O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 85 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 82

Caleb Price respirou profundamente e sentiu seu peito expandir. Estava se sentindo magnífico, cheio de energia e entusiasmo com a expectativa do que estava prestes a discutir com os colegas, membros do “grupo Z”. Ele estava em pé à frente da Sala de Reunião da Diretoria da Nanon Systems. Localizada no segundo andar do prédio de escritórios, era uma sala ampla, dominada por uma enorme mesa circular de madeira de nogueira, e cadeiras de couro com encostos retos, confortável o suficiente para reuniões longas. Eles acrescentaram um elemento antiquado à completa simplicidade que normalmente preferia. Sobre a mesa, uma toalha metálica de cor prateada ocultava detalhes do plano de Caleb.

Ele lançou um olhar pela sala, seus olhos pousando nas duas fotografias que decoravam as paredes cor de creme pálido. Uma mostrava ele mesmo recebendo, três anos antes, em nome da Nanon Systems, o Prêmio Nacional de Ciência, e a outra, Caleb enfeitando a capa da revista “The Economist”. Com seu mais recente projeto, planejava ter outra aquisição em breve: o próprio Hall da Fama. Ele fez uma última e rápida verificação visual para se certificar de que tudo estava em ordem, antes de iniciar sua apresentação. Como planejado, a grande tela de plasma que cobria quase a parede inteira atrás dele exibia uma imagem da caveira de cristal girando em um plinto, atrás do que parecia algum tipo de tela de vidro reforçado.

Eram momentos como esse que faziam Caleb Price sentir-se realmente vivo. Foi para esse trabalho que ele havia nascido, repelindo as fronteiras da ciência e ganhando rios de dinheiro durante o processo. Era um trabalho gratificante da mais alta ordem.

Ele começou:

— Estamos reunidos aqui hoje para eu proporcionar a vocês informações sobre um experimento principal que agora planejamos — lançou o olhar pela sala. Esse era seu povo, os poucos escolhidos, todos homens, pois considerava as mulheres cansativas demais. Esses homens vestidos com ternos cinza e aventais de laboratório eram os estimados membros do “grupo Z”, todos profissionais completos, os melhores conselheiros científicos e técnicos que Caleb pôde encontrar, trazidos a bordo para afinar os detalhes de seu grande experimento que estava por vir.

No meio do grupo havia algumas sobrancelhas arqueadas e expressões intrigadas. Muitos estavam surpresos por ouvir falar desse mais novo empreendimento. Caleb o havia mantido em sigilo da maioria deles até o momento, informando e envolvendo somente alguns dos mais importantes do grupo antes do dia de hoje. Ele claramente havia deixado algumas pessoas chateadas no processo, mas esse era o modo com que Caleb geralmente agia. “Divida e ordene” era um de seus lemas favoritos. Também era uma das maneiras com que sempre assegurava que as coisas fossem feitas rapidamente, e ele tinha uma reputação a zelar, a de alguém cuja empresa conseguia fazer as coisas com agilidade. Além disso, também havia o bônus de se certificar de que havia poucas chances de a informação se tornar conhecida a seus concorrentes, que sem dúvida logo entrariam em seu caminho na tentativa de alcançá-lo.

Nesta ocasião, contudo, ele estava bastante confiante de que seu principal concorrente não tinha sequer chegado perto de considerar o que ele planejava fazer agora. Pelo menos não tanto quanto ele poderia aprender com seu mais novo funcionário, Gerry Maddox, recentemente admitido da Ambient, principal rival da Nanon no campo da tecnologia de cristal. Maddox andara estudando cuidadosamente os documentos que haviam sido mostrados à equipe. O cara era um pouco sério demais, um pouco nerd demais, porém era bom no que fazia. Na verdade, era melhor Michael tomar cuidado, Caleb pensou. Maddox tinha apenas 26 anos, mas já havia ganhado o “Prêmio Jovem Cientista do Ano”. Ele era um potencial Diretor de Pesquisa Aplicada, particularmente porque não vinha com nenhuma complicação relacionada a uma esposa difícil, como Michael.

