O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 65 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 62

Ele era um homem maia e teria sido classificado como “idoso” em sua tradição, ou seja, qualquer pessoa viva com mais de 52 anos. A verdade, porém, era que ele poderia ter qualquer idade entre essa e 80. Uma pele de jaguar repousava ao redor de seus ombros, e sua cabeça estava adornada com um cocar de penas coloridas e brilhantes.

Ele se aproximou e segurou uma tigela de terracota nos lábios de Laura. Enquanto ela bebia da poção estranha e amarga, fitou os olhos escuros do homem. Ele retribuiu o olhar com uma intensidade assustadora. Por um momento, sentiu como se ele estivesse vendo tudo que havia nela, como se ele conseguisse enxergar bem dentro de sua alma. Ele afastou a tigela e desapareceu na mortalha da fumaça de incenso.

Deve ter sido algum tempo depois que Laura distinguiu o contorno da cabeça e dos ombros do homem, quando ele se ajoelhou um pouco afastado, com as costas viradas para ela. Percebeu que era dele que o som de cantoria tinha vindo. Ela tentou chamar esse estranho, mas as palavras não se formaram, seu corpo estava muito fatigado. Cansada demais para falar, permaneceu apenas observando.

O cheiro do incenso e o som da cantoria tinham efeito estranhamente hipnótico. Assim que palavras esquisitas a acalmaram e inundaram, Laura tomou conhecimento de que o temor e a ansiedade que haviam lhe tomado no princípio agora tinham acabado.

Sem ao menos perceber, aquelas ansiedades que a haviam impelido a refirmar sua identidade constantemente, para reivindicar quem era, para demarcar seu território, eram companheiras de longa data. Laura Shepherd, a boa filha, a estudante esperta, a arqueóloga brilhante, a esposa e mãe amorosa, e agora isso.

Semi-nua, ferida e sozinha, salva por aquele estranho, não sabia onde estava ou como havia chegado lá. Ela não era ninguém em algum lugar, confusa se estava morta ou viva, presa simplesmente aos sons que eram despejados para fora, profundos e rudimentares, sons que pareciam ecoar de uma era e espaço diferentes, sons que pareciam alcançar além da experiência cotidiana do ser humano para tocar algo mais profundo, algo mais antigo e intangível. Na próxima vez em que Laura abriu os olhos, a fumaça havia se dispersado, e a dor em seu braço havia quase se extinguido. No entanto, demandou uma grande força de vontade para se apoiar sobre o cotovelo bom e perceber o que havia ao seu redor.

A caverna na qual agora se encontrava tinha formato quase circular e o tamanho aproximado de uma pequena sala de estar. A única fonte de luminosidade vinha de muitas velas queimando do lado oposto da caverna, embora a maioria estivesse oculta pelo homem que estava sentado em frente a elas.

Franzino, ele se ajoelhou no chão, à entrada de um dos pequenos retiros. Sua cabeça estava inclinada, e ele sussurrava e entoava cânticos em Maia. Ramos de flores estavam dispostos à sua frente, suas exuberantes cores tropicais iluminadas à luz das velas. Parecia que ele se ajoelhara à frente de algum tipo de santuário ou altar. “Talvez estivesse rezando ou meditando”, Laura pensou.

Observando-o, teve a sensação estranha de que já o conhecia, mas não conseguia ter certeza. Muitos detalhes de sua vida tinham se tornado nebulosos.

— O que aconteceu? Onde estou? — ela finalmente reuniu forças para perguntar.

A figura sombria caiu no silêncio e virou-se na direção dela.

— Encontrei você no rio. Você tem sorte por estar viva. Agora deve descansar e se recuperar.

Ele virou-se novamente para o altar.

O sistema subterrâneo do rio no qual Laura havia mergulhado na noite anterior na verdade emergia acima do nível do solo, menos de 400 metros de onde ela fora encontrada inconsciente, quando sua cabeça se chocou contra uma rocha na passagem subterrânea. O rio emergia como uma pequena cachoeira a caminho de um precipício de calcário baixo sob o qual havia uma piscina utilizada como fonte de água fresca pelos aldeões locais. Foi lá que essa pequena figura sombria encontrara Laura boiando com o rosto virado para cima, inconsciente, mas ainda respirando, antes de arrastá-la para dentro da caverna para que se recuperasse.

