O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 38 de 112

Páginas do PDF

O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 35

- Deviam ter se passado cerca de dez dias após a descoberta da caveira quando Anna começou a adoecer. Ela ficou mortalmente pálida, começou a vomitar, teve diarréia e febre. Em princípio, pensamos que ela havia contraído um caso particularmente grave de febre do viajante, mas não parava por aí. Eu havia sido designado médico honorário da viagem, com todo o suporte que eu podia oferecer depois de um treinamento de dois dias. Eu assumi as tarefas de enfermagem, secando sua fronte febril, procurando cobertores quando ela se queixava de frio — um sinal indubitável de temperatura extremamente elevada. Eu gastei todos os suprimentos que havíamos levado conosco e dei a Anna os comprimidos de quinina que sobraram. Ela não conseguia mantê-los no estômago.

“Eu estava muito preocupado com ela. Anna ficou cada vez mais delirante, murmurando, enraivecendo-se, cantando e sussurrando sobre a caveira. Apesar de meu treinamento como arqueólogo, comecei a temer que de algum modo a descoberta da caveira havia trazido azar para ela, embora me recusasse a utilizar a palavra ‘maldição’. Foi quando Gus Arnold identificou o amarelado de sua aparência como um sinal infalível de que ela contraíra malária.

Aquela altura Anna estava fraca demais para viajar. Não havia maneira de levá-la até o porto, onde poderíamos encontrar um médico para ela. Mesmo se mandássemos buscar ajuda médica, presumindo que poderíamos conseguir alguma, levaria semanas até a chegada de alguém. Eu assistia ao enfraquecimento de Anna dia após dia. Foi terrível. Ela vomitava água e havia atingido uma condição realmente muito crítica. Frederick estava consumido pela ansiedade. Ao final, por desespero, ele viu que restava somente um modo de agir.

Ele ouvira falar que existia um médico local, um xamã, ou curandeiro, que invocava o que você desejasse, e acreditava que a única chance de recuperação que Anna tinha estava nas mãos desse camarada. Então Frederick partiu para ver o chefe local e explicou a ele que Anna estava muito doente. Sentaram-se juntos em silêncio durante um longo período, enquanto o chefe ponderava o que fazer. Ele finalmente disse para Frederick que permitiria que o curandeiro cuidasse de sua filha, mas apenas sob a condição de que a caveira de cristal permanecesse para sempre com o povo maia de Luvantum.

Você pode imaginar como Frederick deve ter se sentido mal. Ele passara toda sua vida adulta em busca de evidências de Atlantis. Ele apostou tudo nisso, até mesmo as economias de toda sua vida. Agora que descobrira, tão perto quanto qualquer um, prova da existência de alguma civilização verdadeiramente antiga e tecnicamente avançada, estavam pedindo para que ele desistisse! Ele estava desolado. Sua filha, no entanto, estava no leito de morte; ele devia salvá-la, custasse o que custasse.

Ele concordou com os termos sem hesitar, embora mais tarde tenhamos descoberto que foram impostos, como ficou provado. Então, Crockett-Burrows só tinha uma prioridade, e ele faria o possível para salvar a vida de sua filha.

No meio de árvores altas, bem no canto da praça, os maias levantaram um pequeno abrigo circular feito de gravetos e galhos para armazenar a caveira. Eles a chamaram de Tchla Mon’, o ventre da grande mãe.

O curandeiro chegou pontualmente, um rapazinho forte com olhos penetrantes. O corpo esguio e flácido de Anna foi carregado para o interior escuro do abrigo e colocado em frente à caveira, que estava em uma pequena plataforma elevada no fundo. O curandeiro acendeu uma fogueira no centro e em seguida puxou a porta, fechando-a. Cães foram amordaçados para não perturbar os procedimentos, e as crianças foram mantidas distantes.

No silêncio, um cântico estranho e assustador se tornou audível dentro do abrigo e parecia quase ecoar através das árvores ao redor da praça. No total, esperamos durante três longas noites, enquanto Anna pairava à beira da morte. Foi como se o próprio tempo tivesse parado, enquanto aguardávamos notícias sobre o destino dela do lado de fora daquela cabana.

