O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 10 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 6

Laura deixou escapar um suspiro profundo assim que a porta fechou firmemente atrás do Professor Lamb. Ela ressentiu-se por ter que investigar a caveira de cristal em vez de prosseguir com seu verdadeiro trabalho. Não era por que

não se importasse com Ron, ela se importava sim, mas apenas não conseguia entender o que esperavam que ela fosse capaz de descobrir a respeito de sua morte, se até a polícia não o fizera.

A antiga civilização maia da América Central era sua área de especialização, e não queria que nada a desviasse da importante tarefa que estipulara para si mesma: tentar traduzir a misteriosa pedra profética maia.

Encarou, lamentando, o imenso pedaço semicircular de calcário branco que repousava sobre a mesa. A pedra a fascinava há semanas, desde quando fora confiscada pela alfândega e cedida ao museu. Era difícil explicar, mas sentia que havia descoberto algo em relação a essa pedra. Ela nunca vira antes um entalhe maia de tamanha magnitude ou com o mesmo patamar de complexidade no formato de seus glifos. Secretamente tinha a esperança de que a pedra pudesse fornecer respostas a algumas das questões que mantinha acerca dos antigos maias, uma civilização cujos fatos essenciais são quase desconhecidos.

“Aquele Professor Lamb não iria gostar de nada disso”, ela pensou. “Ele está sempre mais interessado na política do próprio escritório do que no apogeu e na queda das antigas civilizações. Eu não sei por que ele se incomoda em trabalhar num museu, afinal de contas. Poderia muito bem trabalhar em uma fábrica de clipes de papel”, viu-se criticando por dentro.

Para Laura, hieróglifos maias eram mais do que apenas escrita. Eram obras de arte que transmitiam a profunda compreensão filosófica que os maias possuíam de seu mundo e lugar no universo. Havia uma riqueza em relação a seu modo de ver as coisas que agradara a Laura desde a primeira vez em se pusera diante de sua antiga cultura singular.

Seu fascínio pela antiga civilização maia de fato começara quando era apenas uma criança. De férias com os pais na América Central, eles a haviam levado para visitar as antigas ruínas maias de Tikal, na Guatemala. Lá, contemplara as pirâmides gigantes que se erguiam do solo da selva sobre as copas das árvores. Ela fora cativada pelas elaboradas obras de arte maias, seus deuses misteriosos, reis melancólicos, padres-astrônomos e animais sagrados. Mesmo quando era uma criança de 8 anos de idade, ao olhar para as escritas em hieróglifos sentiu que essas pessoas antigas possuíam o conhecimento que havíamos perdido ou, de alguma forma, esquecido.

Então, assim que completou dezoito anos, decidiu graduar-se em arqueologia, especializando-se em estudos maias. É óbvio que seu pai mostrara-se desapontado com o fato de ela não ter escolhido seguir a carreira jurídica, acreditando que a filha possuía todas as qualidades necessárias para se tornar, a exemplo dele, uma advogada comercial de sucesso. Aquelas pedras antigas, no entanto, tocaram sua alma, e ela sentiu-se incitada a estudá-las mais a fundo.

Mas agora, sem dúvida, descobrira que os antigos maias constituíram uma das civilizações mais avançadas e enigmáticas que mundo jamais havia conhecido — surgindo como se viesse do nada, já extremamente desenvolvida, mesmo antes da época de Jesus Cristo.

Erigiram cidades imensas, com templos, palácios e pirâmides profundas no meio da floresta tropical e alcançaram níveis extraordinários de realização artística e científica. Construíram estradas para pedestres, possuíam um sofisticado sistema matemático que incluía a criação do conceito de zero e tinham um calendário completo, cuja precisão científica era superior a do nosso. Baseados nos verdadeiros movimentos dos planetas e das estrelas, utilizavam esse calendário para fazer as previsões mais incrivelmente precisas — muitas das quais tornaram-se realidade.

Por volta de 890 d.C., a civilização maia do período Clássico desapareceu de modo misterioso, por razões que permanecem desconhecidas até os dias de hoje. Sabidamente eles abandonaram suas maravilhosas cidades, deixando-as serem tomadas mais uma vez ao longo da floresta. Questões como de onde os maias surgiram, o modo pelo qual obtiveram seu conhecimento avançado e por que sua civilização de repente caiu em colapso e desapareceu permanecem uma fonte de grande controvérsia entre os arqueólogos.

É por esse motivo que a pedra profética que agora repousa sobre a mesa de Laura parecia tão importante para ela. Laura tinha a esperança de que o artefato pudesse fornecer uma idéia em relação ao futuro, de acordo com a crença dos maias. Por tudo o que ela sabia, a pedra poderia ao menos responder o mistério de por que sua civilização sumira.

Enquanto observava a pedra novamente, esta a comoveu de um modo tão estranho quanto na noite da morte de Ron, quando conseguira fazer sua grande descoberta. Foi quando traduzira a parte mais externa dos dois anéis de glifos que persistiram.

Seus dedos retraçaram o contorno da primeira inscrição. Era uma imagem do deus macaco, o antigo deus maia da escrita, e a ondulação de sua cauda significava que era no presente, tempo verbal impessoal. Então, o primeiro glifo dizia “Está escrito”.