— O que aconteceu com meu braço?

— Eles atiraram em você. A ferida não está profunda. Ela cicatrizará.

Não fazia sentido para ela. Sua mente estava em branco, incapaz de rememorar os acontecimentos que ele descrevera. Ela parecia não ter nenhuma memória.

— Quem atirou em mim?

O homem levantou-se exaustivamente, com o ar de alguém que carregava o peso do mundo sobre os ombros cobertos com pele de jaguar.

— Como a antiga cidade ficou de repente cheia de mercenários, presumo que talvez tenha sido um deles.

Então, entregando para ela uma muda de roupa de algodão branco, ele a informou:

— Suas roupas ainda estão secando no lado de fora. Coloque isso — ele virou-se quando ela começou a se vestir. Ao fazer isso, ela examinou a região de seu braço que havia sido ferida na noite anterior e descobriu que tinha sido coberta e recebido um curativo.

— Você cuidou do meu braço. Obrigada.

Havia algo familiar nesse estranho, uma sensação inevitável de que seus caminhos já haviam se cruzado. Ela nunca tinha visto um homem maia vestido em tal estilo cerimonial que ainda falasse inglês como se tivesse utilizado bastante o idioma. Isso era incomum entre aqueles que ainda adotavam modos tradicionais.

— Tenho certeza que já o vi em algum lugar antes — Laura disse.

Ele não respondeu, mas, em vez disso, começou a esmagar sementes de um saco sobre uma pedra lisa que servia muito bem de mesa; em sua superfície, uma confusão de potes e tigelas, garrafas de líquidos, ramos de plantas, cascas de árvore e sementes.

De repente, Laura o reconheceu.

— É isso! — ela fez grande esforço para se sentar, tentando ignorar a dor em seu braço. — Você estava na pista de pouso. Você me perguntou sobre Ron — ela chamou novamente a figura encharcada que havia aparecido misteriosamente na floresta quando chegara.

— Dr. Brown disse que você é um xamã.

Ele olhou para cima de maneira brusca.

— Ninguém me chama assim.

— Por que não?

Ele voltou sua atenção às sementes.

— Sou apenas um curandeiro. Não mais que isso.

Ele colocou sementes dentro de uma tigela com líquido.

— Meu nome é Hunab Ku — disse, sem olhar para cima.

— Sou Laura Shepherd, arqueóloga do Instituto Geográfico Smithton.

Posicionou um pouco de carvão dentro de uma concha, esticou o braço para apanhar uma vela e acender o carvão.

— … O que há de errado em ser chamado de xamã?

Laura sabia que xamãs tinham um papel importante a desempenhar tanto na cultura maia antiga como na contemporânea. Eles tradicionalmente combinavam as funções de sacerdote e curandeiro. Dizia-se que os xamãs possuíam conhecimentos sagrados especiais e, até onde Laura sabia, eles sempre tinham sido profundamente respeitados pelos seus companheiros de tribo.

Hunab Ku suspirou.

— Ninguém mais quer ser xamã.

Pegou um punhado de cristais de resina escura e os sacudiu sobre as brasas.

— Ser xamã é caminhar entre este mundo e o seguinte. Significa vagar pelo limite de tudo o que você conhece, e quando você está no limite da realidade, vê coisas que outras pessoas não conseguem, e pode ser difícil viver com isso.

As brasas escuras de carvão começaram a cintilar, vermelhas com o calor.

— De onde você vem, muitos desses que chamaríamos de xamãs são rotulados de loucos e presos. — Ele soprou as brasas.

Enquanto Laura o observava, tudo começou a voltar para ela, o que havia acontecido. Os acontecimentos que a haviam levado até lá começaram a ficar claros em sua mente.

Esse era o mesmo homem que havia lhe perguntado sobre seu colega Ron Smith e havia ficado arrasado com a notícia de seu falecimento.

— Então Ron Smith era um amigo seu? — ela perguntou.

— Não. Nunca o conheci.

