O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 22
Michael estava sentado sozinho no restaurante lotado. Ele gostava do Dimitri’s — a arte moderna e arrojada que decorava suas paredes e o esperto minimalismo de seu interior contemporâneo. Apesar de ser cheio, tinha aquela referência silenciosa reservada a restaurantes para pessoas mais abastadas. Olhou ao redor, para os outros clientes bem vestidos, casais em sua maioria.
Ele brincou com seu guardanapo e olhou novamente para o relógio como se esperasse ansiosamente por Laura. Ela estava atrasada e ele começava a se perguntar o que poderia ter acontecido. Desde a morte de Alice ele havia se tornado mais propenso a se preocupar com a segurança da esposa. Então a porta se abriu, e ela entrou, indicando Michael para o garçom ávido que correu para conduzi-la a uma mesa.
Ela se aproximou e o beijou na bochecha:
- Oi!
— Você está atrasada. O que aconteceu? — disse Michael, parecendo preocupado.
— Desculpe, eu me atrapalhei — enquanto se sentava à frente dele, ela pareceu um pouco culpada.
— Fazendo o quê? — Michael não conseguia imaginá-la se atrapalhando ao fazer compras de Natal, sabia que ela sempre detestara fazê-lo, mesmo nos melhores tempos.
— Você já pediu? — perguntou Laura, abrindo o cardápio.
— Ainda não — ele respondeu automaticamente, embora soubesse que ela tentava mudar de assunto. — Ei, conte! — insistiu.
— Tudo bem — puxou o ar bruscamente. — Eu fui ver uma vidente — lançou um olhar nervoso para ele sobre o cardápio.
Michael largou o pedaço de pão no qual estava prestes a passar manteiga. Parecia atordoado.
— Com que propósito você fez isso?
— Eu queria saber se Alice estava realmente tentando se comunicar conosco.
— Alice? Como poderia? — Michael exclamou, incrédulo.
Logo em seguida um garçom apareceu à mesa e houve um longo silêncio assim que ela acenou com a cabeça; esperaram enquanto ele servia água para ambos. Laura sabia que Michael não aprovaria sua ida à vidente, mas ficou surpresa com a veemência de sua reação.
— Anna Crockett-Burrows acredita que a morte pode falar conosco por intermédio da caveira de cristal — ela explicou.
— O quê? — Michael disse, consternado.
— A vidente inclusive me disse que preciso da caveira para uma comunicação eficiente — acrescentou.
Michael olhou ao redor, constrangido, esperando que ninguém mais estivesse ouvindo. Abaixou a voz para quase sussurrar: — Laura, você está falando sério? — Ela obviamente estava. — Você tem andado chateada, mas pense nisso racionalmente.
— Eu sei que isso parece não fazer sentido algum — Laura começou — mas…
— Está certíssima, não faz mesmo! — ele interrompeu.
— … de que outra maneira você explica o que a velha sabia? — O nome de Alice! A fita de Wilson! Quero dizer, e se ela estiver certa, Michael? — perguntou agitada. — E se Alice ainda vivesse em algum lugar e realmente pudesse falar conosco por meio da caveira? Não seria incrível? Mudaria tudo.
Os olhos de Michael estavam fechados e ele massageava as têmporas com os dedos. Não conseguia compreender o que Laura dizia. Era muito estranho. Ela começava a parecer irracional demais, era quase assustador.
— O que está acontecendo com você, Laura? — ele esticou as mãos para segurar as dela, num desespero silencioso.
— Mas Anna disse que foi Alice quem lhe contou a respeito da fita de Wilson… De que outra maneira ela poderia ter sabido?
Michael estava farto.
— Alice está morta, Laura… E esse é o fim! — ele vociferou, virando sua taça de vinho tinto, que se espalhou pela engomada toalha de mesa branca.
Ele apanhou o guardanapo para tentar enxugar, mas suas palavras saíram mais alto do que pretendia, e os casais sentados mais perto deles se viraram e observavam o casal enquanto o guardanapo branco brilhante começava a ficar vermelho bem forte, cor de sangue, e teve inclusive de afugentar o pensamento de que o guardanapo havia ficado um pouco parecido com a fita de Wilson.
Eles estavam sentados em um silêncio embaraçoso quando um garçom veio trocar a toalha de mesa. Michael pediu a conta e, assim que o garçom desapareceu, de volta à cozinha, acrescentou, com os dentes cerrados:
— Ela está enchendo sua cabeça de baboseiras, Laura. Ela sabe que você está vulnerável. Aquela caveira é apenas um objeto comum, nada mais.
— Foi o que eu pensei — respondeu. — Mas como você pode ter tanta certeza? Quero dizer, nem o laboratório conseguiu encontrar qualquer marca de ferramenta. Explique isso!
— Vamos, então! — ele disse de modo firme e levantou-se da mesa enquanto mais cabeças se voltavam para eles, curiosas.
— Eu irei!
Ele procurou a carteira, atirou algumas notas sobre a mesa e dirigiu-se à porta.
— Mas Michael, eu apenas… — Laura tentou protestar, então desistiu e foi atrás do marido.