O glifo seguinte era um símbolo de espiral, um pictograma para o movimento dos planetas e das estrelas enquanto se moviam pelo universo — o que para os antigos que o entalharam representava “os ciclos do tempo” —, seguido por um glifo de ligação. Então, os três glifos juntos diziam: “Está escrito… nos ciclos do tempo… que…”

Porém, o restante permanecia um mistério. O anel de glifos seguinte estava tão carcomido que Laura encontrava dificuldades em compreender o que diziam.

Pelo seu conhecimento em antigos textos maias, conseguia perceber que a maioria dos símbolos utilizados era o que eles chamavam de hieróglifos de “cabeça variante”, como a imagem da cabeça do deus macaco. Isso significava que se tratava de um texto sagrado, especialmente importante para aqueles que o entalharam. Quem os escreveu devia ter sido um alto sacerdote xamã. Somente aqueles com conhecimento acerca dos reinos sagrados teria permissão para criar tais trabalhos. Laura se perguntou quais segredos eles haviam entalhado nessa antiga superfície.

“Se eu conseguisse traduzir esses glifos desgastados”, pensou.

Mas é claro que, além disso, mesmo que pudesse traduzir todos os glifos que restavam, não tinha o pedaço inteiro de pedra. Ela pôde ver muito claramente que a pedra estava quebrada embaixo do segundo anel de glifos, e um grande pedaço dele faltava por completo, então havia outros hieróglifos que permaneceriam desconhecidos. Ela não poderia traduzir por completo, a menos que conseguisse encontrar o restante da pedra, e só Deus sabia de onde ela surgira. Suas origens estavam envoltas em mistério.

O tipo de glifo utilizado indicava que era do início da civilização maia, datado de antes de 200 d.C, e seu estilo decorado era característico da costa leste do antigo império maia, o que agora corresponderia à costa caribenha do México, Honduras ou Belize, mas a origem exata da peça continua desconhecida.

Tudo o que Laura sabia é que havia sido confiscada por um navio com registro filipino que tentara atracar no porto de Nova Iorque. O navio não possuía documentos para provar de onde realmente tinha vindo ou para onde estava indo, ou para autorizar o transporte de “uma parte de obra de grande antigüidade”, tampouco de qualquer outra carga contrabandeada que estava a bordo. Era, de fato, um navio pirata moderno.

Como aparentemente ninguém da tripulação falava uma palavra de inglês, foram incapazes de ajudar os oficiais da alfândega com suas perguntas. Mesmo com uma equipe de tradutores cobrindo toda a gama de suas línguas nativas suspeitas, parecia que nenhum membro da tripulação sabia de onde sua carga ou materiais ilícitos tinham vindo ou para quem eles a estavam carregando.

Eles claramente não tinham a intenção de parar em Nova Iorque, mas haviam sido obrigados a fazê-lo após encontrarem condições climáticas terríveis ao longo da costa oriental do Atlântico. Era claro que agora toda a tripulação estava detida aguardando deportação.

Laura recordava-se de ter sido chamada ao navio pela alfândega algumas semanas antes, a fim de tentar identificar alguns dos antigos artefatos encontrados no compartimento de carga. No interior úmido do navio, que cheirava distintamente a urina de rato, os oficiais da alfândega forçaram a abertura das portas de um dos containers de carga e acenderam suas potentes tochas para revelar os entalhes lindamente ornados da pedra profética.

Após Laura ter identificado a pedra como uma obra maia muito antiga, esta agora seria emprestada ao museu por período indeterminado, para estudos mais aprofundados, até que suas origens verdadeiras e o legítimo proprietário fossem confirmadas.

Tudo isso serviu para lembrar que havia todo um mercado negro lá fora, com negociantes obscuros de antigüidades roubadas, armas, drogas, peles de animais em extinção. Qualquer que seja o nome que você atribua, qualquer coisa que alguém esteja preparado para comprar, sempre haverá alguém no mundo, ou quadrilhas inteiras de marujos sem-terra e empresas de fachada clandestinas preparadas para fornecer.

Laura viu-se perguntando a si mesma o quanto nosso conhecimento acerca do mundo de nossos ancestrais havia sido arruinado por esses piratas, os quais lucraram com seu comércio ilegal desde os tempos antigos. Suas atividades se davam muito freqüentemente às custas de nossa compreensão da verdadeira história. “Mesmo a tradicional bandeira pirata, com a caveira e os ossos cruzados”, ela lembrou-se — “eles roubaram originalmente dos antigos maias, para os quais aparentemente havia sido um tipo de símbolo religioso. Se eu conseguisse encontrar o restante desse pedaço de pedra”, pensou. “Mas agora tudo vai ter que esperar!”

Ela se sentiu profundamente frustrada. Agora que havia sido aportada na investigação interna do próprio museu sobre a caveira de cristal, decidiu que seria melhor concluir a inquirição o mais rápido possível.

E foi com uma sensação de resignação relutante que dirigiu-se ao arquivo do museu, no porão, não para descobrir de onde sua preciosa pedra profética tinha vindo, mas para tentar desvendar as origens da igualmente misteriosa caveira de cristal.