Isso intrigou Laura. Por que ele não estava dizendo a verdade sobre Ron? Ele havia reagido à notícia da morte de Ron do modo pelo qual você só poderia esperar que um amigo o fizesse. Laura esperava que esse homem pudesse conseguir ajudá-la a juntar as peças da função que Ron havia desempenhado nos acontecimentos com os quais havia se envolvido.

— Mas você ficou tão chateado com a notícia de sua morte — algo mais que o xamã havia dito na pista de pouso na floresta a incomodava. — E quando me perguntou sobre Ron Smith, você disse que sem ele não havia esperança para nenhum de nós. O que você quis dizer? Eu não compreendo.

Os olhos do homem maia retiveram os dela em um olhar penetrante.

— Você não leu a pedra profética?

De repente, as compotas da mente de Laura se abriram por completo. É claro, a horrenda pedra profética, com sua terrível previsão sobre o futuro. “Como eu pude esquecer?”

— Ó, meu Deus, sim! As crianças do futuro… Todas morrerão. Nós temos que fazer alguma coisa. Nós temos que salvá-las!

A urgência completa de sua missão retornou a Laura assim que a névoa que havia submergido sua consciência de repente se dissipou. Ela tentou se levantar.

— O que você está fazendo? — o xamã olhou fixamente para ela.

— Preciso descobrir o que vai acontecer.

— Apenas os que estão no outro lado sabem disso — o incenso ondeou-se na frente de Hunab Ku, e, por um instante, seu rosto ficou oculto à visão de Laura.

No entanto, ela não tinha tempo para gastar com alguém que falava com enigmas. Esforçou-se muito para se levantar novamente.

— Preciso voltar para o interior daquela pirâmide e ver se há mais algum hieróglifo — a urgência soou em sua voz.

— Você não poderá nunca mais voltar lá — o xamã disse de modo firme. — O lugar está fervilhando de soldados, todos procurando por você.

— Mas algo terrível acontecerá, e eu preciso descobrir o quê.

Foi apenas neste instante que ela percebeu que não estava em posse da caveira de cristal. Sabia que sem ela não conseguiria traduzir mais os hieróglifos, mas não a vira desde que quase se afogara no rio subterrâneo.

— O, meu Deus! Onde está?

Ela começou a entrar em pânico, procurando ao redor desesperadamente por sua preciosa caveira de cristal.

— É isto que você está procurando?

Hunab Ku afastou-se para revelar a caveira de cristal brilhando no altar, sobre uma toalha vermelho-sangue e iluminada pela luz tremeluzente de mais de cinqüenta velas. Ela brilhava e cintilava, e parecia quase sorrir diante de Laura. Estava cercada por pequenas tigelas de argila, cada uma delas cheia de uma substância diferente: sal, cobre, cristais de copai. Laura presumiu que fossem oferendas aos espíritos e ancestrais. Tinha visto tais cenas pintadas nos potes de terracota vermelho-fogo produzidos pelos antigos maias.

Ao lado da caveira de cristal, os olhos ocos de caveiras de verdade olhavam fixamente de volta para ela, cercadas de flores. Esse objeto que tanto a havia enchido de medo agora parecia magnífico, com uma beleza tão rara e frágil que quase lhe tirou o fôlego. Parecia quase como se estivesse reluzindo com uma luz interior brilhante e resplandecente no retiro escuro da caverna.

— Encontrei-a no rio, próximo de você — Hunab Ku explicou.

— Graças a Deus! — Laura exclamou, enquanto cambaleava até ela. Nunca tinha estado tão contente por ver a caveira de cristal.

No entanto, assim que se curvou para apanhá-la, fez uma pausa. Embora precisasse dela para traduzir os hieróglifos, parecia quase um sacrilégio tirá-la do lugar. Teve uma sensação esmagadora de que era àquele lugar que a caveira de cristal pertencia. Não a algum museu, presa dentro de um envoltório de vidro, para ser observada apenas com distanciamento acadêmico ou interesse impassível e profissional. Ou ainda pior, sujeita a risadinhas de estudantes, ou objeto de pura exibição e horror. Era àquele lugar que um objeto como aquele pertencia, nas profundezas deste receptáculo da Terra, neste lugar em que fora guardado e reverenciado.