Ficamos mais tranqüilos quando os maias nos disseram que a morte poderia às vezes ser uma forma de cura, que de vez em quando era necessário que a mente saísse dos confins do corpo, de modo que pudesse se unir aos ancestrais. Não queria que Anna se fosse. Não queria que ela nos deixasse. Foi quando percebi o quanto ela significava para mim.

A verdade era que eu havia me apaixonado por ela. Eu gostei de sua companhia e queria estar com ela. Eu queria que aquela jovem durona e de espírito forte vivesse, mais do que eu havia desejado antes em minha vida. Eu não era um homem religioso, mas rezei por aquela menina. Eu me uni a Frederick e aos demais em turnos, mantendo vigília silenciosa do lado de fora daquele abrigo, dispersando aqueles que tinham ido para homenagear a caveira, até que tivéssemos certeza, de uma maneira ou de outra.

No quarto dia, o curandeiro saiu do abrigo. Ele havia trocado as peles de jaguar e vestia seu simples saco de algodão sobre o ombro, indicando que seu trabalho havia acabado. Corri atrás dele e perguntei como ela estava, em meu maia desajeitado. Ele simplesmente olhou para mim, o rosto impassível enquanto caminhava em silêncio para a floresta. Eu estava aterrorizado por Anna ter morrido. Com o coração pesado, inclinei minha cabeça e entrei no abrigo. Frederick estava ajoelhado ao lado da cama. Eu fiquei extremamente aliviado por encontrá-la muito fraca, porém viva. Era como se ela tivesse sido poupada por algum milagre. Eu teria pulado de alegria. Finalmente tudo pareceu certo no mundo. Eu tinha Anna de volta. É claro que naquele momento eu não sabia que estava prestes a perdê-la de novo.”

Os olhos de Richard encheram de lágrimas.

— Quer que eu peça algo para você? — Laura perguntou.

— Um copo d’água está bom para mim — Richard disse, esforçando-se para sentar-se confortavelmente de novo.

Ela chamou o garçom, e ele trouxe copos para ambos. Richard desviou o olhar para seu copo.

— E depois disso as coisas começaram a mudar — prosseguiu.

“Depois de sua doença, Anna ficou estranhamente retraída.

Talvez isso tenha ocorrido porque estava fraca demais para se juntar a nós na escavação, porém ela parecia passar cada vez mais tempo na presença dos habitantes locais. Eu a via entrar e sair do abrigo da caveira. Sentia como se a estivesse perdendo, muito embora ela não tivesse morrido. Ela estava diferente. Ninguém mais pareceu ter notado, estavam muito ocupados com as escavações no sítio, mas eu a sentia escapulindo de mim de uma maneira sutil e indefinível.

Mais ou menos nessa época Bunny ficou cada vez mais agitado. Ele disse que já havia passado da hora de notificar o Museu Britânico de que haviam feito uma descoberta de importância considerável. Frederick disse a ele que ainda não era o momento. Eu não sabia exatamente como ele pretendia explicar a Bunny e ao restante de nossa pequena equipe que havia prometido aos maias que estes ficariam com a caveira de cristal. Desconfio que ele também não tinha certeza, pois realmente parecia muito interessado em adiar tal momento.

O que aconteceu depois pegou a nós todos de surpresa. O chefe local chamou Frederick até sua cabana, junto com Anna. Mais tarde, Frederick veio até nós discutir o que havia acontecido. Recordo-me que estava perto de anoitecer e estávamos sentados sob a cobertura que havíamos montado provisoriamente para nos proteger do sol durante as refeições.

Havíamos acabado de comer um prato de tortillas e feijões, quando Frederick se aproximou. ‘Tenho algo a discutir com todos vocês’ — anunciou. Seu rosto mostrava uma ansiedade que ele tentava ocultar. “Quando Anna estava doente’ — ele começou — ‘pedi ajuda para os maias. Vocês todos sabem o quanto eu estava desesperado. Bem, eles concordaram sob uma condição. A condição era que eles ficassem com a caveira de cristal aqui em Luvantum’.

— ‘Mas nem no inferno, e eu espero que você diga a eles que…’ — Bunny afirmou despreocupadamente.

— ‘Bem’ — disse Crockett-Burrows, piscando nervosamente os olhos, diante dos membros da equipe — ‘na ocasião, eu tinha só uma preocupação: a vida de minha filha e como eu poderia salvá-la’ — disse. — ‘Eu fiz o que qualquer pai teria feito, dei ao chefe minha palavra de que a caveira poderia ficar’. Houve um silêncio atordoante no meio do grupo. —‘Eu sei o que vocês estão pensando, eu deveria ter mentido para ele. Pensei nisso, mas tinha certeza de que, se eu o fizesse, Anna não teria chances.’

