O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 2
Antes que Laura percebesse, a sala estava tomada por policiais e peritos forenses, todos em busca de impressões digitais, removendo objetos e papéis e lacrando-os em sacos plásticos transparentes. Levantou-se e viu um fotógrafo da
polícia tirando com flashes uma série de fotos do corpo pálido e inerte de Ron.
O Detetive Frank J. Dominguez era um bem encorpado afro-descendente que se tornara muito arrogante só porque trabalhara muitos anos na corporação. Inclinou-se sobre o corpo de Ron, examinando-o cuidadosamente de diferentes ângulos.
— Então você ouviu uma espécie de sussurro — disse, observando Laura com desconfiança — Depois desceu as escadas para investigar. E foi exatamente desse modo que você o encontrou, certo, Dra. Shepherd? — perguntou, com sua voz extremamente grave que parecia ter se desenvolvido durante uma vida inteira de trabalho nas ruas.
— S… Sim — ela respondeu hesitante, estarrecida com o choque, ao mesmo tempo em que observava o corpo de Ron Smith ainda estendido na escrivaninha. Era difícil se conformar com o fato de que aquele corpo ali na escrivaninha era de Ron Smith que, aliás, mais cedo naquela mesma tarde, lhe dera um sorriso radiante na cantina; o mesmo Ron Smith que se vestia com aqueles suéteres medonhos e sempre ia a Cape Code durante as férias, todos os anos.
Um jovem policial entrou na sala para falar com o detetive.
— Fizemos buscas em todo o prédio, mas não há sinal de nenhuma pessoa que não devesse estar aqui, senhor.
Detetive Dominguez acenou com a cabeça antes de se virar novamente para Laura.
— Então, você está dizendo que ele começou a trabalhar aqui antes de você e, ainda assim, você mal o conhecia?
Laura sentiu uma ponta de acusação no tom da fala do detetive.
— Sim. Ron é… quer dizer, era — corrigiu-se — uma pessoa muito reservada.
— Hummm. É isso? — Dominguez lançou um olhar indiferente ao cadáver de Ron. Ele deve ter visto tanto esse tipo de coisa que nem se aborrecia mais.
— Deixe-me ver se entendi — ele se virou mais uma vez para Laura e fixou o olhar. — Vocês dois… o que é isso? — lançou-se rapidamente até o computador para encontrar a página correta — Eram especialistas em antiga civilização maia, e você não faz idéia de qual era o trabalho que o Dr. Smith vinha realizando antes de morrer?
Soou como se ele não gostasse muito de “especialistas” de qualquer espécie.
— É isso mesmo — respondeu Laura, dando impressão de que queria se defender. — Todos nós temos áreas muito específicas de atuação. Eu sou especialista em hieróglifos, e Ron trabalhava mais com o lado antropológico das coisas.
— É verdade? — disse Dominguez. — “Ah… esses “intelectuais no museu”’, pensou consigo mesmo. Ele não conseguia pensar em nenhum outro trabalho no qual duas pessoas pudessem desempenhar quase a mesma função e não saber o que o outro faz. Além disso, parecia estranho para ele que dois especialistas em civilização maia fossem as únicas pessoas no museu depois da meia-noite, e agora uma delas estava morta.
Laura procurou explicar melhor:
— Ron assumiu todo o trabalho de campo alguns anos atrás, quando minha função se tornou mais relacionada ao escritório.
— Ó, é mesmo? Por que isso?
— Eu tive compromissos familiares — respondeu.
Sua mão subiu para tocar o pequeno pingente de prata em formato de coração que usava em torno do pescoço.
— E você não conhece ninguém que tenha algum tipo de ressentimento em relação a ele, ou que aparentemente não gostasse dele? — perguntou Dominguez, balançando a cabeça casualmente na direção do cadáver.
— Não, o Ron não — respondeu. — Ele era uma alma bondosa e tranqüila.
— E algo ou alguém que o estivesse incomodando, algum estranho por aí perguntando por ele, ou qualquer coisa fora do comum? — o detetive repetiu sua lista de perguntas-padrão com um tédio evidente.
Laura respondeu negativamente, maneando na cabeça.
Dava-lhe arrepios só de pensar que Ron poderia ter sido assassinado. “Ele não pode ter sido” — continuou falando para si. Ela, contudo, tinha ouvido vozes fora de sua sala. “Deveria ter mais alguém no museu. Mas por que alguém iria querer matar Ron?”
— E até onde você saiba, ele não estava enfrentando dificuldades financeiras, questões de saúde, problemas familiares ou coisa parecida?
— Até onde sei, não… embora sua esposa tenha morrido de câncer alguns anos atrás.
Tudo ao redor que tivesse pertencido a Ron estava sendo coletado, embalado e etiquetado.
— E você não faz idéia do que seja isso? — o detetive apontou para o objeto misterioso sobre a escrivaninha de Ron.
— Não. Eu nunca vi nada parecido.
Laura fitou o estranho objeto que, poucos momentos antes, havia rolado das mãos do homem morto em direção a ela. Um arrepio desceu por sua espinha quando se recordou. Tinha o mesmo tamanho e formato de um crânio humano, porém era feito de um material transparente que parecia cristal sólido.
— Mas ele a segurava quando eu o encontrei — completou.
— Você tem certeza? — questionou o detetive.
— Absoluta. Ela rolou das mãos dele quando eu o chacoalhei.
— Certo — disse Dominguez e virou-se para seus subordinados, pensando: “ei, caras, mostrem, do que são capazes”.
Laura observava um fotógrafo da polícia tirar várias fotos em close da caveira antes de dois peritos forenses, munidos de luvas, se aproximarem, pegarem-na cuidadosamente, lacrarem-na em uma caixa, etiquetarem-na e a levarem.
Quando dois paramédicos chegaram com uma maca, o Detetive Dominguez gentilmente sugeriu a Laura:
— Você pode ir agora. Isto não será nem um pouco bonito.
— Concordo, tudo bem — respondeu, dizendo aquilo também para si. Ela sentiu-se estranhamente imparcial, como se aquilo estivesse acontecendo com outra pessoa e não com ela.
Assim que os paramédicos começaram a remover o corpo do estudioso de cima da escrivaninha, o detetive descobriu algo que estava oculto embaixo do tronco estendido de Ron.
— Que diabo é isto aqui? — perguntou Dominguez.
Laura inclinou-se para ver o que era.
Um bilhete manuscrito, provavelmente feito às pressas, estava sobre a mesa de trabalho. Laura reconheceu a letra de Ron. Foi sua última anotação, que simplesmente dizia: “Eu vi o futuro…