E quando Laura a levantou do altar, sentiu como se um feitiço tivesse sido quebrado, como se algum processo profundo e mágico tivesse sido interrompido ou diminuído.

A caveira pesava em seus braços enquanto cambaleava em direção à saída da caverna. Cada passo era uma provação. Do lado de fora, a grande extensão de céu noturno acenava para que deixasse os confins da caverna e continuasse sua jornada em busca de respostas, mas seu corpo resistiu. Afundando-se de volta à entrada da caverna, ela aguardou seu fôlego, sua energia, retornar.

Havia uma pequena clareira no lado externo da caverna, no centro da qual estava uma pilha de cinzas, um lugar onde as fogueiras eram queimadas. Floresta escura rodeava o lugar. Mais do que isso ela não conseguia ver.

A caveira apertava o colo de Laura, pesada como uma rocha. Não havia força sobrando nela e não tinha meios de retornar à pirâmide em seu estado atual. Suas mãos mal eram capazes de segurar a caveira. Ela podia senti-la escorregando por entre os dedos.

— Você entende que as respostas que você busca não estão dentro daquela pirâmide? — o xamã falou delicadamente.

Ela olhou para cima, surpresa. Não havia percebido que ele havia saído da caverna, mas lá estava ele, em pé ao lado dela.

— Tudo o que está escrito naquela pedra originou-se desta caveira — ele tirou a caveira de cristal das mãos dela de modo suave.

Laura estava intrigada.

— O que você quer dizer?

— Para seu povo, este é apenas um objeto, mas, para o meu, esta caveira significa muitas, muitas coisas. Você sequer é capaz de começar a compreender o quão importante ela é para nós.

Ele levou a caveira de volta à caverna, colocou-a sobre o altar e caiu sobre os joelhos em frente a ela. Ele fechou os olhos e começou a entoar, mais uma vez, cânticos em maia.

A atmosfera reverenciai fez Laura se sentir incomodada, como se estivesse se intrometendo em um momento íntimo. Ela não sabia o que fazer. Não havia meios de retornar a Luvantum, mas estava desesperada para saber mais sobre a terrível profecia que havia acabado de ler no portal de pedra com hieróglifos e sua ligação com a caveira de cristal.

“O que o xamã quis dizer quando disse que a informação na pedra profética originava-se da caveira de cristal? Como isso era possível?” Ela queria perguntar para ele, mas não parecia ser o momento apropriado para fazê-lo. Então, em vez disso, se afundou no chão pesado de pedra diante do altar e aguardou.

Parecia que seus instintos estavam certos na primeira vez em que encontrara esse homem, quando havia ficado dividida entre segui-lo na floresta e seu desejo igualmente forte de encontrar a pedra profética. Parecia que ele sabia do que ela precisava com urgência. Alguém que finalmente poderia conseguir ajudá-la a chegar ao fundo desse mistério dos hieróglifos, sua mensagem e o que poderia ser feito a respeito deles.

“Mas por qual motivo ele estava sendo tão misterioso e por que ele dissera que não havia esperança sem Ron? O que ele quis dizer?”

Caveiras de pedra, lavradas em calcário encharcado, olhavam para Laura do teto. Nuvens de incenso se enrolavam como cobras, subindo a partir do chão.

Ignorando a presença dela, o xamã sentou-se imóvel diante do altar. Laura não conseguia esperar que ele parasse de sussurrar e rezar.

A luz da vela, o rosto do xamã parecia cristal de rocha liso, as rugas e sua expressão preocupada se foram, transportadas em um devaneio silencioso de paz, e ele começou a entoar:

- Oxlahun baktun, mi katun, mi tun, mi kin — ele repetiu as palavras diversas vezes, cada vez mais alto, até ecoarem pela câmara, como se ele não mais cantasse sozinho, mas em uníssono, com outras mil vozes.

No lado de fora, a luz do sol começou a cair. À distância, veio o urro intermitente do macaco-uivador, o murmúrio de mil vozes animais, e logo uma noite estava sobre eles. Laura ainda esperava, quando a sede apanhou sua garganta e o cansaço arrebatou seus membros.