— ‘Deus todo-poderoso!’ — Bunny disse. — ‘Eu não acredito!’

— Agora espere um momento’ — disse Crockett-Burrows — ‘não é tão ruim quanto parece. A notícia boa é que o chefe agora concordou em levarmos a caveira…’

— ‘Oba!’ — lembro-me de ter gritado antes de ver seus rostos paralisados, reprovando minha reação imatura. — ‘Sob uma condição’ — Frederick prosseguiu. ‘Que todos concordem em manter um voto de silêncio sobre a caveira para todo o sempre. O chefe acredita que é necessário proteger a caveira. Ele diz que não sabemos com que estamos lidando aqui. Essas são as únicas condições com que ele concordou para a caveira deixar Luvantum.’

Bem, é claro que Bunny ficou uma fera. Ele saltou do alto da mesa, jogando pratos de metal no chão que fizeram muito barulho. Ele se voltou para encarar Crockett-Burrows: ‘Nós fizemos a descoberta mais impressionante do século, e você está nos pedindo para manter sigilo a respeito! Não acredito no que estou ouvindo!’ — ele estava furioso, disse que era ‘absurdo’. Eu nunca ouvi nada parecido com o que ele berrou: ‘E sujeito nenhum dentro de uma cabana de barro vai me dizer o que fazer, muito menos quando se trata da caveira de cristal. Nós a encontramos, Frederick, não eles!’ — disse enquanto apontava o dedo na direção do vilarejo maia.

— ‘Não é tão simples assim’ — Crockett-Burrows disse, tentando tranquilizá-lo. — ‘Os maias alegam que já sabiam da caveira, mas não queriam causar tumulto até o momento certo.’

— ‘Que disparate!’ — Bunny gritou, ainda mais agitado. ‘Eu não vou ficar aqui, ouvindo essa conversa fiada’ — e com isso marchou para fora de sua cabana. Pude ver que não havia meios de Bunny concordar com aquilo.

Gus Arnold havia ouvido toda a briga sentado, em silêncio. Crockett-Burrows estava abalado com a resposta de Bunny. Ele virou-se para Gus: ‘O que você acha?’. As mãos de Gus ainda seguravam a xícara de café que ele estava bebendo quando Frederick chegou. Ele pareceu absorto por seus pensamentos: ‘Eu venho feito muitas coisas sobre toda essa história da caveira’ — ele respondeu. ‘O fato é que eu não acredito que o mundo esteja pronto para uma descoberta dessa magnitude’ — disse. ‘É tudo tão controvertido, tão desafiador!’

Gus suspirou, desviando os olhos para baixo. ‘Atingi um ponto em minha carreira no qual não vale a pena a frustração de apresentar algo que será recebido com fúria ou escárnio. Haverá um tempo em que nós, no mundo arqueológico, estaremos preparados para tamanho desafio, mas temo que o momento não seja agora’. Esticando-se para frente, ele deixou na mesa sua xícara de café: ‘Você tem minha palavra, eu não falarei com ninguém a respeito’. E então ele concordou com o voto de silêncio.

Bem, eu fiquei amargamente desapontado com a resposta de Gus. Esperava que ele fosse patrocinar a caveira, que a tornaria a peça central dos resultados da pesquisa feita na viagem.

Então percebi que seus olhos estavam sobre mim. Crockett-Burrows aguardava minha resposta. Eu não sabia o que dizer. Arrastei-me pelo chão para apanhar os pratos que Bunny tinha jogado.

Eu estava completamente dividido. Sabia que Gus precisava de um assistente de pesquisa para auxiliá-lo em seu próximo projeto, e eu me considerava a pessoa ideal para assumir a função. Gus e eu já havíamos trabalhado bem juntos. Mesmo se eu quebrasse o voto e falasse sobre a caveira, perderia as chances de ter o emprego no que dizia respeito ao Museu Britânico.

Bem lá no fundo, eu estava com Bunny, ele estava absolutamente certo. Aquilo era bom demais para esperar. Mas se eu falasse sobre o assunto, arriscaria minhas chances com uma das instituições arqueológicas de maior prestígio no mundo.

