O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 72 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 69

A expressão no rosto de Laura quando encarava a parede cinza da cela da polícia que a cercava era de alegria radiante. Para ela, não havia grades de ferro duras o suficiente restringindo-a, nenhuma sentença pesada aguardando por ela, havia apenas paz profunda. Sua mente estava totalmente ocupada com o que tinha visto dentro da caveira, repleta da lembrança maravilhosa que ela agora revivia.

Abraçou os joelhos e sorriu para si mesma. Não podia esperar até Michael chegar lá para que pudesse dividir as notícias com ele, envolve-lo em seu segredo glorioso. Alice estava viva e bem, no outro mundo dentro da caveira, e mais bonita e radiante do que poderia sequer imaginar.

Michael entrou no distrito policial e olhou ao redor de maneira inquieta. Aguardou em frente à área de recepção feita de madeira gasta, onde uma policial jovem e magra tinha uma conversa telefônica longa com um cidadão a respeito do procedimento policial.

Ele fitou o corredor de rostos nos “pôsteres de procurados”, copiados apressadamente, afixados no balcão dianteiro, meio que esperando que o rosto de Laura aparecesse. Ele era como um peixe fora d’água. Nunca tinha visto uma cela policial antes, ou mesmo esperado ver uma, especialmente para visitar a própria esposa, a bela e outrora eminente profissional Dra. Shepherd, que agora não passava de uma criminosa comum. Suas bochechas queimavam de vergonha com o pensamento.

Enquanto aguardava que lhe fossem mostradas as celas, perguntou-se o que se passava dentro de Laura, no que ela estaria pensando ou talvez no que não estaria pensando. Esse era o problema. Desde que havia entrado em contato com a caveira, ela não pensava logicamente. O estresse de encontrar Ron morto certamente fazia parte disso, mas não era o suficiente para explicar por que ela parecia ter abandonado toda a razão. Eles a haviam encontrado em uma caverna. Ele sabia disso. Um dos nativos havia disposto a caveira de cristal em algum tipo de altar, e ele estava entoando cânticos e balançando ervas enquanto Laura permanecia no chão, ao pé dele. Deus sabia o que eles estavam fazendo, tudo era muito esquisito.

Mas eles a terem trazido de volta foi o principal. Os amigos do Exército de Caleb haviam conseguido deixar de lado todos os procedimentos usuais de extradição, mas na chegada em solo norte- -americano ela teve de ser entregue às autoridades, e agora estava presa sob custódia da polícia, com acusações pendentes de roubo contra ela.

A humilhação disso era quase insuportável para Michael, mas tinha gratidão por Laura estar em segurança. Pelo menos havia voltado inteira.

Ele lançou o olhar para seu relógio. Estava dentro do horário para sua visita. A policial ainda estava ao telefone, então foi um tira forte de meia-idade, com olheiras pesadas sob os olhos, que o conduziu para o centro de detenção, situado no fundo do prédio. Eles caminharam pelo corredor, além dos corredores de celas, até o oficial acenar com a cabeça para aquela ocupada por Laura. A pesada porta metálica de segurança ecoou atrás dele, enquanto o oficial a fechava e trancava, deixando Michael sozinho com a esposa.

Lá estava ela, sentada na cama baixa de estrutura metálica, abraçando os joelhos. Ela encarava a parede, completamente distraída em relação aos sons de chaves e ao barulho dos demais prisioneiros. Michael ficou completamente dominado de alívio com a visão dela, muito embora seu rosto estivesse arranhado, com traços de sujeira, e seu cabelo loiro estivesse desgrenhado, ainda era sua Laura, a mulher que ele amava, apesar de sua raiva em relação ao modo com que ela havia se comportado.

Ela sorria para si, perdida em algum momento silencioso e particular de devaneio, quando o notou. Ela pulou para fora da cama e correu até as grades de sua cela.

