O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 14 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 10

Naquela noite, Laura estava grata por Michael ter se oferecido para dar carona para casa. Ela esperou por ele do lado de fora da entrada dos fundos do museu, com os reflexos dos monólitos de vidro cinza e preto dos blocos de escritórios vizinhos aparecendo ao redor. Era um lado do museu que o público raramente via — ela se deu conta disso quando estava ali e começou a chover. Michael, porém, logo chegaria.

Olhou para o relógio. Eram sete horas. Ron estaria saindo agora. Ele sempre ia embora às sete, pela mesma saída dos fundos, passando pelas lixeiras transbordando lixo, ao lado das quais havia uns cilindros de gás e hidrantes. Quem observasse suas idas e vindas pelo museu poderia acertar o relógio, pois ele fazia isso habitualmente, sempre nos mesmos horários.

“Mas o que Ron estaria fazendo no museu meia-noite? Isso não era nem um pouco habitual para ele.”

Laura então escutou um barulho, um sussurro vindo detrás de uma caçamba de lixo transbordante. Seria um rato remexendo à procura de restos de alimento entre as latas de lixo? Ela detestava aquelas criaturinhas sorrateiras. Na verdade, tinha quase fobia em relação a elas. Cuidadosamente virou-se. Foi quando o viu, surgindo lentamente por atrás de um dos grandes latões. Sem dúvida, não se tratava de um rato, e essa visão fez com que seu corpo formigasse.

Não reconhecia quem era. E chegara a conhecer a maioria dos mendigos que rodeavam o lado externo do museu pedindo trocados ou sanduíches, porém este ela nunca vira antes. Não era um dos habituais.

Ele não deveria ter mais do que dezesseis anos, mas sua pele parecia mais rígida do que se tivesse vivido muito tempo; suas roupas eram como se tivessem sido tiradas de um lamaçal, e o cheiro de urina velha foi suficiente para ser necessário cobrir o nariz e a boca com um lenço.

Ele abriu a boca.

— Você é a próxima! — disse, com uma voz distante.

Laura perguntou-se que diabo estava falando. Olhou por sobre o ombro para ver com quem falava, mas não havia mais ninguém lá. Virou-se para ver que os olhos vidrados daquele rapaz agora estavam apertados, e ele olhava diretamente para ela.

Desviou o olhar, tentando não olhá-lo nos olhos, quando ele repetiu:

— Você é a próxima!

Laura ainda tentava descobrir do que sofria: droga, álcool ou abuso de substâncias. Talvez tivesse fugido de alguma instituição psiquiátrica próxima, ou talvez até uma mistura de todas essas coisas, quando ele ergueu a voz e insistiu.

— Você é a próxima maldita!

Ela franziu as sobrancelhas, ainda se perguntando sobre que diabo falava, quando ele começou a ficar zangado. Aproximou-se mais, bancando o valentão e pendendo violentamente de um lado a outro enquanto chegava mais perto.

No momento em que aproximou o rosto, ela chegou a sentir o cheiro de seu hálito fedorento e ver os pelos eriçados em seu queixo com a barba por fazer. Para se proteger, levantou as mãos na frente da própria face enquanto ele parecia berrar de forma abusada goela abaixo, por entre sua arcada superior desdentada:

— Você é a próxima, gracinha! Você é a próxima maldita! — gritou, outra vez, golpeando o ar em frente ao rosto de Laura, com o cotovelo erguido e o dedo indicador apontando para ela.

Então, de modo um tanto quanto inexplicável, virou-se novamente e cambaleou rua abaixo, fazendo com que a outra ficasse em estado de choque e com muito medo, sentindo um gosto amargo de ferro na boca, e a nauseante descarga de adrenalina a correr pelas veias.

Ela ainda se sentia um tanto trêmula alguns minutos depois, quando o lustroso e novo Audi prateado de Michael parou junto ao meio-fio.

Como ficou aliviada por vê-lo!

Assim que entrou no carro, decidiu não sobrecarregar o marido com o que havia acabado de acontecer. Ele já estava suficientemente preocupado. Mas enquanto dirigiam para casa pelas ruas da cidade, sob forte chuva, Michael percebeu que ela estava surpreendentemente calada.

— A morte de Ron está realmente te perturbando, não é?

— Sim. Eu acho que sim — respondeu, subitamente consciente do quão tensa se sentira, mesmo antes do encontro desagradável daquela noite.

— Não é de se surpreender. Especialmente depois de tudo o que passamos — acrescentou, sentindo pena dela.

Laura observava a chuva batendo contra a janela do carro.

— Mas eu ainda não compreendo por que ele morreu com aquela coisa nas mãos — ela disse, após uma pausa.

Eles pararam em um semáforo vermelho.

— É apenas uma coincidência, Laura. Só isso.

— Eu não sei — ela suspirou. — Há alguma coisa nisso que faz com que me sinta apreensiva.

Michael olhou para ela e pegou sua mão:

— Você está cansada e em estado de choque. Provavelmente anda lendo demais sobre tudo isso. É apenas um artefato de pedra esculpida como todos os outros com que você trabalhou, somente um singelo objeto antiquado e nada mais — disse com firmeza.

Michael estava certo. Em que ela estava pensando? Estava sendo ridícula. Aqui estava ela, Dra. Laura Shepherd, uma acadêmica notável e respeitada. Ela não era de se apavorar ou ter medo de uma simples representação de um crânio humano, por mais macabra ou misteriosa que fosse, e não importavam as circunstâncias de sua descoberta.

Como ela mesma havia acabado de dizer a Janice, a caveira de cristal não tinha nada a ver com a morte de Ron. Tudo isso era esquisito, uma infeliz coincidência, e certamente havia uma explicação simples, racional e científica para tal.

Quando pensava nisso, conseguiu relaxar pela primeira vez depois que tudo aquilo acontecera. Então, teve uma idéia.

É isso! Solicitaria que fossem feitos testes na caveira.

“Por que eu não pensei nisso antes?”

Sentia estar flutuando ao pensar que havia um caminho adiante.

As luzes do semáforo tornaram a ficar verdes, e eles seguiram em frente.