— ‘Posso pensar esta noite?’ — perguntei, devolvendo os pratos à mesa.

Dispersamo-nos naquela noite; havia uma tensão incômoda pairando no ar.

Fiquei deitado acordado a noite inteira, meus pensamentos eram interrompidos pelos barulhos dos animais noturnos na floresta, enquanto refletia sobre o que deveria fazer. A caveira e as circunstâncias de sua descoberta eram absolutamente incríveis do ponto de vista arqueológico. Qualquer arqueólogo poderia ver que aquele objeto não tinha sido feito pelos maias. A pergunta era: quem o havia feito e por quê? Seria uma área fascinante para pesquisar. Mas quem no mundo ortodoxo da arqueologia iria querer tocá-la? Era muito diferente. Desafiava tudo o que havia acontecido antes.

Eu poderia ser aquele que corresponderia ao desafio? Eu tomaria conta de tudo aquilo e diria ‘Sim, é o momento de revisarmos nossas noções restritas sobre o passado, tempo de considerarmos a possibilidade de uma civilização que existiu no passado longínquo, avançada em relação a nossa’. Faria como Galileu havia feito quando desafiou aqueles que continuavam a acreditar que a Terra era achatada. Eu seria o Galileu audacioso do mundo da arqueologia, desafiando a ordem das coisas. Todas as gerações precisaram de seus pioneiros, aqueles preparados para guiar o caminho e desafiar o statu quo.

Mas quando amanheceu, ficou claro para mim. Eu queria trabalhar. Gus Arnold era minha melhor chance para o cobiçado emprego de arqueólogo-assistente. Quanto à caveira de cristal, bem, eu concluí que Gus Arnold sabia o que era melhor. Se ele disse que o mundo da arqueologia não estava preparado para a caveira, quem era eu para desafiá-lo? Fui até Frederick e dei a ele minha resposta.”

Laura olhou para Richard.

— O que você deve se lembrar é que tudo isso estava acontecendo em uma atmosfera acadêmica muito diferente da que temos hoje. Isso foi nos anos 1930, e é óbvio que as pessoas são muito mais liberais agora, mas naquela época a arqueologia não costumava causar perturbações.

— Às vezes, eu me pergunto o que teria acontecido se tivesse revelado publicamente a caveira, se não tivesse medo de arriscar minha carreira e desafiar a ortodoxia tradicional. Mas você deve se lembrar que isso foi na época anterior aos arqueólogos da televisão, eu tinha receio de que não houvesse carreira para mim na arqueologia se eu desafiasse o modo pelo qual as coisas funcionavam.

“De muitas maneiras parecia uma atitude desonesta, uma delas é que não condizia com os interesses da profissão. Eu estava abandonando a verdade em favor da comodidade. Eu estava escolhendo a conveniência acima da ampliação do conhecimento, optando por um emprego em vez de trabalhar mais profundamente nossa consciência sobre nossas origens, de onde nós, como espécie, viemos e como nos desenvolvemos.”

Um senhor idoso apareceu na entrada do bar, vestido com um smoking de veludo vermelho.

— Senhoras e senhores, um momento de sua atenção, por favor. A cerimônia de premiação começará em vinte minutos — ele anunciou.

— Nosso tempo está esgotando, minha querida. É melhor eu continuar — Richard disse.

— Mas o que me intrigou — ele prosseguiu — foi por que o chefe maia mudou de idéia quanto à caveira. Em um minuto não conseguia tolerar que ela estivesse sendo levada e no seguinte concordou que ela poderia ir, contanto que suas condições fossem satisfeitas. Isso pareceu muito estranho para mim.

— Lembro-me de ter perguntado a Frederick por que o chefe havia mudado de idéia. Frederick pareceu culpado. Eu nunca me esquecerei de sua resposta.

— Graças a Anna — respondeu casualmente, dirigindo-se ao poço para se lavar.

Eu estava perplexo.

— Por quê? — vociferei.

— Ela quer se educar como uma sacerdotisa maia — foi a resposta de Frederick. Desse modo, completamente trivial. — Ela quer se educar como uma sacerdotisa maia — disse como se ela tivesse acabado de anunciar que iria cortar os cabelos!

— Eu fiquei atordoado!