— Michael, estou tão feliz por vê-lo! — ele esperava que Laura estivesse oprimida, devastada por tudo o que havia acontecido a ela, mas seu rosto tinha uma ternura leve, e seus olhos brilhavam radiantes, com uma alegria que ele não esperava ver — surpreendeu-o.

Ele a cumprimentou de maneira menos calorosa:

— Você me matou de preocupação, Laura. Que diabo você pensa que estava fazendo? — perguntou firmemente.

Ela ainda sorria.

— Eu a vi, Michael. Eu a vi!

— Do que você está falando? — ele esperava que ela estivesse sofrendo de algum tipo de remorso ou arrependimento em relação ao que havia acontecido. Ele percebeu que era isso que queria; algum tipo de reconhecimento de que o que ela havia feito tinha sido fora de ordem, uma aberração, que havia sido claramente muito errado ter furtado a caveira e fugido com ela do modo que o fizera. No entanto, aqui estava ela, ainda em algum mundo imaginário.

— O xamã maia, Hunab Ku, me mostrou como projetar minha consciência dentro da caveira, e eu a vi, Michael — Laura prosseguiu.

Ela esticou as mãos através das grades para tocar as de Michael.

— Eu vi Alice! Ela estava tão bonita!

Michael balançou a cabeça em desespero.

— Santo Deus, Laura! O que aconteceu com você?

Laura não pareceu notar o som da porta de segurança abrir e fechar enquanto Michael desviou o olhar por um momento.

— Você não acredita em mim, né? — ela disse.

— Eu não acredito que você não faça idéia do quanto essa coisa toda é constrangedora para mim — Laura olhou para ele, intrigada. — Você, minha esposa, enfrentando acusações criminais por roubo — suas mãos estavam agarrando as grades de ferro que estavam entre eles.

— Sinto muito, Michael, mas eu não tive escolha… eu precisava descobrir a mensagem de Alice.

— Jesus, Laura!… Isso é impossível.

Havia algo esquisito no modo com que Michael se comportava, Laura pensou. Ele desviou o rosto dela novamente, quase como se estivesse chamando a atenção de outra pessoa, para outro lado, escondido da visão de sua cela. Era um pouco desconcertante, porém ela continuou, apesar disso.

— Mas eu li a Pedra Profética, Michael. Algo terrível acontecerá em apenas três dias, e eu preciso descobrir o quê…

— Eu não consigo conversar com você, né? — ele disse.

Suas tentativas para explicar o que havia acontecido entraram por um ouvido e saíram por outro. Michael não conseguia compreender o que ela dizia.

— Eu preciso ver a caveira novamente. Preciso conversar com Alice.

— Apenas ouça a si mesma, Laura! Você faz alguma idéia de como isso soa?

Ela pausou, desanimada pela incompreensão e frustração na voz de Michael. Ele estava bem à sua frente, embora se sentisse ainda mais distante dele do que jamais havia estado antes, como se ambos de repente ocupassem um universo diferente, um milhão de anos-luz um do outro.

— Por favor, Michael. Eu preciso ver a caveira — seus dedos buscaram os dele — só mais uma vez.

Ele segurou firmemente nas grades.

— Você realmente pensa que será permitido que você vá a algum lugar com aquela coisa, depois do que aconteceu da última vez?

Um silêncio perdurou entre eles.

— Eu juro a você, Michael, desta vez eu sequer a tocarei. Eu sei que soa maluco, mas, por favor, apenas confie em mim. — Seus olhos estavam implorando, clamando para ele compreender.

— Querida, você precisa de ajuda — disse amavelmente.

— Exatamente, você tem que trazer a caveira até a mim.

— Esse não é o tipo de ajuda que eu quero dizer.

— Então, o que você quer dizer? — ela estava intrigada.

— Veja, é possível que Caleb concorde em desistir das acusações.

— Isso é ótimo!

— Mas há uma condição…

Ela olhou para ele com uma careta.

