Está tudo aqui em meu diário — disse, dando outras tossidas. — Por favor, pegue. Dê uma olhada à vontade.

Laura pegou o álbum e gentilmente soprou a poeira de sua capa. A noção de Atlantis era uma espécie de zona de perigo na arqueologia convencional. Ainda era considerada nada além do que uma peça colorida da mitologia. Colocou o diário sobre a mesa de centro e começou a desatar sua bela fita dourada. Embora fosse cética em relação a qualquer conversa sobre o continente perdido, ainda assim estava curiosa.

A porta abriu, e a criada entrou com uma bandeja que continha um bule de chá e xícaras de porcelana antiga. Estas se chocaram ruidosamente quando ela as colocou na mesa de centro em frente a Laura.

Ela puxou o álbum para baixo, em cima da hora, e o colocou em segurança sobre o armário. A empregada lhe passou uma xícara de chá com toda a graça e segurança de um guarda de prisão. Assim que deixou a sala, Laura perguntou-se por que Anna, com todas as suas ambições do velho mundo, havia escolhido uma mulher tão indelicada para ser governanta. Mas essa não era a única pergunta em sua mente.

— E por que você enviou a caveira para meu colega Ron Smith? — perguntou.

— Eu simplesmente a enviei para o especialista em civilização maia — respondeu a velha mulher, secamente. — Não é você?

— Sim, mas Ron era um especialista em maias também — explicou.

— Era? — perguntou a velha mulher, quando começou a tomar seu chá.

— Sim. Receio dizer que ele morreu recentemente.

A velha senhora fez ruídos com o chá por um momento.

— Ah, querida — ela pôs a xícara na mesa. — Sinto muito por ouvir isso — ela tossiu. Algo tremeu no rosto da velha mulher, uma emoção que parecia, de algum modo, fora do lugar, ao ouvir a notícia do falecimento de Ron. Seria choque, tristeza, ou até mesmo culpa? Laura não conseguia dizer exatamente o que era, mas considerou sua reação perturbadora.

— Você conheceu meu colega Ron? — perguntou.

Mas Crockett-Burrows ignorou a questão; em vez disso, prosseguiu com os próprios pensamentos.

— Mas, você sabe… às vezes as pessoas são atraídas à morte, como uma mariposa o é a uma chama.

Ela pareceu momentaneamente perdida em um transe, enquanto percorria os dedos na caveira em seu colo, sua voz soando estranhamente distante.

— Você sabe, os antigos acreditavam que a morte poderia às vezes ser uma forma de cura.

Laura não se sentia muito feliz com os rumos da conversa, quando a senhora idosa prosseguiu:

— Quando um velho curandeiro ficava velho demais para continuar seu trabalho, ele deitava e colocava as mãos sobre a caveira, dessa forma… — ela colocou as mãos em concha sobre a caveira — e um jovem aprendiz vinha e se ajoelhava e posicionava as mãos em cima da caveira… e o alto sacerdote presidia uma cerimônia. E durante a cerimônia todo o conhecimento e sabedoria do velho passariam para o jovem.

A senhora agora deslizava suas mãos no rosto de Laura, para senti-la, mas esta se desviou mais uma vez.

— E o velho simplesmente morria em silêncio durante a cerimônia.

Laura começava a se sentir um pouco desconfortável e desconcertada com o comportamento estranho da mulher e incomodada com sua estranha conversa sobre a morte. Tudo isso começou a lhe dar arrepios. Ela estava muito consciente de estar sozinha na casa, com essas duas mulheres decididamente esquisitas, e ávida para ir direto ao ponto e sair de lá o mais rápido possível.

— Mas eu ainda não entendo por que você enviou a caveira para o museu — ela disse, terminando rapidamente o chá.

— Você não acreditaria, mesmo se eu lhe contasse — Anna Crockett-Burrows respondeu.

— Por que não?

— É difícil de explicar.

— Por favor, eu gostaria de ouvir mesmo assim — Laura sabia que a maioria das pessoas que enviava bens ao museu era para orçá-los, vendê-los, ou simplesmente para se livrar deles. Que outra razão poderia ser? Ela estava curiosa.

— Muito bem — Anna disse secamente. — A caveira me disse onde gostaria de estar.

— Como? — Laura ficou ainda mais ereta na cadeira.

— A caveira me falou que precisava estar com o especialista em civilização maia no Museu Geográfico Smithton — foi a resposta prosaica de Anna.

— Agora, deixe-me ver se entendi certo… — Laura disse, com uma expressão intrigada. — Você está me dizendo que… esta coisa fala com você!?

— Viu, eu disse que você não acreditaria em mim — respondeu Anna.

Laura simplesmente olhou para ela, descrente.

— Porém é importante. Você deve tentar compreender — a mulher disse, levantando a caveira.

— Esta caveira não é um objeto comum.

Ela segurou o objeto sobre a cabeça, seus braços delicados tremendo enquanto ia falando mais alto:

— Este é o mais importante objeto jamais conhecido na história da humanidade. Esta caveira é uma porta para outro mundo, uma entrada para outra dimensão.

Laura mal podia acreditar no que ouvia.

A caveira tremeu nos braços estendidos de Anna, que exclamou:

— Esta caveira é uma entrada para o mundo da morte!

E, exausta, deixou a caveira cair de volta ao colo.