Caleb olhou de relance para a tela atrás de si, para a imagem da caveira de cristal rodando silenciosamente em seu plinto giratório. Era realmente algo. Não havia maneira alguma de seus concorrentes terem conseguido descobrir algo como ela.

— O experimento que planejamos, senhores, os deixarão maravilhados! — exclamou Caleb, o eterno showman, enquanto afastava a toalha metálica da superfície de madeira lisa e brilhante da mesa da sala de reunião da diretoria para revelar um modelo em escala tridimensional do layout das instalações subterrâneas de teste ou um laboratório.

“Para aqueles de vocês que ainda não sabem, este é um modelo em escala de nossas valiosas “Instalações do Laboratório Z”, nosso mais novo centro experimental de vanguarda, nosso laboratório secreto de física quântica, enterrado nas profundezas dos desertos do Novo México — declarou orgulhosamente — e este será o centro de nossa pesquisa sobre a caveira de cristal.”

Membros do grupo olharam com interesse para o modelo enquanto Caleb prosseguia, ganhando ritmo:

— Em essência, planejamos utilizar a caveira de cristal para abrir um “buraco de minhoca” no continuum tempo-espaço, o que nos possibilitará explodir uma partícula subatômica, disparando esta máquina de laser aqui, diretamente ao futuro…

Apontou para as diversas partes do modelo em escala para ilustrar suas opiniões, e assim que ele atingiu o ápice de sua explicação, a porta da sala de reunião da diretoria abriu-se com um estouro, e Michael entrou na sala fazendo barulho. Atordoado e com a barba por fazer, ele parecia um homem possuído.

Caleb virou-se para Michael, completamente inabalável à sua interrupção não planejada:

— Michael, estou tão contente que você pôde se juntar a nós — deu boas-vindas a ele calorosamente, antes de inquirir: — Como vai Laura? Ela deve estar bem.

No entanto, Michael ignorou a pergunta de Caleb:

— Você não pode prosseguir com o experimento! — houve uma urgência espantosa em sua voz. — Há um equívoco terrível.

Caleb fez uma careta para ele, interrogativamente:

— Do que você está falando?

— A fórmula. Deu errado! — explicou Michael. — Sinto muito.

— O quê? — Caleb exclamou. Ele mal podia acreditar em seus ouvidos. Como Michael podia desapontá-lo assim? Ele já havia gasto milhões de dólares fazendo toda a preparação necessária, baseada nas equações, e no experimento no qual ele apostava não apenas a própria reputação, mas o futuro de toda sua empresa.

— Eu cometi um erro — Michael confirmou sem cerimônias

— Eu sinto muito, muito mesmo.

Essa era a última coisa que Caleb Price queria ouvir, ele tinha uma tolerância muito baixa para erros. Sentou-se atordoado, enquanto Michael prosseguia em sua explicação.

— SK vezes MC ao quadrado é igual a menos um, não zero. Isso significa que, se enviarmos sequer uma minúscula partícula para outra dimensão, levará todas as outras partículas com ela, criando um buraco negro de antimatéria que absorverá tudo ao redor, destruindo a própria estrutura do tempo-espaço.

— Você deve estar brincando comigo, Michael — Caleb respondeu. Porém, o rosto de Michael deixou claro que não.

— Não é de seu feitio resolver uma equação de modo errado

— prosseguiu Caleb. — Onde você obteve essa informação?

— Foi uma mensagem da… — ele fez uma pausa.

— De quem? — Caleb incitou.

— … da minha filha — Michael pareceu chocado com as próprias palavras.

— Pensei que sua filha estivesse morta — Caleb falou.

— Ela está, mas deu a fórmula correta a Laura — Michael deixou escapar, antes que tivesse tempo para impedir a si mesmo.

Caleb o encarou.

— Santo Deus, Michael. Acho que a tensão está sendo demais para você.

Ele se virou para se dirigir aos demais membros do grupo Z, elevando sua voz:

— Para aqueles de vocês que não sabem — olhou para o mar de rostos ao redor —, a esposa de Michael, Laura, estava sendo submetida a avaliação psiquiátrica antes de terminar em coma.

Ele fez uma pausa e se virou novamente para Michael.