— … que você concorde em ser submetida a uma avaliação psiquiátrica completa e tratamento na Unidade de Segurança Warnburton.

— O quê? Isso é ridículo! Não há nada errado comigo! — Laura mal conseguia acreditar no que ouvia.

— Não é o que parece daqui — Michael disse virando-se mais uma vez para o lado.

Laura estava atordoada, em silêncio.

— … eu conversei com um psiquiatra, seu nome é Dr. Bacher, e ele acha que suas… “ilusões” podem se dar por causa de mágoa mal resolvida em relação a Alice, provocada por encontrar Ron…

— Foi sua idéia, não é? — ela perguntou.

Houve uma pausa.

— Veja, é realmente para o seu melhor — Michael insistiu. — É para nosso próprio bem. Estou tentando ajudá-la.

— Me ajudar!? Você está tentando me encarcerar!

— Laura, nós realmente não temos nenhuma escolha. Se você não concordar com isso, Caleb a colocará na prisão!

— Mas eu tenho que descobrir o que acontecerá. Eu tenho que impedir!

— Em Warnburton eles apenas a segurarão por cerca de três meses ou mais.

— Três meses! — Laura exclamou. — Nós só temos três dias!

— Com uma sentença de prisão, você poderia considerar uma temporada mais longa… — Michael calou-se assim que viu a raiva resplandecer no rosto de Laura.

— Apenas porque eu vejo as coisas um pouco diferente de você, apenas porque meus olhos se abriram, você acha que eu fiquei maluca — ela estava furiosa agora. — Acorda, Michael, foi nosso mundo que enlouqueceu, não eu! As crianças do futuro, todas morrerão! E nós temos que salvá-las! Você tem que me tirar daqui. Eu tenho que voltar para dentro da caveira! — o marido observava enquanto ela andava pela cela, como um animal enjaulado. — Eu tenho que falar com Alice! — ela gritou.

— Vê, isso é exatamente o que quero dizer — Michael estava conversando com alguém que parecia espreitar a conversa fora da visão de Laura, de um lado da cela. Ela pareceu intrigada quando um homem pequeno, calvo e de meia-idade pisou adiante, entrando em sua linha de visão. Com cerca de 55 anos, ele usava óculos de armação grossa e um terno mal ajustado, porém caro, sobre um colete com gola de cor vermelho-escura.

— Laura, este é o Dr. Bacher — disse Michael, em um tom totalmente cheio de razão.

Laura estava horrorizada.

— Oi, Laura! — disse Dr. Bacher entusiasmadamente.

— O Dr. Bacher é da Unidade de Segurança Warnburton — acrescentou.

— Michael, como você pôde fazer isso comigo? — ela o encarou, incrédula.

Ele se afastou da cela de Laura parecendo culpado.

— Michael, volte! — ela o chamou quando ele pedia para ser conduzido para fora do centro de detenção. — Michael! Depois de tudo o que passamos juntos.

Ela então notou Dr. Bacher. Ele estava sorrindo para ela de modo vazio.

— Laura, nós apenas precisamos ter um pequeno bate-papo sobre como você está — ele disse. — Parece-me que você pode ter tido algumas… como posso dizer? Experiências incomuns.

— Veja, estou perfeitamente normal. Deixe-me em paz.

— Laura. É normal ver coisas que outras pessoas sabem que não estão ali? — ele inquiriu.

Ela estava farta. Fora ruim o suficiente ser traída pelo homem que ela amava, mas agora aqui estava este homenzinho obsequioso fazendo perguntas idiotas.

— Não me trate como criança, seu imbecil! — gritou, enfurecida. Ela se arrependeu assim que disse isso, porém era tarde demais.

Bacher permaneceu em silêncio por um momento, quando sua mandíbula caiu. Então fechou-se firmemente.

— Muito bem! — seu tom era de ameaça. — Vamos jogar do seu modo — ele se virou rijamente e saiu ruidosamente da cela.