Hunab Ku finalmente se levantou e acendeu um pequeno lampião. Ele hesitou em frente à pedra que servia de mesa antes de apanhar uma garrafa de uísque e sair de lá. Laura o seguiu enquanto ele caminhava até um tanque de água escondida entre algumas pedras próximas. As águas brilharam pretas e douradas à luz do lampião, assim que ele o repousou. Tirou um pouco de água com uma tigela e bebeu. Virou-se para Laura e ofereceu um gole. Ela bebeu o líquido frio e fresco como se sua vida dependesse dele. O xamã virou-se para olhar para as estrelas brilhando sobre sua cabeça na ampla faixa da Via Láctea, antes que Laura quebrasse o silêncio.

— O que você fica entoando?

— Estou rezando para ter assistência dos espíritos e dos ancestrais — ele disse. — Nós precisaremos da ajuda deles em um dia específico, no futuro não muito distante.

— Claro, é isso! — Laura teve uma percepção súbita. — Você está entoando o nome de um dia, uma data. E o dia

“Oxlahun baktun, mi katun, mi tun, mi kin” no antigo calendário maia. É o dia “treze baktuns, zero katuns, zero tuns e zero kins” na Contagem Longa. O dia treze, zero, zero, zero, zero. É traduzido para nosso calendário como 21 de dezembro de 2012, daqui a apenas cinco dias.

— Você conhece nossas datas do calendário Venusiano de Contagem Longa. Estou impressionado.

— Agora faz sentido, agora eu compreendo o que você está entoando. Laura estava animada com o avanço na compreensão. — Então o que vai acontecer?

— Isso é conhecimento sagrado — respondeu o xamã. — Isso não é algo que discutimos com alguém que parece estar de passagem — olhou para ela de modo depreciativo.

— Veja, não é como se estivesse aqui por acidente — Laura declarou-se. — Estou aqui porque vim ler a pedra profética. Estou aqui porque a caveira de cristal me guiou até aqui. Sei que algo terrível acontecerá em menos de uma semana. Eu sei que todas as crianças do futuro morrerão, e eu preciso saber como. Preciso saber, para que eu possa tentar salvá-las.

— Não são apenas as crianças — respondeu o xamã solenemente. — Para os antigos que esculpiram aquela pedra, todos nós somos “as crianças do futuro”. Todos nós morreremos em apenas cinco dias, e ninguém pode nos salvar.

— Por quê? O que vai acontecer? — Laura perguntou.

— Como disse, somente os que estão no outro lado sabem disso — ele respondeu misteriosamente.

— O que você quer dizer?

— Você não compreenderia mesmo se eu dissesse.

Laura sentiu que estranhamente se lembrava das palavras de Anna Crockett-Burrows quando fora vê-la pela primeira vez.

Ela tentou outro rumo.

— Então me fale sobre a caveira. O que você quis dizer quando falou que tudo que está escrito na pedra originou-se desta caveira?

— Então você não ouviu a lenda das caveiras de cristal?

— Eu estaria perguntando a você caso tivesse ouvido? — Laura respondeu.

O xamã maia olhou diretamente para ela, a luz das estrelas refletindo em seus olhos escuros.

— Muito de nossa sabedoria está oculta em lendas. Há algumas verdades que são poderosas demais para a maioria das pessoas compreenderem, e essas verdades têm que ser protegidas. É por isso que estão disfarçadas em lendas, de modo que somente aqueles que buscarem ouvirão verdadeiramente.

— Então, o que diz a lenda da caveira de cristal?

O xamã virou-se e apanhou algumas pequenas toras de uma pilha armazenada ao lado da entrada da caverna. Ajoelhou-se para fazer uma fogueira e acendê-la. Assim que a fogueira crepitou, ganhando vida, ele sentou-se em um grande tronco ao lado dela.

— Eu nunca falei para ninguém de fora da minha tribo sobre as caveiras de cristal antes — ele comentou.

Você quer dizer que há mais de uma delas? — Laura perguntou, sentando-se ao lado dele.

Hunab Ku deu um suspiro profundo. Fixando os olhos em Laura, começou a falar.