— Acho que isso é tudo o que precisamos saber sobre sua nova fórmula — acrescentou tranqüilamente.

Michael permaneceu ali, em silêncio atordoante. “Eu nunca deveria ter mencionado Laura a Caleb”, pensou. Ele percebeu que escapara. Nunca tivera a intenção de falar sobre a anotação de Laura para Caleb, muito menos que era de Alice. Dissera aquilo apenas porque ele estava sob muito estresse, sabendo que a cada segundo que não estava lá na sala de reunião, não estava com Laura. Tentar comunicar a mensagem a eles enquanto sua esposa estava na UTI lutando pela vida era horrível.

E de fato, não estava funcionando, eles não estavam entendendo nada da mensagem. Ele olhou para seus rostos, alguns estavam constrangidos, outros reorganizavam papéis, ao mesmo tempo em que outros simplesmente olhavam para Michael com piedade nos olhos. Tudo o que eles viram foi um homem sob muita pressão e perdido, um homem que, seguindo esse raciocínio, sem dúvida não teria muito futuro na Nanon.

Caleb voltou-se ao grupo:

— Agora, como eu dizia, tivemos um bom tempo, e a maioria está com tudo em ordem. Portanto, estamos todos prontos para dar prosseguimento ao experimento, conforme planejado, amanhã.

— Amanhã!? — Michael o interrompeu.

— Sim. Amanhã — Caleb falou impacientemente.

— A cor deixou o rosto de Michael. — Mas é 21 de dezembro!

— Sim! E daí? — Caleb respondeu.

— A que horas?

— As quatro e meia da tarde — Caleb respondeu, confuso.

— Mas é o pôr do sol nessa época do ano! — Michael segurou-se na mesa de nogueira para se equilibrar. Ele estava horrorizado.

— Não faz diferença, é tudo no subterrâneo — respondeu Caleb, de modo indiferente.

— Ah, não! Você tem que cancelar, transferir, atrasar, qualquer coisa!

Caleb estava ainda mais intrigado.

— Não podemos mudar a data agora, Michael. Eu tenho uma reunião com o Presidente e os Chefes de Estado. O Presidente quer anunciar os resultados do experimento no Natal.

Caleb visivelmente esperava que os resultados desse experimento fossem significantes e tão revolucionários, que ele já havia dado o passo inédito de informar o Presidente sobre seus planos. O próprio Presidente aparentemente agora tinha um interesse ávido no que estava acontecendo com a caveira de cristal. Embora ainda oficialmente secreto, esse interesse, sem dúvida, explicava a manchete de jornal que repousava na mesa em frente a Caleb, destacando o recente aumento no preços das ações da Nanon Systems. Michael passaria por um inferno com a tarefa de fazer Caleb mudar de idéia. Seria ainda mais difícil do que originalmente pensara.

— Mas Caleb — insistiu Michael. — Eu errei. Eu vi apenas o que queria ver e foi um erro. Lembra-se do que a caveira gravou? — ele se referia ao código criptografado que a caveira havia gravado em seus primeiros experimentos. — Pensei que fosse um código terciário, mas não é. É um alerta…

— Do que você está falando? — Caleb exclamou.

— A caveira nos forneceu a data… — Michael começou, quando Caleb o interrompeu.

— Michael, nós realmente não queremos que você atrapalhe procedimentos dessa forma.

No entanto, Michael o ignorou e marchou em direção ao flip chart atrás de Caleb, ao final da mesa da sala de reunião. Agarrando uma caneta-marcador de cor preta, começou a rabiscar grandes dígitos de um lado a outro.

Os dígitos diziam:

“1221201212212012122120121221201212212012”, exatamente como a caveira de cristal havia gravado anteriormente, quando um laser foi disparado através dela.

— Pense nisso — Michael disse — dois, um — acrescentou um ponto final após os dois primeiros dígitos — um, dois — acrescentou outro ponto final após os dois dígitos seguintes — dois, zero, um, dois — acrescentou um ponto final. — E uma data… — apontou para a data agora claramente exibida no flip chart, a qual dizia:

“21.12.2012”

— É a data 21 de dezembro de 2012!